COMO UM PRESENTE, por Lucio Carvalho

Honey, don’t you know it’s time?
I feel it’s time
Somebody told you, ‘cause you got to know
That all you ever gonna have to count on
Or gonna wanna lean on
It’s gonna feel just like those raindrops do
When they’re falling down, honey, all around you
Oh, I know you’re unhappy

Lorenz Hart / Richard Rodgers

Não era de uma economia oculta, há tempos não sabia o que era isso e nem sobrava do salário para além dos gastos ordinários o que pudesse economizar, mas de um atrasado que a previdência lhe devia e estava por finalmente restituir que Angela contava para não deixar passar em branco por dois anos seguidos já o aniversário do afilhadinho.

Mesmo longe de configurar-se uma calamidade entre ela e a cunhada, dessa vez estava decidida a gastar o que não tinha para agradá-la, embora o presente fosse para o filho dela e provavelmente o menino nem fosse prestar grande atenção no que demoradamente escolhia entre as ofertas que rolavam tela abaixo, na propaganda das Lojas Americanas na sua estação de trabalho. “Uma vergonha, amiga…”, disse misturando os assuntos que tinha durante todas as manhãs no intervalo dos atendimentos na seção com os demais colegas da repartição. “Nesse ano não vou pagar mico! Vou fazer bonito nem que gaste todo esse maldito dinheiro”, resmungou consigo mesma, mas também procurando que aquilo chegasse aos ouvidos de Valéria, a única entre todos que lhe dedicava alguma atenção genuína. Embora todos ali conversassem bastante, eram como monólogos que não se entrelaçavam. Relatos autônomos de vidas que se comunicavam cada vez mais nas redes sociais do que na vida real.

Entre eles, Angela era a mais antiga. Chegara por indicação do amigo de um tio já falecido que na época tinha um cargo no lugar e desse mesmo sujeito ainda dependia para manter o seu cargo. Nos seus vinte e poucos anos, diziam que era a formosura em pessoa e que então capitalizara muito bem o sucesso que fazia entre os funcionários e chefes da repartição. No entanto o sucesso de tempos passados não fôra o bastante para lhe garantir uma posição confortável aos cinquenta. E, agora, sem os atrativos antigos e com a iminência da aposentadoria do Dr. Bastide, para manter-se trabalhando dependia e muito da piedade dos antigos admiradores da sua beleza um tanto aniquilada pelo tempo. Pelo menos isso era o que parecia aos seus colegas mais novos, que não a viram no auge dos seus trinta e poucos anos e comentavam às vezes indiscretamente sobre seu comportamento, a não ser se estivessem na sua companhia ou da melhor amiga.

“Vou aproveitar e encomendar esse creme de pés. Tu não quer um também, Valéria? Eu vou te dar um pote! Agora que já acabei as parcelas que fiz na geladeira nova, vai me sobrar, e eu faço questão de te dar esse mimo. Pela tua amizade, amiga…”, ela indagou em voz alta, pois não se importava que os demais soubessem de seus gastos, e respondeu a si mesma afirmativamente e sem que a amiga, envergonhada daquilo, se atrevesse a contrariá-la.

Assim como podia estar eufórica, do nada ela enfurecia-se e faiscava de raiva se imaginasse que alguém estivesse menosprezando-a ou aos seus ímpetos e eles aconteciam muitas vezes ao dia, cada vez mais, a ponto de torrar o salário inteiro mal chegada a segunda semana do mês. Agora, o aniversário do afilhado era a desculpa perfeita para deixar em nada a economia compulsória que a previdência lhe obrigara a fazer e que recentemente restituíra, como um presente inesperado. Que os próprios filhos ficassem desassistidos parecia não lhe importar tanto quanto não sentir-se diminuída por ninguém. Os pais que os suportassem como pudessem. As horas extra no fim de semana do marido serviam mesmo quase sempre é para isso e para que eles mesmos convivessem menos, cada vez menos, e assim conseguisse alguns momentos de paz nos finais de semana, sem ele por perto.

Vivendo bem no limite entre a capital e Alvorada, cidadezinha limítrofe ao leste de Porto Alegre, nunca houve notícia de que Angela tivesse se atrasado ao trabalho. Fizesse o sol mais inclemente do verão ou desabasse o mundo num temporal repentino, ela dava jeito em pagar do próprio bolso a condução, mesmo que nisso empenhasse um valor absurdo, desproporcional ao que recebia. Ao lado de um terreno abandonado, no último andar de um prédio de três andares, vivia com o segundo marido e dois filhos: um do primeiro e o outro do segundo casamento. Os “imprestáveis”, como os chamava coletivamente quando falava a seu respeito com Valéria ou quem quer que lhe escutasse por um instante, porque seus assuntos circulares sempre tinham ponto fixo na família; no filho mais velho, chamado Josué, principalmente. Dos três, apenas de Josué ela perdoava as falhas e para ele eram os melhores presentes, as roupas que buscava além do horário do trabalho nas liquidações das lojas do centro que não tinham iguais em Alvorada e tudo o mais que conseguia imaginar e esconder do marido e do filho mais novo.

“Esse preço é um exagero, mas tenho certeza que ele vai gostar, o pestinha… Né, Valéria?”, indagara já no meio da manhã, indiferente ao trabalho que se acumulava nos guichês ao lado do seu, sempre vazio. “Eu acho…”, disse-lhe a outra. Acostumada a nunca contrariá-la em nada, apenas por sua paciência infinita Valéria era presenteada com sua simpatia e também porque quando recairam sobre ela as suspeitas do furto de objetos de alguns colegas do setor, foi a amiga quem testemunhou em seu favor. Como era mesmo verdadeira a sua inocência, desde então, talvez por azar, Valéria ganhou créditos sem fim em amizade e confidências. Tímida e hermeticamente silenciosa, calhou de que apenas ela soubesse mais do que Angela contava em voz alta. À boca pequena e em cafés furtivos, ela se submetia a ser como um cofre dos seus segredos e intrigas infinitas. Mas jamais deixava ninguém mais saber do que ficava sabendo em segredo.

Após muita dúvida, o presente escolhido para o afilhado foi mesmo a réplica de um carro amarelo, poderoso e certamente importado. De um filme que ela vira na TV. “Transformers, Valéria… Tu não viu esse filme? Um filmaço!”, categorizou ao concluir a compra e ao mesmo tempo estourar novamente o limite do cartão de crédito. A Valéria não tinha assistido ao filme, mas não disse isso para não desapontá-la. Seus dias de trabalho, aliás, eram quase sempre assim: gastos em cuidar de não desapontar a colega por quem às vezes parecia nutrir mais piedade do que qualquer outra coisa.

Fora dali, da sala mal iluminada e lotada de armários e arquivos acinzentados, nunca se viram nem nunca foram vistas juntas. Enquanto uma pegava o ônibus junto aos demais funcionários, Angela ou chamava um táxi, ou um uber para ir ao centro e de lá para Alvorada, sempre sozinha. Os olhos assustados de quando era chamada por um dos supervisores a responder por alguma dúvida ou erro reincidente, na rua convertiam-se em olhos como os de um lince, atentos aos detalhes das pessoas que a conheciam ou não, como se fosse registrando mentalmente quem lhe tratava com frieza ou com franqueza, sabe-se lá com que finalidade. A Valéria às vezes fingia demorar-se por alguma razão e ficava do lado de dentro da repartição espiando se a amiga sairia na companhia de alguém ou de um mesmo motorista, mas sempre eram dúvidas errôneas. Nunca, pelo menos que se tenha visto por ali, ela deu margem a qualquer desconfiança, mesmo tratando-se do Dr. Bastide. Só parecia mesmo uma mulher esquisita, mas, ao mesmo tempo, isso não era esquisito para ninguém. Qualquer um acaba ficando tanto bem conhecido quanto bastante estranho convivendo por tanto tempo no mesmo ambiente.

No horário de almoço, no entanto, era quando quase sempre colocavam a conversa em dia. Uma rotina da qual Valéria escapava apenas na primeira semana de cada mês, quando ela almoçava no restaurante da repartição ou então quando a firma terceirizada deslocava força de trabalho entre os setores, ou até mesmo empresas próximas e ela era convocada a colaborar. No restante do mês, tinham sempre aqueles trinta minutos para as conversas e assuntos unilaterais, os seus, que ela salmodiava para os ouvidos incansáveis da auxiliar de serviços gerais.

“Esse creme que te comprei é maravilhoso, tu vai ver só… Tem gente que não cuida dos pés, mas tem homem que tem mania nisso, sabia? O José Afonso não, que ele é um bruto, mas o pai do Josué tinha adoração…”, comentava enquanto colocava o frasco plástico no forno de microondas e programava o tempo para aquecer seu almoço. A Valéria, como estava comendo seu sanduiche, tinha a desculpa perfeita para não abrir a boca. E apenas concordava com um gesto de cabeça, sinalizando sua concordância e algum espanto por aquele relato. “Acho que até a próxima sexta eles já me entregaram a encomenda”, continuou. “Ai que não me entreguem, por que se não como vou aparecer na festa do guri? De mãos abanando é que eu não vou! Deus me livre!”, disse e foi prolongando o seu monólogo a respeito de compras, idas ao salão e gastos que projetava indiferente à expressão da outra, que contava os centavos para ir e vir do trabalho e ajudar no orçamento da casa, junto ao marido e as três filhas. Mas os assuntos invariáveis de Angela eram sobre si própria ou sobre os filhos. Josué, principalmente. Quando Valéria esquecia-se do script das conversas e introduzia um assunto seu, ela simplesmente não prestava atenção ou mudava de assunto. Logo ela percebia que era como sempre, que estava a falar com as paredes e voltava a ser toda ouvidos ou, melhor, “só ouvidos”.

Nas sextas-feiras, depois de se despedirem, a Valéria tinha sempre um descanso merecido daquele sacrifício sonoro a que a outra lhe submetia diariamente. No fundo não se incomodava muito com a estupidez educada de Angela, mas visivelmente cansava-se do rol de assuntos repetitivos e intermináveis dos quais era a testemunha preferencial. Os outros colegas não entendiam como ela podia ser tão tolerante. Na verdade, ela também não entendia, mas não sabia agir de outra maneira nem com Angela e nem com ninguém mais. Parecia que sua passividade extrema podia imunizá-la de alguma forma das manias alheias. Também havia que reclamações, no caso dos terceirizados, não eram bem recebidas e ela realmente precisava do emprego. Isso talvez lhe conferisse a calma e a sabedoria de não comprar briga ou desentender-se com ninguém, muito menos com alguém como Angela.

Por outro lado, nas segundas-feiras, às vezes os assuntos eram menos insistentes, mas Valéria sabia que ela não passava os fins-de-semana em branco embora contasse quase sempre dos mesmos programas. A visita à casa da sogra aos domingos ou encontros com amigas e parentes dos quais eventualmente comentava. Sempre que podia, fugia do assunto do marido e, por um acordo prévio entre ambas, Valéria também nunca lhe perguntava nada a seu respeito. Fosse como fosse, sabia de quem se tratava quando ela se referia ao “traste”, mas seu nome mesmo nunca era pronunciado. Falava mais do irmão e, nos últimos tempos, na cunhada e no afilhadinho cujo presente aguardou impacientemente por uma semana inteira. Sobre beber e outros fatos mais íntimos não falava nunca, apenas dava a entender, num código de poucas palavras partilhado por ambas.

A semana passou ainda mais arrastada porque Angela, como sempre, lembrava-se disso o tempo inteiro. É o dia que não passa nunca, as horas que se arrastam, a enxaqueca a aprisionar as horas dentro dos minutos, os minutos nos segundos e assim por diante. A única distração, quase mania, eram as compras e buscas por preços e oportunidades na internet. Assuntos comentados baixinho com a amiga, mas que eram como a música incidental para todos ali: o preço disso, aquela liquidação imperdível e a fatal carência de dinheiro. Isso, quando acontecia (e acontecia todos os meses) gerava um mau humor tremendo em Angela. Ninguém sabia de quem ela se socorria, mas até resolver as falhas no orçamento, ficava irascível. A Valéria, se fosse dado saber o que ela sabia e não contava a ninguém, talvez tivesse essa resposta. À boca pequena, havia certa desconfiança de que isso passasse também pelo Dr. Bastide. Especulações não faltavam sobre Angela. Nem mistério.

Durante a semana, com o atraso na entrega do presente para o afilhado, ela ia exasperando-se diariamente. A vergonha pública parecia lhe doer até mais que a falta de dinheiro, coisa que ela acabava sempre resolvendo de algum modo. Mesmo assim, na sexta-feira véspera do aniversário do afilhado, depois de muitas ligações ao 0800 da loja, ela se decidira a ir até o centro da cidade no final do expediente e resolver a situação pessoalmente. “Não vão me fazer de idiota, amiga.. Isso de jeito nenhum!”, disse bem em frente ao portão de saída do local de trabalho, limite último de sua intimidade. “E eu não tenho ninguém pra resolver meus problemas, nunca tive. Por isso vou lá buscar eu mesma esse maldito brinquedo..”, resmungou enquanto cuidava a chegada da sua condução.

O calor costumeiro de verão havia se anunciado abrasador naquele começo de dezembro e puniu os imprevidentes com um temporal assustador. No ponto de ônibus quase defronte ao edifício desbotado e acinzentado, Valéria demorou bem mais do que o habitual para conseguir tomar o ônibus lotado. De lá, viu a figura de Angela sumir dentro de um carro preto chamado por um aplicativo do seu telefone cujo custo mais fazia aumentar seus débitos mensais. Com as películas dos vidros escuras como a usada nos carros oficiais que só os chefes usavam, Angela desapareceu por completo em meio ao temporal que fez história naquele fim de semana em Porto Alegre. Além das ruas alagadas, árvores tombaram e ruas foram interditadas por toda a parte. Os moradores dos bairros afastados e das cidades vizinhas sofreram para chegar em casa naquela sexta-feira. Pelo menos quanto a isso, na outra segunda-feira Valéria teria menos a reclamar do que a amiga, pois o seu caminho não tivera tantos impedimentos e desvios quanto pelos quais tiveram de passar as pessoas que estavam no centro naquele fim de tarde.

No outro dia, no sábado, Valéria esperou que a amiga lhe enviasse alguma mensagem ou fotografia da festa promovida pela cunhada para o seu afilhado, mas nada chegou. Nem uma mensagem sequer e, quando ela enviou perguntas, recebeu com resposta apenas a confirmação de falta de sinal do aparelho. Quase nunca isso acontecia, mas como tinha a sua vida e a dos filhos pequenos para cuidar, simplesmente esqueceu-se dela, até porque precisava disso para manter um pouco de sua tranquilidade e recuperar o reservatório de paciência. Apesar do inconveniente do temporal, devia ter dado tudo certo, e ela lhe contaria tudo em mínimos detalhes ao longo de toda a outra semana, tinha certeza disso. Não bastava estar a sua disposição a semana inteira e ainda teria de preocupar-se nos fins de semana? Pois este era o seu limite em relação àquela amizade quase compulsória. E mesmo que jamais tenha dito a alguém do seu cansaço quanto a Angela, não era desagradável esquecer-se completamente dela e de seus assuntos por uns dias.

Passado o final de semana tormentoso, Valéria já estava a postos no trabalho em seu horário habitual. Antes de qualquer outra pessoa, mais ou menos uma hora antes, ela chegava e organizava o estado das mesas, ligava os computadores e, principalmente, fazia duas garrafas térmicas de café passado cheias até a boca. Os raros elogios que recebia dos que trabalhavam ali eram garantidos por essa última tarefa. Com a rotina encaminhada, aguardava a chegada de todos, cumprimentando um a um os funcionários e conversando amenidades, mas estava mesmo curiosa é quanto a Angela. Após dois dias sem telefone, imaginou que tivesse perdido de alguma forma o aparelho. Seria uma nova compra a ser feita, mais pesquisas intermináveis e indagações sem fim, como sempre. Era sua rotina há dois anos já, desde que viera dar ali.

Angela, no entanto, não chegou no horário habitual e nem ninguém telefonou avisando de algum mal estar ou consulta médica. O que nunca acontecera antes havia acontecido e logo todos estranharam e passaram a comentar. Do nada, formou-se quase uma assembleia para debater sobre o atraso. Comandada pela supervisora da unidade, que parecia a mais preocupada entre todos, mais ainda que a própria Valéria, a reunião foi suspensa quando adentraram no local dois homens. Um deles, o mais jovem, dava os ares de alguém muitíssimo preocupado. Os cabelos crespos lembravam os de Angela e somente Valéria reconheceu nele o filho mais velho, Josué. O outro era um policial que foi conversar reservadamente com a supervisora.

Sem nunca identificar-se, Josué vasculhava a estação de trabalho da mãe como se estivesse buscando pistas. Talvez por meio do seu histórico de atividades pudesse localizar seu paradeiro. Valéria nunca havia confirmado com ninguém, mas suspeitava de que ele fosse filho do próprio Dr. Bastide. No entanto, como não tinha acesso aos sistemas de informática e nunca tivesse visto o velho advogado, não tinha como saber. Talvez assim fosse melhor: manter-se longe daquela investigação e dos problemas de Angela, porque só os seus próprios muitas vezes lhe eram suficientes e ali não tinha ninguém para ajudá-la efetivamente. Ficasse quieta e deixasse passar e logo saberia, igual a todos, o que estava acontecendo. O chamado para atender uma emergência de limpeza no andar superior livrou-a de presenciar inclusive a revelação que lhe chegou por último, quando retornou ao escritório.

“Ela morreu. Foi assassinada, seu corpo foi encontrado na noite de sexta-feira, no centro, num motel…”, a supervisora contou de uma vez só tudo o que sabia logo após os dois homens deixarem o local e sumirem elevador acima, conforme ela mesma viu nos corredores do prédio. Nos andares superiores ficavam as hierarquias superiores, os escritórios das chefias e altos cargos, a melhor vista e os espaços mais amplos e bem cuidados da burocracia. Aos poucos, com mais explicações, sua incredulidade foi sendo vencida e então muitos ali que sabiam ou imaginavam saber dos segredos de Angela, passaram a debatê-los abertamente, para o seu espanto.

De que a amiga tinha sido amante não só do Dr. Bastide como de muitos outros figurões, ela ouviu embasbacada. Impassivamente, de uma das mais antigas funcionárias da repartição, que Angela nunca havia deixado de ser o que sempre fora: uma prostituta mantida por clientes fixos e avulsos, aos quais se dirigia quando o dinheiro lhe faltava, ou seja, todos os meses. Até o estagiário, que estava ali há menos tempo que a última lâmpada trocada no teto do lugar, parecia ter provas de que Angela não só era louca e prostituta, como também ladra, revolvendo um caso em tese já esclarecido por ela mesma, agora mais uma vez envolto às nuvens da incerteza.

Nesse momento, Valéria ergueu-se da sua cadeira diante de todos, algo que nunca antes fizera, e disse também o que sabia, de que tudo o que estavam dizendo era mentira e que todos ali eram cúmplices no acobertamento do assassino, porque seus empregos dependiam disso e estava claro que temiam por ir contra a versão oficial e o que acontecera de verdade com Angela talvez nunca fosse revelado por ninguém. Mas ela sabia e tinha certeza de que a amiga era inocente do que lhe imputavam e que sua única preocupação era não fazer feio na festa da cunhada e que faria o que fosse preciso para levar em mãos o presente do afilhadinho. Todos olharam para ela mais pasmados do que ao receber a notícia da morte. No seu metro e meio de altura, Valéria agigantava-se pela conjugação da própria coragem e da mesquinharia dos demais, inclusive da chefe empertigada. E mesmo sabendo que provavelmente seria demitida por dizê-lo, reuniu na voz embargada e no gesto trêmulo a coragem para dizer que “Do resto, nada disso é do interesse de ninguém. E, pelo que dizem e fazem, duvido que qualquer um aqui seja melhor pessoa do que ela…”, disse calando até os insetos que trafegavam naquele súbito ar parado, sólido, da repartição.

Debaixo da pequena mesa da copa onde guardava suas coisas, Valéria retirou a embalagem que havia recebido mais cedo. Ali dentro estava o presente que Angela comprara para o menino com todo o dinheiro que a previdência lhe restituíra depois de um processo de muitos anos, do qual somente ela acompanhara a via crucis. “Velório não é o melhor lugar para se dar um presente e vocês não precisam me acompanhar, mas vou entregar isso ao seu dono, que era só o que ela queria mesmo ter feito”, disse e seguiu em direção à supervisão dos terceirizados, que contavam com uma administração autônoma em relação aos demais funcionários e tinham sua própria gestão. Ninguém soube se depois disso ela continuou com o emprego ou foi mesmo demitida, mas ali nunca mais apareceu. De Angela, ninguém nunca esqueceu ou deixou de levantar suspeitas, mas o seu nome aos poucos foi se apagando na memória dos funcionários da repartição, até chegar o dia que, para se referirem a ela, diziam apenas “A prostituta do doutor aquele? Era uma sem-vergonha!”

Lucio Carvalho é editor da Sepé.

FICÇÃO

1 comentário Deixe um comentário

  1. Lúcio, estou lendo todos os contos e apreciei a forma da tua escrita, que consegue efeito tirado de um cotidiano e faz dele matéria de frases bem estruturadas, criando um tipo de novela.

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