ANTI-GAUCHISMO, por Fernanda Bastos

Dia desses, durante uma entrevista ao Centro Cultural Brasil-Peru, fui instada a falar sobre o 20 de setembro e, em um episódio de ato falho clássico, mencionei 20 de novembro no lugar do 20 de setembro Farroupilha, tendo que me corrigir na sequência. O fato de outubro ficar espremido entre dois momentos de mirada histórica determinante para mim como a Guerra dos Farrapos e a Consciência Negra ajudou na confusão, mas ambas as datas possuem um potencial de atrito. Na primeira celebração, ainda percebo a tentativa de apagamento da história do povo negro no canto de um orgulho macho e europeizante, que cristaliza uma representação de gauchismo que se pretende dominante. Na outra, a tentativa de integração de um povo que insiste na negociação pacífica por direitos enquanto uma hegemonia branca ainda oferece pouco em termos de direitos e reparação.

Hoje, felizmente, o 20 de setembro não chega sem manifestações contraditórias ao seu intuito, ações que dão luz a acontecimentos históricos e narrativas que nos fazem refletir sobre nossa identidade gaúcha. Nesse ano, por exemplo, uma intervenção do coletivo Afronte chamou a atenção para a ímpia e injusta guerra travada contra os negros gaúchos nessa pretensa revolução.

Passado outubro, é o novembro negro que chama novamente para o combate. O mês não é só de celebração de vitórias e de debate, mas muitas são as instituições ou pessoas em espaços de poder que, mesmo com boas intenções, escolhem apenas essa data para lembrar do racismo, chamando algum interlocutor negro para assumir seu protagonismo, em diversos campos dos quais ele costuma ser preterido durante todos os outros meses.

Esses dias 20 parecem motivados por acontecimentos antagônicos se postos na sua representação prática: de um lado, um hino que canta uma liberdade jamais alcançada e que coloca a responsabilidade de processos de escravização sobre os sujeitos escravizados; de outro, uma agenda de mobilização por valorização da cultura afro-brasileira e de sua contribuição inegável aos modos de ser em todo o país. Mas o 20 de setembro e o 20 de novembro dão conta de lutas legítimas por identidade, um conceito que vem sendo tão perseguido quanto mal utilizado. Não são, portanto, meses de paz intelectual. Tanto o 20 de setembro quanto o 20 de novembro exigem que enfrentemos nossa acidentada identidade e, sobretudo, como construímos nossa liberdade, pois, em muitos casos, não cabemos nessa modelagem cultural ou somos negados pela identidade dominante. A cultura como campo da representação ainda opera significativos apagamentos ao povo negro. O Rio Grande do Sul é ainda mais determinado a repetir essa violência, porque ele rejeita o conflito sobre sua identidade. Em vez de reconhecimento, encontra-se rejeição. Não por acaso, vi muitas amigas
abandonarem essa terra, dizendo-se cansadas de lutar por sua identidade negra aqui. Bahia, Rio de Janeiro e, claro, São Paulo são destinos que fizeram com que elas se sentissem mais acolhidas. E a recíproca é verdadeira: a identidade negra de fora do estado costuma ser muito mais celebrada do que a local. Basta observar que nem o bairrismo bagual abençoa as pessoas negras. Constituídos como povo consciente de sua afrobrasilidade, representamos uma ameaça à totalidade do gauchismo.

A afirmação da identidade negra na cultura gaúcha é um desafio à totalização de uma imigração que se orgulha de ter dado certo, porque o povo negro nunca superou sua exclusão e não se conforma com as situações de injustiça que ela engendra. Se tomarmos as celebrações
do 20 de setembro, o negro gaúcho é o anti-gaúcho. Por outro lado, é daqui a origem do 20 de novembro.

Meu trabalho literário dialoga com o meu estado de origem, mas me sinto deslocada quando ultrapasso alguns limites geográficos com minha produção. E é no sentimento de estar à parte que fala o meu gauchismo, no sentimento de rejeição e na revolta com o delírio de superioridade do sudestino. Estou situada entre a negação dessa identidade regional excludente e a busca de um espaço de afirmação nessa cultura, na qual ser brasileira por muitas vezes significou ser errada, e aqui significa ser ainda mais errada porque sou mulher, negra e gaúcha.

Em 1999, em uma edição do The progressive, June Jordan declarou ser “uma nacionalista e uma antinacionalista”. Essa definição talvez sirva para mim, que sou gaúcha e anti-gaúcha, independente do mês que estamos vivendo.

Fernanda Bastos é jornalista, tradutora e editora de livros, mestra em Comunicação pela Ufrgs. Desde 2018 atua como CEO da Figura de Linguagem, editora negra e independente sediada na capital gaúcha. Publicou os livros de poesia Dessa cor, em 2018, e Eu vou piorar, em 2020. Atua como apresentadora na TVE RS e como produtora de conteúdo na Plataforma Feminismos Plurais. Foto: Pedro Heinrich/CRL.

ENSAIO

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