De ‘ROTAS DO FASCÍNIO’, de Michael Desser

Michael Desser tinha seis anos quando sua mãe, uma vienense nascida na Inglaterra de pais refu­giados judeus, casou-se pela segunda vez e mudou-se para a Dinamarca, deixando-o em Viena aos cuidados do pai. Essa experiência brutal de “exílio” emocional refletia, de forma invertida, a de sua mãe: com dois anos de idade, enquanto Londres era devastada pelo bombardeio alemão, ela fora entregue a uma família de acolhimento britânica. Tinha quase quatro anos quando os pais a reencontraram.

Desde muito cedo, Michael demonstrou curiosida­de por outras culturas, aptidão para línguas estrangei­ras e uma estranha nostalgia dos trópicos. Aos 13 anos, conseguiu uma licença especial para acompanhar um grupo de sua escola numa viagem de formatura pela América Latina. Do Brasil, levou na memória a pala­vra “saudade”.

Este romance, que Michael iniciou em torno dos quarenta anos, foi escrito sob o signo da busca de sua identidade. Tendo crescido em um ambiente huma­nista e de esquerda, Michael não recebera educação religiosa, nem lhe fora transmitida a cultura judaica, a qual seus avós haviam deixado para trás quando re­gressaram do exílio britânico com o firme propósito de participar da construção de uma Áustria mais igua­litária e fundada na razão.

Ainda que compartilhasse os ideais dos avós, Mi­chael tinha uma percepção aguda das interseções en­tre o transcendente e a razão, bem como do conflito potencial entre o ideal de objetividade da ciência e a subjetividade do cientista. Não é, portanto, de se ad­mirar que seu trabalho de doutorado tenha sido dedi­cado aos físicos que trabalharam na trilha aberta por Einstein com a teoria da relatividade.

O título original do romance, Sina, nos remete às conclusões dos personagens centrais, todos cientis­tas, com respeito a seus papéis na colonização cultu­ral: “Um descobridor não desvenda a verdade, antes a obscurece e dissimula. Ele não é o sujeito de sua vontade, mas o espelho que reflete os interesses de sua sociedade”, nos diz Sebastian Mold na trama. Ademais, malgrado a sinceridade do amor que possa unir jovens nativas e colonizadores, sua sina parece ser inelutavelmente trágica.

Quando, em 2015, Michael foi diagnosticado com um mieloma, o livro já estava terminado. Para seu aniversário de cinquenta e cinco anos, em 2017, eu o presenteei com uma tradução em português, na qual trabalhara por quase um ano. Nas semanas subse­quentes, discutimos e corrigimos o texto. Em 12 de maio de 2018, Michael nos deixou.

Nossas filhas, Lisa e Amanda, e eu permanecemos vários meses paralisadas pela dor. Em 2020, graças ao incentivo delas, decidi publicar o romance no Brasil. Nossa principal motivação foi tornar acessível a nos­sos familiares e a amigos, e também ao público inte­ressado no processo de construção da identidade lati­no-americana, e da brasileira, em particular, o lúcido fascínio que essa cultura exerceu sobre ele. Daí o títu­lo da versão em português.

Rotas do fascínio condensa, num texto poético, as inquietações do autor, sua tentativa de integrar as rup­turas culturais e os traumas do exílio, seja ele forçado ou voluntário, na construção da sua identidade como homem do seu tempo.

Nanete Ávila Desser

Michael Desser (1962-2018), doutor em história e filosofia, foi um escritor e diplomata austríaco. Estudou nas universidades de Viena e Copenhague, e morou dois anos no Rio de Janeiro (1985-1986), onde atuou como pesquisador visitante no IUPERJ. Em 1986 casou-se com a médica Nanete Ávila e iniciou a carreira diplomática. Serviu em vários países, entre eles o  México. Foi embaixador da Áustria para a Jordânia e o Iraque entre 2015 e 2018. Em 1991, publicou Entre Skylla e Charybdis, pela editora Böhlau, em Viena.

FICÇÃO

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