EU DESAPAREÇO, por Cristiano Fretta

(…)
What I’ve felt
What I’ve known
Never shined through in what I’ve shown
Never be
Never see
Won’t see what might have been

(…)
The Unforgiven – Metallica

Questão das mais instigantes refere-se à quantidade de vomitados nas paradas de ônibus de Porto Alegre: difícil é vermos uma única parada que não tenha um amontoado de massa triturada e mal digerida na qual sempre residem pedacinhos de tomate e cebolas sob os olhos cegos e cansados dos papéis semi-rasgados de anúncios de estúdio de gravação, pré-vestibular barato, aulas de guitarra em casa entre outras nojeiras. As pessoas que por intermináveis minutos esperam pelo cumprimento da promessa de ver o ônibus como um animal psicopata de olhos pequenos surgir ao longe fingem na maioria das vezes não repararem nesse lodo estomacal: a grande maioria delas, e se a exceção ocorre é com as crianças, olha durante alguns segundos para o chão e em um olhar resignado de expressões que não podem ser chamadas de tranqüilas viram o rosto em direção ao caminho de onde o ônibus deve surgir – mas fato é que elas reparam no vomitado: mesmo sem conseguirmos encontrar qualquer tipo de diálogo sendo travado sobre o vomitado pelas paradas da Assis Brasil, Protásio Alves, Sertório, Cristóvão Colombo ou qualquer outra avenida de Porto Alegre, o certo é que uma pesquisa que procedesse de forma satisfatória provavelmente desvelaria sensações de nojo e repulsa por detrás dos rostos aparentemente impassíveis, pois afinal de contas estamos falando sobre vômito, e não sobre casais bem arrumados descendo de um barquinho em um dia de sol e deslumbrando-se com absolutamente tudo, cheios de ímpeto e coragem, como se seus estômagos não comportassem sequer uma gota de bile, como se as massas estranhamente temperadas dos botecos de gringos com narizes de flechas que falam porco dio, patata e salsichon e vendem bifê livre a 8 reais com direito a dois pedaços de carne e a um suco natural que não tem gosto de suco natural não pudessem jamais entrarem em seus estômagos – mas o vômito sempre está presente, e essa possibilidade é portanto altamente imaginativa, não dotada de nenhum critério específico para que se proceda o estudo do porquê de tantos vômitos nas paradas de ônibus de Porto Alegre. Um estudo bem feito traria uma explicação cientificamente convincente sobre o porquê de tantos vômitos, pois aparentemente a relação entre esse mingau de comida e suco biliático e as paradas de ônibus das contorcidas avenidas de Porto Alegre é arbitrária, no entanto tudo nos leva a crer que uma explicação é absolutamente necessária na medida em que, como já foi dito, desconfiamos de que a cada 3 corredores de ônibus pelo menos um deles terá o seu chão forrado pelo vômito. Evidentemente que alguma explicação para tal fato existe, embora aparentemente não haja ligação nenhuma entre as golfadas azedas com os ônibus ou com a espera: ora, se os ônibus fossem o motivo do vômito, e levando em conta o número de pessoas que utiliza esse tipo de transporte coletivo todo dia em Porto Alegre, a questão já haveria se transformado em um caso de saúde pública, e seria necessário que existissem vomitórios por todas as esquinas, tamanha a quantidade de comida mal digerida que seria expelida pelas bocas dos porto-alegrenses; e se a culpa fosse da espera, o próprio chão do Aeroporto Internacional Salgado Filho teria suas lajotas limpas sempre sujas por golfadas indesejadas, pois as contrações digestivas aparentemente não conseguem diferir um chão de um aeroporto do chão de uma parada às seis da tarde na Assis Brasil completamente congestionada. No entanto, essa questão que aparentemente não tem saída não deve ser deixada de ser analisada, embora por enquanto ainda não tenhamos encontrado nenhum motivo para que tal evento aconteça nas paradas de ônibus: com certeza uma pesquisa que consiga estabelecer um corpus satisfatório e um método satisfatório terá como conseqüência a obtenção de um resultado. Devemos, portanto, esquecer o cheiro azedo da massa vomitada e nos concentrarmos no fenômeno em si, pois devemos ter bem claro, a fim de que não nos desvirtuemos do foco da pesquisa, que o objetivo não é catalogar os diferentes cheiros que podem ser encontrados, mas sim conseguir mapear os motivos das placas amareladas nos chãos das nossas paradas de ônibus – no entanto não devemos deixar de levar em conta a possibilidade real de que algum caminho da pesquisa nos leve à necessidade de que haja a catalogação dos mais diversos tipos de cheiros a fim de que se possa responder à pergunta inicial, mas seria atropelar e inventar resultados se quiséssemos, por exemplo, por hora dizer que existem basicamente três tipo de cheiros: o de suco bílis com massa, o de bílis com feijão e o de bílis com verduras – e ainda nesse exemplo seria necessário que se estabelecesse o tempo do vômito no chão, com o objetivo de ver se o transcurso do tempo desde o seu jorrar define o grau de azedume do cheiro, embora acreditemos veementemente que a constatação se um vômito é recente ou não independe de seu cheiro, pois este parece ser sempre o mesmo, sendo a quantidade de brilho da massa, do feijão ou dos demais alimentos não digeridos o critério fundamental para essa visão anacrônica de tentar entender todos os aspectos do vomitado – mas a divagação aos poucos vai longe, e deverá ser suprimida do relatório final se não tiver nenhuma relevância no resultado obtido, aliás, tudo o que foi escrito até então carece de método e clareza e portanto deve ser ignorado.

“Então tu só tiveste uma emprego até então, não foi?”, perguntou o homem que à sua frente saía de dentro do aperto de uma gravata cor-de-rosa, um mal gosto horroroso para alguém que trabalhava em um escritório silencioso e imune ao calor por causa do ar-condicionado.

“Sim, como o senhor pode ver, esse foi o meu único emprego antes”, disse Júlio na certeza de que a sinceridade deveria estar acima de tudo naquele momento.

“Mas por que tu saíste de lá?”, perguntou o homem.

“Eu saí porque a firma quebrou”, respondeu impassivamente.

“E posso saber por que quebrou?”, insistiu o homem de gravata, colocando os seus cotovelos sobre a mesa de vidro com papéis milimetricamente organizados, um recipiente com lápis e canetas, um celular de última tecnologia, tão novo e moderno que parecia que jamais iria tocar, um álbum de fotografia que Júlio não conseguia ver, mas que deveria conter uma esposa loira e uma filha de uns cincos anos.

“Má administração, senhor”

“Como assim má administração?”, insistiu o homem.

Houve alguns segundos de silêncio em que Júlio, surpreendido pela pergunta e por dar-se conta de que também não saberia dizer o que o homem gostaria de ouvir, ficou como que a catar palavras no ar, procurando outras além das palavras que não tinha.

“E o que tu pensas do cargo que exercias lá?”, perguntou o homem bruscamente como a demonstrar que o tempo para que a pergunta anterior fosse respondida já havia acabado; isso só desestabilizou mais ainda Júlio, que procurou uma posição melhor para acomodar-se na cadeira.

“Bom, eu penso que, bom, era um cargo que não era muito importante, mas eu fiz o meu trabalho bem, só saí de lá porque a empresa faliu, como eu disse pro senhor”, respondeu Júlio, com a voz oscilante, já demonstrando uma ponta de desespero que transparecia nessas oscilações da voz, nos olhos que inquietos olhavam para todas as direções como a buscar desesperadamente um ponto de apoio para responder àquela pergunta tão direta.

“Ok, ok, ok, mas me diga uma coisa, o que pensas desse ambiente de trabalho aqui, ele te agrada ou não?”, perguntou o homem, na mesma posição de antes.

Júlio remexia-se no assento de uma cadeira preta que reclinava-se para trás dando a sensação de que um tombo ridículo poderia acontecer a qualquer momento, e respondeu:

“Bom, aqui é muito arejado, o ambiente é muito bom, tem uma energia legal, parece um lugar muito sério”

“Um lugar sério?”, perguntou o homem de gravata, surpreendido, arregalando os olhos, tirando os cotovelos de cima da mesa e reclinado-se contra a cadeira, mostrando que estava completamente à vontade naquele local, que poderia inclusive, se quisesse, e Júlio teve a sensação de que ele quase quis, colocar os dois pés de sapatos pretos em cima da mesa, e assim continuar a entrevistá-lo.

“Sim, sim, não quis falar por mal, mas é que aqui tem um ambiente muito bom, é bem arejado, deve ser bom trabalhar por aqui”, disse Júlio, emendando palavras.

“Tá certo, Júlio, tá certo”, disse o homem pegando uma folha com as duas mãos e examinando-a de cima a baixo: o currículo de Júlio.

“Bom, enfim, e o que você espera desse emprego?”, perguntou, tirando os olhos do currículo e os colocando em Júlio, e o homem tinha do nariz para baixo tapado pela folha branca, sobrando somente os olhos, que encaravam Júlio como em sentido de uma última pergunta, da pergunta mais importante, além de mostrar que aquilo era de fato uma entrevista de emprego.

“Eu espero ser útil, senhor, eu espero fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, e pode ficar certo que eu gostaria muito de trabalhar aqui”, respondeu Júlio, e a altura do tom de sua voz a cada palavra diminuía como se despencasse em um abismo de inércia, de acomodação, enfim, em um abismo de derrota já vislumbrada, no entanto não necessariamente aceita.

“Bem, mas você espera haver crescimento?”, insistiu o homem em um tom de voz que queria dizer que Júlio não havia respondido direito à pergunta.

“Sim, sim, claro, pretendo fazer de tudo para crescer dentro da empresa”, e os olhos já eram baixos, já não fitavam o homem cujo semblante ainda se escondia por trás do currículo.

“Não, não, eu quero saber se você vai fazer de tudo para que a empresa cresça, porque o negócio é assim, primeiro a empresa cresce, depois tu cresce com ela, entende?, primeiro a gente tem que fazer o bolo crescer, para depois a fatia, que vai ser maior, ser distribuída para todos, entendeu?”, disse o homem.

Júlio gostou da metáfora do bolo, nunca havia pensado nela, mas não gostou do tom didático que o homem usou para explicá-la.

“Bom, Júlio, muito obrigado, ficarei com o seu currículo, nós entraremos em contato até o final da semana, muito obrigado”, disse o homem levantando-se da cadeira e estendendo uma mão macia na direção de Júlio; ele levantou-se rapidamente, apertou-a, virou as costas e caminhou por sobre um tapete escuro até a porta que desembocava em uma sala de espera onde pôde notar que uma secretária ficou olhando seus passos pela sala como a esperar pelo menos um boa-tarde, mas Júlio passou reto, circunspecto, também não olhou para os outros dois homens que aguardavam a entrevista sentados em cadeiras à sua esquerda, todos tensamente estáticos.

Saiu da sala, encontrou o corredor do prédio e apertou o botão do elevador: quase imediatamente um ruído curto de campainha fez a porta de metal dividir-se ao meio para que então, sentada em um banquinho, uma mulher mal-humorada gritasse desce com uma voz estridente que invadiu todo o andar e provocou eco no corredor. Júlio entrou no compartimento, ia dizer que queria o térreo, mas calou-se subitamente, pois nem queria mesmo esse emprego, eu disse pra ele que gostava daquele lugar mas na verdade achei aquilo ali um antro de pedantismo, não era pra mim mesmo, os outros eu lamentei não ter conseguido, mas não gostei da cara de ninguém naquele lugar,e além do mais as minhas costas iam ficar destruídas, ficar oito horas por dia carregando caixas, é muita frescura para se ficar carregando caixas, eu tenho certeza de que eu era o mais quieto daqueles candidatos, eu era o que falava menos, e é bem isso o que eles sempre querem, eles querem sempre o mais quieto, eles querem sempre o que fala menos, o que se meta menos na vida dos outros, e eu tenho certeza de que eu sou assim, mas aquele cara é muito arrogante, muito metido, não gostei dele, não gostei de lá mesmo, e às vezes é melhor não trabalhar do que ter que ter que trabalhar em um local que não se gosta – a porta do elevador abriu-se e ele caminhou até a rua, no que foi envolvido por um calor que o amoleceu por completo; estava triste, embora a descida do elevador o fizesse ter tentado se convencer de que aquilo ali não era mesmo para ele. Júlio olhou para o outro lado da rua e reparou que o bar em que há pouco tempo ele havia se sentando e tomado uma água mineral com o peso na consciência de ter que gastar dois reais, embora o calor assim o pedisse, assim o impusesse, ainda estava lá da mesma forma que estava antes: o velho sentado em uma das cadeiras vermelhas e tomando uma Polar ainda era o mesmo do momento antes de ele chegar, enquanto ainda tinha certeza de que a sala seria extremamente ampla e que daquela vez um homem o receberia com toda a cortesia possível, não haveria outros candidatos, responderia às poucas perguntas para então de súbito o homem simpático fazer uma espécie de piada e dizer amanhã o senhor pode trazer a sua carteira de trabalho, aliás, se não ficar muito ruim para o senhor, traga ela agora mesmo, vai pra casa, pega ela e traz ela aqui que o RH já encaminha tudo e deixa tudo certo, da maneira que deve ser, gostei muito de você, comece na segunda que vem, e então no fim de semana ele iria para a redenção olhar os cachorros correndo um atrás do outro, os namorados de mãos dadas, os olhos azuis do céu cujo calor que despejava pareceria até mesmo não ser tão impiedoso apesar dos trinta e poucos graus, e ele pegaria o ônibus na João Pessoa e chegaria em casa já ao final da tarde, onde dormiria tranqüilo embora ansioso porque no dia seguinte começaria o seu emprego novo, e na segunda ele entraria de cabeça erguida no escritório, e tudo estaria bem, e tudo teria acabado, mas um ônibus da Conorte passou velozmente perto do meio-fio da calçada em que Júlio olhava o bar do outro lado da rua: ele virou à esquerda, esqueceu o bar e continuou caminhando, sem ao menos perceber que tinha uma infinita vontade de refrescar o calor de Porto Alegre com mais uma garrafa de água mineral.

Antes da pesquisa prosseguir, é necessário que haja método, e a primeira providência para que tal ocorra é o correto estabelecimento de um corpus de análise: somente como ele podemos vislumbrar o nosso objeto da forma correta, além de impedirmos deslizes que vão em direção a abarcar outros objetos a não  ser o que foi selecionado. Portanto, o estabelecimento de um corpus de vômito é essencial para que consigamos pelo menos iniciar o empreendimento desta pesquisa. No entanto, sérios problemas precisam ser enfrentados, e penso que é de suma importância que, antes de tentar resolvê-los, reflitamos e exponhamos os obstáculos. O primeiro problema que estamos encontrando é em relação à dificuldade do estabelecimento de um corpus para a pesquisa. Em primeiro lugar, várias tentativas foram feitas junto à Secretaria de Transporte de Porto Alegre com o intuito de pelo menos conseguirmos saber qual o número exato de paradas de ônibus na capital gaúcha, mas o secretário nunca estava presente, e de nada adiantou pesquisas na internet ou sondar as outras pessoas que trabalham na Secretaria, pois nenhuma delas tinha nenhuma idéia do algarismo, e isso dificulta imensamente que consigamos partir para o próximo passo, pois, depois de contadas, as paradas precisam ser dividas por região. Então equipes diferentes para cada região terão o objetivo de visitar cada uma das paradas para contar o número exato de vomitados que existe em cada uma delas. No entanto, esse percurso não pode ser feito de forma alguma uma única vez, sob a pena de ficarmos presos a coincidências; a providência foi entrar em contato com do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com o objetivo de conseguir pessoal apto para estabelecer um dado estatístico perfeito sobre quais paradas de ônibus tem mais incidências biliares – vale a pena ressaltar que, no dia em que fomos ao campus universitário, um nobilíssimo pós-doutor em estatística teve que sair rapidamente de nossa companhia para dirigir-se ao banheiro vomitar um salgado gordurento que, em nossa presença havia comido em uma das lancherias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não há outro remédio senão, sempre em mente que a primeira etapa é a elaboração de um corpus textual, serem mapeadas todas as ruas de Porto Alegre a fim de que se estabeleça e se tenha conhecimento de todas as paradas possível. Os grupos que seriam responsáveis por simplesmente irem nas paradas de ônibus estão agora responsáveis por antes de tudo mapearem cada zona da cidade. Depois de mapeadas, então deverão ocorrer as referidas visitas esporádicas a elas, que devem acontecer no mínimo dez vezes por semana durante cinco semanas, para então os matemáticos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul entrarem em ação e elaborarem uma estatística confiável sobre quais são as paradas que mais recebem golfadas. Feito isso, procede-se, então para a coleta e degustação do material.

Sonhava seguidamente que não conseguia digitar as teclas numéricas do telefone público, seus dedos desesperavam-se na tentativa de discar um número com muitos cincos, e era a necessidade urgente de falar com alguém e encontrar a saída antes que conseguisse chegar atrás dele, mas os dedos erravam as teclas, e então tinha que abaixar o gancho do telefone com os dedos, e o sinal da linha voltar demorava, e ele errava tudo de novo, não conseguia ligar.

“Adivinha quem tá falando?”, perguntou Júlio em meio ao ruído do trânsito da Assis Brasil, apostando na possibilidade de que aquele telefone público velho e sujo funcionasse.

“É tu de novo, Júlio?”, perguntou a voz do outro lado da linha, em um nítido tom de preguiça e irritação, como se estivesse na verdade dizendo um puta merda, que droga, que saco.

“Sim, sim, sou eu de novo, como tu tá?”, perguntou Júlio em alto tom de voz, esforçando-se para que sua voz não fosse engolida pelo barulho de um ônibus que passava.

“Bem”, respondeu a voz do outro lado, sussurrando.

“O que tu disse, ein?”, perguntou Júlio já quase gritando, sem ter conseguido entender nada mais além de um mísero sussurro.

“Bem, eu tô bem”, insistiu a voz feminina do outro lado, com nítido desapontamento.   

Transcorreu um silêncio em que se podia ouvir, além dos sons do trânsito, o apito de algum azulzinho ao longe.

“Tu tá irritada, Liz?”, perguntou Júlio.

“Mas é claro que eu tô irritada”.

“Mas por quê?”

“Porque tu fica me ligando do nada”

“Mas é porque eu gosto de falar contigo”

“Hum”

“É sério, eu gosto de falar contigo”

“Tá bom, e tu quer o quê agora?”, perguntou Lizandra.

“Sei lá, eu só liguei pra falar contigo”.

Novo silêncio de ônibus e poluição. 

“Yu tá fazendo o que agora?”, perguntou Júlio, tentando imprimir um tom de cotidiano à pergunta.

“Nada de mais.”

“Mas nada de mais o quê?”, e Júlio sentiu que o tom de descompromisso que ele havia tentado imprimir à pergunta se esfacelava lentamente pelo chão do orelhão.

“Ué, nada de mais, poxa”.

Júlio olhava para os pequenos panfletos colados pelo lado de dentro do orelhão, “loirinha colegial e totalmente liberal, venha aqui e comPROVE você mesmo”, “ex-estudante universitária, 20 anos”, “temos as melhores garotas de Porto Alegre, ingresso 10.00 reais e ganha uma ceva grátis, Dr. Flores, no. tal”, “Búzios e tarô, mãe Nara de Xangô”, “trago a pessoa amada em dois dias (esse é o de verdade, não confie na concorrência)”, “destranco caminhos”, “pré-vestibular ENEM e UFRGS”, “seguro DPVAT”, “trabalhe em casa, o único e autêntico”, “Precisando de $$$$, a gente resolve, empresto sem consulta e à juros baixos” etc.

“Mas nada de mais como?”, insistiu Júlio.

“Ora, nada de mais, eu não posso fazer nada de mais?”

“Ué, claro que pode, Liz”

“Então por que é que tu tá me perguntando?”, perguntou Lizandra rispidamente.

“Ué, só por curiosidade”, disse Júlio tentando ser natural.

Houve um novo silêncio de rodas de ônibus.          

“Vai fazer o que no sábado?”, perguntou Júlio.

“Vou estudar”

“Vai ter prova de quê?”

“De química”

“Quando?”

“Segunda”.

“Eu posso te ajudar”, disse Júlio com convicção.

“Júlio, eu estou ocupada, preciso desligar”

“Bom, então tchau”, disse Júlio, como se não estivesse nem um pouco decepcionado.

Ele ouviu o barulho do telefone sendo posto no aparelho, e sorrindo afastou-se do orelhão, passando pela frente de um bar vazio com um homem na porta. Ele cumprimentou o homem com um balançar de cabeça, mesmo sem conhecê-lo, sendo isso somente mais um gesto para demonstrar naturalidade.

Como que lutando esgrima, na tentativa de atravessar para o outro lado da avenida, começou a perder vergonhosamente a luta contra os carros que fluíam às súbitas paradas pela Assis Brasil; olhou para os dois lados e reparou que estava exatamente entre duas sinaleiras, e a distância entre a da esquerda e a da direita era exatamente a mesma; porém resolveu, já que antes havia atravessado pela sinaleira da esquerda, atravessar dessa vez pela da direta, pois, afinal de contas, não havia diferença: as lojas de vendas de eletrodomésticos, de móveis usados e de roubas baratas infestavam a avenida.

Após todos os problemas numéricos terem sido resolvidos, haverá a necessidade de se saber qual a composição do material biliático. Já que, até essa etapa, os gastos já terão sido enormes, chegamos à conclusão de que o valor pago para que pessoas comuns experimentem o vômito é mais barato do que mandá-lo para qualquer laboratório de análise. Importante frisar que os degustadores, por assim dizer, devem ser pessoas comuns, recrutadas pela nossa equipe em meio ao povo: cartazes embaixo do camelódromo deverão ser suficientes para conseguir recrutar o número exato de pessoas, que deverão ser, exatamente, 50 porto-alegrenses. Esses cartazes não deverão ter uma aparência gráfica muito sofisticada, pois uma arte demoradamente elaborada e com textos sem erros de gramática poderia ter o efeito contrário e afastar o povo, que sabidamente gosta da ignorância. Há de se ressalvar que essas pessoas selecionadas deverão ser obrigatoriamente porto-alegrenses de nascença, não podendo nenhum deles ter se ausentado da cidade por um período maior do que três meses consecutivos; embora não acreditemos que as pessoas nascidas fora de Porto Alegre não sejam aptas a dar-nos resultados satisfatórios, com o intuito da máxima objetividade científica queremos que todas as pessoas selecionadas tenham nítida consciência do que é andar de ônibus em Porto Alegre, do que é ficar em uma parada esperando o ônibus. Além do mais, será necessário que nenhuma dessas pessoas – e nesse ponto não temos outra saída a não ser confiarmos em suas palavras – já tenha vomitado em uma parada de ônibus.    

Após ter sido elaborada essa etapa de degustadores das entranhas do estômago alheio, começará, enfim, a prova de testes. Uma pequena parte das amostras de vômito recolhidas pelo nosso pessoal deverá ser colocada em um pequeno recipiente plástico – na verdade, pequenos copos plásticos de café – e servida dessa forma aos nossos provadores que, já munidos de seus R$ 60,00 de pagamento, deverão iniciar o consumo. As salas em que ocorrerão a degustação já foram preparadas, e contam com: uma mesa de aço, cravada no chão; uma cadeira de madeira; uma lixeira vazia e uma pia com uma torneira com grande fluxo de água. Além disso, as paredes foram demoradamente pintadas de branco e um espelho falso foi instalado para que, disfarçadamente, o nosso pessoal possa observar a degustação dos candidatos. Sobre a mesa, haverá um formulário que conterá somente uma pergunta: “Qual gosto você está sentindo agora, com o vômito na boca? Escreva pausadamente TODAS as impressões”. Vale lembrar que todo esse lodo humano será armazenado em refrigeradores, com o objetivo que não se perca o gosto inicial – e essa medida é básica, pois seria praticamente impossível fazer, por mais bem pagas que fossem, com que as pessoas se ajoelhassem nas paradas de ônibus para provarem o vomitado.

Após todos os cidadãos porto-alegrenses inscritos terem comido a amostra, a equipe de estatísticos juntamente com alguns professores do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul trabalharão em conjunto com o objetivo de traçar parâmetros sobre o que foi escrito, os gostos que mais apareceram, as entrelinhas, os discursos por detrás da linguagem, o não dito escondido atrás do dito; lembrando que o objetivo dessa etapa é travar conhecimento sobre o que, especificamente, contém esses vômitos porto-alegrenses.

Observação importante: em caso de o número de candidatos ser superior às 50 vagas oferecidas, o critério de exclusão deverá ser: 1) os mais “morenos” – por estarem mais acostumados a comerem porcaria; 2) as mulheres – por estarem biológica e culturalmente predispostas a restos e 3) os católicos – por contentarem-se com qualquer coisa. Na verdade, o degustador ideal é, sem a mínima sombra de dúvida, as crianças de até 12 anos, pois estas apresentam sabidamente pouca experiência de vida; no entanto, a possibilidade de que apareçam candidatos dessa idade é mínima, mesmo sabendo nós que o contrário seria o ideal, que o perfeito seria haver salas e mais salas de piás porto-alegrenses com suas boquinhas cheinhas de vomitados a escorrerem por seus labiozinhos virgens e desconhecedores de ainda outras boquinhas, uns gurizinhos de apartamento incrédulos e humanos ao terem que colocar, obrigados por suas mães gordas de bolsas grandes e botas pretas a levarem para dentro de si algo que por conta própria foi rejeitado por outra pessoa, então toda a equipe ficaria olhando por detrás do vidro, todos sérios, científicos porém felizes, certos de que tudo aquilo era pelo bem da ciência, mesmo que todos nós estivéssemos cônscios, ao vermos as crianças se debaterem e vomitarem incessantemente pelo chão e pelas paredes impecavelmente limpas das nossas salas, que a atitude a ser tomada deveria ser de mandarmos pessoal nosso encapuzado entrar na sala e obrigar as criancinhas a comerem o próprio vômito, e de fato assim procederíamos se pudéssemos.

Mal conseguia acreditar que uma chance pudesse lhe ser dada assim tão de gratuitamente, afinal de contas Lizandra havia desligado o telefone em sua cara mais uma vez, mas era sempre assim mesmo, Júlio sabia que falar com ela não seria mais do que um grande sofrimento, ao final, mas uma esperança o dominava em caso de insuportável angústia e forçava-o a ligar para a casa de Lizandra; o celular Júlio nem tentava mais, pois sempre caía na caixa de mensagens, deixando em um estado de aflição pela quase total certeza de que o pedido de que deixasse o recado após o sinal era a confirmação de que Liz não queria ouvir sua voz, não tinha nada a falar com ele. Ele já havia dado o seu telefonema naquele dia, e convenceu-se de que não deveria voltar a pensar no assunto até o dia seguinte, que seria quando ele reavaliaria a hipótese de voltar a ligar para ela ou não, mesmo sabendo que voltaria a sentir a sensação de pânico quando ouvisse o sinal do telefone tocando e imaginasse que na casa dela aquele barulho estava sendo ocasionado por ele.

Os tênis de Júlio produziam um forte barulho a cada passo que davam no chão de cascalho quebrado do estacionamento, fazendo com que qualquer tentativa que ele fizesse de se aproximar da guarita do guardinha sem ser notado resultasse já antecipadamente inútil. Conforme caminhava, notou que os carros pareciam ainda mais brilhantes parados do que quando em movimento, como se o sol e o calor pudessem agir sobre eles realçando seus brilhos sem terem que se preocupar com o movimento: como seria estranho e revelador dirigir pelas ruas de Porto Alegre, como seria interessante estar do outro lado da história, e  não ter que se preocupar em ficar atravessando a rua, mas sim cuidar que ninguém se pusesse frente ao capô, as distâncias seriam ínfimas, os seus tênis durariam bem mais, não haveria a necessidade de provar com passos e dor nos joelhos que Porto Alegre estava muito longe de ser uma cidade muito grande, pois do Bourbon Assis Brasil até o Praia de Belas, por exemplo, consegui percorrer em uma hora e meia, e essa mesma distância, quando olhada em algum mapa da cidade, parecia monstruosa, denunciava que ele havia ido da zona norte à zona sul de Porto Alegre utilizando a própria força de seus joelhos, sempre vendo o gigantesco prédio no horizonte.

Um guarda de uns vinte e poucos anos, juntamente com um homem de uns 40, conversavam do lado de fora da guarita: o guarda com expressão de malandro e o homem aparentando ser um quarentão metido a jovem. Júlio já havia caminhado toda a parte de entrada do terreno e agora havia chegado à guarita branca:

“Opa, tudo bem?”, perguntou Júlio, tentando demonstrar coragem.

Os dois homens imediatamente interromperam o que estavam falando e responderam sua saudação ao mesmo tempo.

Júlio largou sua pasta no chão, agachou-se, abriu-a e disse, enquanto retirava um currículo e conseguia sentir os dois pares de olhos atentos a cada gesto seu, como se nenhum dos dois ali tivessem, e de fato não tinham, a mínima ideia do que queria Júlio.

“Posso deixar um currículo contigo, eu vi a placa ali na rua”, disse ele, estendendo um currículo ao guarda que, notou Júlio com muita certeza, forçava por meio de uma chiclete imaginário que mastigava uma certa malandragem que de fato deveria ter. O homem ao lado continuava assistindo à cena, sem se pronunciar, no entanto extremamente atendo a tudo.

“Um currículo, comigo?”, perguntou o guarda, sem entender.

“Sim, um currículo”, respondeu Júlio.

“Olha, isso não é comigo não, amigo, quem sabe tu passa lá na firma e deixa um lá, ela tem sede ali na Sertório, sabe?”, disse amigavelmente o guarda, olhando ora para Júlio ora para o homem ao seu lado.

Júlio ficou olhando para ambos enquanto a recomendação foi passada, e nesses poucos segundos tentou estabelecer uma coerência entre os fatos, mas não viu uma saída sequer:

“É que eu vi o anúncio ali fora, que dizia que tinha vagas para mensalistas”

Os dois homens se olharam, e quando os dois puseram cada um o seu par de olhos em Júlio, foi como se uma frieza de deboche e estarrecimento o atingisse por completo, reduzindo-o a um tamanho ínfimo, indo parar aos pés dos dois homens, perdendo-se lentamente entre os cascalhos do chão, imensas pedras que eram o obstáculo máximo que o impedia de voltar até a saída do estacionamento e sair dali o mais rápido possível.

“Mensalista é pra quem tem carro, não para quem quer trabalhar aqui, mensalista paga aqui, não ganha, entendeu, tchê?”, disse o homem que conversava com o guardinha, inclinando a cabeça para frente, demonstrando uma nítida descrença recheada de uma vontade de dar uma súbita explosão de gargalhada.

“Claro, claro, foi mal”, disse Júlio, pegando o seu currículo de volta das mãos do guarda que ainda o segurava sem nenhum tipo de entendimento.

Ele virou-se de costas e caminhou rapidamente sobre o cascalho duro até novamente encontrar a rua, sentindo por detrás de si uma gargalhada silenciosa que o atingia por completo, uma raiva de ter sido tão idiota, uma raiva de ter sido ele, com a sua voz, com a sua cara, com o seu jeito, que havia cometido aquele horroroso engano. Quando encontrou a calçada, virou aleatoriamente para a esquerda, indo em direção a uma sinaleira aberta  por onde passavam rápidos carros que nem mesmo em garagens precisavam ser colocados, pois muitos deles repousavam tranqüilos no subsolo de algum prédio, enquanto ele ali naquele calor confundia alhos com bugalhos, o cu com as calças – e a distância que havia entre o que ele acabava de ter feito e os carros que cruzavam a sinaleira verde era tão grande que Júlio teve vontade de simplesmente precipitar-se na corrente sanguínea da avenida mas também essa hipótese pareceu-lhe forçada demais, pois não havia outro remédio senão esperar a sinaleira fechar e a vergonha passar mas de subido lembrou-se do telefonema para Liz, do seu desprezo para com ele, e Lizandra e o estacionamento somaram-se um ao outro, sendo o resultado um mero zero que rolava pela tarde de Porto Alegre, um zero que não era o resultado nem mesmo de uma subtração, não era um cinco menos cinco, um quatro menos quarto: era simplesmente um zero, sem origem, sem preenchimento, como a própria forma de um 0, fora de qualquer equação, completamente sem rumo, um simples zero solto a rolar por Porto Alegre.

Após uns 20 minutos de caminhada, Júlio vislumbrou ao longe uma parada cujos ônibus que por ali passavam quase que invariavelmente o destinariam ao Centro, no terminal embaixo do camelódromo; lá chegando, subiria a Doutor Flores até à Salgado Filho onde iria para casa por meio de qualquer uma das linhas que passasse pela frente da PUC. Notou que havia caminhado boa parte da Assis Brasil, e que portanto já estava se aproximando do viaduto Obirici. Chegou perto da sinaleira e um frio correu-lhe por todo o seu corpo, contrastando fortemente com o calor daquela tarde, e o frio na verdade concentrou-se durante alguns segundos no abdômen para em seguida tomar a forma de uma saliva densa e insubordinada que regava a boca de Júlio como se por dentro dele um bueiro digestivo tivesse transbordado por uma chuva que ele mesmo não conseguia definir, mas poderia ser uma chuva de cansaço, uma chuva de realidade, uma simples chuva  de verdade cujos pingos densos agora queriam sair para fora: com passos lentos ele atravessou o corredor de ônibus, e, quando começou a entrar na sombra feita pela proteção da parada, seu coração bateu mais descompassadamente denunciando a consciência de um terror de uma vida de dentro que Júlio não controlava, não havia comido quase nada naquele dia, mas a náusea ganhava-lhe realidade como se infinitas baratas corressem por dentro do seu esôfago, e ele lembrou de um copo de leite que havia tomado logo cedo, de uma banana meio verde que havia comido logo em seguida e pensou qual seria a sensação se ele fosse obrigado a lamber o chão da Assis Brasil, a comer as bitucas de cigarro e a engolir as sacolas plásticas e outros diversos tipo de papéis que sujavam a avenida: não houve remédio senão Júlio fingir que lia um anúncio grudado clandestinamente na parada de ônibus, porém nada ele via, apenas entregou-se ao ato de contorcer-se para a frente, apoiar o peso de seu corpo com as duas mãos contra o largo cano gelado que servia como um banco de meia bunda para as pessoas, fechar os olhos e escutar-se momentaneamente metamorfoseado em um ruído de líquido sendo despejado ao chão, líquido que não combinava com o calor do asfalto, mas que no entanto não era um líquido que refrescava, mas sim um líquido de sopa viscosa sendo despejada no chão da parada, sujando inclusive o cano gelado. Júlio abriu os olhos e, ao deparar-se com o que havia feito, outra golfada ainda mais forte do que a anterior produziu uma espécie de cachoeira de vômito que encarregou-se de duplicar a área atingida pela golfada anterior, e duas estrela biliáticas, uma bem maior que a outra, ambas com raios de baba expandindo-se em todas as direções foram formadas. Ao abrir os olhos novamente, deixando de apoiar-se com as duas mãos no cano frio, Júlio pode ouvir a voz de uma criança pequena dizer que nojo mãe, o tio vomitou. Completamente atordoado e envergonhado pelos olhares que, tinha certeza, projetavam-se a no máximo cinco metros em sua direção, fez o caminho de volta e, de cabeça baixa e querendo encontrar explicações para o que tão subitamente havia acontecido, chegou ao outro lado da Assis Brasil. Inesperadamente invejou um vizinho seu, um homem enigmático de uns 30 anos que todas as tardes saía para caminhar. Ao longe viu um grande supermercado, e o seu primeiro raciocínio foi procurar um banheiro limpo para que conseguisse limpar um pouco a boca e recuperar a dignidade para consigo mesmo. O supermercado ficava uma quadra adiante, e Júlio deveria atravessar mais uma rua transversal à Assis Brasil, já no começo da subida do viaduto. Caminhou por alguns metros, sentindo-se fraco e nervoso, com uma certa vontade de chorar: assim que encontrasse um orelhão, usaria as últimas unidades para ligar para sua mãe e para Lizandra, contando tudo o que havia acontecido naquele dia. Recusou vários panfletos de moças negras e baixinhas e, quando chegou na rua transversal, o movimento de alguns carros fez com que parasse no meio-fio da calçada. Esperando, de cabeça baixa, ouviu o som de freada de carro que como que bruscamente parou em sua frente. Um homem, dirigindo uma van, fez um sinal para que Júlio se aproximasse. O homem dizia palavras em um tom de voz extremamente baixo, o que fez com que Júlio se aproximasse passo a passo da van. Quando chegou próximo ao homem, a porta de trás da van abriu-se e duas pessoas puxaram-no para dentro do veículo. A porta foi fechada rápida porém silenciosamente, e Júlio sentiu um silêncio e um ar-condicionado envolvê-lo ao mesmo tempo em que era envolvido por um completo não entendimento da situação, porque a pergunta não fazia sentido, um caleidoscópio de rapidez e exasperação, de completa rapidez e exasperação:

“Por quê, filho da puta, me diz por que tu vomitou, seu merda desgraçado, me conta por que esse vomitado, me conta, me conta”, disse um homem, segurando-lhe pelos ombros enquanto a van movimentava-se por ruas que ele não conseguia distinguir para além das copas das árvores de Porto Alegre.

Cristiano Fretta é mestre em Letras pela UFRGS, músico e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras “Chão de Areia”, “Tortos Caminhos” e “A luz que entrava pela janela”.

FICÇÃO

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