CALÇADA, por Marcelo Martins Silva

Lembro que passei anos – acho uns seis anos, achando que eu havia matado o Mateus Caviar de propósito, se eu teria sido mesmo capaz de ter largado a mão dele só para vê-lo se esborrachar lá embaixo. Ser capaz de matar alguém.

Eu era boa pessoa, agora, por exemplo, sou secretário adjunto do Rotary Club. Mateus havia crescido comigo. O corpo dele pesava tanto àquela hora, os braços cheios de cabelos negros espessos ensopados de suor. Na extinta sétima série – ele morreu no segundo grau, nosso colégio era dos ricaços da cidade, tinha até piscina e sala de cinema. Mateus me viu um dia sem camiseta à beira da piscina e disse que nunca tinha visto uma pança daquelas: preta feito borracha e roliça como pneu, que eu era a orca da pracinha de skate. Baita filho da puta! Comia pra caralho quando ia lá em casa e eu tinha uma bolsa naquela porra de colégio. Não era rico como eles, mas não era morto de fome. Depois disse que eu tinha cheiro de gordo seboso, daqueles suvacudos de ônibus. Ele me avacalhou por nada, pra pagar de tico duro para umas minas loiras que estavam lá de camiseta do Sonic Youth. Ninguém comeu ninguém no fim das contas.

Anos depois o Mateus ficou andando no parapeito do terraço, estava louco de cola, falei pra ele não fazer isso que ia dar merda, mas eu era só o gordo preto da turma, o incapacitado. Eu estava de camiseta do Pavement quando segurei com todas as forças que tinha aquele filho da puta. Fazia 44 graus – calor insuportável, tudo fica molhado de suor. O Mateus ficou lá embaixo feito uma mortadela até o IML chegar. As pernas dobradas. Era só um corpo quebrado dentro de uma poça vermelha.

Até hoje tem gente que acha que eu matei aquele idiota. Eu nem escuto mais Sonic Youth. Agora vou em festas que toca Michel Teló e tudo permanece igual. Eu devia ter deixado todos vocês caírem. De Pavement eu ainda gosto.

Marcelo Martins Silva (Porto Alegre – RS) é poeta e professor de Língua Portuguesa e Literatura da EJA.  Publicou poesia e contos em revistas como Rusga, Subversa, Mallarmargens e outras.

Criou a oficina “A poesia é um atentado celeste” que fez parte da programação da FestipoaLiterária 2019, foi um dos idealizadores e apresentadores do podcast de poesia Cafuné com Mandinga, junto com a artista Genifer Gerhardt,transmitido pela Mínima FM.

Em 2015 participou da coletânea de poesia Cantos Seletos, publicado pela Editora Literacidade, já em 2019 lançou o livro de poesia O que carrego no ventre, editado pela Figura de Linguagem, finalista do Prêmio AGES Livro do Ano –Edição 2020, categoria Poesia, promovido pela Associação Gaúcha de Escritores. Em 2020, lançou o livro de poesia A Matéria Inacabada das Coisas, pela Editora Diadorim. Em 2021 publicou a novela Mil Manhãs Semelhantes, na Revista Parêntese.

FICÇÃO

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