MEMORIAL ESCRITO NUM QUARTO DE HOTEL, por José Eduardo Degrazia

1

Lembras daquele hotel no centro de La Paz
onde fiquei sozinho depois do soroche e das cervejas
que tomei pensando no trem que dava voltas
desde o alto para entrar na estação da cidade?
Parece que ainda hoje estou ali e a febre bate
nas minhas têmporas como o vento nas vidraças.
Parece que desde aquele inverno eu te perdi.

2

Outra maneira de sentir foi abrir a janela
para a avenida Merulana e descobrir o amanhecer em Roma.
O velho hotel rangia suas escadas de madeira e estalava
feito um coração que batesse sozinho na cidade eterna.
Nunca te disse, mas me fazias falta naquele momento
em que eu estava sozinho diante da beleza do mundo.

3

Desci para o rumor da Broadway desde o meu hotel limpinho,
e no primeiro bar pedi um uísque com gelo e um pouco de ternura.
Perto dali John Travolta dava uma entrevista rodeado de fãs,
na frente do teatro uma atriz caminhava na calçada meio que dançando
e ia para o trabalho num grande musical onde ela fazia uma ponta
mas bastava e ela era feliz e namorava o palhaço da trupe.
A moça do bar pergunta se eu quero mais gelo e eu respondo
que quero mais calor, mais uísque, mais ternura,
e ela gentilmente, com um sorriso triste, me empurra a garrafa.

4

Era um hotel na beira do mar Báltico e eu nem sabia bem
o que estava fazendo na Finlândia além de viver o verão nos parques.
Do hotel dava para ver o mar e os barcos e eu estava sozinho
como sempre estive em muitas cidades que já nem lembro.
A moça loira falou do calor que estava fazendo e abriu uma cerveja gelada, e eu fiz um brinde para o poeta desconhecido de Helsinque.

5

De todos os hotéis o mais bonito foi aquele em que fizemos amor
enquanto nevava na cordilheira dos Andes e o vento uiva como um cão em Cuzco.

6

Nem sempre estou sozinho nos hotéis onde me hospedo em cidades antigas
à beira do mar, no sopé das montanhas, no meio da terra desconhecida.
Abro um livro de poesia de poetas locais, amigos de antigas cartas,
e sinto o teu corpo que se aninha ao meu lado como se fosse num outro mundo.

7

Aquele hotel de luxo onde fomos parar em Washington tinha hospedado
[os Beatles
e tinha flores por todas as salas e grandes candelabros de cristal
[e taças de champanhe,
e brindamos ao amor que parecia dançar a música dos rapazes de Liverpool que nunca tocaram assim, como nunca nós nos amamos tanto.

8

Uma noite num hotel de Havana na beira do Malecón escutei o mar
que salpicava a calçada com a branca espuma de sua solidão,
e ali eu estava outra vez sozinho bebericando rum e olhando a noite
e moças passavam em frente ao hotel e fumavam cigarros baratos
e eu sabia que era apenas mais uma despedida.

9

Um hotel de longos corredores na minha infância
onde trens apitavam desesperados para soltarem as distâncias,
ali, eu sei, marcou-se o meu destino de viajante e peregrino,
naquela cidade do interior do meu país entre a montanha e o pampa,
e desde então subi naqueles trens noturnos que me levaram
cada vez mais para longe de ti e de mim.

10

E desde sempre fui habitante de trens e de hotéis perdidos,
e neles habitei a minha poesia e o amor que tive um dia.

E num quarto como este igual a tantos outros
escrevo este memorial a quem interessar possa.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Publicou dezenas de artigos e crônicas em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem malesOs leões selvagens de Tanganica e e Deus não protege os certinhos. Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos.

POESIA

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