CIGANA, por Maximiliano da Rosa

Maristela caminha apressada. São dias de angústia, de procuras vãs, esperas inúteis, o corpo e mente em desalinho, espírito denso demais. Precisa de um emprego, e logo. É nisso que pensa enquanto cruza os caminhos, percorre as ruas apinhadas de gente tosca e macambúzia, o sol demasiado quente sobre sua cabeça, fazendo ferver seu espírito fatigado. Cabisbaixa, o corpo levemente curvado, olhos fixos no chão sujo, ela se arrasta. Pensa nos filhos que estão em casa sob os cuidados de uma amiga. Precisa urgentemente arranjar um jeito de ganhar a vida agora que o marido se foi deixando-lhe sozinha para alimentar os frutos de um amor que antes parecia não ter fim. Maristela segue. A pensão que recebe do dito cujo mal cobre os gastos básicos das crianças. Não é raro ela ter de ir atrás dele para mendigar um pacote de fraldas para o filho pequeno ou um litro de leite de soja para o mais velho, que tem intolerância à lactose. Bate em portas, preenche fichas, entrega currículos em agências de emprego. Qualquer coisa serve. Lavar, cozinhar, passar, servir cafezinho, atender telefone, vender sapatos, distribuir panfletos no sinal. Cansada, olha o relógio. É hora de voltar para casa, preparar o almoço das crianças, banhá-las, arrumá-las para ir à escola. Atravessa a rua, está a poucos passos da entrada da estação do metrô. Logo ali, ao lado da escadaria que dá acesso à plataforma de embarque, está o homem que vende os bilhetes do trem pela metade do preço que ela pagaria no guichê. Diz quero um, alcança o dinheiro ao homem, o homem alcança-lhe o bilhete sem sequer erguer os olhos. Está pronto, agora é só descer, pegar o trem, se tiver sorte consegue um lugar sentada. Mas não desce. A mão que lhe segura o braço com força, a detém. Assustada, olha para o lado e vê. Uma mulher. Uma cigana gorda, de olhos bem azuis. Quer ler a sua mão, ver o seu futuro. Maristela se desculpa, pede licença, diz que está com pressa, precisa ir logo pra casa. A cigana continua segurando o seu braço com firmeza. Diz que não vai demorar nada. Presente, passado, e futuro. O que prefere? Está tudo aí, na palma da sua mão, diz. Não, Maristela não crê nisso, é uma mulher cética, o pai era um pastor protestante, e sempre a ensinara a não dar ouvido a superstições. Maristela tenta se livrar da cigana gentilmente, não quer ser mal-educada nem nada, não é mais uma dessas pessoas que tem sempre uma pedra na mão. É uma pessoa que pondera, sempre. Analisa os fatos. Calcula. Só depois reage. Eu sei no que está pensando, seus filhos estão bem, diz a mulher. E seu pai não está mais aqui para repreendê-la, acrescenta. Maristela resmunga: como sabe? Ao ver que ela está desarmada, a cigana toma sua mão direita e diz: agora não tem mais jeito, minha filha, depois que a cigana pega na sua mão, não há como voltar. Isso é um truque para enganar os ingênuos, Maristela retruca, e só pensa em ir pra casa, mas não consegue se mexer, parece anestesiada, a cigana olha no fundo dos seus olhos. Eu sei que você tem cinquenta reais dentro da carteira, diz. Maristela diz que é para comprar fraldas. A cigana diz: não, é pra mim, é pra mim que você tem que me dar, se você me der eu mostro o seu futuro. Quer? Sim, ela quer, não sabe por que, mas agora é o quer. Não devia querer, mas quer. Lentamente leva a mão dentro bolsa, pega a carteira, abre, tira a nota novinha, dá na mão da cigana, que a guarda rapidamente dentro do sutiã. O dinheiro está com a cigana agora, e Maristela não pensa mais em ir embora. Caiu na rede, na armadilha. Agora quer saber o seu futuro. A cigana toma a mão da mulher, ia começar a falar quando passa um ônibus em alta velocidade, expelindo gases negros, fazendo barulho. Ficam as duas imóveis no meio da fuligem. A cigana olha atentamente para a mão de Maristela, sorrindo um sorriso que desaparece misteriosamente em poucos segundos. A cigana solta a mão da outra, pega a nota dentro do sutiã, devolve-a. E diz para esquecer esse troço ver futuro. Não existe futuro. Essas palavras soam familiares em seus ouvidos. E lembranças até então adormecidas no fundo de um oceano, fluem à superfície, buscam ar para respirar, fazem a mulher reviver um episódio do passado não muito distante. Maristela era apenas uma menina, tinha doze ou treze anos quando foi ao parque de diversões pela primeira vez. Escondida do pai, é claro, que nunca permitiria tamanha barbaridade. Ele, que pregava a salvação por meio do completo desprezo das paixões e prazeres mundanos, e que costumava marcar ponto num puteiro vagabundo no centro da cidade, sempre sob pretexto de converter as mulheres da vida, numa insistência que beirava o fanatismo. Verdade que conseguira levar uma dessas mulheres ao culto, e a convertera, cansando-se com ela, inclusive. Justamente desse casamento nasceria Maristela. Mesmo casado, e com uma filha, o pastor não desistira nunca de tentar salvar mais almas pecadoras do fogo do inferno, e continuaria a frequentar o puteiro pelo resto da vida. Até acabar assassinado por um cafetão enraivado que, ao ser preso, alegara apenas defender os seus negócios, pois fazia muito tempo que o pastor passara a ficar com parte do dinheiro que as suas meninas ganhavam, sob o pretexto de arrecadar fundos para as obras do senhor. Mas isso é outra história. Maristela matara a aula de matemática naquele dia só para ir ao parque. Fora acompanhada de duas amigas da escola. Logo na entrada algo chamou a sua atenção. E não foi a Roda Gigante. Nem o Chapéu Mexicano. Foi uma tenda colorida, onde lia-se na entrada: “Cigana Rosa Madalena. O futuro através das cartas”. A menina estava eufórica. Nessa época ela tinha um namoradinho, e queria saber se ficariam juntos para sempre, se iam casar, ter filhos, essas coisas. Entram as três juntas porque nenhuma tinha coragem de entrar sozinha. Maristela vai na frente, é de longe a mais afoita. Senta-se diante da mulher que usa um turbante colorido, e uns brincos enormes, de argola, e tinha unhas vermelhas e longas, e os olhos azuis, bem azuis. Maristela vai logo fazendo milhões de perguntas. Vou casar com o Diguinho? Vamos ter quantos filhos? Vai ser menino ou menina? A cigana começa a ler as cartas. Sem dizer nada. E a menina ali, inquieta. De repente a cigana para. Fica olhando fixamente para a mesa. Depois, com a expressão séria, olha bem no rosto de Maristela e diz: esquece essa estória de futuro, menina. Vai para casa. Ela bem que tentou argumentar, quis saber por que a mulher não queria lhe dizer nada, mas não adiantou, não arrancou nenhuma resposta da vidente. Que se irritou ante a insistência das meninas, e passou a agir de maneira rude, expulsando-as da sua tenda, dizendo para nunca mais voltarem ali. Durante muito tempo, ela não esqueceu esse dia. Quanto ao seu futuro. Sim, casou-se com o Diguinho. Tiveram dois filhos. Dois meninos lindos. Mas não foram felizes para sempre. Agora Maristela está irritada, quer saber de uma vez por todas o que há de errado com o seu futuro, a cigana que se vire. Essa, porém, não vai se virar. Melhor, vira-se para ir embora, caminha rapidamente em direção à rua. Maristela vai atrás, chama a cigana, a segura pelo braço. Exige saber o que ela leu em sua mão. Tem certas coisas que é melhor nem saber, diz a mulher, e tenta se desvencilhar. E ao conseguir, aproveita para correr. Maristela também corre, é mais jovem e mais rápida, atira-se sobre a mulher derrubando-a de cabeça no chão, monta sobre ela, começa a gritar coisas desconexas, está tão furiosa que nem percebe a poça de sangue que se forma sob o rosto da mulher. Forma-se um ajuntamento ao redor da cena, fecha-se um pequeno círculo de curiosos. Maristela chama a mulher de desgraçada, ao se dar conta que ela não se move, diz que não vai levar o seu futuro para a cova. Mas é tarde. E logo chegam alguns policiais. E logo alguns dos transeuntes já vão dizendo: essa daí matou a outra só porque ela não quis mostrar o seu futuro. Sentada sobre o corpo, Maristela chora. E enquanto sente mãos rudes segurando-a e a arrastando para longe daquela confusão, percebe que não precisa mais saber o seu futuro.

Maximiliano da Rosa é natural de Novo Hamburgo e tem 48 anos. Participou de diversos concursos literários e obteve alguns prêmios e menções honrosas. Entre os mais recentes, está a classificação entre os finalistas do Concurso Contos da Quarentena (2020), do I Concurso Literário Escryba (2021). Tem poemas e contos publicados em diversas antologias literárias. Em 2020 publicou seu primeiro livro, a coletânea de contos “O Land Rover Negro e a Caixa de Drops”.

FICÇÃO

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