De ‘ELVIRA VIRGÍNIA’, de Dani Espíndola

o muro

estar no escuro
cega
em cima do muro fio-de-navalha
que retalha
recorta em frangalhos
a alma

a dor que entalha
dúvida megera
que emperra
estanca a vida
sangra a ferida
atrapalha

no muro
grito
urro
fico
a esperar o desequilíbrio
que me libertará
desta prisão em linha reta

diagnóstico

como lhe explicar, doutor,
o que sinto?

o que não sinto mais
é o que me assusta
viver em apreensão

o fôlego sempre preso
como se eu pudesse me dar
um pouco mais de vida assim

139 palavras

São 139 as palavras para descrever o gosto ácido-me-
tálico em minha boca, resquício das palavras que
ali permaneceram tempo demais sem conseguirem
escapar, por encontrarem os lábios-portas cerrados
e é claro que isto é apenas uma metáfora devido à
minha constante falta de ar, e de meu costume de
manter a boca entreaberta, o que me confere um
ar de bocabertice permanente, e aqui não é uma
metáfora. Mas as palavras perdem-se nos labirintos
da boca-caverna, a tal ponto de fenecerem vagarosa-
mente, condenadas à condição de não-enunciação e é
dessa impotência que se originam as raivas, culpas e
arrependimentos: o ato de fala não-nascido, a teoria
em estado da arte, palavras mudas, intenções não
proferidas; minha boca é um depósito de palavras
natimortas e para que não me engasguem é que me
calo, resignando-me ao sabor corrosivo do silêncio.

transmutação

eu recebi
as palavras
por ti proferidas
palavras sortidas

embaladas em intenções claras
recheadas de significados disfarçados

comi uma a uma
saboreando as notas de azedume e amargor
enquanto preparava uma doce vingança

assim,
mastiguei-as
ruminei-as
até que se dissolvessem por completo

e o que engoli
se chama perdão.

um brinde à palavra

bebo às palavras lembradas
às palavras recuperadas
no limiar da memória
quase indo embora
para onde vivem
todas as palavras

bebo às palavras encaixadas
ao verso ajustadas
sem revoltas
nem paradoxos

bebo às redondilhas maiores e menores
bebo às estrofes
bebo estrofes inteiras
a um só gole

um brinde às palavras que combinam
formando as rimas
dando os sentidos esperados
um brinde emocionado
aos motes, aos temas
de todos os meus poemas
viva a palavra que não cala!

Dani Espíndola é formada em Letra Português-Inglês, especialista em Língua Inglesa e Literaturas de Língua Inglesa. Professora há mais de trinta anos. Em 2020, fez sua estreia com o e-book de poesia “Tanto fiz que deu poema”, além de ter poemas publicados em coletâneas e antologias. Teve um poema selecionado para compor a coletânea de poesia do Selo Off-Flip.

POESIA

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