De ‘DOIS AMIGOS’, de Letícia Möller

A primeira vez que a vida do Pirata cruzou com a vida do Figueira foi numa noite de inverno de gelar os ossos. Tinha chovido, e as ruas e calçadas acumulavam poças d’água.

Figueira estava no lugar de sempre, o ponto certo onde ele se refugiava quando escurecia. Sentado debaixo do grande viaduto da avenida, as costas escoradas no papelão que, dobrado, também servia de assento e cama, olhava quieto o vazio daquela hora, já alta madrugada.

Quase não passavam carros. E pelo silêncio no viaduto dava para pensar que não houvesse alma de vivente nenhum ali – só, talvez, alma penada. Os companheiros de rua dormiam, escondidos nos sonhos.

De repente, um ganido ao longe. Depois, sons de passinhos molhados que se aproximavam. Figueira espichou o ouvido.

Era um bicho. Olhando bem, era um cão.

O cão parou, ao ver aquele monte de coisas que se misturavam confusamente na parede da construção. No meio, um homem.

Olhando bem, era um homem.

Homem e cão se examinaram.

O olhar do homem era de quem não entendia bem o que via. Não era de medo. Era o olhar de quem via algo feio ou uma beleza que se perdera.

O olhar do cão era de quem não sabia se podia confiar. Não era de medo. Era o olhar de quem já não tinha nada a perder. E podia arriscar.

O cão estava sujo, tinha pelos faltando no corpo manchado de branco e preto e mancava de uma pata.

O homem tinha olhos redondos como bolas de gude, olhos vidrados, a barba negra espessa, na cabeça uma touca puída, sobre o corpo uma coberta velha.

O homem pensou em chamar o cão, mas sua mão teimava em não querer sair do calor da coberta, e os lábios enregelados não podiam assobiar sem dificuldade. Mas o cão se aproximou mesmo assim, devagarinho, focinho baixo, jeito humilde de quem quer abrigo.

De início, o cão deitou enrodilhado a uns dez palmos do homem. Passados uns minutos, rastejou para o lado e voltou a se enroscar, agora muito próximo. Tão perto que o homem pôde ver os machucados no lombo e no rosto do cão. “Esse bichinho deve ter arrumado uma briga das brabas, tá todo lanhado”, pensou consigo.

– Essa noite não tá boa pra ninguém, hein, cumpádi? – disse o homem, e se surpreendeu com o som da própria voz vencendo o frio. – Te fizeram mal?

O cão espiava o homem com olhos compridos, a cabeça enfiada nas patas da frente, aquecendo o focinho.

– Tu tem nome? Não?

O cão não era feio. Tinha um garbo. Se notava. A mancha preta redondinha ao redor do olho parecia um tapa-olho de pirata. Daquele das histórias que o avô contava quando ele era menino, lá na lonjura onde nascera. Era a manchinha que dava um charme para o bicho, mesmo naquele estado.

– Pirata. Vou te chamar de Pirata. E eu sou o Figueira.

Letícia Möller é escritora, editora e advogada. Em 2010 publicou seu primeiro livro infantil, Eu e você, aqui e lá. De lá para cá foram vários títulos, dentre os quais Os peixes, o vovô e o tempo e, pela Dialogar, o livro bilíngue português-alemão Pedro e Lisa: Aventura no Brasil (em parceria com a GiraBrasil Verlag). Nas ruas de Porto Alegre, cidade onde nasceu, existem muitos Figueiras e Piratas, Raquéis e Doralices, e também crianças que nas calçadas e sob os viadutos cultivam seus sonhos, como todas as crianças. “Dois Amigos” é inspirado em pessoas reais que vivem ao nosso redor, diante dos nossos olhos, ainda que muitas vezes não as queiramos enxergar. Uma pequena homenagem à amizade e à dignidade que existe em cada um de nós.

FICÇÃO

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