ESPAÇADO, por Adriana Bandeira

Espaçado. Dois passos, noutro lugar. Que antes de mim vinha uma palavra, mesmo que arrastada por causa do medo. Pode? Era um jeito de chegança e riso. Porque era de rir. Rir de mim por causa da sanga, da beirada do rio, da gente criança. Porque num tempo assim me conheciam gente e filiação do Germano e Noêmia. Ah! Era doce que se ganhava no Natal. Com a Hernanda vestida de vermelho, imitando o papai noel! E era besta a Hernanda! Ah ! Era! Eu com os olhos vidrados nela e ela andando feito pandorga, de vermelho e calça xadrez. Mas tinha doce. Tinha fila do doce e tinha ano que vinha bola! Luana ganhou boneca. Minha irmãzinha pequena e morta. É que se mistura o tempo e lembro dela com a boneca no mesmo lugar que lembro dela de olhinhos fechados. Dormindo? Não! Mas preciso falar com meu desassossego, que ela desde nascer  tinha um ar de não viver muito. Pequena, a mãe carregava na anca, para cima e para baixo. Num causo com as vizinhas, na panela de feijão com pedaço de linguiça, Luana nem existia. Não falava, sorria. Era anjo, desde antes de fechar os olhos! E se morria! Tinha fila, tinha doce e boneca. Tinha roupa no tanque e chuva. Era tarde! Dizem que o frio é bonito, como na foto da neve do papai noel. Ô Hernanda metida! O frio doía! Eu tanto queria porque queria ter vida.

No inverno o rio me vinha, pela porta! Grande demais! Na primeira visita chegou perto da cama e vi a cara dele, numa luz. Batendo, batendo e invadindo o travesseiro, a colcha. Meu chinelo se foi porque deus trouxe o rio para me ver. A mãe tinha proibido, por causa do frio. E ele veio manso, me levar de volta. Não fui. Mas todo o ano ele atiçava minha vontade, voltava. Aí ficou o barulho dentro, o vento, o imenso do imenso.

Dois passos, dois metros, fila. Quantos anos tem o rio? A tonteira da fome me mata. Luana, enfeitiçada, foi com o rio, será?

Que é de uma oração antiga, pedir ajuda para o deus menino, sem papai noel, nem nada! Pedir socorro pelo meu nome que há num lugar que o tem, meu único nome e filiação, como nos formulários de ajuda e emprego que nunca vem, que nunca vem, que nunca vem.

Fila chegando na minha vez. Tomara eu saiba dizer, tomara eu saiba falar sem nada, sem papai noel, sem Luana, sem o lugar onde sabiam meu nome. E segue a fila onde está a dois reais o osso do jantar. O rio ri dentro. Vem me buscar.

Adriana Bandeira é psicanalista, membro da associação Clínica Freudiana, São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Esteve a frente do projeto de humanização de um hospital 100%SUS, na cidade de Montenegro, nos anos de 2012 a 2017. Escritora, poeta, reside na cidade de Montenegro-RS. Autora de Chá das Cinco (editora AGE- 2005), livro de contos; autora dos contos: A Empregada e As cosias de minha mãe na coletânea da AJURIS- Bestiário-2010) e do livro de poemas Escritos de Calabouço ( editora Patuá-2018). Produtora Executiva do Projeto Uai, Tchê!, show que reúne a musicalidade de mineiros e gaúchos, contribuindo com a poética do encontro, roteiros e textos do show e vídeos.

FICÇÃO

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