De ‘DUAS FORMAÇÕES, UMA HISTÓRIA’, de Luís Augusto Fischer

Porto Alegre, maio de 2020.

Como se pode contar a história da literatura brasileira hoje, neste começo de novo século? Os modelos tradicionais de relato historiográfico que lidam com o objeto literatura têm ainda algum sentido? Têm capacidade para abranger o que se produziu nos tempos mais recentes? Estão eles de algum modo atualizados no forte e pródigo debate atual no campo dos relatos historiográficos?

Aliás, cabe uma pergunta anterior: há algum sentido em pensar numa nova história da literatura no Brasil? Pode-se continuar pensando em uma nação específica, neste tempo de mundialização acelerada dos mercados e de instantaneidade de conversas via internet? Ou só fará sentido pensar a literatura brasileira como parte da literatura na América do Sul, ou nas Américas, ou no Ocidente?

Uma terceira camada de dúvidas: essa hipotética nova história da literatura no Brasil deve considerar também o horizonte do ensino médio, nicho onde há várias gerações se reproduz uma interpretação trivial desse rico processo histórico das letras no país?

E os debates que balançam a opinião pública no país em tempos recentes, como o feminismo e o direito à diferença, as políticas de ação afirmativa e a emergência de novos parâmetros de validação e circulação de livros, a digitalização da circulação de obras literárias e a leitura escolar na era do Enem, assim como as mais vigorosas mudanças no conhecimento que temos agora sobre o passado brasileiro — mudanças que envolvem sínteses inéditas, feitas sobre o trabalho empírico de duas gerações de pesquisadores produzidos na universidade, no Brasil e fora dele —, estão esses debates nítidos e alinhados suficientemente, de tal modo que possamos repensar a história da literatura no Brasil levando-os em conta?

Este livro é uma resposta positiva a tais perguntas. Crítica e complexa, empenhada e cautelosa, mas positiva. Não é uma nova história da literatura, não é um relato organizado; é uma reflexão sobre as condições para que uma nova história da literatura brasileira seja escrita. Um estudo que repassa analiticamente aquilo que considera os principais problemas, assim como a mais importante tradição historiográfica no campo. Um estudo que não apenas conclui ser possível conceber essa empreitada, como também oferece caminhos novos para que ela aconteça.

A verdade singela é que os três principais termos do meu assunto, aqui — história, literatura, Brasil —, sofreram abalos tremendos nas últimas décadas.

“Brasil”, como objeto de reflexão, mudou de tamanho e até de natureza, no plano da vida real cotidiana assim como no da discussão conceituai sofisticada. Perdeu força o nacionalismo que nos animava desde talvez a Independência, muito reforçado pelo pensamento do Modernismo paulistano, que nos governou mentalmente até há pouco, se é que de fato já foi destronado dessa condição, como deveria. A onda de integração dos mercados, contemporânea do fim da Guerra Fria e irmã da vida digital via internet, reposicionou o sentido e o alcance da vida nacional. Deve-se somar a tais fenômenos a mais recente geração de historiadores e antropólogos que se ocupam da matéria brasileira, responsável por uma revolução nos modos como concebemos até aqui o passado colonial, a escravidão, as interações das populações que formam a população brasileira. O trabalho de Fragoso, Florentino, Caldeira e Viveiros de Castro, lido com vistas a pensar a literatura no Brasil, revela caminhos promissores.

Da mesma forma o termo “literatura”: não foi apenas o intenso fenômeno das novidades formais praticadas sobre os gêneros tradicionais de literatura (romance, conto, crónica, poema etc.), nem apenas o terremoto da edição digital que modificou nosso modo de ler, sejam estudos críticos, sejam ficção e poesia; a própria noção do que é literatura, nossa compreensão acerca das modalidades de texto que pertencem ao domínio conceituai da literatura tudo isso mudou. Não há quem possa, de cara limpa e com pensamento consistente, renegar por exemplo o destacado lugar que a canção ocupa no mundo das letras, no Brasil talvez mais do que noutras partes. Isso para nem falar de dimensões mais complexas e reveladoras ainda, como é o caso do problema da língua em si: uma correta compreensão contemporânea do que é uma literatura, em qualquer parte do mundo e mais ainda em países de tradição colonial, não poderá ignorar que as traduções fazem parte orgânica do processo social da literatura. E o que dizer das modalidades orais de artes da palavra, agora em evidência graças ao novo patamar da discussão sobre o papel histórico e o lugar vivo das línguas ameríndias e africanas? No plano da dinâmica real e cotidiana da língua, também notável é a pressão que exerce sobre os padrões cultos tradicionais do português brasileiro a força desse fenômeno que é o das chamadas redes sociais, como facebook, instagram e whatsapp, que são o palco diário e multitudinário da prática da escrita por gente que, há 20 anos, não escrevia quase nunca e agora escreve todos os dias.

Por fim, “história” é também um âmbito que se alterou de forma radical. A mesma novidade tecnológica dos computadores e da rede mundial de comunicação digital mudou as possibilidades de produzir e conhecer relatos históricos. Como nunca antes, massas de dados empíricos, acumulados pacienciosa e dispersamente, agora podem ser visitadas e interpretadas em nova produtividade, sob visada de conjunto que alinha milhões de dados, o que se pode constatar, entre muitos outros casos, na história da escravidão nas Américas. Por outra mão vêm as novidades do que podemos chamar genericamente de micro-história, ou de história da vida trivial, com experiência muito produtiva no Brasil das últimas décadas.

Nem o país, nem o objeto, nem o método: nada ficou igual, portanto.

Ocupado desde o começo de minha vida adulta, quatro décadas atrás, com o tema da história da literatura, tive a boa chance de passar recentemente um ano sabático fora do país, com vagar e distância suficientes para repensar as coisas. A pesquisa e a redação foram realizadas no âmbito do estágio de pós-doutorado na Sorbonne Nouvelle — Paris 3, entre agosto de 2014 e julho de 2015, com apoio do CNPq. A finalização do estudo ocorreu em março de 2017, e em maio apresentei-o para minha progressão à titularidade na área de Literatura Brasileira, no Instituto de Letras da UFRGS, onde estudei e trabalho. Revisado e meditado, vai agora em forma de livro.

No capítulo dos agradecimentos, preciso mencionar meus colegas Ho-mero Vizeu Araújo, Guto Leite, lan Alexander e Karina Lucena. A eles devo parte substantiva da alegria de trabalhar na universidade. Muitos alunos também devem ser lembrados, em tantos episódios de sala de aula, quando me ouviram pacientemente desenvolver e especificar esse debate e me proporcionaram debate crítico de valor inestimável; para não estender demasiadamente a enumeração, menciono André Boucinhas, Olívia Barros de Freitas, Gilmar Penteado, Roberta Flores Pedroso, Jackson Raymundo, Sérgio Karam, Arthur de Faria, Michel Le Grand, Katia Suman, Heloísa Netto, Patrícia Lima e Naira Hofmeister de Araújo (que ainda me ofereceu uma competente revisão do texto!).

O título deste trabalho ficou grande, em suas três partes e uma enfiada de ideias e postulações. Mas espero não trair a confiança do eventual leitor: vou discutir cada uma delas aqui dentro, com algum método e suficiente vagar.

Como tem acontecido em minha vida nos últimos 15 anos, a parceria da Julia decidiu tudo, e como sempre a meu favor. A ela e aos nossos dois filhos, Benjamim e Dora, de cuja convivência eu me beneficio sempre, numa escala que nunca imaginei possível, meu agradecimento total.

Porto Alegre, maio de 2020.

Luís Augusto Fischer é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de Literatura Brasileira – modos de usar (L&PM).

ENSAIO

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