CLARICE LISPECTOR E A FOME DE SABER DE NÓS, por Cátia Simon

Ensaio publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo,
em 25 de abril de 2020.

Clarice Lispector foi jornalista, bacharel em direito e surgiu no panorama literário brasileiro em 1943 com a publicação do primeiro romance – Perto do Coração Selvagem (PCS). Ela já havia publicado alguns contos, mas somente após o prêmio Graça Aranha, destinado a estreantes, em 1943, pode mostrar a que veio. Ela seria a segunda mulher a recebê-lo; a primeira foi Raquel de Queiroz, com O Quinze. O feito as colocaram ao lado de escritores de notoriedade: José Lins do Rego, Jorge de Lima, Jorge Amado, Murilo Mendes, Erico Verissimo, por exemplo.

Em sua estreia, Clarice teve de encarar a crítica pesada de Álvaro Lins que havia se negado a publicá-la. Considerou uma obra de características feminina, influenciada pela produção de Joyce e Virgínia Woolf. Em carta, a escritora reclamou às irmãs, “só faltou dizer que eu era representante comercial deles”.  Para o crítico, tratava-se de uma produção menor e nada original. A jovem escritora afirmava não ter lido as referidas obras, e que o título do livro veio a partir da sugestão do amigo, o escritor Lúcio Cardoso, que havia lhe mostrado o excerto de Joyce. Outrossim, tal circunstância não a torna, exatamente, uma afiliada ao escritor. Para fins de pesquisa ou curiosidade, é possível acompanharmos o acesso às leituras de Clarice através das cartas que trocou com as irmãs e amigos, principalmente no tempo em que viveu fora do Brasil[i]. Antonio Candido, mostrou-se mais simpático à sua estreia, publica em meados de 1944 uma crítica a PCS. Ele recua de analisar as possíveis fontes e influências estrangeiras e exalta as qualidades do texto, ainda que não confiando de todo na escritora: “A autora – ao que parece uma jovem estreante – colocou seriamente o problema do estilo e da expressão. Sobretudo desta”. Percebe que a escritora diante do que se propõe narrar busca “quebrar os quadros da rotina e criar imagens novas, novos torneios, associações diferentes das comuns e mais fundamente sentidas”. O crítico aponta no livro, antecipando de certa forma, o que viria a ser o cerne da obra clariceana: “A descoberta do cotidiano é uma aventura sempre possível, e o seu milagre uma transfiguração que abre caminhos para mundos novos”.  Clarice se debruçaria sobre os detalhes do cotidiano, qual uma míope, trazendo-os para perto; perscrutaria as almas simples e comuns da realidade; seus personagens, em sua maioria, seriam mulheres, crianças e bichos.

Daí para frente, a escritora, naturalizada brasileira e de ascendência russa, viveria 16 anos fora do Brasil, na companhia do marido que exerceu atividades diplomáticas na Europa e nos EUA. Nessa época escreveu e publicou O lustre (1946) e A cidade Sitiada (1949), livros que não tiveram uma boa recepção no Brasil. Retorna para cá em 1959, separada e com dois filhos. Receberá o prêmio Jabuti pela publicação do livro de contos Laços de Família (1961), firmando-se como a grande contista da sua época. Érico Verissimo dirá sobre a obra: “é a mais importante coleção de histórias publicadas neste país na era pós-machadiana.” Depois viriam A legião estrangeira, livro de contos, e A maçã no escuro, romance, ambos lançados em 1964. O fato trouxe prejuízo à recepção dos contos, na opinião da escritora. Ela seguirá publicando até sua morte precoce, aos 57 anos, em 1977. Lispector escreveu um único ensaio em que externou o que pensava a respeito da literatura. Foi convidada a realizar uma palestra sobre a vanguarda na literatura brasileira, no XI Congresso Bienal do Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana, realizado em agosto, na Universidade do Texas, em 1963. O texto[ii] foi solicitado para publicação, mas a escritora argumentou que não entregaria sua “galinha dos ovos de ouro”, pois seria aproveitado em outras ocasiões. E o fez, além do Texas, em Brasília, Vitória, Belo Horizonte, Campos, Belém do Pará. Por fim, em 1971, enviou uma cópia à Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Marília, pois o Centro Acadêmico não dispunha de recursos para financiar sua ida e estadia[iii]. Quem conhece a obra de Clarice, já encontrou em seus escritos reflexões sobre escrever para jornal ou livros, para crianças ou adultos, a questão de fundo e forma, a importância de ler as entrelinhas. Tudo isso é possível ler em A Descoberta do Mundo, publicado após a morte da escritora, que reúne parte das crônicas escritas no JB de 1967 a 1973. Acrescentaria ainda os estudos realizados por Benedito Nunes, sobre os quais Clarice dizia em cartas aprender muito sobre o que escrevera. O crítico pinça traços do existencialismo, advertindo que a náusea sartreana não é a mesma nela. Em uma leitura a contrapelo, podemos dizer que a náusea clariceana é semelhante à da fome, indicando um vazio a ser transmutado em palavras. Mas voltemos ao ensaio provocativo de Lispector que surge noventa anos após a publicação de “Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de Nacionalidade”, de Machado de Assis, dialogando com ele. Ao se apresentar com humildade, principalmente por não ser uma estudiosa da literatura, mas escritora, discorre sobre o conceito de vanguarda no Brasil. Para Clarice, a “vanguarda seria, em última análise um instrumento avançado de pesquisa estética”. Afirma que a geração de 22 foi “a mais acintosamente vanguardista do modernismo brasileiro.” Podemos entender o receio da escritora ao se deparar com uma plateia de especialistas, porém suas cartas, suas crônicas, suas entrevistas com escritores nos demonstram o contrário. Há, sim, em todos esses momentos, uma reflexão séria e contumaz sobre o fazer literário. Clarice não estava improvisando e muito menos falando sobre algo pouco pensado. Como tímida-ousada que era, foi ter a experiência que lhe faltava, submetendo-se às feras. Trouxe uma detalhada análise do que havia de vanguarda em alguns escritores, desde o movimento de 22, na figura de Mário de Andrade, passando por Manuel Bandeira, Drummond e João Cabral, na poesia. Aborda as narrativas de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Nélida Piñon. Neles vislumbrava esse traço por atenderem cada um ao seu tempo, indicando que a arte de vanguarda inaugura um novo modo de ver: “Para mim, vanguarda seria, pois, um novo ponto de vista – mesmo que às vezes levasse a apenas um milímetro de visão. O novo modo de ver leva fatalmente a uma mudança formal”. Clarice, ratifica o que Machado afirmara no seu Instinto de Nacionalidade, “o escritor deveria ser um homem do seu tempo.” Para a escritora, a vanguarda tinha de pensar a nossa língua, dialogando mais uma vez com bruxo do Cosme Velho, “nossa língua ainda não foi profundamente trabalhada pelo pensamento.” Explicou mais detalhadamente: “pensar a língua portuguesa do Brasil, significa pensar sociologicamente, psicologicamente, filosoficamente, linguisticamente sobre nós mesmos”. E declarou com a convicção de quem sabe o que está dizendo: “temos fome de saber de nós, e grande urgência, porque estamos precisando de nós mesmos, mais do que dos outros”. Fez questão de ressaltar que de forma nenhuma fazia reverência ao ufanismo ou patriotismo e cita Drummond como exemplo de superação da fase exclamatória e de deslumbramento com a vida. Observa a preocupação dos jovens escritores da época com a política e pondera sobre isso: “Para nós, politização é, principalmente, uma das ramificações da urgência de entendermos as nossas coisas no que elas têm de peculiar no Brasil e no que representam necessidades profundas nossas, inclusive mesmo estéticas.” Para ela, essa abordagem não teria valor se o senso de pesquisa não estivesse presente. Faz a crítica aos modismos, aos falsos vanguardismos, a vanguarda forçada e aos que “se inspiram na ‘coisa já literalizada’.Não vão direto à fonte”. Para ela, a originalidade de valor é a que acontece de dentro para fora, nunca o contrário. Na conclusão do ensaio, traz um trecho de um poema de Marly de Oliveira, em que “não se vê modismos, mas delicadeza na beleza e na verdade”, atualizando o que Machado declarara no ensaio aqui referido: “Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquecem o pecúlio comum.” Por fim, diz estar desiludida com o ato de escrever, pois a literatura não lhe trouxe a paz que queria. “Minha literatura, não sendo de forma alguma catarse que me faria bem, não me serve como meio de libertação.” Diz não saber se escreverá ou aprofundará a vida nela e afirma que o que a descontrai no momento é pintar sem nenhuma técnica. Após a primeira Conferência no Texas, em 1963, até as últimas apresentações do texto em 1971, Clarice ainda publicaria – e muito – porque sua fome de saber de nós era intensa. No ano de sua morte finaliza A hora da estrela, legando-nos uma Macabea faminta de ser e viver a miséria brasileira.


[i] Há publicações que reúnem cartas das irmãs, Minhas queridas; do amigo Fernando Sabino, Cartas perto do coração e outra de diversas procedências, Correspondências.

[ii] O texto encontra-se na íntegra em Outros Escritos, conjunto de textos diversificados de Clarice Lispector.

[iii] Essa bela história foi relatada em Remate de Males, Campinas, 1992, por Suzy Frank Sperber, Sobre o conceito de vanguarda.

Referências bibliográficas

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. SP: Círculo do Livro, 1987.

____. Outros Escritos. Organização: Teresa Monteiro e Lícia Manzo. RJ :Rocco, 2005.

____. A descoberta do Mundo. 3ª edição. RJ: Francisco Alves Editora S/A, 1992

 ____. A hora da estrela. 22ª edição. RJ: Francisco Alves S/A, 1993.

____.  Laços de família. 27ª edição. RJ: Francisco Alves Editora, 1994.

Machado de Assis. Obra completa. Volume 3. RJ: Editora Nova Aguilar S.A., 2004.

CANDIDO, Antonio. No raiar de Clarice Lispector. In: Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970

CLB Clarice Lispector – Caderno de Literatura Brasileira – IMS – Instituto Moreira Sales, 2004.

NUNES, Benedito. O drama da linguagem – Uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989. GOTLIB, Nádia Batella. Clarice – uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995

LINS, Álvaro. A experiência incompleta: Clarisse Lispector. In: Os mortos de sobrecasaca: ensaios e estudos (1940-1960). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

Cátia Castilho Simon é escritora, mestre em literatura brasileira e doutora em estudos da literatura/literaturas brasileira, portuguesa e luso-africanas, pela UFRGS. Recebeu o prêmio Vianna Mog em 2014, 1º lugar na categoria ensaio, da UBE/RJ pela publicação do livro Labirintos da Realidade – diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis.

Algumas publicações: Por que ler Clarice Lispector. Porto Alegre: Território das Artes, 2017. PSICOgrafadas – antologia de contos – várias autoras, Porto Alegre: Território das Artes, 2020.  PSICOgrafadas e-book. Porto Alegre: Território das Artes 2021. Todas Escrevemos – coletânea (várias autoras) – Fora da Asa (org) Porto Alegre, 2021.  Identidades – coletânea. Karine Oliveira (org) Belo Horizonte: Editora Venas Abertas, 2021. Arca da Desconstrução – coletânea. Cátia Simon e Liana Timm (org). Porto Alegre: Território das Artes, 2021. O mundo ao redor (contos)– Coletânea. Cintia Moscovich (org). Porto Alegre: Class, 2021. Coletânea Enluaradas II – poesia. Org Marta Cortezão e Patrícia Cacau. SP: Savasti Editora, 2021.

ENSAIO

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