UM ANÚNCIO NOS CLASSIFICADOS, por Maristela Scheuer Deves

É madrugada. A casa está silenciosa. Mas não confunda essa quietude com paz: o silêncio pode ser bem mais inquietante do que os sons. Até porque os sons chegam da rua – agitação, carros, movimento, vida. E esse excesso de silêncio aqui dentro, que contrasta com a vida que pulsa lá fora, perturba. Tem outro significado. Estou aqui trancada no meu quarto, fechada à chave, embora o resto da casa esteja quieto e vazio.

Ou não estará tão vazio assim? Apuro os ouvidos. Não, o pior não é ouvir algo; o pior é suportar o silêncio. Que saudades de quando não havia o silêncio, a solidão. Que saudades de quando havia companhia, conversa, risos, gargalhadas. Agora, parece que faz tanto tempo, mas não foi há tanto tempo assim. O riso existia, até aquela manhã fatídica em que resolvi colocar um anúncio nos classificados.

Nunca, antes que tudo acontecesse, imaginei que quatro ou cinco linhas escondidas no meio de um jornal pudessem ter um efeito tão devastador. Nem mesmo agora, depois de ter sofrido na pele as consequências da minha boa-fé, consigo acreditar inteiramente que foi verdade. Afinal, como pode ter sido possível?

Tudo começou quando uma das garotas com quem dividia o apartamento resolveu mudar-se para outro estado para se casar. O aluguel, devido à localização privilegiada e ao tamanho do imóvel, era muito alto para dividirmos apenas entre duas, e resolvemos colocar um anúncio nos classificados: “Procura-se moça para dividir apartamento central, mobiliado, com quarto individual. Tratar pelo fone…”

Como esperávamos, choveram ligações de pessoas interessadas. Descontados os homens que ligaram – apesar de o anúncio dizer “moça”, alguns insistiam para que abríssemos uma exceção –, ainda sobraram umas sete ou oito candidatas que ficaram de aparecer entre aquele dia e o seguinte para dar uma olhada no local. Satisfeitas, eu e Ieda, minha colega de moradia, nos revezamos para atender a todas: ela ficaria em casa naquela manhã, e eu, à tarde.

Qual não foi minha surpresa ao chegar em casa, ao meio-dia, e descobrir que ninguém que marcara aparecera até então. Algumas tinham ligado desmarcando, ou jogando a visita para a tarde, e duas sequer tinham dado satisfação. À tarde, tudo se repetiu. Ou a interessada descobria que tinha um compromisso não lembrado, ou surgia um empecilho de última hora, ou simplesmente não aparecia. O mesmo aconteceu no dia seguinte, e no outro também. Resolvi repetir o anúncio no sábado, rezando para que dessa vez desse tudo certo. Afinal, os dias iam correndo, e o aluguel também…

Quando o telefone tocou no sábado cedinho, corri atender. Ao ouvir uma voz desconhecida do outro lado, cruzei os dedos na torcida. Seu nome era Luíza, e queria ver o apartamento. Tinha pressa em encontrar um lugar, estava vindo de outra cidade, com emprego arrumado, começava na segunda-feira. Será que poderia vir naquela manhã, não seria incômodo para nós? Quase pulei de alegria ao desligar, e prometi comparecer na missa no outro dia se tudo ficasse acertado com a nova inquilina.

Se eu tivesse pensado, então, naquela frase que diz para termos cuidado com o que pedimos, pois podemos ser atendidos! Agora, penso que teria sido melhor eu e minha amiga termos dividido o aluguel apenas entre nós. Teríamos saído da história com menos prejuízos – financeiros, físicos e mentais. Mas, naquele momento, minha única preocupação era preencher o lugar vago. Quem me dera a preocupação tivesse continuado essa!

No almoço, abrimos aquela garrafa de vinho guardada há tanto tempo. Afinal, depois de dias de angústia, precisávamos comemorar. Luíza se mudaria naquela tarde mesmo, já tinha mandado buscar as coisas que estavam na casa da tia, numa cidade vizinha. Aproveitamos o dia livre e demos uma “geral” na casa para deixá-la brilhante para a chegada da futura colega. Até flores nós colocamos no vaso da sala. Hoje eu sei por que elas murcharam tão rápido…

Tudo correu como nós esperávamos. Pelo menos – e tão somente, devo confessar – naquele primeiro final de semana. A nova moradora apareceu no final da tarde, trazendo suas coisas. Com a bagagem, trouxe também uma profusão de enfeites exóticos, que iam de arranjos com cabeças de alho a cristais e queimadores de incenso. Mesmo não gostando do cheiro desse último produto, fiquei na minha; afinal, precisava que ela ficasse, e desde que queimasse os ditos no seu quarto, não teria por que me incomodar. Se ao menos eu desconfiasse!

Menos de uma semana se passara quando os problemas começaram – leves, a princípio. Na sexta-feira seguinte, a Ieda me ligou, furiosa, dizendo que a outra tivera a cara de pau de lhe dizer que não gostava de visitas entrando e saindo de casa – e isso só porque Ieda estava por receber os pais, que viriam de sua cidade natal para passar ali um feriado. Suspirei e sugeri que não lhe desse importância, afinal, uma recém-chegada não poderia começar a ditar as normas da casa.

Nos dias seguintes, entretanto, o clima tornou a esquentar. Primeiro foi a reclamação da Ieda de que a Luíza estava deixando a casa impregnada de cheiro de incenso. Logo a seguir foi um cartaz manuscrito pela Luíza, pregado na parede do banheiro e pedindo que, por favor, não deixássemos mais o tapete do banheiro virado. Seguiram-se as velas acesas pela casa, mesmo quando ninguém estava por perto para cuidar (“Vai incendiar tudo, pelo amor de Deus!”, dizia a minha colega mais antiga, querendo apagar tudo de uma vez). “Isso vai passar, é só uma fase, as coisas vão melhorar”, eu pregava a mim mesma – sem, contudo, conseguir me convencer.

Um mês já se passara e eu estava com os nervos à flor da pele. Se aquelas duas continuassem a brigar, eu ia acabar botando as duas para fora de casa, ah, se ia! Mas, se eu pensava que as coisas estavam ruins, descobri que ainda podiam piorar. O cúmulo foi quando fui chamada na portaria do meu local de trabalho, certa tarde, para atender a Ieda – que, aos prantos, dizia que não voltava mais para o apartamento porque a outra a acusara de cortar em pedacinhos as roupas que estavam no varal.

Pedindo paciência aos céus, consegui dispensa do serviço para ir mais cedo para casa resolver a questão. Lá, Luíza esperava com toda a calma – e com uma blusa aos frangalhos, como prova – para reafirmar que a Ieda (ou seria eu?, questionou) detonara suas roupas. Motivo? “Inveja, ou drogas”, esclareceu. De nada adiantou tentar argumentar que ninguém fizera nada, que eu conhecia Ieda há anos e que colocaria a minha mão no fogo por ela.

Eram as drogas, Luíza insistia. Que drogas, pelo amor de Deus?, eu quis saber. Ora, desde que chegara no apartamento tinha sentido o cheiro de éter, e sabia bem o que era aquele pozinho branco que encontrara num canto… Não aguentei mais. “Ora, o único pó que tem pelos cantos é a cinza dos teus incensos!”

Foi tocar numa ferida. Pois então, nós não gostávamos do seu incenso? E quem é que andava apagando as velas que ela acendia? Será que não víamos que o apartamento estava carregado, precisava ser limpo do que tinha de ruim? Segurei-me para não dizer o que pensava, respirei fundo e declarei que, se tinha algo de errado com o lugar, que os incomodados se retirassem. Nós queríamos paz, que era o que tínhamos antes dela chegar.

Horas de discussão depois, chegamos a um acordo: ela ficaria somente até o próximo final de mês, para ter tempo de conseguir um novo lugar, e então se mudaria. As coisas pareciam que finalmente iriam se ajeitar, e eu passei logo a procurar uma nova companheira. Menos de uma semana depois, no entanto, veio a bomba: Ieda perdera o emprego, e, sem dinheiro, precisaria voltar para a casa dos pais.

Cansada, deprimida (justo ela, que sempre fora uma pessoa que transpirava alegria), até mesmo um pouco mais magra, minha amiga mudou-se quando o mês terminou. Como resultado, acabei aceitando que Luíza continuasse mais um tempo, pois só conseguira uma outra inquilina, e, se ela saísse, precisaria de duas. O único lado bom – ou foi o que eu pensei então – foi que Luíza parecia aceitar melhor Angelise, a minha colega de trabalho que viera morar conosco.

Mas se eu esperava que as coisas se acalmassem, enganei-me redondamente. Em poucos dias o namorado de Angelise, Roberto, virou o novo alvo. “O que é que ele faz aqui o tempo todo?”, reclamava Luíza, em princípio para mim. Poucas semanas depois, Angelise veio até mim relatar que encontrara, no canto do seu quarto, incenso queimado. “Tudo bem que ela seja mística e use incenso, mas no meu quarto? Por que não faz isso no dela?”, indignou-se. E a confusão estava armada novamente.

Nesse meio tempo, recebi uma notícia que me deixou triste e afastou os pensamentos dos problemas domésticos: Ieda, a amiga que se mudara há menos de um mês, estava no hospital. “Ninguém sabe o que ela tem”, contou-me sua mãe, que ligou para dar a notícia. Simplesmente emagrecera e emagrecera depois de perder o emprego, e só chorava pelos cantos. Fui vê-la, mas não pudemos conversar porque ela delirava de febre. “Chama muito por você e pede que tenha cuidado”, relatou o pai, sem saber explicar a que cuidados a filha se referia – alucinação causada pela febre, provavelmente.

Em casa, além das já corriqueiras brigas, outra coisa ia mal: minhas flores, cultivadas com todo o carinho, haviam começado a murchar e não havia jeito de recuperá-las. E para completar a fase ruim, uma noite Angelise chegou e relatou que fora despedida. Não iria embora imediatamente, mas, se não conseguisse outro emprego nas próximas semanas, seria obrigada a fazê-lo.

Sem acreditar na sequência de maus momentos, tomei uma decisão. Fui à igreja e pedi ao padre um vidro grande de água benta. “Preciso benzer o meu apartamento, padre”, expliquei. Chegando em casa, passei de cômodo em cômodo aspergindo a água. Só não consegui entrar no quarto de Luíza, que estava fechado à chave. Tentei novamente no dia seguinte, bati na porta, chamei, e nada. Uma semana depois, sem ter notícias da colega, eu e Angelise resolvemos tomar uma medida drástica: arrombamos o quarto.

Lá dentro, o vazio. Não havia ninguém. Nem nada. Nem Luíza, nem uma cama, nem uma peça de roupa, nem o dinheiro do aluguel que venceria em poucos dias. Apenas um incenso ardia no canto, já quase no final. Entreolhamo-nos sem saber o que fazer, mas aliviadas. Quando vimos, falamos quase ao mesmo tempo: “Agora, vamos ficar só nós duas”.

Benzido também aquele quarto, agora deixado vago, as coisas pareciam ter melhorado. Angelise foi chamada para uma entrevista de emprego, e esperava a resposta para dali a poucos dias. Luíza não dera mais sinal, nem atendia ao telefone. Preferi perder o dinheiro do aluguel a incomodar-me mais, e resolvi deixar as coisas assim mesmo.

Mas não estava tudo acabado como eu pensava. Dez noites atrás, acordei com um estranho silêncio na casa. Por baixo da porta do quarto, uma luz se infiltrava. Levantei e fui até a sala. Uma dezena de velas, de todos os tamanhos e cores, ardia no cômodo. Paralisada, dei um grito. Angelise acudiu, e, à luz das velas, pude ver seus olhos fundos de choro. Não, não fora ela quem acendera as velas. Estava deitada desde que chegara em casa, após receber um não da empresa na qual esperava trabalhar.

Mandamos trocar as fechaduras das portas – só então nos lembramos de que Luíza não devolvera as chaves. Mesmo com a troca, não conseguimos nos acalmar. Acabaram as conversas animadas antes de dormir. Começamos a ficar nervosas com cada barulho estranho no meio da noite. Ontem à tarde, ao escavar os vasos de flores para colocar adubo e ver se as plantas reagiam, Angelise encontrou enterrados vários papéis. Com os nossos nomes, e o de Ieda, escritos e riscados.

Precisei deixar minha amiga em uma clínica, para que se recuperasse do ataque de nervos. Não, não foram só as velas ou os papéis que causaram a sua crise. Foi a notícia, que chegou à noite, de que Ieda morreu no hospital. Ninguém sabe de que. E agora Angelise está internada, chorando copiosamente. E eu estou aqui, trancada no meu quarto, embaixo das cobertas, sem conseguir dormir. Atenta ao menor ruído. Ou ao silêncio que cai sobre a casa, e que eu preferia que fosse cheio de sons…

Maristela Scheuer Deves é jornalista e escritora, especialista em Leitura e Produção Textual pela UCS é mestre e doutoranda em Letras – Escrita Criativa pela PUCRS. Autora do romance policial A Culpa é dos Teus Pais, dos livros de mistério infanto-juvenis O Sumiço das Bergamotas e O Caso do Buraco e dos livros infantis O Baú dos Contos de Fadas, Os Deliciosos Biscoitos de Oma Guerta, Uma Cidade Desassombrada e dos e-books Instantâneos de um Psicopata e Estripulias, de onde foi retirado este conto.

FICÇÃO

2 comentários Deixe um comentário

  1. Boa construção de narrativa, me fez ler até o final. Gostei da evocação de situações que podem ser imaginárias ou não , criam um ambiente tenso e ao mesmo tempo concluem a proposta literária.

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