MARIA GRAZIA NAPPA: ALGUNS POEMAS TRADUZIDOS E UMA ENTREVISTA, por Paulo Damin

Maria Grazia Nappa (Caserta, Itália, 1985) estreou na literatura em 2018, com a publicação de um livro de poemas chamado Le brutture dei cuori scalzi (“As feiuras dos corações descalços”). Em 2019, lançou Nata intera (“Nascida inteira”), também uma coletânea de poesias. Publicou em diversas revistas, como ClanDestino, 900 letterario e La lettura. Organizou com outros poetas eventos culturais em Caserta e participou de saraus nas cidades de Napoli, Milão e Florença. Alguns textos seus foram traduzidos para o espanhol e, agora, apresentamos alguns poemas dela em português brasileiro, seguidos por uma entrevista exclusiva. Esses poemas foram extraídos do livro La grazia degli invisibili (“A graça dos invisíveis”), publicado recentemente na Itália.

A poesia da Maria Grazia Nappa é feita de imagens incisivas, nessa forma consolidada que absorveu as vanguardas do século XX (o simbolismo, o surrealismo, o modernismo) e que hoje é reconhecida simplesmente como poesia. São as imagens que sustentam os versos da poeta: ela não parece se preocupar com contar sílabas ou tramar rimas: se ocorrem rimas, me disse ela, é por puro acaso. Esses acasos, no entanto, ocorrem com frequência; vai ver porque a Maria Grazia perambula há tempo suficiente no reino da poesia e internalizou seus ritmos (os dela própria e os da poesia, aqui coordenados) – e as rimas, nesses acasos, muitas vezes por inversões sintáticas, geram ecos que dão esse ar oracular aos versos dela.

Como toda tradução, esta também nasceu da vontade de favorecer um diálogo, de ajudar a criar um público leitor e fazer ver como gente que nem nós está fazendo literatura em outros pagos. Neste caso, o diálogo aqui é entre literaturas marginais no contexto global, com sólidas e inventivas tradições poéticas, que tantas vezes aprenderam reciprocamente pela tradução. É sempre curioso reconhecer como o português e o italiano estão próximos e a poesia é uma das vias mais divertidas e bonitas quando queremos fazer essa visita.

Vorrei

risvegliarmi tra le tue orchidee,
abbandonarmi
sopra la pianta grassa dei tuoi pianti.
Arrivare in tempo a medicare le foglie:
tue radici.

Sarei già appassita da un po’
senza il tuo fiorire.

Gostaria

de acordar entre as tuas orquídeas,
abandonar-me
sobre a planta gorda dos teus prantos.
Chegar a tempo e medicar as folhas:
tuas raízes.

Eu já estaria murcha há dias
sem o teu florir.


Abbassare le difese

Ho bisogno di poetare sino al crepuscolo,
cucirmi addosso
il rossore del sole d’agosto.

Come il raggio di luce,
desidero inizi incerti ed epiloghi brevi.

Quest’anima sventurata è acqua corrente
mossa dai ghiacciai.

Abaixar as defesas

Eu preciso poetar até o crepúsculo,
costurar-me em torno
o rubor do sol de agosto.

Como o raio de luz,
desejo inícios incertos e epílogos breves.

Essa alma desventurada é água corrente
solta dos glaciares.


Nostalgia

Una chimera inaspettata
temo all’orizzonte.
Per tale inganno
che nel fremito trova riparo,
ridurrò l’arrendevole, tenero cuore
alla sedentarietà;
bambinesca
appare l’immagine sua
al cospetto della luna.

Temo e desidero il peggio:
ridurmi all’animalesca nostalgia
per sempre.

Nostalgia

Uma quimera inesperada
temo no horizonte.
Por esse engano,
que no arrepio encontra amparo,
reduzo o adaptável, tenro coração
à sedentariedade;
infantil
aparece a imagem sua
diante da lua.

Temo e desejo o pior:
reduzir-me à animalesca nostalgia
pra sempre.


Primavera

Infine tardò la primavera
scomposta su profumi di neve,
fra nuvole d’amaranto
la primavera tardò.
Cavando dai rigidi pini
un fumo tinto di bianco,
coi primi ciliegi
il fumo,
e i pini, scoperti,
tacquero in una lirica breve.

Si cresce tacendo
nella parola tagliente, esplodendo,
petali avvolgeranno
i secchi rami.

Primavera

Enfim demorou a primavera
desfeita em perfumes de neve,
entre nuvens de amaranto
a primavera demorou.
Tirando dos rígidos pinhos
fumaça pintada de branco;
com as primeiras cerejas,
a fumaça
e os pinhos, descobertos,
calaram em lírica breve.

Se cresce calando
na palavra cortante, explodindo;
pétalas envolverão
os secos ramos.


Risveglio

Nei foschi meriggi
l’ansia apre varchi rocamboleschi.
Fischiano i merli: aerei poetici
nei dintorni degli arcobaleni.

Dal tempo in cui insorse un’infernale fobia
risorge puntuale la sanguisuga
che l’esile corpo
affievolito ma teso,
prosciuga.

Le ore si addentrano solide
come dune nevose.
Accetto i giorni sbiaditamente uguali
accetto la colpa,
l’unica colpa che a stento confesso:
varcare faticosamente i campi della fioritura.

Despertar

Nos meios-dias foscos
a ânsia abre vãos rocambolescos.
Assobiam os melros: aviões poéticos
no entorno do arco-íris.

Do tempo em que insurgiu uma infernal fobia
ressurge pontual a sanguessuga
que o exíguo corpo,
esmorecido mas teso,
enxuga.

As horas adentram sólidas
como dunas de neve.
Aceito os dias desbotadamente iguais,
aceito a culpa,
a única culpa que, a custo, confesso:
atravessar arduamente os campos da floração.


Fine settembre

È spuntata una nube
a lanciare dall’alto le stelle.
Smuove la folta criniera
l’ammasso di luce,
esplosiva fredda d’acciaio
la quiete armonica
che sugli alberi scuri riposa.

S’affaccia come una peonia tra mille,
lo splendore della cupola celeste,
gli spiriti sopra le teste,
infine i sepolcri su settembre,
e una regale apatia
sul volto tuo assente.

Fim de setembro

Despontou uma nuvem
que lança do alto as estrelas.
Mexe a vasta cabeleira
o maço de luz;
explosiva fria de aço
a quietude harmônica
que sobre as árvores escuras repousa.

Se mostra como uma peônia entre mil
o esplendor da cúpula celeste,
os espíritos sobre as cabeças,
enfim os sepulcros em setembro,
e uma real apatia
sobre o teu vulto ausente.


Entrevista

Como foi a tua formação literária?
Ou seja, o que tu leu que te marcou mais e por quê?

Me marcam, desde sempre, os poetas menores, muitas vezes ridicularizados, que propõem linguagens novas; visionários.

Autores cuja vocação superou o julgamento dos outros e cuja condenação não os impediu de abraçar a poesia. Existências vividas na sombra, iluminadas, no entanto, por uma luz decadente, expiadas pela palavra, exumadas pela força criadora da poesia.

O momento mais marcante eu vivi com Dino Campana.

O que é preciso para se tornar poeta?

Estar predispostos à busca. Ler, se exercitar, testar, não se deixar consumir pela pressa.

Canalizar os medos que nos tornam inválidos, direcioná-los, aceitando a provável sensação de vazio que se pode encontrar, conscientes do dom recebido.

Eu agradeço a vida todo dia.  


Como se faz pra publicar um livro de poesia na Itália?
As pessoas em geral precisam pagar as editoras para serem publicadas?

Alguns pagam, outros não. Depende.

Existem na Itália muitas editoras que não cobram e que funcionam muito bem, são criativas e corajosas. A que me publicou, por exemplo, Carta canta editore.

Quem são os teus leitores? Tu poderias descrever
algum perfil de gente que te leu e que fez
algum comentário sobre teus versos?

Quase que só mulheres. Devo muito a elas. Algumas me apoiam há anos. Realmente, me sinto muito ligada a todas elas.

Tu conheces alguma coisa da literatura sul americana
(ou mesmo da cultura sul-americana em geral)?

Júlio Cortázar, o imenso Borges, Neruda, Alejandra Pizarnik. E muitos outros.

Que autores italianos o resto do mundo deveria sem falta conhecer?

A lista seria longa. Os meus cinco são: Petrarca, Dino Campana, Alda Merini, Claudia Ruggeri, Amelia Rosselli.


Fala pra nós um pouco sobre o que tu busca quando tu escreves:
quais são as tuas inquietações, as tuas alegrias?
O que precisa ter (como deve estar
)
uma poesia tua pra que tu diga “É isso aí, está pronta”?

O tempo em que eu me limitava a escrever por simples necessidade terminou. As dúvidas se insinuam como fantasmas. Só que nunca me incomoda essa espera perene e muitas vezes disfuncional porque, olha, quando aquela inspiração incontrolável chega, eu existo. Me reconheço.

Paulo Damin é de Caxias do Sul, RS. Além de traduzir, escreve literatura. Publicou os romances “Estudo de causo” (2015, Ed. Penalux) e “Adriano Chupim” (2021, Ed. Martins Livreiro). Contato: paulodamin@inventati.org

POESIA

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