De ‘A BIBLIOTECA DOS LIVROS AMIGOS’, de Alberto Goldim e José Roberto Goldim

De onde vêm as palavras?

Dona Júlia comentou com Dona Rosária que já era quase a hora de arrumar tudo e fechar a biblioteca da escola. As crianças já tinham voltado para as salas de aula e havia inúmeros livros misturados sobre as mesas. Elas pegavam um por um e recolocavam nas estantes. Quando tudo estava arrumado, apagavam a luz e saíam, fechando bem a porta.

Mal saíram, o Livro Geral das Melecas disse:

– Que dia foi hoje! Vários meninos e meninas me abriram, puxaram e até uma me apertou com força sobre a mesa.

– É assim mesmo! – disse alegre o Livro Ilustrado dos Cães. – As crianças gostam de nós de um jeito muito especial!

– Especial até demais! – disse o Livro dos Dinossauros. – Eu fui aberto e fechado por um menino pelo menos vinte vezes. Ele queria ver se as figuras mudavam de lugar quando ele fazia isso.

– Pior foi comigo – disse o Dicionário. – Duas meninas discutiram se eu tinha ou não uma palavra. Ora, vejam! Eu tenho mais de 280 mil palavras todas organizadas e definidas perfeitamente. O mais incrível é que a palavra era muito comum: “convescote”.

– Mascote? – perguntou já animado o Livro Ilustrado dos Cães.

– Não! Con-ves-co-te! Está na página 728 e é palavra que se originou de outras duas: convívio e escote. Quer dizer um convívio onde se repartem as coisas que cada um trouxe. É uma refeição ao ar livre.

– Piquenique! – disse o Livrinho Azul.

– Calma, livrinho! – falou bem alto o Dicionário. – Eu ia mesmo terminar.

Robertinho, o Dicionário Petit Robert, logo informou:

– Piquenique se originou na França, da palavra pique-nique.

– E em inglês? – perguntou o Livrinho Azul.

– Piquenique é pic-nic! – respondeu o orgulhoso Dicionário Oxford.

E o Livro das Perguntas logo se adiantou:

– Os alemães fazem piquenique?

– Claro que sim, os alemães adoram fazer Picknick!

– Obrigado, Duda. – Era a forma que o Livrinho Azul chamava o Dicionário Duden da Língua Alemã.

Um dicionário meio empoeirado, pois ficava muito tempo sem ser pesquisado, perguntou:

– Sabem como se diz piquenique em japonês?

Logo abriu uma de suas páginas e lá estava: ピクニック. Ninguém entendeu nada! O dicionário então leu em voz alta:

Pikunikku! – e todos riram muito.

– Será que convescote existe em algum outro livro além dos dicionários? – perguntou o Livro das Perguntas.

– Nós, os livros de referência, especialmente os da família dos dicionários, temos todas as palavras contidas em vocês e muitas mais! – retrucou imediatamente o Dicionário.

– Lá vem ele se elogiando – disse o Livro Geral das Melecas. – Nós todos sabemos que as palavras aparecem pela primeira vez nos livros, e só depois vão para os dicionários.

– E antes de tudo aparecem na fala das pessoas! Elas que inventam as palavras! – disse o Manual de Linguística, que foi apoiado pelos seus vizinhos da estante de Língua Portuguesa.

– Inventam? Então são palavras de mentirinha, Manuel? – perguntou o Livrinho Rosa, que também se divertia inventando apelidos para os outros livros.

– Não. Toda palavra foi inventada em algum momento. E todo dia são inventadas coisas novas que precisam de palavras para ser o seu nome. E às vezes, com o tempo, as palavras mudam também! – disse o Manual de Linguística já se empolgando com o seu assunto favorito.

– Uaaau! – disseram os livrinhos coloridos.

– E no fim elas vão parar onde? – disse o Dicionário com a capa estufada de orgulho.

– Nos nossos amigos dicionários, é claro! – concluiu o Manual.

– Quem será que inventou a palavra “meleca”? – perguntou-se o Livro Geral das Melecas.

E então se ouviu o barulho da porta. Os livros mal conseguiram ficar quietos, de tão animados estavam com o que aprenderam naquela noite.

Os livrinhos coloridos estavam especialmente empolgados, pois aprenderam que, além de os livros trazerem conhecimentos para as pessoas, as pessoas também podem trazer novos conhecimentos para os livros – como as novas palavras inventadas. Eles mal podiam esperar para aprender muito e muito mais.

Alberto Goldim é cineasta, trabalha nas áreas de roteiro e direção. É graduado em Produção Audiovisual e especialista em Desenvolvimento de Projetos Audiovisuais. Seu curta-metragem Gestos foi selecionado para mais de 15 festivais nacionais e internacionais e recebeu diversos prêmios de destaque. É filho do José Roberto Goldim.

José Roberto Goldim é biólogo, Mestre em Educação e Doutor em Medicina. Chefe do Serviço de Bioética e Professor do Mestrado Profissional de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Professor Adjunto da Escola de Medicina e do PPG em Gerontologia Biomédica de Bioética da PUCRS e Professor do PPG em Ciências Médicas da UFRGS. Sócio da Áxios – Educação e Consultoria em Ética Ltda. É pai do Alberto Goldim.

FICÇÃO

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