O PAR DA NEGRA DIRLEI, por Myrian Beck

A carroça do leite atingiu sua anca e aleijou-lhe o prumo. A negra Dirlei ficou caminhando assim, a coitada. Triscava a estrada com o pé direito, dando um volteado meio bobo no ar, para endireitar-se com ajuda do esquerdo e seguir adiante.

– Aqui tá fundo aqui tá raso, gritava a gurizada em coro ao ver a Dirlei passar.

Primeiro, embrabecia. Depois, deixou de ligar; nem bola pra crueldade infantil. Lá se ia num esforço de manter o corpo esticado com a cabeça em direção ao céu. Nela, equilibrava uma trouxa. Rumava para a sanga todo o santo dia, a Dirlei. Vivia disso. De lavar a roupa alheia.

Lençóis com manchas secretas, bombachas com cheiro de macho, toalhas, fralda cagada, e ela ali, dê-lhe sabão caseiro de soda e graxa de chancho; dê-lhe mergulhar pano no riacho que também serve pro banho; bota mais força, ô, Dirlei, até esfolar os dedos no improviso da tábua; até imolar os joelhos na eternidade das pedras. Até ficar tudo limpo. Quara. Torce. Dobra.

Peça por peça, separando as brancas. Depois, é voltar com a montanha na cabeça e a cabeça enterrada no pescoço. À tardinha, quando ninguém lhe intica. Aqui tá fundo, aqui tá raso, diz sozinha pra si mesma. O refrão assimilado dá ritmo à marcha capenga.

Na encruzilhada, resistindo aos danos do tempo, a bodega do seu Zé Bolacha. Ela cumprimenta quem está na porta (taarde!!) para depois seguir direto. Bolicho é coisa de homem, dizia a finada mãe, e em casa tem muita lida.

Em casa, viste? Lugar de mulher decente. Mas naquele dia, tu sabes, naquele dia a Dirlei estava envaretada. A dona do vestido de renda, que mora na última quadra da Pinheiro Machado (passando os trilhos, rumo à cancha reta), havia lhe cuspido na cara! Não aprovara o serviço. Ah, mas ela aguentou o desaforo assim: trabalhou o dia todo, remoendo a humilhação; rezou miles de painossos enquanto escalpelava os dedos na lida. Sem consolo. O cuspe da galega escorreu pro coração.

Daí que, de tardezinha, na volta, respirando fundo com aquele peitão dela que se encheu de brisa (lá dentro uma tristeza miúda), entrou na venda e foi logo pedindo um naco de fumo grosso e canha da branca.

– Pra já ou pra levar? Estranhou o bodegueiro.

– Pra jazinho, seu Bolacha, e palha pro pito, também. E resolveu se aboletar.

Eu vi do fundo. Era eu, a Dirlei e o Zé. O dono.

Vê bem como é a vida. Ela queria esfriar a cabeça, aliviar-se do peso da trouxa, dar um alce na rotina, sei lá; queria descansar e pronto, ficar ali, mirando o sol se indo, os quero-queros no pasto em busca dos ninhos dizendo quero-quero; tudo tão lindo e ela também queria e fechou um palheiro e deu um gole dos grandes e alas fresca que troço forte, seu Bola, credo!

– Pois tu não és do negócio, ô, Dirlei, tonces, tu não te passa, disse o dono da venda se aprumando feito um galo, por detrás do seu balcão.  O flanco torto da Dirlei a latejar, acho que vai chover, putcha la vida que me dói, e esfregava com força o lado ruim do corpo tentando livrar-se da dor.

Lá fora, os sapos e os grilos festejam a noite que chega com singelos alaridos; os vagalumes são estrelas pequeninas rente ao chão. A harmonia do pago pinçada naquele instante de a gente se apaixonar:

– Sirva mais um aqui, seu Zé!

– Ô, Dirlei, criatura do céu, tu já vais pro quinto liso de canha. Pega o rumo das casa…

Mas, pra quê! A cara da lavadeira ganhou uma tal expressão… parecia incorporada. Arqueou as sobrancelhas buscando foco no olhar; girou a cabeça pro lado feito quem vai vomitar e soltou o verbo:

– Eu já vou pro quinto trago, vivente, e tu vai pro quinto dos inferno, carajo, serve aqui que eu tenho prata e tô pagando!

E endireitou um pouco a pose, repetindo a cochichar … eu trabalho e tô pagando … A voz embriagada começou a implorar vai seu Bola, por obséquio, eu… Então, arregalou uns olhos de revelação, EU LIMPO A PORRA DO MUNDO e esmurrou o tampo tosco a sua frente, deslocando uma das pernas da mesa. O que tinha apoiado ali rolou frouxo e foi pro chão. O Zé alisou o bigode, prevendo uma situação. Dois… três segundos suspensos … ninguém fala. Nem encara. Olhos no teto. No nada.

De repente, ouvimos bem alto um brado de aqui tá fundo! e uma baita gargalhada da Dirlei. Levantou-se num rodopio improvisado e então tirou a mesinha perneta pra dançar. Juntou-a com as mãos, encostando o tampo ao peito (mãos porrete que bate e pendura) e os dedos cruzando por baixo (ganchos que impõem mergulho), apontando as três pernas inteiras e a destroncada pro ar. Foi valsando, valsando a cantarolar o seu aqui tá fundo, aqui tá raso, deixou o peso morto da trouxa limpa pra trás e se enfurnou noite adentro, na companhia da mesa. Na estrada, colocou-a sob o domínio da cabeça e apurou o descompasso do andar:

– Vem me pegá se tu é home, Zé! … Zé que dá o cu por bolachaaaa!, e soltou outra gargalhada.

Depois, não se ouviu mais o tal refrão. Adiante da cancelinha, sumiram na noite sem lua. A negra Dirlei, faceira, finalmente tinha um par.

Myrian Beck foi ghost writer por mais de duas décadas, produzindo discursos, relatórios, palestras e artigos jornalísticas. Myrian Beck é formada em Filosofia pela PUC/RS, com especialização em Axiologia, e servidora concursada do Senado da República. Participou da Antologia de Poetas Contemporâneos do Rio Grande do Sul e por alguns anos publicou semanalmente contos no site Via Política, livre informação e cultura. Myrian fez da escrita um oficio que a projetou na área de comunicação no meio político e que a consagra no meio literário, como contista e poeta.

FICÇÃO

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