EXCALIBUR, por Milene Barazzetti

E passaram-se dias.

Quando a luz voltou, depois desse tempo, foi o momento de despertar de Esmeralda. Acordou com as lambidas de seu gato, companheiro de isolamento.

No início, com luz e internet funcionando, o isolamento foi saudável. Mas, depois de algumas semanas, alguns sistemas de gerenciamento de dados não conseguiram mais dar conta do recado. E a luz, sem a manutenção diária, também se extinguiu.

Restavam para Esmeralda os livros da sua biblioteca e o gato preto azulado com nome de espada. Excalibur a protegia e contava a ela tudo que via da janela. Naqueles dias, sem contato com as pessoas e com o mundo, foi ele quem a ajudou a manter a serenidade.

E, de repente, em um dia de sol, Excalibur puxou as cortinas da casa e ajudou o sol a entrar.

Esmeralda olhou pela janela e viu outros olhares nas janelas próximas. Todos espantados. Do lado de fora havia apenas os gatos, protegendo os arredores de predadores e do vírus epidêmico que causara tanta aflição.

Ela ficou ali, fitando os outros olhos, sem saber o que fazer. Queria falar e abrir a janela, mas não tinha coragem. Antes de ficar sem comunicação e luz, os números de infectados eram alarmantes. Já não se sabia mais quais os meios de prevenção, ou como o vírus se alastrava. A última informação era que o vírus se modificava a cada dia e ficava cada vez mais forte.

No início da pandemia atacou os humanos e os animais, mas depois, por mais incrível que pareça, os gatos se tornaram imunes – e algumas crianças também. Enquanto a população se preparava para ficar em casa por um tempo muito longo, os felinos começaram a se multiplicar pelas avenidas e ruas das cidades.

Através deles, as pessoas passaram a entender o que acontecia. Eram os bichanos que avisavam do perigo e evitavam que alguém abrisse a janela ou saísse para rua. Aqueles humanos que já conviviam com gatos tiveram maior facilidade em compreender a linguagem felina.

Esmeralda saiu atrás de Excalibur. Ele indicava o caminho. Ela andou pelo condomínio e o cheiro de hortelã invadiu suas narinas. Outros moradores tomaram coragem e também saíram.

Ainda tinham medo de chegar próximos uns dos outros.

Caminharam pela rua e a cada quadra muitos se juntavam a eles. As pessoas se misturavam com os gatos que viviam pela rua, e com os outros animais que agora também estavam livres novamente. Enquanto andavam, admiravam as plantas que haviam crescido entre as calçadas.
Eram enormes pés de hortelã, erva-doce, camomila, capim cidró, entre tantas outras. Todas gigantescas.

Esmeralda pegou Excalibur no colo e perguntou a ele o que acontecera. Ele contou na sua língua, agora entendida pelas pessoas:

– Ficamos somente nós. Precisávamos fazer algo para salvar o mundo e nossos humanos. Então plantamos todas as ervas que vocês usam como chás por todos os lugares em que passamos.

Todos admiravam as plantas e queriam saber, afinal, se estavam seguros.

Olhavam uns para os outros, ainda com medo, mas os felinos mostravam a eles que não tinham mais nada a temer naquele momento. Levaram alguns humanos até um carro onde havia algumas crianças e um jovem com avental branco.

Esmeralda perguntou a eles o que acontecera. E uma das crianças respondeu:

– Estávamos a procurar algo incrível. Uma cura, um alento, alguma coisa espetacular. Este jovem cientista, observando os felinos, descobriu um antídoto para toda essa epidemia. Foi através de um gato preto, que era imune. De seu sangue conseguiu retirar uma proteína que se espalharia, através do contato com outros gatos. Por isso, durante um tempo, vimos o número de gatos se multiplicarem nos arredores de nossas casas. Eles espalharam no ar o antídoto produzido através de uma gota de sangue de um único gato.

Alguém gritou do outro lado:

– Mas então não há mais perigo?

O jovem cientista respondeu:

– Perigo sempre haverá, se vocês não respeitarem as leis de convivência.

Todos começaram a questionar quais leis seriam essas, e impostas por quem. Já estavam prestes a brigar quando uma menina gritou:

– Parem! Já estão começando errado. A primeira coisa a fazer é abraçar quem está ao seu lado e ajudar aqueles mais necessitados.

As pessoas se olharam novamente, uma a uma. Naquele instante, começaram a se abraçar e a correr de um lado pra outro. Abraçavam-se, corriam e dançavam.

Enquanto faziam isso, outras pessoas restabeleciam a ordem no lugar, consertando aquilo que precisava ser consertado.

E assim, um novo mundo surgiu. Um mundo comunitário, onde todos se ajudavam, protegiam os animais e cultivavam plantas necessárias para restabelecer sua saúde.

Esmeralda abraçou Excalibur com carinho. Ele havia sumido por alguns dias durante a pandemia. Seria ele o tal gato preto que salvara a todos?

Nem precisou de resposta; ela sabia que sim.

Milene Barazzetti, natural de Porto Alegre –RS. Professora há 25 anos da Rede Pública da cidade de Novo Hamburgo – RS. Bacharel em Direito. Especialista em Psicopedagogia. Especialista em cultura afro-brasileira. Pós-graduanda em Literatura Infantil e Juvenil (UCS). Contadora de histórias em diversos eventos literários. Ministrante de oficinas de contação de histórias e mediação de leitura em escolas, instituições e na Livraria Paulinas de Porto Alegre – RS. É escritora e possui vários contos para infância publicados em diversas antologias brasileiras e portuguesas. Tem cinco livros publicados: “O Consertador de Coisas”, pela Habilis Editora, “No Mar de Aurora” e “Manual de Interação Monstruosa” pela Editora Acesso Popular, “Doutora dos Livros” e “Que Monstro, Menino?” pela Editora Alarte. Em 2013 recebeu o Prêmio de Destaque na 2ª Mostra de Contadores de Histórias da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre. Também no mesmo ano foi Finalista do Prêmio SESC de Contos Infantis Monteiro Lobato, com o conto “Mary e Fred”. O livro “O Consertador de Coisas” foi finalista no Prêmio AGES- Livro do ano, em 2014. Nesse ano também teve o conto juvenil “O sonho”, publicado no livro “Assombros Juvenis IV”, proveniente de concurso, pela parceria da AGEs e CORAG. No ano de 2015 foi patrona da Feira do Livro da Novo Hamburgo. É integrante da AEILIJ. Foi também Vice-Presidenta Cultural da AGES – Biênio 2017/2018. Em 2016 participou do concurso “Poemas no ônibus e no trem” da prefeitura de Porto Alegre com a classificação do poema “Andorinhar”. Em 2017 participou como palestrante do 1º Seminário Internacional de Contadores de Histórias de Caxias do Sul e do X Seminário “A arte de contar histórias” da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. Também é integrante da RED (Rede Internacional CuentaCuentos). Em 2018 participou da Maratona de Contadores de Histórias de Caxias do Sul e teve o conto “A Casa dos Avós”, selecionado para a Coletânea Infantojuvenil “Com o pé na terra”, da Editora Caleidoscópio, uma publicação do Mulherio das Letras.

FICÇÃO

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