EU CERZI A ALÇA DA ANÁGUA DA MINHA MÃE, por Luciana Paiva Coronel

Muitos anos atrás, encontrei na casa da minha mãe, no meio de umas roupas antigas, uma anágua. Experimentei-a e me achei bem. Ela falou que se tratava de uma peça do enxoval. Eu ri. Pensei que minha mãe pudesse ter tirado a anágua pouco antes de me conceber. Eu já era adulta, mas não sabia nada de anáguas e nem de amores.

Fora uma cena rara aquela. Eu ficara sem jeito diante da mulher bonita com a lingerie preta no espelho. Ela se parecia comigo, mas em seguida se dissipou. Era um segredo inscrito no território da mãe aquela aparição. Eu tivera muita sorte em flagrar a forma misteriosa que exibia o que me faltava.

Algumas décadas depois, em uma noite na qual cheguei à casa da mãe de surpresa, ela me acolheu para dormir e me ofereceu a anágua como camisola. Veio na hora à minha mente a recordação do estranho reflexo que eu vira.

Eu vestia de novo a peça. Quem sabe a anágua da mãe capturava mais uma vez a mulher atraente que a camisola preta revelara? Eu já contava cinquenta anos e possuía uma história, mas a memória daquela imagem na superfície do espelho seguia me inquietando.

A anágua me foi afinal concedida. Eu acolhia tardiamente o legado da mãe, tão controverso. Me pertencia afinal o que vinha dela e me fazia gostar de estar no meu corpo e de agir no mundo com ele.

A mulher do espelho agora me visitava, parecíamos estar nos acertando. Eu queria conhecer truques especiais para que ela me aceitassse depois de tantos desastres. Quem poderia me ensinar a estar com ela sem desistir do que eu era, uma mulher que se corporificava nas palavras? Eu não sabia, mas seguia.

Rompeu-se a alça da camisola, a herança estava em risco. Como não costuro, já ia deixando de lado a roupa, e com ela a figura cujos modos femininos eu queria seguir imitando. Eis que lembro da caixinha de costura da avó.

Quase nada dela ficou comigo. Nem os livros de receita com letra caprichada, nem os perfumes que nenhuma ocasião especial demandou, guardados intactos nas caixas, nem a extraordinária beleza. Como era possível que tivessem cabido a mim tesoura, alfinetes e colchetes, se nunca tive habilidades manuais?

Surpreendentemente eu dispunha dos instrumentos com que as mulheres costumam consertar o que a vida estraga. Recorri à herança da avó para viabilizar a herança da mãe. Eu, que desertara de ambas, tinha nas mãos a oportunidade de levá-las no corpo.

Com osfios da avó dei pontos desencontrados para prender a alça na roupa de sua filha, minha mãe. Tem um pouco da avó agora na vestimenta de mulher que minha mãe me deu. Tem um pouco da avó em mim, quando a visto. Tem um pouco da mãe em mim, porque afinal ela me cedeu a roupa que guardava a mulher que eu queria ser.

Tem um pouco de mim nos alinhavos mal feitos que permitiram que eu a vestisse. Foi preciso coragem para mostrar, com mais idade do que tinha a minha avó quando nasci, o remendo de iniciante às costas.

Como uma amputação ao revés, a alça fixada recompôs a peça danificada. A cicatriz ficou exposta, mas quem não sabe que se trata de uma sutura reparadora, gesto último da filha para enxertar um corpo no vazio da camisola? Eu prendi a alça solta da anágua da minha mãe com a linha e a agulha da minha avó. Três gerações ligadas na dura arte de tecer a vida a partir de impossibilidades. O fio que nos amarra compõe uma trama ainda aberta, que se fará com arremates de laço e de nó, como tem sido o destino de cada uma, cumprido entre sonho e desamparo.

Luciana Paiva Coronel. Sou professora de literatura brasileira na Furg (Universidade Federal do Rio Grande). A escrita de mulheres está entre meus temas de pesquisa. Lendo e buscando os sentidos de textos ficcionais e poéticos de autoria feminina, descobri em mim uma intencionalidade autoral. Sou nova no ofício, esta é minha primeira tentativa de publicação.

FICÇÃO

10 comentários Deixe um comentário

  1. Ainda bem que resolveste te aventurar na escrita ficcional. E que seja o primeiro de muitos, pois esse já deixou um gostinho de “queremos mais!”. Eu adoraria saber mais sobre essas três mulheres. Parabéns, doutora Luciana! ❤️

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  2. Lindo de mais esse conto. Uma escrita reflexiva, fluida e carregada de uma sensibilidade voltada para escrita feminina. Dentre as metáforas, uma me chama atenção pelo desdobramento do sujeito. Essa marca na literatura contemporânea que é o encontrar-se. No conto essa procura precisa um “sair de sí”, manter-se, mas também incorporar nessa existência o “outro”, nesse caso, as outras, a ancestralidade, a costura entre três gerações, reconstruindo, unindo as partes. É essa a “amputação ao revés”… Foi preciso devolver esses membros, remover o desabitado. Lindíssimo.

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  3. Sempre pensei que devias escrever, tamanha tua sensibilidade e conhecimento. Talento revelado! Que seja o primeiro de muitos! Sou tua admiradora. Um super beijo! Sucesso!

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