DOMINIKA EM MANCHESTER, por Fabrício Silveira

David Chorlton é um professor de inglês para estrangeiros nascido em Manchester, ao noroeste da Inglaterra. Em dezembro de 2016, completou quarenta anos de idade. Só não comemorou porque vivia do dinheiro acumulado entre aquele ano e o ano anterior, quando esteve no Vietnã junto com a esposa. No dia do aniversário, recebeu um telefonema dos pais e outro do irmão. Agradeceu e ficou em casa jogando Call of Duty a tarde inteira.

David se formou em Oxford – cursou Língua e Literatura Inglesas – e aprendeu a orgulhar-se da reputação da universidade, embora desprezasse, em conversas que jamais assumiria em público, a empáfia daquele meio universitário e a monumental ausência do que fazer ali, a não ser estudar, refugiando-se na biblioteca, e preparar-se para os exames como se fossem competições.

David Chorlton se casou com Dominika, uma polonesa que conheceu numa viagem de férias a Lisboa, por volta de 2010. Os dois se corresponderam, prometeram se visitar, visitaram-se e acabaram se casando. Foram viver em Stockport, que fica a trinta minutos, de carro, da rodoviária de Manchester.

Em frente à rodoviária, situa-se a escola onde David deu aulas no primeiro semestre de 2015. Ali recebia os alunos, de segunda a sexta-feira. Costumava chegar às oito horas. Providenciava um cappuccino duplo na máquina de cafés e dava “bon dia”, em catalão, a TuPaco, o espanhol responsável pela secretaria. Então revisava o livro-texto e as matérias de jornal que iriam compor a cartela de exemplos a serem utilizados durante a manhã. Num cúmulo de pontualidade, rumava para a sala de aula e aguardava os estudantes aparecerem com seus cadernos, suas olheiras e seu inglês vacilante.

David Chorlton era querido pelos alunos. Dava-se bem com todos eles. Mantinha, apesar de tudo, uma certa distância, a atenção formal e educada que convém à civilidade. Gostava de conviver com os latino-americanos. Encontrava-os toda sexta-feira ao início da noite no happy hour promovido por TuPaco, num pub ou noutro, na região de Northern Quarter. Adorava vê-los dançar. Nunca compreendeu como conseguiam imprimir tanta ginga à cintura, mexer os quadris, fechar os olhos e trançar as pernas no ritmo da “música cubana”. Para David, a música que dançavam era sempre “música cubana”, não encontrava outro modo de defini-la – fosse cubana, de fato, andina, brasileira, colombiana ou o rap cantado no México. Só não gostava da música do Oriente Médio. Dava-lhe sensações de fastio e monotonia.

***

Um desses encontros, no verão de julho, tornou-se uma sessão de despedidas: David estava se desligando da escola, iria se mudar para Hanói por um período de doze meses, talvez um pouco mais, se tudo corresse bem. Daria aulas de inglês para crianças de oito anos, contratado pelo British Council. Dominika iria acompanhá-lo e ambos estavam muito felizes, ele anunciou. David aproveitou para descontrair, beber e conversar além da conta. “Jamais conseguirei requebrar daquele jeito”, apontou para o centro do pub, convertido, àquela altura, numa pista de danças. “Minha sobrinha talvez consiga”, referiu à filha de seu irmão mais velho, Scott Chorlton. Os alunos se entreolharam. “Scott não é nada parecido comigo, viu? Nem de longe”, respondeu quando foi perguntado sobre a família. “Meu irmão viveu a cena musical desta cidade”, tentou dissimular. “É amigo do Mani”, provocou – e uma centelha de orgulho lhe apareceu nos olhos –, sem explicar que Mani foi o baixista do Stone Roses, uma dentre tantas bandas de grande notoriedade formadas em Manchester na década de 1980.

Contou que o irmão e Mani quase foram atingidos na ação terrorista perpetrada pelo IRA, em 1996, na Corporation Street, uma zona de prédios empresariais. “É um milagre que tenham sobrevivido às explosões”, deu graças, admirando-se. Algo que lhes fortalecia o vínculo ainda mais – e David falou a respeito disso indicando nutrir igual interesse – era o apreço pelas imagens da Segunda Grande Guerra, as imagens do centro de Manchester devastado por um bombardeio alemão. “Foi o que me levou a gostar do Joy Division”, ele admitiu, rendido ao imaginário bélico no qual o conjunto se baseava, sem fazer a menor concessão à música cubana.

“Vamos mudar de assunto, professor…”, uma estudante chilena o interrompeu. Na hora, David concordou. Não convinha desperdiçar uma data tão especial. Era preferível, mil vezes, celebrar a boa nova, saudar a confirmação de que iria concretizar um sonho – alimentava desde a infância, muito antes de Oxford, particular simpatia pelos vietnamitas. Acima de tudo, seria absurdo deixar que sua última #LatinFriday – assim os alunos taguearam a festa – desanimasse.

Decidiu sentir-se ridículo tentando ajustar o corpo ao “embalo cubano”. Assumiu os riscos de um desastre e se jogou num surpreendente sapateado, transpondo cadeiras e arrancando gargalhadas de proporções continentais. Era o que precisava ser feito, ponderou. Enquanto isso, em segredo, contava os minutos para que chegasse o momento do desembarque no Vietnã, seguro de que o mundo conspiraria a seu favor e de que retornaria para Manchester, meses à frente, com a missão cumprida.

***

Regressaram duas semanas antes de David completar quarenta anos. Na bagagem trouxeram um repertório de memórias e expressões exóticas, experiências que não conseguiam descrever, por mais que tentassem, sem a sensação de que cometiam uma grande injustiça. David descobrira uma paixão repentina por jogos eletrônicos (“os jogos de tiro, em primeira pessoa”, obrigava-se a detalhar). Dominika ansiava por fish and chips, pelo aconchego ruidoso dos parentes e pelo cenário de Stockport. Os dois estavam impactados com a existência de minas e bombas inativas, barris enterrados, repletos de pólvora e gás lacrimogêneo, que era possível localizar, ainda hoje, no interior rural do país que mal acabavam de conhecer. Gastaram os primeiros meses, na volta, reativando os laços, reajustando-se à rotina que haviam deixado para trás.

***

No dia 22 de maio de 2017, segunda-feira à noite, David e Dominika foram levar Lucy Chorlton, filha de Scott, ao concerto da cantora norte-americana Ariana Grande na Arena Manchester. Às vésperas de completar treze anos, Lucy havia listado os presentes que preferia ganhar no dia de seu aniversário. O concerto estava pré-agendado e não existia ambiente nem motivos para contrariá-la.

Combinaram de se reencontrar ao final do show, junto ao portão da entrada principal. David aguardaria próximo à copa. “Um ótimo lugar para esperar alguns minutos”, sustentou, bem-humorado. Ele iria gastar o tempo, puxar conversas com desconhecidos, mulheres e homens solteiros ou casais mais velhos, reunidos ali pela mesma razão – acompanhar enteados, filhos ou sobrinhos menores de idade, em boa parte meninas –, num espetáculo que lhes constrangeria caso já não soubessem como são os arroubos emocionais causados pela música pop.

Dominika, de pronto, entendeu. Sequer precisou argumentar quando informou a David que acompanharia Lucy até a frente do palco, que as duas ficariam por lá, cantando as canções, divertindo-se com os fãs mais exaltados de Ariana Grande, e que, sim, claro, sem problema nenhum, poderiam se rever logo mais, quando o show terminasse. “Na metade da última música…”, ela sugeriu. “Pode ser?”

“Por mim, tudo bem. Tá combinado”, David reagiu, insinuando que iriam rir muito quando se lembrassem da noite em que prestigiaram uma diva teenager na Arena Manchester.

Além de tudo, Lucy precisava distrair-se com as amigas – Scott Chorlton disse ao irmão, dias antes –, precisava abstrair por um momento os compromissos da escola e esquecer um certo Bobbie Halligan, um menino ruivo, dois anos mais velho, que andava lhe importunando.

De mãos dadas, Lucy e Dominika mergulharam na multidão. Deixaram um arsenal de sorrisos no ar, um sentimento de ansiedade e a impressão de que haviam descoberto algum tipo inesperado de parentesco.

David deu as costas e localizou um agente de segurança posicionado no evento. Lembrou-lhe um antigo colega, um desafeto da faculdade. Viu-o sinalizar na direção do bar, orientando dois homens grisalhos. David Chorlton imaginou-os prestando continência. “Dois recrutas recebendo ordens”, em silêncio, alfinetou. Esticou os músculos do pescoço, guardou os canhotos do ingresso e fez o mesmo caminho.

Atravessou a primeira onda. Desfrutou um prazer estranho e sem propósito quando foi atravessado pela segunda onda, uma população de meninas correndo em direção ao palco. Elas o atropelaram, como se ele não existisse, como se fosse um fantasma vitoriano à solta num ginásio. Bateram-lhe contra os ombros, de um lado e de outro. Exalavam perfumes sobrepostos, difíceis de reconhecer. David Chorlton chegou à fila do caixa, aguardou a vez e pediu uma cerveja. “Guinness, por favor”. Avistou, num corredor lateral, obscurecido por uma viga, um espaço pouco disputado para se posicionar.

Apagaram-se as luzes. Instalou-se uma grande expectativa. Sob os holofotes, a cantora apareceu.

***

David tomou o primeiro gole. “Talvez não seja mesmo aconselhável”, estimou o número de adolescentes ao redor, “mas é muito civilizado ter bebidas alcoólicas sempre à venda”. Levou a mão ao bolso da jaqueta e sacou o iPhone 4 com o qual faria uma série de selfies desfocadas. Registraria detalhes da Arena Manchester: as cadeiras retráteis, as escadarias, as instalações como um todo e as vias de dispersão do público. Deu-se conta de que não foram revistados quando entraram. Voltou e fotografou três momentos de pura intensidade, uma empolgação comovente, logo ao início do show.

Duas horas antes, no quarto de casa, retratara Dominika se aprontando, exibindo-se com a máscara de um coelho orelhudo e a capa do álbum Dangerous Woman, o presente que dera a Lucy no final de semana. Conferiu as imagens e reparou o quanto eram divertidas e graciosas. Sentiu-se orgulhoso da esposa. Desejou-a mais do que nunca. Envaideceu-se, até. Tomou o segundo gole. O terceiro. Deixou o tempo correr atento às meninas. Cantarolou uma estrofe ou outra, dentre as poucas que havia memorizado. Transmitiam-lhe o calor da “música cubana”, ele acreditava. Foi ao banheiro. Na volta, retornou à fila do caixa. “Outra Guinness”, dirigiu-se ao atendente. Permaneceu neste ciclo durante o concerto inteiro. Repetiu-o cinco, seis, sete vezes.

Uma hora depois, a apresentação se encaminhava para o final. Ariana Grande já fazia os acenos de despedida. Em êxtase, uma fração do público batia em retirada, acordando de um transe. Quando escutou a explosão, David imaginou tratar-se de um estouro pirotécnico previsto no espetáculo. Desorientou-se por um minuto. Acusou os efeitos do álcool. Quando percebeu os gritos e a correria à sua volta – e soube que a hipótese de um atentado fora levantada pela polícia –, David Chorlton viu a mensagem do irmão numa rede social:

“Vocês estão bem?”

A terceira onda se espalhou com a irrupção de um drama. O pânico engoliu a todos. Ouvia-se um choro convulsivo por onde quer que se andasse.

Lembrando-se da combinação que fizera, David Chorlton se dirigiu para a saída. Foi tão veloz quanto pôde. Encontrou-a interditada por policiais paramentados. “Paramédicos”, estremeceu. Quatro ex-alunas, aos prantos, cruzaram por ele – dentre elas, a moça chilena que o instigara a dançar feito um louco, dois anos atrás. Viu os estilhaços de vidro e o merchandising da cantora esparramados pelo chão, escombros e blocos de metal retorcido no setor da bilheteria, máscaras de látex preto junto às manchas de sangue. “Mas que porra de Vietnã é isso que está acontecendo!?”, desesperou-se. Pensou em retornar para o interior do ginásio, na esperança de que Dominika e Lucy estivessem num lugar seguro. No ato – esforçando-se para assimilar o choque e ordenar um feixe de cálculos improváveis –, sentiu alguém lhe tocar o ombro. Era sua sobrinha.

“Tio…”, Lucy suspirou. “Eu estava no banheiro. Dominika me disse que iria nos esperar”.

Fabrício Silveira é professor universitário. Dentre outros, é autor dos livros Rupturas Instáveis. Entrar e sair da música pop, indicado aos prêmios AGES Livro do Ano 2014, na categoria Não-Ficção, e Açorianos de Literatura 2013, na categoria Ensaio de Literatura e Humanidades, e Gigante Figura, sua estreia na escrita de ficção, indicado ao Prêmio AGES Livro do Ano 2019, na categoria Especial. É egresso da Oficina de Criação Literária ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS. Atualmente, realiza estágio pós-doutoral – bolsa PNPD Capes – junto ao PPPGCom da UFRGS. Contato: fabriciosilveira@terra.com.br

FICÇÃO

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