# Revista Sepé (ISSN 2675-9365)
> Revista literária sediada em Porto Alegre, RS. Editada por Lucio Carvalho e colaboradores.
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- [DE 'VOZES DA ANCESTRALIDADE', DE NEUSA DEMARTINI](https://revistasepe.art.br/de-vozes-da-ancestralidade-de-neusa-demartini/): Ramirez, vestido como um charrua, usava botas de garrão de potro, chiripá e poncho, laçou-a ágil, como se deve laçar uma potranca selvagem, mas também com a brutalidade de quem não está acostumado a lidar com gente. Puxou o laço imobilizando-a, arrastou-a até o cavalo, agarrou-a pela cintura fazendo-a montar entre suas pernas e, excitado, passou a mão áspera pelos seus peitinhos, ainda tão pouco apontados. – Ala pucha! Além do calor úmido das tenras bolinhas, deve ter percebido que estavam no ponto. Era como colher goiaba na beira da estrada, no ponto, nem verdes nem maduras. Sentiu a […]
- [5 POEMAS DE GRAZIELA JACQUES PRESTES](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-graziela-jacques-prestes/): Planeio Esquecer-se no ninhoDá frio na espinhaSeguemAs formigas da terraAs gaivotas do céu Visão turva também faz curvaVoa, meu irmão Beijo nuvem Há um beijo molhado ao redormanso, doce, suaveHá um beijo molhado ao redorpaira, olha, tocaeu, você, todo lugar Amor eterno O sonho desta noite te trouxe de voltaquentinho, bem pertinho de mimolhar sorriso dócil mansonós dois em nosso secreto jardim Te vejo A cada vez que te vejodelicio-me com teu sorrisoA cada vez que te vejosuspiro repousada em tuas gentilezasA cada vez que te vejomeu coração se enche de futuroA cada vez que te vejopesa nosso passado de […]
- [DE 'O O BODE EXPIATÓRIO', DE ARI RIBOLDI](https://revistasepe.art.br/de-o-o-bode-expiatorio-de-ari-riboldi/): APRENDENDO COM OS BURROS Em qualquer lugar ou circunstância, ser chamado de burro é sempre uma ofensa. É o indivíduo desprovido de inteligência, ignorante, tolo, idiota, sem cultura, sem informação, com dificuldade de entendimento, obstinado, cabeça-dura. Prova disso são os técnicos de futebol: na vitória, ovacionados e exaltados; na derrota, o coro da torcida ecoa pelo estádio com os gritos de burro, burro, burro… O burro (mulo) é um animal híbrido, resultante do cruzamento entre um burro e uma égua. A mula, resultante da cruza de cavalo com jumenta, normalmente é estéril. Burro, jumento, asno, jegue, são termos vulgares do […]
- [UMA HISTÓRIA DE AMOR À TERRA - MARIA ALICE DA SILVA BRAGA](https://revistasepe.art.br/uma-historia-de-amor-a-terra-maria-alice-da-silva-braga/): Manoelito de Ornellas foi um homem que conquistou o apogeu e marcou sua época como um intelectual que fez da literatura o veículo de conhecimento e divulgação da cultura sul-rio-grandense. De temperamento forte, por seu sangue latino, passional e de espírito romântico, foi, antes de tudo, um homem fascinado pela palavra. Ornellas apreendia o mundo pela sensibilidade, por isso o homem e o poeta são inseparáveis. Descrever um é o mesmo que buscar no outro o complemento dessa complexa e romântica personalidade. Dono de uma sensibilidade pura e compreensão clara dos problemas dos homens, sua escrita começou a se delinear […]
- ['DE MORAES', DE MAURO MORAES - LUCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/de-moraes-de-mauro-moraes-lucio-carvalho/): Muitas vezes me parece que o Mauro Moras é um poeta e cantor que se pode encontrar mais facilmente entre um mate e outro, num galpão silencioso, do que sobre um palco, sob refletores ou numa avenida qualquer, embora isso não seja impossível. Ou então desencilhando o pingo, já meio estropiado da lida, arrumando a boina sobre a cabeça. Campeirismo, caiporismo, caipirismo ou o que seja, o Mauro tem a poesia popular reverberando dentro de si no que de mais afetivo o ser humano pode ter. Ouvi-lo é sempre como ouvir a um tio antigo, paciencioso e sereno. É a […]
- [VOL. 1, Nº. 3/2020](https://revistasepe.art.br/sumario-da-3a-ed/): POESIA 5 poemasArmando Moura Filho De Cristais colhidos na névoaCarlos Hahn 5 poemasEduard Traste De Eu vou piorarFernanda Bastos 5 poemasGraziela Jacques Prestes 5 poemasRamon Carlos 3 poemasMaria Ottilia Rodrigues De Uso internoLara Pozzobon De Menina de trançasLilian Rocha 3 poemasLuciana Albrecht De Esquizo iluminado: manual poética de meditaçãoSérgio Canarim De À espera de um igualThomaz Albornoz Neves FICÇÃO De Relatos póstumos de um suicidaCassionei Niches Petry Os portoalegríadasClaudio Levitan Histórias na janelaChristina Cidade Dias, Lenice Gomes, Marô Barbieri e Milene Barazzetti O sorriso da boneca de plásticoDoralino Souza JoaquimCatia Schmaedecke De A menina que morava no sinoCelso Gutfreind 3 minicontosClaudio B. Carlos Crônica dos mil reinos: AraucáriaChristian […]
- [ENSINAR LITERATURA - ENTREVISTA COM NEIDE LUZIA DE REZENDE](https://revistasepe.art.br/ensinar-literatura-entrevista-com-neide-luzia-de-rezende/): Pesquisadora há mais de duas décadas do ensino de literatura e leitura literária na Faculdade de Educação e no curso de Letras (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), a Profa. Neide Luzia de Rezende concedeu entrevista à Sepé para debater questões que dizem respeito ao universo da literatura onde é mais sensível: na formação de leitores. A pesquisadora, que é co-autora de, entre outros, Leitura subjetiva e ensino de literatura e Leitura de literatura na escola, respondeu por e-mail as questões propostas, que abordam desde os aspectos formativos da vida literária de crianças e adolescentes em idade escolar até […]
- [DE 'O CHEIRO DE COISA VIVA', DE DYONELIO MACHADO](https://revistasepe.art.br/de-o-cheiro-de-coisa-viva-de-dyonelio-machado/): Eu sou um rebelde. Eu não sou do público. Sou incapaz de escrever algo pensando no que vão achar, qual será a impressão que causará. Sou incapaz de ser vendido à editora, ou ao público. É o mesmo que o cachorro magro da fábula, não aceitando a vida fácil do cachorro gordo, pois tinha que usar coleira. Eu não sou um vendido com sinceridade. Viver dos meus direitos autorais seria impossível, eu fracassaria no pouco que fiz de bom. (1975) Eu não me iludo: tive editor para o meu primeiro romance, pela circunstância de ele ter merecido um prêmio cobiçado […]
- [DE 'A MULHER SUBMERSA', DE MAR BECKER](https://revistasepe.art.br/de-a-mulher-submersa-de-mar-becker/): serra sem fim (este texto é parte de uma sequência que ainda venho escrevendo, em prosa poética. a “serra sem fim” tem como base a cena do vapor pairando sobre o rio das antas, cedo da manhã, na serra gaúcha) a mulher nascida na serra sem fim levanta-se não há cor em suas unhas, e os fios dos seu cabelo secam ao natural. a planta dos seus pés é mais áspera que a das mulheres das cidades grandes, porque ela vive caminhando descalça no chão de pedra do quintal de casa estende roupa. nos fins de semana come uva colhida […]
- [GILDO DE FREITAS, O REI DOS TROVADORES - JUAREZ FONSECA](https://revistasepe.art.br/gildo-de-freitas-o-rei-dos-trovadores-juarez-fonseca/): Numa entrevista para o jornal Tchê!, de Porto Alegre, publicada em julho de 1982, Gildo de Freitas disse que a trova é uma matemática de rimas: “Tem que fazer a conta ligeiro, e rimar”. Ele soube fazer isso como poucos e passou à história do Rio Grande do Sul como o maior trovador que já pisou este chão. Antes de Gildo só houve outro mito: Pedro Muniz Fagundes, o Pedro Canga, nascido na região da Campanha 130 anos antes e personagem de histórias da Revolução Farroupilha. Era um repentista conhecido, famoso no falar rimado – muitas de suas quadrinhas passaram […]
- [DE 'DENTE-DE-LEÃO', DE WANESSA MONTEIRO DE BARROS](https://revistasepe.art.br/de-dente-de-leao-de-wanessa-monteiro-de-barros/): 6 passo lenta no centro dos vendavaismeus sonhos moram dentrodas ventas dos cavalos com o fogo dos dragões abro picadasafago cães no vazio, rego flores miudinhasjunto andorinhas ao conselho daninhodas congregações entro no país das fadaslá onde a lambida da salamandraé prenda, amora derretidacanto rupestreespinheira santana luz bruxuleantedas esquecidaslamparinas da mata enquanto seu lobo não vem 7 Ouço teus olhos brilhandonas lamparinasno cheiro do queroseneque acende a casanas candeias em brasaque alimentam o fogãoe adivinho teus desejosmergulhados no grande tachoonde incendeio goiabasdoces e maduraspara incensar no futuroa pureza da tua língua Tua sombradesconhecida e mágicareina sobre o silêncioda minha vidabebo […]
- [LEMBRANÇAS DOS TEUS FAMILIARES - LUÍS AUGUSTO FARINATTI](https://revistasepe.art.br/lembrancas-dos-teus-familiares-luis-augusto-farinatti/): Faz duas horas que chegamos e o tempo se arrasta. A sala é grande ou parece assim porque está quase vazia. Há somente cadeiras de napa preta, bem gastas, encostadas às paredes brancas pintadas há muito tempo e sem retoques. À minha frente, vô Cilo e tio Irineu lado a lado, quietos. Entre nós, o caixão sustentado por estrados de metal. Aos pés dele, uma coroa de flores artificiais com uma faixa roxa onde meu avô mandou escrever: Lembranças dos teus familiares Da cadeira onde estou, vejo apenas uma parte do rosto do tio Leonel e as mãos dele, tramadas, […]
- [O DIREITO À ESCOLHA - MIGUEL DA COSTA FRANCO](https://revistasepe.art.br/o-direito-a-escolha-miguel-da-costa-franco/): O núcleo urbano de Jaquirana, com pouco mais de duas mil pessoas, fica escondido no centro de um triângulo imaginário formado por Bom Jesus, Cambará do Sul e São Francisco de Paula, todas elas cidadezinhas pouco habitadas e de pequena expressão econômica. Persiste até hoje naquelas paragens, os chamados Campos de Cima da Serra – região de coxilhas, campos grossos e matas de araucárias, sobre solos rasos e pedregosos -, um grande vazio populacional. Nos anos setenta, isso era ainda mais agudo. Jaquirana era, então, um vilarejo de três ou quatro ruas, com no máximo duzentas casas de madeira, grande […]
- [MULHER DO PAI - LUCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/mulher-do-pai-lucio-carvalho/): O pampa, lugar sem limite certo que habita e desabita os campos, oceano verde que invade as cidades por suas bordas, que é povoado por gente, animais, veículos e que é riscado por caminhos, arroios e até ferrovias; o pampa, talvez por sua geografia e amplidão, território por excelência externo em masculinidade e doméstico em boa parte de sua representação feminina, ganhou em 2016, com o filme Mulher do pai, uma real invertida. Escrito e dirigido por Cristiana Oliveira, exibido no Festival do Rio e em Berlim, o filme foi vencedor do Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme, no […]
- [OHBLACKBAGUAL - PELA ÚLTIMA VEZ, DE BEBETO ALVES](https://revistasepe.art.br/ohblackbagual-pela-ultima-vez-de-bebeto-alves/): Realmente não poderia não ser de uma fita K7 que o compositor e cantor uruguaianense Bebeto Alves recuperaria o material de um de seus dois mais recentes (e, de acordo com ele, finais) lançamentos em disco. Antes de lançar em 1981 o homônimo Bebeto Alves, seu primeiro disco solo, Bebeto (como qualquer pessoa naquela época) por certo teria guardado consigo nos portáteis dispositivos magnéticos muitos registros. Alguns de que nem se lembrava mais. Foi numa dessas fitas que o produtor Marcos Abreu, que também trabalhou em OHBLACKBAGUAL – Pela Última Vez, descobriu no registro, além da canções inéditas, surpresas como […]
- [CANÇÃO DE AMOR PARA JOÃO GILBERTO NOLL - LUÍS ALBERTO BRANDÃO](https://revistasepe.art.br/cancao-de-amor-para-joao-gilberto-noll-luis-alberto-brandao/): Será que é preciso começar com um nome?Será que é preciso haver um nome?Será que esse nome é João? “Ouvi uma música por aí.”– lê-se em A céu aberto. Começo com a impossibilidade de um começo. Começo tentando preservar a força do silêncio, a ele me manter agarrado, como a um pedaço de madeira no mar alto e revolto e instável e perigoso das palavras. Começo tentando não começar. Porque o que há antes do começo, de qualquer começo, é a plenitude do indecidível, plenitude que se rompe quando se começa − ainda que sofregamente, hesitantemente, como está acontecendo aqui […]
- [DE 'PROSA PEQUENA', DE AMILCAR BETTEGA](https://revistasepe.art.br/de-prosa-pequena-de-amilcar-bettega/): DE NOITE NA FLORESTA Era um sonho e lá dentro fazia frio e noite. Eu caminhava, havia muito tempo que eu caminhava na noite do meu sonho. Cruzava uma floresta de eucaliptos, o que deixava a noite ainda mais escura e fria. Havia o cheiro do eucalipto e do húmus (ou uma sensação desconhecida e difícil de caracterizar, porque dentro do sonho, mas que me remetia a uma sensação olfativa), e estes dois cheiros, eucalipto e húmus, se misturavam e me davam como resumo a certeza de que eu atravessava uma floresta de noite, a noite quando ela está mais […]
- [DE 'E SE ALGUÉM O PANO', DE ELIANE MARQUES](https://revistasepe.art.br/de-e-se-alguem-o-pano-de-eliane-marques/): 1 – o grito alouçado entre as falanges o grito alouçado entre as falangesquase estômago por rezas ou docearchotes ora mediante muito trococom o g a menos da letra de câmbioai ai ai meu deus assim o quadro“a expulsão com golpes de cana” de repente o boa-noite aos poucosalém-ar alijados às armas brancascom a licença dos barrancos o cãoo cão seu dono sob a lua em câncer o grito – dos espanhóis seu rabo de olhoa espera do tutano para algum embrulhocomo se retinta a caixa onde o seu crânioaos trancos só por toleima rinhas e canto o osso na […]
- [TRESAVENTO, DE MARCELO DELACROIX](https://revistasepe.art.br/tresavento-de-marcelo-delacroix/): Tresavento é o terceiro disco de Marcelo Delacroix. Depois do lançamento de Marcelo Delacroix, de 2000, e Depois do raio, de 2006, Marcelo produziu e por dois anos realizou as gravações de Tresavento. Num projeto de crowdfunding realizado por meio do Catarse, Marcelo finalizou a impressão das cópias dos apoiadores de primeira hora do projeto, agora já à venda na livraria Bamboletras ou por pedidos que podem ser feitos por meio do e-mail: contato@marcelodelacroix.com.br Tresavento pode muito bem ser definido com um disco muito relacionado à literatura brasileira. Desde a faixa título, numa das parcerias com Leandro Maia, o disco […]
- [DE 'ANTES NÃO ERA TARDE', DE PEDRO GONZAGA](https://revistasepe.art.br/de-antes-nao-era-tarde-de-pedro-gonzaga/): A arapuca do clique Antes da receita para secar cinco quilos em Porto Alegre, antes do truque para alvejar os dentes à maneira dos cantores sertanejos, antes do segredo para obter uma esplendorosa vida sexual, estava a serpente. Quase podemos vê-la, lançando os primeiros anúncios, depois o mais insidioso, infiltrado entre as notícias correntes do portal do Éden: “Você não vai acreditar nos poderes de cura desta fruta exclusiva”. E ali está a mulher, ainda nua, distraída, perdendo as manchetes de vista. Mas, afinal, Eva, nossa mãe, o que olhais? Cuidado. Evitai as ofertas, não leiais das fake news, não […]
- [A FORMAÇÃO DA LEITURA NO BRASIL, DE MARISA LAJOLO E REGINA ZILBERMAN](https://revistasepe.art.br/a-formacao-da-leitura-no-brasil-de-marisa-lajolo-e-regina-zilberman/): Ao fechar este livro, vale a pena frisar alguns pressupostos que o balizaram e as conclusões para as quais ele aponta. Relativamente a seus pressupostos, o de maior peso é a hipótese de que hoje não são muitas, nem tampouco parecem muito instigantes as teorias literárias que endossam concepções exclusivamente textuais e/ou imanentes do literário, da literatura, da literariedade. São, ao contrário, cada vez mais raras as teorias que não levam em conta situações concretas de produção e recepção de textos, marcando-se os estudos literários contemporâneos pela ruptura de diferentes variantes da autonomia do estético. Tal ruptura manifesta-se por um […]
- [DE 'SUBIR AO MURAL', DE RONALD AUGUSTO](https://revistasepe.art.br/de-subir-ao-mural-de-ronald-augusto/): octassílabos erra em ondas meu pensamentopelos ângulos do lugaras paredes brancas de nadaum corte transversal, solar as cortinas se mantêm feiasesse plissado industrialessa cor, de ordinário, pálidadão a tudo um quê de oficial o rumor ar condicionadopiso de hospício sem ranhurasou de laboratório clínicoquadrículo infenso à cultura no entanto aqui a estudantadafaz o exame vestibularcumprindo seu rito de classevisando além ser dr. k. poucos negros, quase nenhum,entre os que se curvam às provasisso parece confirmar:não deviam passar da porta entre montanhas o jequitinhonha serpeiaexsurge às vezes a areia branca do leito depois o perpétuo eucaliptoenquanto um quietar ventoso embrulhaa intervalos […]
- [O MUNDO DE SIMÕES LOPES NETO (1865-1916): TRAJETÓRIA INTELECTUAL E PRODUÇÃO CULTURAL NO SUL DO BRASIL – JOCELITO ZALLA](https://revistasepe.art.br/o-mundo-de-simoes-lopes-neto-1865-1916-trajetoria-intelectual-e-producao-cultural-no-sul-do-brasil-jocelito-zalla/): Este texto foi apresentado anteriormente no Simpósio Nacional de História de 2017 e faz parte das discussões do primeiro capítulo da tese “A invenção de Simões Lopes Neto: literatura e memória histórica no sul do Brasil”, defendida em 2018. Nos últimos anos, encontramos um novo interesse pela vida e pela obra de João Simões Lopes Neto na imprensa ordinária. Descobertas de textos perdidos e esforços de edição têm virado notícia com certa frequência. Mas o sabor de novidade costuma vir acompanhado de lugares-comuns elaborados há muito tempo. Em 2017, por exemplo, foi lançada no formato livro uma crônica simoniana resgatada […]
- [DE 'A ARTE DO MEDO', DE DILAN CAMARGO](https://revistasepe.art.br/de-a-arte-do-medo-de-dilan-camargo/): A ARTE DO MEDO Essa artelimita a vidamatéria disformedo desassossegoo medoaprisiona o egoem vigíliadesacende a realidadeessa vil paisagemdo dia a dia. Essa artefaz o vooda borboletaquase vãobelo feiomorrer nas sobrasde asas coloridasao rés do chão. Arte relesmedo de lesmado salesbugalha os olhosno sinalarrepia a peleacendesó o vermelho. Essa artedespoja o desejodesilude olharvaza sentimentotanto fazestar vivo ou mortono palcoonde se exibe a farsaimóveldo espetáculo. Essa artesem linguagensmostra só os dentesjá foi sorrisode Mona Lisaclaro enigmapassos de vidrotimbres e dribles. Arte ferozminima de malismal escritazona de perigoela mesma matae recriaseu artifíciode vírus. ELEFANTES Nós acreditávamos em dias inocentesfomos fiéis ao sol e […]
- [DE 'NOITE ALTA', DE MAGDA LOGUERCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/de-noite-alta-de-magda-loguercio-carvalho/): Pisciana Gosto de ver os meus pés inchadosde um jeito que só eu sei saber.Maduros como frutas frescasmacerados por meus passosas veias um pouco tensasos ossos querendo gritar cansaçoe a pele túrgida de meu esforço.Belos em sua plena capacidadeem me conduzirquase ganham vida própria.Repousados depois da luta.vejo e intuo minha vitalidade,meus pés medem o nível de minha saúde.Se estão murchos e opacos,estou inerte, abandonada à sorte.Se tenho vontade de comê-los,estou viva;pisciana de barbatanas durascomo a dor da caminhada. Espectro espectro de luz visívelhomem, mulher, criançabicho e pedraplanta liquida da auroraum céu de cor grisdomingo dos santos de outroraquantos dias se […]
- [CANTATA SETE POVOS, DE RAUL ELLWANGER](https://revistasepe.art.br/cantata-sete-povos-de-raul-ellwanger/): Lançada pelo cantor e compositor Raul Ellwanger no segundo semestre de 2019, a Cantata Sete Povos é suíte composta para voz e pequena orquestra que procura reviver a memória dos índios guarani e jesuítas que conviveram nos Sete Povos da Missões Orientais do Rio Uruguai entre os sécs. XVII e XVIII, até seu declínio final na rebelião liderada por Sepé Tiaraju contra o Tratado de Madri e os exércitos das coroas portuguesa e espanhola. O cantor, que em entrevista concedida ao Nonada Cultural afirmou que ser brasileiro muitas vezes é “padecer sem motivo num possível paraíso..”, parece ter encontrado nos […]
- [ERA UMA CAIXA DE MADEIRA - EMIR ROSSONI](https://revistasepe.art.br/era-uma-caixa-de-madeira-emir-rossoni/): Era uma caixa de madeira que ele mesmo havia construído. Era madeira bruta, com dobradiças de câmera de pneu na parte posterior e uma tampa com lasca de couro a encaixar num pequeno prego torcido. Cabia em seu colo. Era uma caixa envernizada. Obra-prima aos meus olhos. Talvez assim a percebesse por ser velha, ter a idade que parecia ter meu avô. Hoje, penso que era uma obra-prima porque tudo que eu queria para minha vida podia ser guardado nela. Era uma caixa que deslumbrava ainda mais quando meu avô a abria. Havia algumas divisões lá dentro. Construídas com a […]
- [A BIBLIOTECA NO CENTRO DA CIDADE - ENTREVISTA COM MORGANAH MARCON](https://revistasepe.art.br/a-biblioteca-no-centro-da-cidade-entrevista-com-morganah-marcon/): Situada próxima ao quadrilátero formado em torno da Praça da Matriz, em Porto Alegre, no qual se reúnem os principais poderes de Estado e eclesiais, a Biblioteca Pública do Estado não constitui um poder à parte (talvez devesse), mas integra-se a uma imagem do Centro Histórico da cidade que se reveste em importância histórica. Quase ao lado do Teatro São Pedro, o prédio é ainda imponente, apesar de que hoje cercado por arranha-céus de gosto arquitetônico duvidoso. Na Riachuelo, em outros tempos denominada a “rua dos livros”, o prédio erguido em 1912 sobrepunha-se às demais livrarias e sebos que abriram […]
- [DE 'SAGRADO CORAÇÃO', DE ROBERTSON FRIZERO](https://revistasepe.art.br/de-sagrado-coracao-de-robertson-frizero/): Dioniso Do filho que um dia imaginaraherdeiro do Olimpo e seu destino,Zeus tem aos pés o corpo do meninoque o ciúme de Hera destroçara. Nas mãos, o que lhe resta: um coraçãotão puro e jovem, ainda a baterqual se pudesse assim reconhecero pai que lhe gerou como um dragão. Para ofertar ao filho a eternidade,Zeus força à Sêmele, por alimento,aquele vil pedaço de saudade que o ventre humano transforma em rebentoe então renasce em plena divindade –um deus do vinho e do esquecimento. Anúbis De um lado, o coração, este vaso sagradodas oito almas de nossa estranha eternidade;do outro lado, […]
- [DE 'MEMORIAL DE LILIA', DE THAMAR DE ARAÚJO](https://revistasepe.art.br/de-memorial-de-lilia-de-thamar-de-araujo/): Gato escaldado tem medo de água fria? Ter perdido tanto o que parecia importar,deu-me a aptidão histórica denão mais acreditar em absolutos.Mas, entenda: ainda sou capaz de mergulhar no martão fundo,à mercê de ser tragada,aos poucos ou de uma só vez. Ainda sou capaz de apostar tão alto,a ponto de, se perder tudo,desaprender a andar e a respirar,e assim tornar quase impossível recomeçar. Ainda sou [veja só!] capaz de me surpreender,quando afogada ou aniquilada.A diferença é que, a cada vez,mais áspera fico, mais rápido passa. When all the salt is taken from the sea. Prefiro sarcasmos a eufemismos.Quisera ser urso […]
- [DE 'AVESSO DO CLIMA', DE INES LEMPEK](https://revistasepe.art.br/de-avesso-do-clima-de-ines-lempek/): Caleidoscópio A tempestade abre a janela.O mundo troca de roupa.Pedaços de paisagem lá fora caem um por um.Estilhaços de final de tarde escorrem pela trilha do tempo.A preta noite vem.No fundo do olho, um caleidoscópio.A alma agora veste a poeira lunar.Muito frio aqui dentro.Venha logo. De frente pro frio Entre as águas costeirase as dúvidas transparentesandamos de frente pro friode dentroem passos que tropeçamao desviar das setas predatadasde antiguidades. Lágrima O vento joga rajadas de chuvacontra a paredeuma cachoeira descecomo serpente furiosacriando rios afoitosuma névoa branca cobre os telhadosjá não se vê quase nadaalém do seu sorriso suspensofeito dúvida encostadano […]
- [À LINHA D’ÁGUA DO RIO - MINICONTOS DE SIDNEI SCHNEIDER](https://revistasepe.art.br/a-linha-dagua-do-rio-minicontos-de-sidnei-schneider/): Biografia Nasceu magro, aquém. A tia não era dada a cuidados. Esse não dura uma semana. O horror da mãe, ainda no hospital. O pai batia sineta na escola, enquanto terminava os estudos. A mãe comia laranjas e melado, mas não eram desejos de grávida. Voltaire chegou tão mirradinho, que ali mesmo o batizaram. Após esta entrada triunfal, qualquer um toma gosto por histórias fortes. Morreria escritor. Confiança O pai e a mãe ao redor de uma pedra redonda de granito, três as filhas. Elas subiam na pedra, deixavam-se cair de costas, e o pai as salvava. A menor, numa […]
- [4 POEMAS INÉDITOS DE MICHELE C. BUSS](https://revistasepe.art.br/4-poemas-ineditos-de-michele-c-buss/): PLUVIÔMETRO A estação é das plantas da chuva… Crescem ervas ombrófilas nos meus olhose uma flor tropical violáceanos átrios do coraçãoencharcados de pulso. Nos céus além da pele:tempo bom. Nos silêncios interiores:o medidor de chuva descontroladoem pleno estado de tormenta epouco sol. Da instabilidade das pálpebrase da glândula lacrimal(100% de umidade no ar)floresce intensa a mata nublada. Do corpo da floresta densa verdevicejam cada vez mais versos… NEVA NAS PRAIAS DA LINHA DO EQUADOR a fome mordendoas entranhas decrianças o olhar indiferenteaos cenários da dor carnavaisde violência vozes ardendoem fogueiras colecionar nataisem shoppings às custasde favelas mortas a construção de […]
- [DE 'CATA-VENTO IMÓVEL', DE VITOR SIMON](https://revistasepe.art.br/de-cata-vento-imovel-de-vitor-simon/): Há desperdício de canto do pássaroquando me distraio.E em vão se movem as nuvenspara liberar a passagem do sol,se estou a olhar apenaspara o escuro de dentro. O pão do medocomemos a cada diae no travesseiro da renúnciadeitamos nossa cabeçapara dormir um sonoque não repara.Tudo ainda é fome e cansaço. Moramos no mesmo galho,num ninho feitocom nossas próprias penas.Se o galho quebrar,vamos nos segurar no vento,ou um nos pés do outro.Tocaremos o céucom a ponta dos olhos. Na noite, na chuva, no ventovive um pássaro que não se deixa ver.Suas asas são pinceladas de saliva.Paira na tua respiração, ou na […]
- [3 POEMAS INÉDITOS DE LÚCIO HUMBERTO SARETTA](https://revistasepe.art.br/3-poemas-ineditos-de-lucio-humberto-saretta/): Uma aranha se esconde entre os meus livros Uma aranha se esconde entre os meus livrosE vez por outra aparece atrás da estanteComo um sol de raios negros exibindoSua aparência monstruosa e fascinante E quando penso em me livrar da criaturaAcabo preso em uma dúvida cruelA força bruta arruinaria os meus volumesInseticida mancharia o seu papel Com olhos mórbidos, estrábicos e pacientesA invencível guardiã da bibliotecaVai tecendo a sua teia entre as palavrasEnquanto o Tempo está tirando uma soneca Tanta coisa nessa vida eu aprendiE no fundo só restou uma certezaNada sei sobre a tal filosofiaQue habita os livros e […]
- [O HOMEM DO PRÉDIO VERDE - CONTO INÉDITO DE MAYA FALKS](https://revistasepe.art.br/o-homem-do-predio-verde-conto-inedito-de-maya-falks/): Quando eu era garoto, minha cidade devia ser um terço do que ela é hoje. Essas modernidades todas que as cidades maiores tinham a gente não via por aqui. Carros de rodas finas que andavam vagarosamente, mulheres com chapéus elegantes, tudo isso a gente só conhecia pelo jornal ou pelas fotonovelas que minha mãe gostava tanto. Lembro do dia que começaram a construir um prédio no final da rua. Costumava andar com meu carrinho de lomba pro outro lado, mas naquele dia, fui pro lado de lá e ralei os joelhos caindo do carrinho no susto de ver não só […]
- [HELENA DE URUGUAIANA, DE MARIA DA GRAÇA RODRIGUES](https://revistasepe.art.br/helena-de-uruguaiana-de-maria-da-graca-rodrigues/): Estávamos livres, enfim, do frio minuano que, por semanas, soprou impiedoso. A noite estrelada prometia um amanhecer dourado. Teríamos um dia seco de céu completamente sem nuvens em pleno mês de junho. A notícia da chegada de dois presentes em minha vida, duas netinhas gêmeas, a Esther e a Celeste, deveriam completar esse quadro de perfeição. Mas uma mistura de medo e incertezas me fazia estremecer. Dentro de algumas horas, a maternidade abriria para visitas. Iríamos vê-las pela primeira vez. Sensação estranha. Apanhei um livro na estante. Não consegui me concentrar. Fui preparar um mate. Sentei ao lado do calor […]
- [AQUEUS * - DANIEL GRUBER](https://revistasepe.art.br/aqueus-daniel-gruber/): O monstro de madeira fez subirAos céus estrídulo e sinistro silvoBrilhando ao sol com seus arreios de ouroRepleto de guerreiros, que os helenosDeixaram junto às portas da cidade. Eurípides (1) A casa é velha, ampla e quadrangular, como um caixote imenso. É aconchegante, porque nos sentimos protegidos nela. As paredes são sólidas e não deixam escapar nenhum grito, embora a acústica dos cômodos amplifique pelos corredores qualquer sutil arfar. É um bom lugar para estarmos nesta fase de nossas vidas, porque em volta da casa, por muitos quilômetros, não há nada. Somos apenas nós, nossos costumes e a natureza crua. […]
- [PARA FALAR EM LECCE - GRAZIELA JACQUES PRESTES](https://revistasepe.art.br/para-falar-em-lecce-graziela-jacques-prestes/): “Quis ut deus”. São Miguel Arcanjo saindo do painel todo em bronze, com a espada erguida e o inimigo dominado. Passei uns bons minutos magnetizada pela imagem. Queria estar no lugar dele ou ser defendida por ele, o Protetor da Igreja, o Guardião dos Agonizantes, o príncipe defensor das crianças. “Quem é como Deus?”, a pergunta retórica simbolizada por São Miguel é um convite à humildade. Impactada com a força, com o contraste entre o bronze escuro e a pedra calcária clara, me ajoelhei, no meu último dia em Lecce, na Itália, e rezei em silêncio, na Chiesa del […]
- [4 POEMAS INÉDITOS DE GABRIELA SILVA](https://revistasepe.art.br/4-poemas-ineditos-de-gabriela-silva/): Celebração primordial Na hora mais escura da noiteQuando não há mais medoNem esperança pela luzTomei teu corpo Como se cada partícula da tua peleMe pertencessee teu ritmo cardíacoocupasse o som de todas as coisas e ficamos assim, a aproveitar a festado espírito e da carnemateriais dispersos e complementaresque nos constróem mantenho-me acordadapara contemplar teu corpoonde cada desenhoé o pedaço de algum tempo distante se eu dormir e sonhartuas longas pestanasvão captar meus sonhoscotejar meus desejos entre oliveiras e floresficarei presa nas fitasnas cores da tua vozno brilho que ressoa enquanto descansas por que é infinito o celebrar primordialdo que plantaste […]
- [UMA ODE À HUMANIDADE (SÓFOCLES) - TRAD. POR RAFAEL BRUNHARA](https://revistasepe.art.br/uma-ode-a-humanidade-sofocles-trad-por-rafael-brunhara/): (Sófocles, Antígone, versos 332-375) Muitos prodígios e terrores há;nenhum maior que o ser humano.Ele atravessa o mar cinzentojunto dos ventos invernais,ele vaga e vence rugentesondas que o cercam e exaurea mais suprema deusa,a Terra imortal e incansável,ano a ano lavrando-a vaicom o arado e seu cavalo. A raça de aves lépidasO rebanho de ferasas criaturas marinhasele enlaça e levana rede que urdiu,homem perspicaz;vence com artes a rudefera dos montes e põeo jugo no pescoçodo corcel crinudoe do touro chucro; Aprendeu a língua, sutispensamentos e modos civis;a abrigar-se do frio inóspitoe das tormentas lancinantes;apurado, nunca em apurosno porvir: só da mortenão […]
- [EL AMANTE FANTASMA - FERNANDA MELLVEE](https://revistasepe.art.br/el-amante-fantasma-fernanda-mellvee/): Traducido por Juan Ignacio Sunde. Días antes del casamiento, ella concordó con la única exigencia del marido, incluso considerándola desubicada: pediría la renuncia. En el intervalo entre las comidas, ella se esmeraba en arreglar los pequeños cuartos, aunque no hubiese tiempo para cualquier resquicio de desorden. En las vísperas de cumplir un año de unión, la pareja se mudó para una casa más espaciosa, – Tres habitaciones, hasta con dependencia para la empleada. – Como la esposa repetía orgullosa, sin importarle la vista melancólica de la placita abandonada. La residencia poseía, también, la ventaja insuperable de haber sido comprada por […]
- [3 POEMAS INÉDITOS DE JOÃO ANTÔNIO SOARES NETO](https://revistasepe.art.br/3-poemas-ineditos-de-joao-antonio-soares-neto/): Finalmente Já não sei mais onde está o contrato,nem as armas, nem as asas de voar daqui.Eu tenho tudo deposto, como se roubassepara o meu próprio uso os teus pése como usasse nos braços tuas mãose olhasse a partir dos teus olhos e a tua vozestivesse cheia das minhas palavraspara dizer-me como tu és, na verdade. Quem eu sou já não tem importância,nem quem eu era. Não sei olhar o futuroamanhã, nem o quanto ele me importa.Transmuto a mim mesmo num espasmo indolorpara engolir tudo o que te afligee ocupar, sem critérios, nas tuas entranhas,o espaço em que me deixaste […]
- [JÁ É LONGE DEMAIS - CONTO INÉDITO DE DANI LANGER](https://revistasepe.art.br/ja-e-longe-demais-conto-inedito-de-daniela-langer/): Nadir olha o marido, sua barba ruiva com os fios que nunca saem do lugar. Anoitece e faz um bom tempo que o carro segue em linha reta. Ele não tira as mãos da direção e os olhos da estrada, e ela percebe que, embora ele saiba que não encontrarão tão cedo uma curva, deseja uma conversão que lhes levasse para qualquer lado que fosse. A mulher vira o rosto, a paisagem do sul deixa de ser animadora depois da quarta ou da quinta viagem, quem sabe depois do sexto ou sétimo ano de casamento. Ela esfrega as mãos sobre […]
- [PEALO DE CUCHARRA - CLAUDIO B. CARLOS](https://revistasepe.art.br/pealo-de-cucharra-claudio-b-carlos/): Aceita um mate, compadre? – perguntou Manoelita, ao velho que batera à porta. — É o jeito, já que foder ninguém quer – respondeu o arriado, arrastando as alpargatas e se encaminhando para dentro do rancho. Fez que não ouviu, a pinguancha. Sabia das bagaceirices lá dele. Era só maneira de falar, de fazer troça, mais nada. Nunca se soube que tenha passarinhado alguém, à força. Era tudo garganta. Pândega. Gabarolice. Bobageira. Foi à cozinha, ele de atrás. Encostou o umbigo na pia, e, tirando o pé direito do surrado chinelo, apoiou-o um pouco acima da canela esquerda, formando um […]
- [DE 'MIDIASERÁVEL', DE DELALVES COSTA](https://revistasepe.art.br/de-midiaseravel-de-delalves-costa/): Made in Brazil O catador pão-dormido então acordouenvolto ao frio e ventosob notícias do jornal.O café matinal é farto:folhados, quinhentos-queijos caféexpresso londrino pãesleite suíço (vacas azuis)e sucos do laranjal tipo export.Made in Brazil, a fome à fartamesa tupiniquim: suorde sol a sol bordado com petróleoe estampa canavieira.Enquanto isso, brasil(de ruas viadutos calçadas)vaga à revelia empurrandorecicru i fasso linpesa,a língua-urgência de quem quer comer. A casa na árvore Depois de a gente crescer, a casa da árvorenão tem mais lugar. De poemajá não adormece, ficou lá atrásaquela criança que de galho em galho(ao saltar do corpo) o mundo inventaa fim de […]
- [DE 'CONSUBSTANTDJETIVOS COMUNS', DE ADRIAN'DOS DELIMA](https://revistasepe.art.br/de-consubstantdjetivos-comuns-de-adriandos-elima/): ATO DO RECOMEÇO O vento vuneNa minha orelhaSe levanta o cabeloE quanto àquiloQue eu pensava tão longeCaio em meu corpoMas mergulharMinha botaNo brilho do asfaltoRecompõe a noiteTudo aquilo que penseiCai com a chuvaBranca de luzesTudo aquiloSe recompõeEm mais um passoOutro NO COLIBRI LANCHES, CERTA TARDE, RECENTEMENTE DESEMPREGADO Me sinto bem no balcãoBem à vontade nos banquinhos redondos de fórmicaBem neste bar com cartazes pelo vistoDe produtos que sumiram têm anos do mercado Não adianta pedir hot-dogNão entendem bulhufasMulheres não passam debaixo da portaPassa umaQue chamaOlhares tortosCom o pão na bocaOperários com macacão azulPedem pão-com-manteigaE taça-de-café-com-leiteOuvem piadasE sou tratado como freguêsAlguns […]
- [DE 'FLOR DE UDUMBARA', DE SANDRA SANTOS](https://revistasepe.art.br/de-flor-de-udumbara-de-sandra-santos/): A Arte de Cultivar Girassóis Van Gogh colhe agoraquinze girassóis em Arlesporque um xamã das Américastem febre e flores na cabeçauma flor se levanta às 6:15 da manhã para comporum arranjoquinze capítulos degirassóis amarelosonde contemplo a luzdos teus olhos Girasol t’ikakuna tarpuyta yachaq Van Gogh phesqa chunka girasol t’ikakunataojarin qhunan Arles llaqtapiimanaqtinchus huj hampiqpa umant’ikakunawan t’eqesqa rupharinhuj t’ika hatarin 6:15 paqarimuypi huk takitaqhelqananpaqphisqa chunka t’akaqunaq’ello girasol t’iqakunamantamaypichus qhawarini ñawiykiqq’anchayñinta O Homem do Futuro quero o homem do futuroque pisava com pés de santoe sandálias de pescadorque contava estrelas de anise esculpia cristais de salque matava a gente de rircom seu […]
- [MAS NÃO ME LEMBRO O PORQUÊ - CONTO INÉDITO DE HITALLO DALSOTO](https://revistasepe.art.br/mas-nao-me-lembro-o-porque-conto-inedito-de-hitallo-dalsoto/): No bairro em que eu morava, vivia uma senhora tão misteriosa quanto bondosa. Dona Leda, como se chamava. Era habitual cruzar por ela nas calçadas ou no mercado. Ela sempre sorria e acenava, conhecendo a pessoa ou não. Essa senhora marcou minha vida de tal maneira que, talvez, um dia com a idade, seja possível que eu esqueça minha própria família, mas nunca esquecerei Dona Leda. Quando criança sentia muito medo da figura alta e magra, curvando-se aos poucos sobre si mesma. O cabelo era algodão sobre a cabeça, nada assustador, se pensar bem. Porém, para uma menina de oito […]
- [A GAROTA DE CHUCK COLUMBUS - DOUGLAS CECCAGNO](https://revistasepe.art.br/a-garota-de-chuck-columbus-douglas-ceccano/): A adolescente ajeitou os cachos com lentidão em frente ao espelho como se arrumasse o laço de um presente muito desejado. Depois, conferiu outra vez a fechadura e deitou na cama com cuidado para não amassar as pregas do vestido rosa, o mais bonito. Não importava que a mãe, durante várias horas seguidas, gritasse para ela sair do quarto; só lhe interessavam os relatos dos jornais. Às vezes, o nome de seu futuro noivo sequer figurava nas manchetes, mas ela bem sabia quem estava por trás dos crimes ali reproduzidos – com fotografias cheias de sangue e legendas sensacionalistas. Receava […]
- [CENOURAS - CONTO INÉDITO DE MARCOS WEISS BLIACHERIS](https://revistasepe.art.br/cenouras-conto-inedito-de-marcos-weiss-bliacheris/): Ao passar por aquela porta, David sentia que voltava a seus treze anos. Sentia seu rosto redondo novamente, com os cabelos cuidadosamente penteados, o aparelho nos dentes e o peso da Torá em suas mãos, os rolos que segurava com esforço para mais uma pose para o fotógrafo. Detestava aquela foto no centro da sala, tirada na sinagoga no dia do seu bar mitzvá. Sua mãe dava um longo e sonoro suspiro e dizia, com entonação iídiche: oy, o dia mais feliz de minha vida. Até que chegue o dia de seu casamento, claro. Sextas à noite sempre costumava jantar […]
- [MARGANI - CONTO INÉDITO DE SINE NOMINE](https://revistasepe.art.br/margani-conto-inedito-de-sine-nomine/): Margani era um pedaço de mau caminho! Colega de banco, despertava paixões em todo quadro funcional, incluindo gerentes, diretores e clientes ricos. Morena à meia cuia, com um cabelo que se derramava dorso a baixo como uma cachoeira de piche. Os olhos, duas bolitas rasgadas de cor incerta. Um tom exótico de mel, com expressões que iam do mormaço à selvageria, mercê do momento. Era por onde começavam a sucumbir suas vítimas. E a boca… Lábios de pedir beijo, daqueles que permanentemente ensaiam a última vogal. Um bico de selfie mesmo dormindo. Eu falaria sobre seu corpo, mas temo exagerar. […]
- [DE CAIO PARA ORACY - LUCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/de-caio-para-oracy-lucio-carvalho/): A poesia bem que consegue viver de poesia, mas os poetas são tão humanos que também não podem (nem poderiam) viver sem o que é de mais natural na humanidade: a própria incompletude e a intrínseca imperfeição. É muito difícil que um poeta seja admirado por ser imperfeita pessoa e esse desespelhamento com a imagem autoral muitas vezes acaba por empanar a diferença patente que há entre ser criador e, de outra vez, mera criatura entre criaturas. Há muito eu conhecia mais o poeta Oracy Dornelles por suas atividades circenses que por poeta. Oracy, caso não seja sabido, tutelava um […]
- [VOL. 1, Nº. 2/2020](https://revistasepe.art.br/sumario-da-2a-ed/): POESIA De Consubstantdjetivos comunsAdrian’dos Delima De MidiaserávelDelalves Costa De A arte do medoDilan Camargo De E se alguém o panoEliane Marques 4 poemasGabriela Silva De Avesso do climaInês Lempek 3 poemasJoão Antônio Soares Neto 3 poemasLúcio Humberto Saretta De Noite altaMagda Loguercio Carvalho De A mulher submersaMar Becker 4 poemasMichele C. Buss Uma ode à humanidade (Sófocles)Rafael Brunhara – trad. De Sagrado coraçãoRobertson Frizero De Subir ao muralRonald Augusto De Flor de UdumbaraSandra Santos De Memorial de LiliaThamar De Araújo De Cata-vento imóvelVitor Simon De Dente-de-leãoWanessa Monteiro de Barros FICÇÃO De Prosa pequenaAmilcar Bettega Pealo de cucharraClaudio B. Carlos AqueusDaniel Gruber Já é longe demaisDani Langer A garota de Chuck ColumbusDouglas Ceccagno El amante […]
- [APRESENTAÇÃO](https://revistasepe.art.br/sobre-a-sepe/): Em guarani e em outros dialetos indígenas, sepé é nome empregado comumente a homens. O termo dá nome também a uma gramínea bastante comum no Rio Grande do Sul: o capim Santa-Fé e parece ter esse sentido original. Outro significado possível para o termo é o de “chefe” e essa designação pode ter tudo a ver com o nome de batismo de Sepé, José Tiaraju, alferes real e corregedor do Povo de São Miguel e Província Jesuítica do Paraguai. Tendo vivido no séc. XVIII nas reduções jesuíticas e conhecido entre os indígenas apenas por “sepé”, Sepé Tiaraju foi morto em […]
- [PÓS-FLAGRANTE - CONTO INÉDITO DE TAILOR DINIZ](https://revistasepe.art.br/pos-flagrante-conto-inedito-de-tailor-diniz/): A cidade estava quase submersa. De algumas casas, nos locais mais baixos, só se podia ver os telhados e parte das paredes. E nos campos, para qualquer lugar onde se olhasse, não se via mais que extensos lençóis d’água estendidos de ponta a ponta. Chovia sem parar havia quase um mês, e aquela já era considerada a maior enchente dos últimos cinquenta anos. Nas coxilhas concentravam-se os animais fugidos do alagamento, taciturnos e ruminantes. Agora que a chuva cessara desde o meio dia, nuvens escuras e pequenos vãos azulados refletiam-se na lâmina da água, dando impressão de que, às margens […]
- [4 POEMAS INÉDITOS DE MARCO DE MENEZES](https://revistasepe.art.br/4-poemas-ineditos-de-marco-de-menezes/): introdução à contabilidade I quantos rostos esquecemosna parca destinação de comparsasque a existência provê aos visitantes de pai e mãe e irmãose parentes mais próximosposto que se transladamde um a outrocomo um projetor de slides enguiçadoos rostos escondemainda que familiaresum certo brilho esquisitoou uma opacidade de cera negligentesobre a tábua antiga do Seu Aquiles, o olhar racemosodesesperado, a cuia na mão enquanto raspa a terra com um graveto da guriazinha que era cuidadajunto de mim, a bochecha machucadae da Rita, a que cuidavamuito poucoa cal de um nariz de linhas magras do ancião(José? Getúlio?)que contava históriassobre encarnaçãosó os lábios limpose […]
- [MORITURI TE SALUTANT - CONTO INÉDITO DE GUSTAVO MELO CZEKSTER](https://revistasepe.art.br/morituri-te-salutant-conto-inedito-de-gustavo-melo-czekster/): Cláudio, o engenheiro, passa uma hora na frente do espelho experimentando maquiagens, colares, pulseiras, anéis e, quando está satisfeito com o que enxerga, coloca os tênis sujos, as calças rasgadas e vira Cláudio, o punk. Rodrigo e Jaque passam na sua casa, os dois também vestidos de maneira cuidadosamente desleixada, e o grupo vai para a Osvaldo Aranha. É uma noite muito aguardada e especial: quando eles abandonam as suas facetas sociais e encontram-se com o espírito de revolta ao sistema que foram forçados a seguir para terem uma existência confortável, com todos os bens e vantagens proporcionadas pelo dinheiro. […]
- [O ROMANCE BRASILEIRO NO SÉC. XXI - LUÍS AUGUSTO FISCHER](https://revistasepe.art.br/o-romance-brasileiro-no-sec-xxi-luis-augusto-fischer/): Estimar o futuro pode ser exercício ocioso, a menos que nasça do exame de interesses e tendências relevantes do presente. Vale lembrar o exemplo de Machado de Assis, que aos 40 anos de idade, em 1879, desenvolveu um diagnóstico de singular inteligência no artigo “A nova geração”. Ele observava que, para os jovens, ocorrera “uma circunstância grave, o desenvolvimento das ciências modernas, que despovoaram o céu dos rapazes, que lhes deram diferente noção das coisas”, de tal modo que “um dos caracteres da nova direção intelectual terá de ser um otimismo, não só tranquilo, mas triunfante”. Era a força não […]
- [RAÍZES NA FRONTEIRA - NEI CARVALHO DUCLÓS](https://revistasepe.art.br/raizes-na-fronteira-nei-carvalho-duclos/): Só recentemente descobri os nomes e as atividades de meus ancestrais, graças a uma pesquisa feita pela minha mulher Ida Duclós, que encerrou assim um longo período de indiferença de minha parte em relação a um assunto de tamanha importância. Costumo atribuir esse desligamento ao fato de meus pais terem ficado órfãos de pai muito cedo e jamais tocavam com profundidade o que se passou com eles e antes deles. Mas a responsabilidade é toda minha. Ligado e ao mesmo tempo afastado das minhas raízes, exerço minhas contradições ambulantes. De toda a diversidade pesquisada das duas famílias que se uniram […]
- [DE 'APENAS POR NÓS CHORAMOS', DE ANNA MARIANO](https://revistasepe.art.br/de-apenas-por-nos-choramos-de-anna-mariano/): METADES O que arranha a vidraçagatode muitas vidascampotrês vezes lavradonão vem de longenasceude um grito em leito de sustocresceu em mim modelado. Há sempre nele um roteiro, papéisum cristo no outeiromadalenas esvaídas, un té no tempo perdidojulio cesar (até ele)cardumes cartas espelhose mais cem mil companheiros. Em sutil complô nos medimosna sua mão os meu dedosfazem gestos obscenos. Somos apostas diversas num baralho sem coringaso alarme no seu ventre é filho meu enterrado.Sobre a mesa de domingo dividindo um mesmo pratoeu esfarelo o o pão, ele recolhe as migalhas. INVASORA Porque não podem suportar o Teu silêncioerguem anjos de pedra, […]
- [COTUBA DOS ERMOS - JOSÉ FRANCISCO BOTELHO](https://revistasepe.art.br/cotuba-dos-ermos-jose-francisco-botelho/): Para Francisco Bino. Mato, cantando.Antigo sortilégio micmac. Alta madrugada, e a ventania soçobrava as copas do arvoredo, os encaixes da janela estralejando no inchaço da friagem ‒ e, no impreciso momento do romper da lua, alguém veio bater à porta da quase-tapera. Ou no que havia de porta: pois zunido e vento ali passavam como a água que se escapa entre uns dedos meio abertos. Na caminha de pelego sobre o chão de pedra, Maninho saiu do sono raso e levou a mão ao lampião verde, que, por descuido, tinha deixado aceso. Acostumara-se a dormir entre os ruídos do vento […]
- [DE 'SPOILERS', DE DIEGO GRANDO](https://revistasepe.art.br/de-spoilers-de-diego-grando/): PREÂMBULO PARA UM POEMA TARDIO Ir para o inferno toma tempoà cata do incidente emaranhadotoma tempo e trinta e tantastentativas, primeiras palavraspedidos de desculpa e demissão:ricocheteios de cascalhona superfície da memória. Não basta boa vontadepara chegar ao infernoé preciso o reflexo condicionadode não estar pensando e de repenteestar: voltar a si, se descobrirantes da próxima rodadadurante um jogo de tabuleiro. Também estudo insistentesobre circunstâncias agravantessuscetibilidades compatíveiscom as dimensões e o caráterirrevogável do incidente:o inferno, afinal, é dos autodidatasnão dos autocomplacentes. Diante da ausência de um guiaadequado à faixa etáriae aos índices de umidadea disposição ao segredo, ao resta umda existência […]
- [10 MINICONTOS DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA](https://revistasepe.art.br/10-minicontos-de-jose-eduardo-degrazia/): A Larva A vida dos insetos é efêmera. Para pouco prazer, o esvoaçar contra as vidraças, a ofuscação nas lâmpadas do mundo. Assim pensava a larva pousada no mais alto ramo. Ao florescer o pessegueiro, ela rebentaria o casulo. Sabia que para grandes coisas havia sido criada. Não fora em vão tantas gerações se sucederem, para que ela estivesse, no mais alto ramo, esperando a primavera chegar e o pessegueiro florescer. Nada no mundo desviava sua atenção da obra para a qual fora destinada. A agitação de tantas antes dela não deixaria de ter um sentido que nela se albergava. […]
- [3 MINICONTOS INÉDITOS DE ROBERTO SCHMITT-PRYM](https://revistasepe.art.br/3-minicontos-ineditos-de-roberto-schmitt-prym/): Mefisto É um gato preto que vê as pessoas passarem com indiferença solene das alturas de um muro antigo, cuja pintura foi testemunha e vítima do tempo. Ninguém sabe quem o batizou, mas todo mundo sabe o seu nome. Às vezes, se digna a mover a cabeça lentamente da esquerda para a direita e depois fecha os olhos e boceja. Outras vezes, os cães latem, mas ele permanece imperturbável, inatingível. À noite, é diferente: sai para caçar almas e fazer jus ao seu nome. Pelo caminho Ele a arrasta em direção à colina, através dos arbustos, para o caminho que […]
- [DE 'CINE ABC', DE ALEXANDRE BRITO](https://revistasepe.art.br/de-cine-abc-de-alexandre-brito/): O TAIFEIRO sob a lâmina das águasdorme a carcaça do jovem taifeiro nunca mais as fragatasnunca mais os prostíbulosas nódoas da manhã inquieta nunca mais crispam-se as ondasdançam as algas gritam os peixesimperturbável o sono das profundezas cai o solcai a noite sobre o caisnunca mais o dia nunca mais nunca mais dorme o jovem taifeiro em seu leito de areiasob os lençóis negros de um oceano decepado dezoito horas e quarenta minutosde uma tarde infernal de verão assombradaminha sombra enlouquece estica-se à deformidadealcança a fachada das casas distantesagarra o horizonte esforço inútil a penumbra não tardaa noite engolirá a […]
- [LEGALIDADE - A HISTÓRIA COMO MELODRAMA RUIM - WALLACE ANDRIOLI](https://revistasepe.art.br/legalidade-a-historia-como-melodrama-ruim-wallace-andrioli/): Filmes como “Legalidade” deveriam ser realizados com maior frequência no Brasil. Ainda que esse, em específico, tenha sido feito de forma bastante equivocada. Há diversos episódios na história política brasileira dos séculos XX e XXI que oferecem substrato dramático para o cinema, mas que são, via de regra, ignorados por produtores, roteiristas e diretores. A explicação mais provável passa pelos custos de realização de filmes de época, mas não há necessidade de se recorrer à dimensão épica: o apelo aqui é por thrillers políticos com recortes cronológicos restritos, distantes das cinebiografias laudatórias no estilo Sergio Rezende, por exemplo. Algo como o que […]
- [A CARNE DO HOMEM (UM ENSAIO E TRÊS POEMAS CARNÍVOROS) - MARCUS FABIANO GONÇALVES](https://revistasepe.art.br/a-carne-do-homem-um-ensaio-e-tres-poemas-carnivoros-marcus-fabiano-goncalves/): No gado é que dormimose nele que acordamos.Drummond, Boitempo As pessoas modernas em quase nada diferem daquele bípede implume cuja espécie autonomizou-se geneticamente há cerca de 300 mil anos nas pradarias africanas, já considerada aí a datação das recentes descobertas de fósseis de Homo sapiens no sítio de Jebel Irhoud, no Marrocos, que recuaram em mais de 100.000 anos a nossa saga sobre o globo. O desenho morfofisiológico humano, portanto, permanece praticamente imune às recentes transformações ocasionadas pela revolução agrícola, ocorrida há aproximadamente dez milênios no Oriente Médio. Isso implica dizer que o quadro de nosso genoma prossegue estável, no mesmo lugar evolutivo do paleolítico: no […]
- [QUANTOS ANIMAIS EU JÁ MATEI? - RAFAEL BÁN JACOBSEN](https://revistasepe.art.br/quantos-animais-eu-ja-matei-rafael-ban-jacobsen/): Certo dia, quando eu era adolescente, saí da escola e fui almoçar em uma churrascaria com minha família. Aceitei uma coxa de frango que o garçom me ofereceu, como já havia aceitado tantas outras vezes antes. Mas, naquele dia, a textura, o sabor – alguma coisa naquele pedaço de carne não me agradou e eu o deixei de lado, esperando por algo que me apetecesse mais. Foi aí que aconteceu… De repente, como se uma bigorna caísse na minha cabeça, eu me dei conta de que aquilo era parte de um ser que, um dia, viveu, foi morto para me […]
- [UM ESTRANHO BALANÇO - ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA](https://revistasepe.art.br/um-estranho-balanco-athos-ronaldo-miralha-da-cunha/): Ultimamente, o meu mundo anda de cabeça para baixo. Vejo pessoas difusas numa eterna briga e infindáveis discussões. Vejo passantes que teimam em ser personagens de meus tormentos. E vejo pessoas incríveis que fazem parte dos meus sonhos por mais raros que eles sejam. Ontem, enquanto dormia, o sangue ferveu e tive um horrível pesadelo. Minha cabeça ardia em pensamentos e a dor era insuportável. Minhas pernas dormentes, mas em meu sonho – no pouco tempo em que dormi – minhas filhas brincavam num jardim florido à cata de borboletas. Corriam sob um sol de primavera. No meu sonho, as […]
- [SEU ARMANDO: O VENDEDOR DE TUDO - FERNANDO PEREIRA DA SILVA FILHO](https://revistasepe.art.br/seu-armando-o-vendedor-de-tudo-fernando-pereira-da-silva-filho/): Amanhã é dia do Seu Armando aparecer, comadre, talvez eu aproveite e compre a fazenda para a bombachinha do afilhado que já está crescendo e a única melhorzinha para ir ao colégio já está pequena… — Não se preocupe, Vizinha, a gurizada cresce como abóbora e a gente não tem muitas condições de pegar o ônibus e nem dinheiro para ir à cidade seguidamente. Além do mais, o tempo tem corrido seco e sem frio e eles gostam mesmo é de andar de calção e pés descalços. — É, mas o Mario Pinto disse no noticiário do meio dia que […]
- [5 POEMAS INÉDITOS DE ANDRÉ MARTINS](https://revistasepe.art.br/5-poemas-ineditos-de-andre-martins/): in memoriam sufocado sob violetasele morreu silenciosamentenão saiu no jornalnão houve consternação seu nome era outonoda tribo dos equinóciostinha os mais belos diasa luz preferida por monetboa temperatura para o tinto morreu como veio ao mundoentristecidosob a copa das árvoresdeixa folhas obsoletras assim como outras máquinas e pessoasa máquina de escrever tornou-se inútilpeça de um mundo com pressa mecânica os datilógrafoso papel carbonoa matriz de mimeógrafoe o errorexforam salvos no passado para copiar basta um ctrl + cpara apagar é só deletarembora o erro insista em objetar leia antes de ler o sanatório e o nosocômio são subsubdivididos:cinco mil alas […]
- [VIOLÃO COM VOZ NÃO É VIOLÃO DE ACOMPANHAMENTO - FELIPE AZEVEDO](https://revistasepe.art.br/violao-com-voz-nao-e-violao-de-acompanhamento-felipe-azevedo/): por Felipe Azevedo (1) Em dezembro de 2010, numa entrevista feita comigo em Porto Alegre pelo Jornal VAIA,[2] para uma edição especial sobre Canção, por ocasião do lançamento do meu novo e recente disco, Tamburilando Canções – Felipe Azevedo – Violão com Voz, um dos entrevistadores, o poeta e compositor Guto Leite comentou constatar nas canções deste novo álbum um contínuo e predominante traço 3D, no decorrer das audições. Conforme Guto, enquanto em meu trabalho anterior, o CD Percussìvé ou a prece do louva-a-deus (2007), era perceptível uma sensação 2D (Letra e Melodia) na maior parte do repertório, neste, o forte componente imagético agregado à […]
- [DE 'LÍCIDAS', DE LEONARDO ANTUNES](https://revistasepe.art.br/de-licidas-de-leonardo-antunes/): Do prefácio de Rafael Brunhara “Não diferem o historiador e poeta”, diz Aristóteles em trecho que constitui o cerne de sua Arte Poética, “senão em que diz um as coisas que sucederam, e outro como poderiam suceder”. Esta pequena obra de Leonardo Antunes, poeta, helenista e tradutor, exemplifica bem e tensiona, nos limites de nossas representações estéticas contemporâneas, a preceptiva aristotélica. Lícidas retira seu argumento de um episódio das Guerras Pérsicas, relatado no século V a.C. por Heródoto em sua obra Histórias. Logo depois da Batalha de Salamina, Mardônio, comandante persa, envia um embaixador de nome Miríquidas para fazer aos […]
- [MARCÍLIO DIAS - CONTO INÉDITO DE NAIDA MENEZES](https://revistasepe.art.br/marcilio-dias-conto-inedito-de-naida-menezes/): Osmar, de calça branca, camiseta branca, mente branca. Nada pensava, apenas sentia o leve peso do violão nas costas e o sofrimento dos pés na calçada irregular. Nunca havia percebido as casinhas “porta e janela, porta e janela, porta e janela”. Essa sucessão, talvez, tenha-o deixado alheio a tudo e colaborado para o incidente. Ele caminhava rente à parede das casas quando, de repente, veio o susto: terminada a limpeza, a senhora joga o balde com água e o acerta em cheio. Foi um “deus nos acuda”. Os vizinhos chegando, a senhora se desculpando pretendia reaproveitar a água para limpar […]
- [CINEMA GAÚCHO: CONSTRUÇÃO DE HISTÓRIA E DE IDENTIDADE - MIRIAM DE SOUZA ROSSINI](https://revistasepe.art.br/cinema-gaucho-construcao-de-historia-e-de-identidade-miriam-de-souza-rossini/): A História Cultural ratificou, para o historiador, a pesquisa histórica a partir de uma variedade de objetos que, se necessariamente não são novos, sempre foram vistos com muita desconfiança pela academia. Dentre esses objetos está o cinema, o primeiro meio de comunicação audiovisual, produzido durante a expansão da revolução industrial, no século XIX. Ao contrário do que imaginavam seus criadores, a invenção sem futuro, como a chamavam, se tornou no século seguinte um importante veículo da indústria da cultura de massa, registrando e difundindo hábitos, comportamentos, mentalidades, e versões de histórias. Seja o filme de narrativa ficcional, seja o filme […]
- [TEIXEIRINHA - CORAÇÃO DO BRASIL - DANIEL FEIX](https://revistasepe.art.br/teixeirinha-coracao-do-brasil-daniel-feix/): Em março de 1970, “cara a cara” era uma expressão da moda. O título do sucesso homônimo de Chico Buarque, lançado naquele início de ano, cabia para descrever todos os tipos de acareação — dos duelos dos faroestes spaghetti em voga no cinema da época aos encontros entre João Coragem e o Coronel Pedro Barros, antagonistas da novela Irmãos Coragem, o hit televisivo do momento. Cara a cara também era como se chamava um quadro do musical A grande chance, da TV Tupi, no qual o apresentador Flávio Cavalcanti submetia um convidado a uma série de perguntas, incluindo as mais […]
- [“ÁGUA PARADA”: O OLHAR DA MODERNIDADE NA FICÇÃO DE ALCIDES MAYA - LUCIANA MURARI](https://revistasepe.art.br/agua-parada-o-olhar-da-modernidade-na-ficcao-de-alcides-maya-luciana-murari/): Esto que fue una vez, vuelve a ser, infinitamente;los visibles ejércitos se fueron y queda un pobre duelo a cuchillo;el sueño de uno es parte de la memoria de todos. Jorge Luís Borges, Martín Fierro Ao longo de décadas de atuação no meio político e intelectual do Rio Grande do Sul, Alcides Maya percorreu uma trajetória em que doutrinação ideológica, militância e jornalismo compuseram ambiciosos projetos de intervenção social de cunho modernizador, ainda que suas concepções acerca dos instrumentos e dos agentes da evolução social no estado e no país tenham se transformado de acordo com as vicissitudes de cada […]
- [O COLECIONADOR - CONTO INÉDITO DE ANTÔNIO SCHIMENECK](https://revistasepe.art.br/o-colecionador-conto-inedito-de-antonio-schimeneck/): Nico tinha os olhos acostumados ao chão. Uma pedra diferente, uma figura de chiclete, um papel de bala, uma tampinha de garrafa, qualquer bugiganga poderia fazer parte de uma coleção. Em época de eleições, o garoto corria atrás dos carros que entupiam as ruas de panfletos. Quem não gostava disso era Dona Cenira, que implicava com as dezenas de caixas empilhadas no quarto do filho. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, ele era muito organizado. Cada caixa de sapatos era revestida de papel pardo, doado por Dona Olga, proprietária da farmácia, que possuía uma coleção de perucas e […]
- [4 POEMAS INÉDITOS DE TATIANA CRUZ](https://revistasepe.art.br/5-poemas-ineditos-de-tatiana-cruz/): CADA CORAÇÃO cada coração é uma casa assombrada ou umcaleidoscópiolugar de armaduras, elefantes, bibelôs de viagem,aliterações, alguns ossos, um tanto demágoa, os sonhos todos, a névoa dos sonhostodos até o café preto de toda manhãcada coração são mil corações em condição detransição, num salto.todos espelhos voltados para o centro de um único coração, quepulsa à mercê do enorme medo dasolidão e do enorme medo de te verafinal, coração casa assombrada ou caleidoscópioé como a própria casa do Tempo:acúmulo, momento e visão A CARNE DO POEMA eu vou arrancar da carne do poema um verbo querime com um vaso que caimas […]
- [LEMINGUES - LÍVIA ARAÚJO](https://revistasepe.art.br/lemingues-livia-araujo/): Chegando em casa encontrei-a sentada à mesa, relaxada, tomando café. Como se me contasse sobre um fait divers visto na rua, me disse que tinha saído com um homem a esmo, achado sabe-se lá onde — o tinder? Ela me disse, na verdade, que ele esteve em nossa casa e que depois do encontro sentou-se àquela mesma mesa onde eu estava e expeliu algumas das mais abomináveis crenças políticas de nossa época. Apesar disso, a experiência, aparentemente casual, tinha sido bem interessante. Eu não conseguia entender — era isso que ela queria? A ideia, em si, não era necessariamente ruim, […]
- [SELFIE DO DIABO - PATRÍCIA LANGLOIS](https://revistasepe.art.br/selfie-do-diabo-patricia-langlois/): Numa ocasião, numa dessas noites quentes, infernais, que você fica revirando, queimando na cama sem dormir, um calor de assolar e sem uma brisa para amenizar. Quando de repente escutei um grito, corri até a janela e vi um vulto dobrando a esquina. Em seguida um bêbado atravessou a rua gritando: – Puxei o rabo do Diabo!!! Puxei o rabo do Diabo! Tive vontade de rir e realmente ri muito como todos da minha rua. O pobre homem foi embora, lembro como se fosse ontem. Com um sorriso torto o homem gritava todo orgulhoso de ter puxado o rabo do […]
- [DE SÍLABAS CILADAS, DE CARLOS BADIA](https://revistasepe.art.br/de-silabas-ciladas-de-carlos-badia/): Longe Longea alma desce.Tece um fio d’água.Escorre num silêncio friofindo qualquer pensamento nítidolento ou rápido. É noite.Uma absurda voz interna,um miado,a rua distante, os carrose eu perdendo sanguesem feridas. Prisioneiros A atitude prisioneira do medo.O coração prisioneiro de carências.A opinião prisioneira de outra opinião.A insensatez prisioneira da coragem.A ousadia prisioneira da rebeldia vazia.O silêncio prisioneiro da retaliação.A força prisioneira da estupidez.A ação prisioneira da ganância.A beleza prisioneira do deslumbramento.A resignação prisioneira da religião.A notícia prisioneira do financiamento.A fala prisioneira da arrogância.A política prisioneira da mentira.A benevolência prisioneira da vaidade.O sexo prisioneiro do amor-romântico.O olhar prisioneiro de cada geração.O ser quando […]
- [3 POEMAS INÉDITOS DE ADRIANA BANDEIRA](https://revistasepe.art.br/3-poemas-ineditos-de-adriana-bandeira/): VINDO De onde venhodizem-me as coisassobre o vagar calmoda esperançapor um fioe quando não foi réstia?e quando não foi frio?o andar do sempreo andar do rio DEPOIS Depois do temposem que se chame instantemomentolembro dentro lembro tantoe ainda queroqualquer sussurrobarcovento como se fosse o voltar dos diasmeio tontasem inteiro gestosnasço inconstantevertoverso por causa de qualquer coisaum grãoum laçoum vermelhidãoembaraço ainda quero o que não concebonas mãostão longe estáser e vãoque nos lança como pássaros quero o impiedoso traçorasoque desenha um horizonteincansávelque nos quer o desejo é profundamente superficialinfinitamente vôofogo fátuocarnaval somente o diado dia é fatal QUERO CORPO Quero a […]
- [FALAS À ESPERA DE ESCUTA - ANA LÚCIA LIBERATO TETTAMANZY](https://revistasepe.art.br/falas-a-espera-de-escuta-ana-lucia-liberato-tettamanzy/): Raro é o brasileiro que, tendo passado por pelo menos um livro didático de história do Brasil, não conhece o célebre quadro “Primeira Missa no Brasil” (1861), do pintor Victor Meirelles. A cena retratada repercute algumas constantes na representação dos indígenas nos campos das artes, das letras e das ciências naturais desde os tempos da colônia e mesmo após. Inseridos como observadores da cena, em cima de árvores, atrás do altar ou nas suas margens, os ameríndios surgem como parte da natureza, elemento coadjuvante e decorativo. Sua força reside na beleza plástica de seus corpos e adereços, que, junto a […]
- [A ÚLTIMA COVA - ROCHELE BAGATINI](https://revistasepe.art.br/a-ultima-cova-rochele-bagatini/): O dia nascia sonolento na ilha da Torotama, ouvia-se o ranger dos barcos, o eco das aves, e a água roçava a saia na areia grossa. Na ilha cercada da Lagoa dos Patos, os barcos amanheciam guardados pela elegância das garças, seus delicados pescoços acompanhavam discretos os movimentos dos homens que se aproximavam. Os chinelos afundavam na areia molhada e eram puxados pelos fortes músculos das panturrilhas de Cleto, Aílton e Bento. Tinham a missão de atravessar a Lagoa em direção a cidade de Rio Grande para se reunirem com o prefeito e tratarem da cova única. O rebuliço por […]
- [ARTIGAS, UM CAMINHO - ELAINE TAVARES](https://revistasepe.art.br/artigas-um-caminho-elaine-tavares/): “Artigas, um caminho”, de Elaine Tavares, é um documentário que percorre a estrada épica de José Gervasio Artigas, o Protetor dos Povos Livres, líder e ícone da independência do Uruguai e apresenta o trajeto que por quase 600 km recorreram Artigas e seu povo, de Montevidéu até Concórdia, na atual Argentina. O filme resume em 35 minutos, com entrevistas, belas paisagens e grande sensibilidade jornalística, o êxodo oriental, ou melhor, a Redota, nome dado pelo povo da Banda Oriental àquela gesta histórica que, iniciada em 23 de outubro de 1811, construiu o caminho da independência uruguaia. “Artigas, um caminho” se […]
- [CASSIONEI NICHES PETRY - QUANDO BOLAÑO APARECEU NO MEU QUARTO...](https://revistasepe.art.br/cassionei-niches-petry-quando-bolano-apareceu-no-meu-quarto/): …eu ainda não o conhecia. Era um adolescente, só pensava em ouvir música (minto, gostava de ler e escrever também, mas não pegava bem dizer isso). No meu “micro system” rodava um rap dos Racionais nos momentos de fúria. – “Mis poemas casi no lo conoce nadie, lo que probablemente esté bien” – disse Bolaño, e quase não o entendi. Apenas lia em espanhol. Desliguei o rádio e perguntei: – O senhor é escritor? – “Soy mucho más feliz leyendo que escribiendo”. Com vergonha, mostrei a pequena biblioteca dentro do guarda-roupas, em cujas portas eu havia colado pôsteres de mulheres nuas. […]
- [MINHAS PERNAS DESACOSTUMADAS AO SUCESSO ESQUECERAM DE PEDALAR - R. TAVARES](https://revistasepe.art.br/minhas-pernas-desacostumadas-ao-sucesso-esqueceram-de-pedalar-r-tavares/): Era verão de 1993 e mais uma vez eu era a atração da rua Luiz Mércio Teixeira. Todos já sabiam, deviam estar acostumados, mas mesmo assim perto das cinco da tarde a gurizada parava de jogar taco e sentava no meio fio, em frente a Igreja do Sétimo dia não sei de quem, pra assistir meu suplício. Todas as tardes, quando o sol já estava um pouco mais fraco, eu abandonava os quadrinhos e saía de casa com o mesmo objetivo. Ao lado, sempre estavam meus pais e meu irmão. Será que não estava na hora de eles desistirem daquilo? […]
- [ERA TINHA FOI É - PLURAL FILMES](https://revistasepe.art.br/era-tinha-foi-e-plural-filmes/): Produzido em 2013 pela Plural Filmes, “Era Tinha Foi É” é um documentário realizado em 13 episódios de 26 minutos cada que conta a vida, a trajetória e a repercussão do trabalho de Gilberto Amaro do Nascimento, o Giba Giba. Cantor, compositor e instrumentista, Giba Giba foi um percussionista reconhecido nacionalmente por popularizar o “sopapo”. Trata-se de um instrumento de percussão de grandes dimensões que ele teria aprendido a tocar ainda criança, em Pelotas, sua cidade natal. Único instrumento de percussão criado efetivamente no Rio Grande do Sul, o sopapo de Giba Giba notabilizou-se tanto pelo tamanho quanto por sua […]
- [FUSION À PAMPA - LUCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/fusion-a-pampa-lucio-carvalho/): Em meados da década de 80, precisamente em 1985, o Brasil oficializou a existência do jazz em território nacional. O Free Jazz Festival, evento simultâneo no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de trazer nomes consagrados da cena internacional, popularizou um pouco mais o gênero e obrigou as lojas de discos a abrir uma seção a mais entre as suas fileiras de longplays. Ali, deveriam aparecer agora, ao lado da música brasileira e estrangeira (além das trilhas de novela), nomes internacionais famosos que desfilaram nos palcos do festival e outros – brasileiros da gema – mais conhecidos por […]
- [VOL. 1, Nº. 1/2020](https://revistasepe.art.br/sumario-da-1a-ed/): POESIA De Cine ABCAlexandre Britto De Apenas por nós choramosAnna Mariano De Sílabas CiladasCarlos Badia De SpoilersDiego Grando Do prefácio de Lícidas, de Leonardo AntunesRafael Brunhara 3 poemasAdriana Bandeira 5 poemasAndré Martins 3 poemasMarco de Menezes 4 poemasTatiana Cruz FICÇÃO 10 minicontos de Os leões selvagens de TanganicaJosé Eduardo Degrazia 3 minicontos inéditosRoberto Schmitt-Prym LeminguesLivia Araújo Pós-flagranteTailor Diniz Selfie do diaboPatrícia Langlois Cotuba dos ermosJosé Francisco Botelho Seu Armando: o vendedor de tudoFernando Pereira da Silva Filho Um estranho balançoAthos Ronaldo Miralha da Cunha Minhas pernas desacostumadas ao sucesso esqueceram de pedalarR. Tavares Marcílio DiasNaida Menezes Quando Bolaño apareceu no meu quartoCassionei Niches Petry A última covaRochele […]
- ['JONATHAN STRANGE E MR. NORREL', DE SUSANNA CLARKE](https://revistasepe.art.br/jonathan-strange-e-mr-norrel-de-susanna-clarke/): Por Simone Saueressig Foi mais para o começo do ano. A pandemia estava instaurada, mas a perspectiva era de que a situação se resolveria em algumas semanas, quiçá, meses. Era uma miragem, eu sabia, você sabia, todo mundo sabia. Uma coisa dessas não desaparece como fumaça, não funciona desse jeito. Mas a gente mentiu para si mesmo, porque se assumisse que seria uma condição a se prolongar pelo resto de 2020, o desespero ia ser maior. Então, como era para ser algo para algumas semanas, olhei para a minha estante e pensei: “qual livro desses poderia me ocupar por um […]
- ['LA TRAMA CELESTE', DE ADOLFO BIOY CASARES](https://revistasepe.art.br/la-trama-celeste-de-adolfo-bioy-casares/): Por Iuri Müller Organizo as leituras do ano e, se esperava encontrar rastros de desordem, acúmulos sem conexão e peças soltas, a verdade é que me deparo com outro registro: no ano do isolamento e do ensimesmamento, percebo que, de maneira não de todo consciente (sequer de modo exatamente disciplinado), acabei por separar as leituras de ficção em algumas fases bem definidas. Encontro, sem dificuldade, a “fase Natalia Ginzburg”, iniciada antes do desterro involuntário e retomada no inverno da clausura: voltei a Ginzburg com Todos os nossos ontens, romance que serpenteia por vidas erráticas durante a resistência italiana e nos […]
- ['LEONEL BRIZOLA - A HISTÓRIA O HISTORIADOR ', DE GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS](https://revistasepe.art.br/leonel-brizola-a-historia-o-historiador-de-gilberto-felisberto-vasconcellos/): Por Elaine Tavares O ano de 2020 foi “uma merda mesmo” como diria uma fazedora de carrancas lá da beira do São Francisco ao ser perguntada sobre a vida. O coronavírus nos jogou num turbilhão de confinamento e desespero, não tanto pela doença em si, mas por saber que no comando da Saúde estão os sinistros bolsonaristas. Poderia ter sido um bom momento para ler bastante, mas não foi. Eu, que cuido do meu pai que tem Alzheimer, mal tenho tempo para isso. O cuidado exige. Mas, ainda assim, por deformação de personalidade – não sei viver sem um livro […]
- ['MARAVALHA', DE CLAUDIO B. CARLOS](https://revistasepe.art.br/maravalha-de-claudio-b-carlos/): Por Luís Dill O subtítulo de Maravalha, do Cláudio B. Carlos, diz tudo: Uma novela grunge gaudéria. Embora seja sempre difícil redigir listas de final de ano e, graças a Deus, eu tenha conseguido ler bastante neste inesquecível 2020, elejo como leitura marcante do ano a narrativa do autor/editor/radialista de São Sepé. Minha escolha se deve a motivos bem simples. Os mais importantes são: 1) é uma boa história e 2) é bem escrita. Como leitor sempre busco isso nos livros de ficção. A narrativa é ambientada no interior do Rio Grande do Sul em uma noite gelada. Dois amigos […]
- ['MARROM E AMARELO', DE PAULO SCOTT](https://revistasepe.art.br/marrom-e-amarelo-de-paulo-scott/): Por Luís Augusto Farinatti Entre muitas boas leituras de 2020, destaco Marro e Amarelo, de Paulo Scott. Federico é um sociólogo nascido no final da década de 1960, em Porto Alegre. Foi fundador do fórum social mundial. Nascido em uma família negra, ele tem a pele mais clara que a do seu irmão, Lourenço. Federico é chamado para compor a comissão de aferição das cotas raciais, em Brasília, em 2016. Logo depois das primeiras reuniões, ele recebe um telefonema. Sua sobrinha foi presa, em Porto Alegre, por portar um revólver em uma manifestação em defesa de uma ocupação urbana. Esses […]
- ['MINHA LUTA', DE KARL OVE KNAUSGARD](https://revistasepe.art.br/minha-luta-de-karl-ove-knausgard/): Por Maria da Graça Rodrigues Atendendo ao prestigioso convite da Revista Sepé para recomendar uma leitura que eu tenha feito neste ano de 2020, escolhi a série de seis livros do escritor norueguês Karl Ove Knausgard: Minha Luta. Por que recomendo a leitura destas mais de três mil páginas de um autor nem tão conhecido assim? Respondo: porque Karl Ove Knausgard traz algo novo em literatura. No primeiro volume, A morte do pai, o leitor perceberá que está diante do diferente de tudo o que já tenha lido até o momento. E, no caso particular daquele leitor que frequentou oficinas […]
- [‘MORTE SUL PESTE OESTE’, DE ANDRÉ TIMM (2)](https://revistasepe.art.br/morte-sul-peste-oeste-de-andre-timm-2/): Por Daniel Gruber De todas as boas leituras que fiz este ano, uma das que se destacaram recentemente foi Morte Sul Peste Oeste, segundo romance de André Timm, lançado pela Editora Taverna. O livro é um tour de force pelo pedaço de vida de dois personagens em permanente trânsito, à margem de uma sociedade desigual, bruta e indiferente. Pelo ponto de vista de Dominique, um imigrante haitiano, e Brigite, uma transsexual adolescente, conhecemos o mundo árido que intuímos existir lá fora, longe de nossa vida privilegiada, mas que poucas vezes sentimos enquanto leitores. As vidas desses personagens se encontram em […]
- [‘MORTE SUL PESTE OESTE’, DE ANDRÉ TIMM](https://revistasepe.art.br/morte-sul-peste-oeste-de-andre-timm/): Por Davi Koteck Talvez alguma força estranha explique o magnetismo que atrai os dois personagens distintos, mas ainda sim similares, na trama de “Morte Sul Peste Oeste”, (Taverna, 2020). Dominique é um imigrante haitiano que, por designo, desponta numa Santa Catarina que promete trabalho e acolhimento, mas entrega uma das mais racistas, exploratórias e xenófobas regiões do Brasil. Brigitte é uma menina transexual de treze anos já desgastada pela vida, ainda buscando entender o pequeno espaço que ocupa no mundo, enquanto ao mesmo tempo sobrevive no caos do seu entorno: a relação problemática com a mãe e abusiva com uma […]
- [‘MULHERES EMPILHADAS’, DE PATRÍCIA MELO](https://revistasepe.art.br/mulheres-empilhadas-de-patricia-melo/): Por Dani Langer Embora tenha lido “Mulheres empilhadas” em março, sinto que o texto seguiu, e segue, a ecoar. Aquele livro que carimba o nosso eu-leitor com uma tinta persistente. Seja pela forma com que a história cola com a realidade, ou pelas múltiplas camadas de significados, o romance de Patrícia Melo foi a leitura mais marcante (ouso dizer, a mais necessária) do ano. Como nas narrativas anteriores da autora, o romance se desvela em um cenário para lá de realístico. Neste caso, um Brasil onde o machismo cultural termina na forma de violência sistêmica contra a mulher. Além de […]
- [‘NÃO, NÃO É BEM ISSO’, DE REGINALDO PUJOL FILHO](https://revistasepe.art.br/nao-nao-e-bem-isso-de-reginaldo-pujol-filho/): Por Cassionei Niches Petry Não, não é bem uma resenha, assim como o livro, objeto desta não-resenha, não é bem um livro, assim como os contos que o compõem não são bem contos, assim como o autor não é bem um escritor e o crítico não é bem um crítico. Já a editora é a Não Editora, que tem como logomarca aquele cachimbo do Magritte do quadro em que há a inscrição “isto não é um cachimbo”. Não, não é bem isso que eu queria escrever sobre Não, não é bem isso, de Reginaldo Pujol Filho. Então, vamos recomeçar. Instigado […]
- ['O AMOR, AS MULHERES E A VIDA', De MARIO BENEDETTI](https://revistasepe.art.br/o-amor-as-mulheres-e-a-vida-de-mario-benedetti/): Por Magda Loguercio Carvalho Tenho lido e relido o livro O amor, as mulheres e a vida do Mario Benedetti, uma Antologia de poemas de amor. Este livro inspirou vários poemas que escrevi ‘a luz de velas nas noites frias do último inverno sob um velho cobertor de lã de ovelhas que ganhei dos meus pais ainda na faculdade e onde dormi abraçada com o grande amor da minha vida’. Muitas recordações daquelas noites regadas a vinho tinto e poesia. Benedetti, com sua maestria imortalizou mais um inverno sulino. Recomendo!! Leia mais da autora em Sepé. 🛒 Clique e encomende […]
- [‘O AVESSO DA PELE’, DE JEFERSON TENÓRIO](https://revistasepe.art.br/o-avesso-da-pele-de-jeferson-tenorio/): Por Marcos Weiss Bliacheris A Porto Alegre de 2020 elegeu uma inédita bancada de mulheres e jovens negros para a Câmara de Vereadores e um inédito patrono da Feira negro, Jefferson Tenório, no ano em que o evento se mudou da praça com jacarandás para as telas e telinhas. É a mesma cidade que assistiu ao violento assassinato do negro João Alberto Silveira Freitas no estacionamento de um hipermercado e à morte da líder comunitária negra Jane Beatriz Silva Nunes em uma ação policial na Vila Cruzeiro. Mas também é a capital onde um candidato derrotado atacou essa bancada invocando […]
- [‘BAU MENSAGEM (FERNANDO PESSOA)’, DE ANDRÉ LUIZ OLIVEIRA](https://revistasepe.art.br/bau-mensagem-fernando-pessoa-de-andre-luiz-oliveira/): Por Juarez Fonseca No tempo da velocidade, do raso, do efêmero, do monetarizado, o que dizer de um homem que “gasta” mais de 30 anos de sua vida em um projeto que contradiz tudo isso? Esse homem se chama André Luiz Oliveira, 73 anos, baiano radicado em Brasília desde 1991 e que desde a década de 1980 se dedica obstinadamente a revelar em música os segredos do livro Mensagem (1934), único em língua portuguesa que Fernando Pessoa publicou em vida, com poemas sobre personagens da história/glória de Portugal. Para marcar os 80 anos da morte do poeta, em 2015 André […]
- [‘O BUDA NO SÓTÃO’, DE JULIE OTSUKA](https://revistasepe.art.br/o-buda-no-sotao-de-julie-otsuka/): Por Michelle C. Buss “O buda no sótão” (Grua, 2014), premiada narrativa da nipo-americana Julie Otsuka, é um convite para repensarmos sobre a história da imigração japonesa nos Estados Unidos. Com uma escrita fluída e matizada por imagens poéticas, Otsuka nos faz mergulhar em retalhos de pequenas narrativas que se intercruzam costurando um grande mosaico de vozes femininas. Nesse romance, os desafios, intempéries, dores e descobertas, inerentes ao processo de imigração, são protagonizados por mulheres que tem suas histórias contadas através de uma voz coletiva que enumera os mais diversos episódios da vida dessas personagens, desde a partida no Japão […]
- ['O DUQUE DA SENZALA', DE VALDOMIRO MARTINS](https://revistasepe.art.br/o-duque-da-senzala-de-valdomiro-martins/): Por Luís Roberto Amabile Como sempre, muito, muito difícil escolher as leituras do ano, pois, claro, foram tantas, e nos meio das tantas há sempre mais que algumas que cativam. Então selecionar sobre quais escrever significa deixar outras de fora que também mereceriam estar aqui. Mas vamos lá, com foco em livros (injustamente) menos conhecidos, de editoras independentes: O duque da senzala (Class/ Bestiário, 2019), de Valdomiro Martins. Comecemos pelo óbvio. Valdomiro Martins, um autor negro, escreveu um romance histórico narrando a jornada de Ábedu Lecur, O duque da senzala, um fictício ex-escravo que busca espaço no meio social e […]
- ['O ESTADO E A REVOLUÇÃO', DE V. I. LENIN](https://revistasepe.art.br/o-estado-e-a-revolucao-de-v-i-lenin/): Por Carlos Hahn Aqueles que deveriam zelar pela vida do povo conclamavam a nação a salvar a economia. Eu questionava se não teria sido justamente tal economia o que nos levara a essa situação proto-apocalíptica. Era hora – e ainda é – de salvar a humanidade. Buscar um modelo de estrutura social que ponha a vida no centro da organização econômica. Após me lavar na enxurrada de lives, recorri a leituras que ajudassem a ampliar e aprofundar o entendimento da conjuntura socioeconômica. Nesse sentido, um livro foi crucial para eliminar qualquer suspeita ou sensação de fim-da-história: “O Estado e a […]
- [‘O INVERNO E DEPOIS’, DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL](https://revistasepe.art.br/o-inverno-e-depois-de-luiz-antonio-de-assis-brasil/): Por Jair Portela Acabo de ler O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil. A obra também poderia chamar-se Outrora, ou Al otro lado del río… Ou simplesmente Constanza. É um romance refinado, instigante, exigente, especialmente lindo, com um vocabulário rico e sofisticado, mas ao mesmo tempo palatável. Apresenta o protagonista como um homem tímido, introspectivo, mimado e observador, características invariáveis de todo filho único. Julius, o personagem, é violoncelista, e leva a vida dentro de uma partitura, fria e exata, que executa quase sem desafinar. No primeiro movimento é regido pelo seu talento imberbe e a vontade de […]
- ['O MUNDO DA ESCRITA', DE MARTIN PUCHNER](https://revistasepe.art.br/o-mundo-da-escrita-de-martin-puchner/): Por Nelson Rego O mundo da escrita, de Martin Puchner (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares), ajuda a compreender como os livros mudaram o mundo. Eu sei, alguém logo dirá: livros não mudam o mundo. No máximo, alguns livros mudam algumas pessoas. Eventualmente, mais do que algumas. Pois então, se mudam pessoas, ajudam a mudar a humanidade. O mundo não é a humanidade viva (com a sua história) sobre a crosta do planeta? O livro de Puchner ajuda a compreender como os livros mudaram a humanidade (com a sua história, aliás, com as suas histórias) sobre a crosta do planeta. […]
- ['O OUTRO LADO DA PONTE', DE VERA IONE MOLINA](https://revistasepe.art.br/o-outro-lado-da-ponte-de-vera-ione-molina/): Por Neusa Demartini Com um belo e envolvente booktrailer a escritora Vera Ione Molina Silva preparou, após alguns anos, o lançamento virtual da sua novela O outro Lado da Ponte. Escrita e terminada há mais de 20 anos, em 1997, ficou guardada até ser relida e aprovada sua publicação digital pela autora. Agora, Vera Ione nos brinda, por primeira vez, com diagramação e edição seguindo a tendência atual para atingir o grande público: a mídia digital. Vera apresenta uma trama muito bem escrita, eis que também é do mundo das Letras e das revisões, com um texto surpreendente. As 40 […]
- [‘O PEQUENO PRÍNCIPE PRETO’, DE RODRIGO FRANÇA](https://revistasepe.art.br/o-pequeno-principe-preto-de-rodrigo-franca/): Por Fernando Chemale Por que ler uma adaptação de um livro mundialmente consagrado, escrita por alguém que participou de um reality show de relevância cultural nula? Minha resposta é tão clichê quanto a obra que inspira o livro em questão: a busca por um mundo mais justo e equalitário, onde minha pequena filha esteja inserida. Não almejo que minha rebenta por nenhum momento de sua vida diminua alguém por sua cor de pele . Nem que jamais seja impregnada por um “caldo de cultura” onde se veja com naturalidade formas veladas, mas nem por isso menos cruéis, de preconceito. Que […]
- [‘O VILAREJO’, DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI](https://revistasepe.art.br/o-vilarejo-de-fiodor-dostoievski/): Por Nei Duclós Em 2020 fiz as pazes com Dostoiévski. Leitor irregular do gênio, naveguei o seu pequeno romance O Vilarejo, publicado pela Global nos anos 80 e que desde então dormia na biblioteca doméstica. O personagem narrador é um jovem recém formado que, convocado pelo tio rico, é muito tolo para um casamento de ocasião. O centro do conflito é um criado metido a sábio e chantagista. Desfilam nas situações tensas, a tia viúva, a jovem inocente, a herdeira rica, os criados veteranos e moços, etc. O livro me fisgou pela riqueza da fabulação com personagens em conflito que […]
- ['OBRIGADO', DE ANDRÉ NEVES](https://revistasepe.art.br/obrigado-de-andre-neves/): Por Antônio Shimeneck Entre as leituras de 2020, o ano fatídico, há um livro para se voltar a ele muitas vezes. É do pernambucano André Neves, autor e ilustrador que já deixou sua marca na literatura não só do Brasil como do mundo, já que suas obras têm sido traduzidas para vários países. Publicado pela grande Pulo do Gato, Obrigado faz uma viagem à memória poética deste artista que completa 25 anos de carreira. Um livro para deixar na mesa de centro da sala causando inveja nas visitas! Leia mais do autor na Sepé. 🛒 Clique e encomende o seu […]
- ['OS CONTOS DE CANTUÁRIA', DE GEOFFREY CHAUCER](https://revistasepe.art.br/os-contos-de-cantuaria-de-geoffrey-chaucer/): Por Monika Paescu Tantos livros escolhemos ler por prazer e tantos por pesquisa e The Canterbury Tales foi um que comecei a ler por fazer parte de uma pesquisa e terminei pelo prazer da leitura. Não é um livro fácil, desses de deitar na rede e curtir, é denso e cheio de citações e curiosidades, é uma obra que lemos com bloco de anotações ao lado, eu, pelo menos, adoro ler com bloquinhos de anotações para registrar frases, pensamentos, informações e curiosidades. Geoffrey Chaucer é um escritor cheio de opiniões, achei bastante vanguarda para a época. Ele conta enquanto faz […]
- [‘OS SUPRIDORES’, DE JOSÉ FALERO](https://revistasepe.art.br/os-supridores-de-jose-falero/): Por Cristiano Fretta Uma das máximas da criação literária é de que se deve escrever sobre aquilo que se sabe. Não se deve procurar em reinos distantes a nós mesmos a ambientação de nossos enredos, sob a pena de sermos engolidos pelo artificialismo e/ou convencionalismo. Evoco aqui o caso exemplar de José de Alencar e o seu (anti)canônico romance “O Gaúcho”, publicado em 1870. Nesta prosa, a paisagem sulina é representada por meio de uma idealização tão repleta de grandiloquência que por vezes podemos nos questionar se estamos lendo a descrição do mesmo local que décadas mais tarde o genial […]
- ['PALAVRAS PARA ESTRANGULAR SILÊNCIOS', DE EDELSON NAGUES](https://revistasepe.art.br/palavras-para-estrangular-silencios-de-edelson-nagues/): Por Vitor Simon Quando vi o título, pensei de imediato: mas por que os silêncios devem ser estrangulados? Na leitura dos poemas, veio a resposta: para que falem, para que digam aquilo que escondem. E isso nem sempre é um processo indolor. Muitas vezes, há que se agarrar o verso pelo pescoço. O livro todo tem um tom de revelação, algo que se confirma em suas quatro Aletheias, cada uma delas fechando um capítulo. A verdade é convidada (ou coagida?) a vir à superfície, ainda que gere horror e desespero. Talvez nada combine mais com 2020 do que isso. A […]
- ['PARA DIMINUIR A FEBRE DE SENTIR', DE DALVA MARIA SOARES](https://revistasepe.art.br/para-diminuir-a-febre-de-sentir-de-dalva-maria-soares/): Por Tatiana Cruz Dalva Maria Soares dá vontade de escrever. Vou melhorar: ler Dalva Maria Soares dá vontade de escrever. De novo, Tatiana, te esforça: ler Para diminuir a febre de sentir, livro de Dalva Maria Soares, dá vontade de escrever, confessar, conversar. Eu li Dalva rodeada de mulheres, todas as minhas mulheres mortas. A vó Ritta sentada me olhando com aqueles olhos que foram azulando (será que todos os olhos vão azulando mais perto da morte?). A vó Lídia chegava com erva-cidreira para o chá, e a tia Mari sorria pra mim, orgulhosa do círculo formado de todas nós, […]
- ['PENSANDO COMO UM NEGRO: ENSAIO DE HERMENÊUTICA JURÍDICA', de ADILSON JOSÉ MOREIRA](https://revistasepe.art.br/pensando-como-um-negro-ensaio-de-hermeneutica-juridica-de-adilson-jose-moreira/): Por Paulo Scott Foi um ano de leitura de livros sobre política, teoria literária e crítica ao Direito. Penso que fundamental foi o Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica, do professor Adilson José Moreira. Também significativos foram as obras que tratam da relação interdisciplinar entre Direito e Literatura: Crítica em tempos de violência, do professor Jaime Ginzburg; a coletânea de ensaios História Memória Literatura, organizada pelo professor Márcio Seligmann-Silva e o Direito, Hermenêutica e Literatura, da professora Maria Helena Damasceno e Silva Megale. Leia mais do autor em rochascott.wordpress.com 🛒 Clique e encomende o seu exemplar
- ['PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA', DE DJAMILA RIBEIRO](https://revistasepe.art.br/pequeno-manual-antirracista-de-djamila-ribeiro/): Por Lilian Rocha “Devemos lembrar que este não é um debate individual, mas estrutural: a posição social do privilégio vem marcado pela violência, mesmo se determinado sujeito não seja deliberadamente violento.” (D.R., 2019) O ano de 2020 foi marcado por várias violências étnico-raciais, o que fez acender uma luz de alerta na sociedade. Inúmeras pessoas foram para as suas redes sociais expressar a sua solidariedade postando a #vidasnegrasimportam, outras tiveram a coragem de se manifestarem nas ruas, com cartazes, expressões de ordem, manifestos exigindo ações mais concretas dos governos. Tudo isso na indignação do momento, mas depois da raiva, do […]
- ['PERFUMES E MOSCAS', DE ISMAEL SEBBEN](https://revistasepe.art.br/perfumes-e-moscas-de-ismael-sebben/): Por Douglas Ceccagno Em 2020, talvez nenhum livro tenha me acompanhado como Perfumes e moscas, de Ismael Sebben, publicado pela editora Libretos. Num momento em que a literatura do Rio Grande do Sul parece ter abandonado a problemática regional e está mais preocupada com os espaços metropolitanos do país ou do exterior, é uma grata surpresa encontrar, nessa coleção de contos, uma sensibilidade atenta aos conflitos humanos, tanto do ambiente urbano quanto do rural, e nessa mescla de ambientes que são as cidades do interior. Tratando o leitor com intimidade, numa dicção próxima da crônica, o autor apresenta, com a […]
- ['POEMAS DO JAPÃO ANTIGO', DE ANDREI CUNHA](https://revistasepe.art.br/poemas-do-japao-antigo-de-andrei-cunha/): Por Sidnei Schneider O nome completo do livro é Poemas do Japão antigo, seleções do Kokin’wakashû (Class, 2020),com tradução, ensaio introdutório e notas de Andrei Cunha, professor de Língua e Literatura Japonesa da UFRGS. Reúne 165 poemas, amostra da segunda mais antiga antologia do Japão, originalmente com 1.111 poemas, compilados no século X. Quase todos são do tipo tanka, ou seja, um waka de única estrofe, com 5-7-5-7-7 sílabas, já conhecido por aqueles que se aventuraram a estudar o haikai e podem “vê-lo” nos três versos iniciais. Belamente ilustrado, traz os poemas em português, japonês e ainda a transliteração, para […]
- ['POESIA COMPLETA DE EMILY DICKINSON', TRAD. DE ADALBERTO MÜLLER](https://revistasepe.art.br/poesia-completa-de-emily-dickinson-trad-de-adalberto-muller/): Por João Antônio Soares Neto No Brasil, a obra de Emily Dickinson (1830-1886) teve suas primeiras traduções em 1928, com Manuel Bandeira. Desde então, diversos tradutores e poetas traduziram esparsamente seus poemas, dentre os quais Cecília Meirelles, Décio Pignatari, Olívia Krähenbühl, Mário Faustino, Paulo Mendes Campos, Ana Cristina Cesar, Aíla de Oliveira Gomes, Isa Mara Lando, José Lira e Augusto de Campos. Em geral são traduções parciais, de seleções de uma extensa obra que, agora no esforço editorial das editoras da UNICAMP e da UNB, encontrará uma versão completa pelas mãos do professor, poeta e tradutor Adalberto Müller. Por enquanto […]
- ['POETAS DA DURA NOITE', ORG. DE RAUL ELLWANGER](https://revistasepe.art.br/poetas-da-dura-noite-org-de-raul-ellwanger/): Por Adriana Bandeira Sobre poesia e escritos tem me chamado a atenção o tal encurtamento da linguagem, quando um texto ou livro diz por si pela sua capa, pela cor e serve de enfeite na mesa de centro de alguma casa, estabelecimento, escritório ou lugar de espera. Ah! A superfície que imita uma estética, destacada por algo tão raso, tão pouco como se bastasse à civilidade qualquer espelho que não seja profundo. Talvez por isso tenho me ocupado de pensar as autorias, os contextos que nomeiam um Autor de um texto. Não que isso seja o que diz da obra […]
- [‘PONCIÁ VICÊNCIO’, DE CONCEIÇÃO EVARISTO](https://revistasepe.art.br/poncia-vicencio-de-conceicao-evaristo/): Por Maria Alice Braga O ano de 2020 ficou marcado pelo isolamento social em função da pandemia, mas, para mim, especialmente, pelos livros que li, e não foram poucos. Uns se destacam mais que outros, no entanto, minha indicação de leitura é o romance de Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio. A primeira edição foi em 2003, financiada pela autora e publicada pela editora Mazza, mas eu só o conheci em 2020, 3ª edição, depois de ler Olhos d’água, da mesma autora. De tanto gostar fui atrás de outros livros de Evaristo e adquiri Ponciá. O exemplar chegou na minha casa em […]
- ['POR CAUSA DE VOCÊ MENINA', DE MARIA OTTILIA RODRIGUES](https://revistasepe.art.br/por-causa-de-voce-menina-de-maria-ottilia-rodrigues/): Por José Eduardo Degrazia Não vou cair na cilada de dizer que Maria Ottilia Rodrigues é um fenômeno por estar escrevendo tão bem e com tão pouca idade. Nem vou comparar com Casimiro de Abreu, nem muito menos com Castro Alves, pois desejo uma longa vida literária para ela. Nem aproximarei Maria de Rachel de Queiroz que aos vinte anos tinha publicado o romance O quinze. Todas essas aproximações pareceriam fora de lugar e desnecessárias. Porque Maria Ottilia tem uma personalidade literária especial, um lado romântico só dela, mesclado a uma insatisfação por conhecimento e entrega à vida só dela. […]
- ['QUATRO MULHERES', DE NEUSA DEMARTINI](https://revistasepe.art.br/quatro-mulheres-de-neusa-demartini/): Por Vera Ione Molina O romance Quatro Mulheres, publicado em 2019 pela Editora Bestiário, é dividido em 23 capítulos curtos que têm como título os nomes das personagens focadas predominantemente, recurso este que facilita e clareia o entendimento da história em todas suas nuances. No início, o leitor tem a impressão que o foco narrativo é a personagem Yolanda, segunda mulher do desembargador, a única das mulheres que é de São Paulo, que mantém com ele uma relação estável, embora não vivam na mesma casa. As outras duas mulheres são de Rio Pardo, terra natal de Afrânio, embora não se […]
- ['RACISMO RECREATIVO', DE ADILSON MOREIRA](https://revistasepe.art.br/racismo-recreativo-de-adilson-moreira/): Por Clara Oliveira 2020. Nem precisa dizer muito: simplesmente não está sendo fácil. Justamente por isso, pensando no fato de esse ano ter sido particularmente conturbado, parece ser ainda mais urgente sugerir leituras que tragam um certo desconforto necessário, que nos lembrem que é imperativo ouvir, refletir e agir. Deixo aqui, então, o convite para a leitura de Racismo recreativo, de Adilson Moreira, professor doutor em Direito pela Universidade de Harvard e um dos cinco finalistas do 62º Prêmio Jabuti na categoria “Ciências Sociais”, com o livro Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica (Editora Contracorrente). Escolhi esse que […]
- ['SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO', DE LILIA SCHWARCZ](https://revistasepe.art.br/sobre-o-autoritarismo-brasileiro-de-lilia-schwarcz/): Por Letícia Möller Lançado em 2019, “Sobre o autoritarismo brasileiro”, de Lilia Schwarcz, é um livro importante e elucidativo, que analisa o autoritarismo no país, de raízes tão profundas quanto a nossa História desde os tempos do Brasil-colônia, e seus tentáculos que alcançam as mais variadas esferas da vida: do exercício de direitos à concepção de família, à relação com o corpo e a como se modulam nossas relações sociais. Lilia examina a relação do autoritarismo com males históricos do país, evidenciando como ele, no passado ou no presente, autoriza, estimula, justifica e legitima a escravidão, o mandonismo, o patrimonialismo, […]
- ['SONATA EM AUSCHWITZ', DE LUIZA VALENTE](https://revistasepe.art.br/sonata-em-auschwitz-de-luiza-valente/): Por Athos Ronaldo Miralha da Cunha Um livro para ser lido com os olhos voltados para o passado, mas com uma profunda reflexão sobre o presente. A impressão que temos é que o mundo está mais intolerante, mais preconceituoso, mais racista, mais violento. Mas Luize nos coloca nos campos de concentração nazistas e, então, percebemos que a intolerância não é de agora. É de sempre. A narrativa perpassa pela década de 40 na Alemanha nazista e no final da década de 90 no Rio de Janeiro, com uma personagem – nascida em Auschwitz – em busca de explicações da trajetória […]
- [‘TERRA NOS CABELOS’, DE TÔNIO CAETANO](https://revistasepe.art.br/terra-nos-cabelos-de-tonio-caetano/): Por Catia Schmaedecke O livro de contos “Terra nos cabelos” do autor porto-alegrense Tônio Caetano é vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2020. Fiquei curiosa ao ler as impressões de alguns leitores, porém já estava preparada desde o momento em que o próprio Tônio anunciara o início dessa jornada. Mesmo assim, sabedora de que algo grande me aguardava, fui surpreendida quando, ao término do primeiro conto, minhas lágrimas transbordaram. A escrita criativa de Tônio Caetano nasce com tanta espontaneidade em cada cena, que me faz pensar o quão belo enxerga o mundo, apesar dos pesares. No livro o autor discorre […]
- [‘TODOS OS CONTOS’, DE CLARICE LISPECTOR](https://revistasepe.art.br/todos-os-contos-de-clarice-lispector/): Por Inês Lempek 2020 está terminando, como um marco na historia do planeta. Um ano difícil, sabemos bem, mas também, com o perdão do lugar comum, hora de abrir novas brechas no devir do enclausuramento. Na impossibilidade de sair à rua, nos voltamos para dentro – da casa, de si, de mundos possíveis. Entre perdas e danos, salvou-se um ano de muitas leituras. O mantra do meu ano foi a arte salva. Neste caso, leia-se literatura. Muitos livros novos, autoras e autores já conhecidos, alguns consagragados, premiados, autoras e autores novos, muitos talentos preencheram dias de isolamento e noites insones. […]
- [‘TORTO ARADO’, DE ITAMAR VIVEIRA JÚNIOR](https://revistasepe.art.br/torto-arado-de-itamar-viveira-junior/): Por Maya Falks Como resenhista, tenho acesso a um número gigante de livros maravilhosos – no meu caso, todos de literatura brasileira contemporânea – e certamente gostaria de indicar dezenas deles, mas como o desafio é justamente escolher um livro, escolho aquele que não apenas me marcou profundamente, mas que tem sido unanimidade entre todos que conheço que já tiveram acesso a ele. Trata-se do romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O romance foi publicado inicialmente em Portugal, onde o autor baiano foi contemplado com o Prémio LeYa em 2018, sendo lançado no Brasil no ano seguinte, pela editora […]
- [‘TUDO SOMA ZERO: HISTÓRIAS DE OUTROS FUTUROS’, ORG. ANA LUIZA RIZZO E CRIS VAZQUEZ](https://revistasepe.art.br/tudo-soma-zero-historias-de-outros-futuros-org-ana-luiza-rizzo-e-cris-vazquez/): Por Maristela Scheuer Deves Quando li Tudo Soma Zero: Histórias de Outros Futuros (Class, 296 págs.), em fevereiro, o livro me impressionou pela mistura de distopia com realidade. Tudo ali era ficção (ainda bem!, eu pensava), mas muitos daqueles futuros imaginados poderiam, a seguir o rumo que a humanidade vinha tomando, tornar-se um dia presentes. Agora que já passamos nove meses – o tempo de uma gestação – mergulhados numa outra realidade com profundos toques de distopia, o tom premonitório da coletânea de contos de 26 jovens autores organizada por Ana Luiza Rizzo e Cris Vazquez me parece ainda maior. […]
- ['UM SOL DE BOLSO', DE JOÃO FILHO](https://revistasepe.art.br/um-sol-de-bolso-de-joao-filho/): Por Mariana Machado de Freitas Se 2020 nos privou de muitas coisas, lugares e pessoas, também nos deixou à sombra, resguardados da luz do astro que sempre foi símbolo de vida. Mas foi curiosamente neste ano antissocial, asséptico e sombrio que encontrei no mar das redes sociais — esse mar outro, igualmente inesperado — um nobre poeta e um outro sol, “Um Sol de Bolso”. O livro “Um Sol de Bolso” (2020), do baiano João Filho, traz a assunção da sina do olhar decidido a absorver as suas circunstâncias e devolver à realidade o fruto de sua observação amorosa. Mas […]
- [‘VILA SAPO’, DE JOSÉ FALERO](https://revistasepe.art.br/vila-sapo-de-jose-falero/): Por Rochele Bagatini Em uma das epígrafes do Sagarana, de Guimarães Rosa, há a história infantil de Grey Fox que diz “For a walk and back”, said the fox. “Will you come with me? I’ll take you on my back. For a walk and back again”. É isso que José Falero faz em Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019), ele nos leva para dar uma voltar, uma volta pela periferia de Porto Alegre, de onde não voltaremos os mesmos. Vila Sapo é o primeiro livro do José Falero, e foi minha apresentação ao autor, que já considerei enorme. O livro tem […]
- [VOL. 1, Nº. 4/2020](https://revistasepe.art.br/sumario-da-4a-ed/): ‘A AUTOESTRADA DO SUL E OUTRAS HISTÓRIAS’, DE JULIO CORTÁZAR Marga Cerdón ‘A AVE LÚCIFER’, DE EMMANUEL SANTIAGO Leonardo Antunes ‘À ESPERA DE UM IGUAL’, DE THOMAZ ALBORNOZ NEVES Lucio Carvalho ‘A GALINHA CEGA’ DE JOÃO ALPHONSUS Lília Sentinger Manfroi ‘A INUTILIDADE DO INÚTIL’, DE NUCCIO ORDINE Pablo Morenno ‘A MANIPULAÇÃO DAS OSTRAS’, DE LUIZ MAURÍCIO AZEVEDO Juremir Machado Da Silva ‘A MULHER SUBMERSA’, DE MAR BECKER Thomaz Albornoz Neves ‘A NOIVA JOVEM’, DE ALESSANDRO BARICCO Anna Mariano ‘A OBSCENA SENHORA D’, DE HILDA HILSTAna Emilia Klein ‘A TELEPATIA SÃO OS OUTROS’, DE ANA RÜSCHE Christian David ‘A TRISTE BALADA DOS HERCULÓIDES CONTRA AS LEIS TERRENAS (UMA POEMÁTICA POP-BARROCA)’, […]
- [DE 'À ESPERA DE UM IGUAL', DE THOMAZ ALBORNOZ NEVES](https://revistasepe.art.br/de-a-espera-de-um-igual-de-thomaz-albornoz-neves/): A prática da poesia como celebração e mistériodo prefácio de À espera de um igual Por Rafael CourtoisieMontevideo, setembro de 2019 “A resposta é a tristeza da pergunta”, afirmava Fernando Pessoa. Pois bem, a poesia de Thomaz Albornoz Neves está feita de uma alegria imensa onde cada texto é a um só tempo o descobrimento do mundo e uma interrogação contínua sobre o mundo. Se recorremos à riquíssima tradição poética em português, e em particular à poesia brasileira do século XX, encontramos a referência fundamental do Concretismo, a reflexão dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos que retomaram e ressignificaram […]
- [PALAVRA PUXA PALAVRA - ERICO VERÍSSIMO EM CONVERSA COM ROSA FREIRE D'AGUIAR](https://revistasepe.art.br/palavra-puxa-palavra-erico-verissimo-em-conversa-com-rosa-freire-daguiar/): A etiqueta mais elementar não recomenda que se faça gentilezas com o chapéu alheio, mas e quando se trata de informação de interesse público? Bem, nesse caso, recomenda justamente o contrário, que se trata de um dever informar aos leitores de Erico Veríssimo, antigos e novos, que a Companhia das Letras acaba de disponibilizar sem qualquer custo a histórica entrevista que a escritora e tradutora Rosa Freire d’Aguiar realizou com Erico no ano de 1973, por ocasião dos seus quarenta anos de carreira. A jornalista veio do Rio de Janeiro encontrar Erico em sua casa, na Felipe de Oliveira, em […]
- [O FIM DO CÂNONE (E NÓS COM ISSO) - LUÍS AUGUSTO FISCHER](https://revistasepe.art.br/o-fim-do-canone-e-nos-com-isso-luis-augusto-fischer/): Da apresentação do livro, por Luiz Mauricio Azevedo. Nas últimas duas décadas, Luís Augusto Fischer se tornou um nome incontornável na crítica literária gaúcha. Sua figura alta e firme sugere para mim um tipo de unheimliche. Ele é o crítico doméstico, que torce para o Internacional, que frequenta o Zaffari, que debulha a obra de Eduardo Guimarães e reidrata José Simões Lopes Neto; mas é também o pensador nacional, que o eixo Rio-São Paulo respeita e ouve; e que se preocupa com o fluxo dos movimentos da cultura. Sob as asas dessa dialética particular, nasceu a impressionante linha de produção […]
- [NA PAREDE DA MEMÓRIA, DE JUREMIR MACHADO DA SILVA](https://revistasepe.art.br/na-parede-da-memoria-de-juremir-machado-da-silva/): Você se lembra do salão oval, da banda tocando loucamente as marchinhas de sempre, dos trenzinhos tão ingênuos com seus vagões de familiares, do carnaval explodindo na sua segunda noite daquele verão provinciano e de uma enorme samambaia de plástico descendo pela parede branca do clube. Você se lembra das fantasias cintilantes, dos pierrôs e das colombinas juvenis, das máscaras, capas e espadas de Zorro e das índias de pele morena e lábios de carmim pulando à meia-luz. Você se lembra dos carros em fila dupla, Mavericks e Corcéis, congestionando a rua arborizada, soando buzinas frenéticas, desembarcando meninas de minissaia […]
- [DE 'DEUS NÃO PROTEGE OS CERTINHOS' & OUTROS MINICONTOS IMPUROS', DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA](https://revistasepe.art.br/de-deus-nao-protege-os-certinhos-outros-minicontos-impuros-de-jose-eduardo-degrazia/): Sem pureza, mas sob protestodo prefácio de Deus não protege os certinhos& outros minicontos impuros.Por Laís Chaffe. A depender de quem lê, o título deste livro pode ser interpretado como advertência ou ímã. Como propaganda enganosa, jamais. Hoje em dia, todos andam com 38, conclui um dos narradores de José Eduardo Degrazia, e o leitor percebe o mesmo nas histórias de Deus não protege os certinhos & outros minicontos impuros. Há munição de sobra, seja na agulha, seja escondida nas entrelinhas; há lâminas reais e metafóricas nas mãos de personagens e na precisão dos cortes autorais. Ao contrário de suas […]
- [O 'UIVO', DE GINSBERG, POR VITOR RAMIL](https://revistasepe.art.br/o-uivo-de-ginsberg-por-vitor-ramil/): “O Uivo de Allen Ginsberg, lançado em 1956, continua a se fazer ouvir, reverbera em nossa alma, toca nossa consciência. Estamos todos internados, perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo. Assim estavam Ginsberg e Carl Solomon, a quem o poema é dedicado, quando se conheceram numa instituição psiquiátrica norte-americana. Eu estou com você em Rockland, diz o poeta. “Eu estou com você”, dizemos nós, à distância, às pessoas que amamos. Os Estados Unidos tossem a noite toda. Na porta do nosso chalé dentro da Noite Ocidental vemo-nos de repente em nosso sistema biológico: portas proteicas abertas para o inimigo, […]
- [O ROMANCE FAMILIAR NO FINNEGANS WAKE - LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA](https://revistasepe.art.br/o-romance-familiar-no-finnegans-wake-luiz-olyntho-telles-da-silva/): No amor ou na guerra, vale tudo.(Ditado popular.) Em 1908, Freud, para colaborar com o livro de Otto Rank, O mito do nascimento do herói, escreveu um texto sobre as fantasias das crianças em relação aos pais e também sobre seus desdobramentos ao longo da vida. Em sua primeira publicação, em 1909, o artigo não tinha título e foi incluído como uma simples interpolação, junto de um agradecimento; mas, logo depois, quando da primeira reimpressão, como o assunto dizia respeito à paixão dos filhos pelos pais, recebeu o título de Romances familiares e, mais tarde, o próprio Freud incluiu esses […]
- [REVISTA DO GLOBO EM BUSCA DE DEFINIÇÃO QUANTO AOS GÊNEROS JORNALÍSTICOS - ANTONIO HOHLFELDT](https://revistasepe.art.br/revista-do-globo-em-busca-de-definicao-quanto-aos-generos-jornalisticos-antonio-hohlfeldt/): Genericamente, a revista é uma publicação periódica, entre o semanal e o mensal, que trata de interesses gerais ou relacionada a uma determinada atividade ou segmento etário ou de gênero. Tem, em geral, a forma de brochura, isto é, sem capa dura, em formato menor que o do jornal, mesmo no caso dos chamados tablóides, com uma quantidade significativa de páginas e ilustrações variadas (RABAÇA et BARBOSA, 1978, ps. 411-412), graças ao tipo de papel em que é impressa e que facilita a reprodução de imagens. O termo se origina do latim revidere, que significa ver de novo. Em inglês, […]
- [A PARCA - SIMONE SAUERESSIG](https://revistasepe.art.br/a-parca-simone-saueressig/): A velha tapeceira parou junto à janela, no dia em que Wuhan apareceu nos noticiários. Ela não sabia aonde ficava Wuhan, como a maioria das pessoas que não viviam na China, mas franziu os olhos para o velho relógio de parede que tiquetaqueava, como se ele tivesse algo a ver com isso. Aos poucos, a quarentena foi se aproximando. A medida que o rádio fervilhava de opiniões, e a TV se dividia em facções, e o presidente da república no qual ela não havia votado fazia declarações estapafúrdias, testando todos os dias a paciência da democracia do país, um silêncio […]
- [O PRIMEIRO FUNERAL DE FLORES DA CUNHA - LETÍCIA COPATTI DOGENSKI](https://revistasepe.art.br/o-primeiro-funeral-de-flores-da-cunha-leticia-copatti-dogenski/): Sempre o perturbou a ocorrência de não ter nome próprio, nome de si mesmo e só. Era um Flores da Cunha entre tantos, assim designado em estima àquele que, tempos passados, fora general e líder benquisto nas terras do Rio Grande do Sul. Era um Flores da Cunha qualquer, na sina de assolar a esperança de boa vida que a mãe pressupunha lhe seria dada como herança do nome. Era mais para Zé-Ninguém que para Flores da Cunha, e sempre o desgostou o fato. Portava a designação de outro, não era ele mesmo, mas um mero defronte. Seu talhe não […]
- [ESTAMOS PERDENDO O VIÇO DA MALDADE - GUSTAVO MELO CZEKSTER](https://revistasepe.art.br/estamos-perdendo-o-vico-da-maldade-gustavo-melo-czekster/): Sejamos sinceros: escritores não são boa gente. São pessoas repletas de manias, delicadas a ponto de tecer odes a cebolas ou criaturas insensíveis capazes de ver o pai morrendo e, ao invés de confortá-lo, pegar uma pena e descrever os seus egoístas pensamentos. São indiscretos; nenhum segredo está a salvo deles. São vingativos – você nunca terá certeza se determinado personagem escroto não é a resposta cheia de rancor a uma antiga briga. São infantis e déspotas, falastrões e irônicos, vaidosos em relação às próprias obras e petulantes sobre as suas capacidades. Eles pensam ter poderes divinos, e o fato […]
- [A JORNALISTA CLARICE LISPECTOR - DÉBORA MUTTER](https://revistasepe.art.br/a-jornalista-clarice-lispector-debora-mutter/): Clarice Lispector (1920 – 1977) possui uma dicção literária exclusiva que pode causar emoções intensas, sejam de compaixão, de enternecimento ou de repulsa. A qualidade e a constância de temas universais, trabalhados a partir de situações banais em narrativas com poucos acontecimentos e peripécias, fazem da escritora quase uma unanimidade, mas há o “quase”. Este cenário, porém, não foi e não é tão pacífico, pois se uma parcela de leitores considerava sua ficção impenetrável, a outra a reverenciava num encantamento quase religioso, situação que persiste até nossos dias. Sua obra e sua figura enigmáticas evocam mistério, como definiu Carlos Drummond […]
- [DUAS CRÔNICAS DE FERNANDO CHEMALE](https://revistasepe.art.br/duas-cronicas-de-fernando-chemale/): ME PRENDAM!EU ROUBEI DE UMA CRIANÇA! Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito, Vossa Excelência Promotor Público e Prezados Jurados, aviso que abro mão dos préstimos de um advogado, uma vez que farei minha própria defesa. Vossa Excelência, os filhotes do “Homo Sapiens Sapiens” são muito queridos, engraçados, inteligentes, espontâneos e hipnotizantemente fofos, mas sinto dizer que não comungo da opinião que as crianças são anjos na Terra, criaturas desprovidas de maldade e incapazes de praticar crueldades. Na verdade, principalmente quando reunidas em grupo, são capazes de atrocidades, em especial, no que tange à arte de humilhar o próximo, agora americanizadamente […]
- [DE 'RELATOS PÓSTUMOS DE UM SUICIDA', DE CASSIONEI NICHES PETRY](https://revistasepe.art.br/de-relatos-postumos-de-um-suicida-de-cassionei-niches-petry/): Reprodução do primeiro capítulode Relatos póstumos de um suicida,lançamento de Cassionei Niches Petry. O ser humano é um dos seres mais repugnantes que habitam este planeta. Sim, sou um ser humano. Me suicidei quando fiz 33 anos. É a idade do suicídio, segundo li em uma resenha que um professor de literatura escreveu em um jornal da minha cidade. Era sobre um livro de um argentino. A morte foi rápida e sem dor, no entanto necessária. Foi quando decidi levar para o inferno dantesco alguns alunos que fizeram da minha vida um inferno sartreano. Iniciava as aulas sempre com algumas […]
- ['OS PORTOALEGRÍADAS', DE CLAUDIO LEVITAN](https://revistasepe.art.br/os-portoalegriadas-de-claudio-levitan/): Quando uma cidade tem um artista por perto, o melhor a fazer é prestar atenção nele, em sua figura, no que ele diz. Tem gente que até foge dele, porque seu aspecto pode ser meio estranho (artistas muitas vezes se vestem de modo raro, têm cabelos esquisitos, inventam idéias espantosas) e porque suas palavras contam coisas diferentes do comum (artistas inventam mundos e rimas, imagens e sons, ritmos e vidas). Mas o mais certo é prestar atenção a ele, porque nessa aparente maluquice tem muita profundidade. Porque, no fim das contas, quase sempre o artista tem razão — mesmo que […]
- [O SOM DO SUL, DE HENRIQUE MANN](https://revistasepe.art.br/o-som-do-sul-de-henrique-mann/): O Som do Sul, trabalho enciclopédico do compositor, produtor e escritor Henrique Mann, está desde julho deste ano inteiramente disponível para consulta na internet. Dividido em 30 fascículos que contam a historia da música produzida no Rio Grande do Sul e reúnem o trabalho de jornalistas e pesquisadores que colaboraram com a edição dos volumes, além dos próprios músicos. Os interessados em conhecer a música produzida no Rio Grande do Sul ganham uma obra de referência fundamental que reflete um contexto abrangente, não se restringindo a um estilo ou preferência musical, mas a todo universo musical praticado no estado. Publicado […]
- [UM MUITO DO POA JAZZ FESTIVAL - CARLOS BADIA](https://revistasepe.art.br/um-muito-do-poa-jazz-festival-carlos-badia/): Perguntei a uma das maiores autoridades mundiais quando o assunto é Jazz, o que afinal era Jazz? Zuza Homem de Melo não titubeou: “é a música da Liberdade”. Foi durante um dos debates/palestras promovidos pelo Poa Jazz Festival, que tinha Zuza como convidado sob o comando de nosso Juarez Fonseca, e uma audiência atenta. À noite, no show de abertura da segunda edição, o magnífico Lucio Yanel lascou com sabedoria depois da primeira música: “inicialmente estranhei ser convidado para tocar num festival de Jazz. Depois fiquei pensando que minha música essencialmente é livre, como é o Jazz. Se minha música […]
- ['O MERGULHADOR', DE LUIS DO SANTOS](https://revistasepe.art.br/o-mergulhador-de-luis-do-santos/): Do posfácio de O Mergulhador, por Paula Sperb,jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Caxias do Sul. Foi ainda sob o título El zambullidor que a obra de Luis Do Santos me causou o efeito de estar diante de um clássico, capaz de reverberar para sempre no horizonte de expectativa do leitor. Olhava incauta a seção de literatura uruguaia daquela livraria no edifício Pablo Ferrando, em Montevidéu, quando confiei no destaque dado à obra e a trouxe na bagagem para o Brasil. O impacto da narrativa foi semelhante ao que senti quando li O velho e o mar, de […]
- [AVENTURAS PELA LEITURA E ESCRITA: TRABALHO, LEMBRANÇAS, FILMES INESQUECÍVEIS - VERA IONE MOLINA](https://revistasepe.art.br/aventuras-pela-leitura-e-escrita-trabalho-lembrancas-filmes-inesqueciveis-vera-ione-molina/): O que você está lendo? A maioria das pessoas que se aproximam de mim para conversar perguntam o que eu estou lendo. Para falar a verdade, estou sempre lendo, até sobre assuntos que não me interessam. Trabalho com revisão, tradução e por esse motivo leio o que os outros encomendam. Isso, ao longo dos anos, interfere muito no prazer da leitura. Mas é claro que existem livros irresistíveis, que pegamos e nos dedicamos exclusivamente a eles. Por muitos anos, ao ver imagens da Feira do Livro de Porto Alegre na televisão, tive muita vontade de estar lá, caminhando entre as […]
- ['CONTROVERSA', DE ADRIANA DEFFENTI](https://revistasepe.art.br/controversa-de-adriana-deffenti/): Aquelas pessoas acostumadas a associar o nome de Adriana Deffenti como ao de grande cantora agora precisam acostumar-se a adicionar a esse predicado também o de compositora. A espera foi de treze anos, mas o novo disco de Adriana (Controversa) é uma amostra definitiva tanto do seu potencial interpretativo quanto criativo. Quem esteve habituado a ouvi-la cantando as composições dos outros, não irá se aborrecer em ouvir, além da faixa já bem conhecida e que intitula o trabalho, Controversa, outras quatro de sua autoria. Junto às outras seis faixas do disco, o resultado é um conjunto diversificado de ritmos e […]
- [À SEMELHANÇA DE OUTROS E OUTROS TRÊS TEXTOS - NELSON REGO](https://revistasepe.art.br/a-semelhanca-de-outros-e-outros-tres-textos-nelson-rego/): À semelhança de outros O elevador é um meio de transporte encaixado em trilhos e ligado ao motor mantido fixo. Por que faço o registro? Bom, porque existem pessoas que passam a vida a subir e descer de elevador sem conceber que estão dentro de um primo do vagão do trem elétrico. E daí? E daí que faço o comentário porque acho o tema do elevador parecido com o criacionismo. Há pessoas que dedicam suas vidas a negar a proximidade parental humana com os macacos, sem conceber que o grau da proximidade é apenas detalhe. O básico é que ambos, […]
- [DE 'HOJE NÃO VOU FALAR DE AMOR', DE RUBEM PENZ](https://revistasepe.art.br/de-hoje-nao-vou-falar-de-amor-de-rubem-penz/): NÃO PERECÍVEL A realidade é que sem elaNão há paz, não há belezaÉ só tristeza e a melancoliaQue não sai de mim Tom Jobim & Vinícius de Moraes O amor é um sentimento perecível. Felizmente, o ódio também é. Pensando bem, o rancor, a amizade, o desprezo, a culpa e todos os demais sentimentos são efêmeros. Sejam eles dirigidos ao irmão, ao vizinho de porta, ao colega de trabalho… Quer dizer, com o tempo, tudo passa. A única exceção repousa na saudade. Quem não percebe a fragilidade do amor e, assim, o trata sem cuidado, costuma surpreender-se quando ele estraga. […]
- [3 MINICONTOS DE CLAUDIO B. CARLOS](https://revistasepe.art.br/3-minicontos-de-claudio-b-carlos/): O CHEIRO DOS CUSCOS NAS BOMBACHAS Enquanto todos brincavam de campinhos, e de ser Batista, Zico, Sócrates, Cerezo, De León ou Falcão, eu preferia ficar com a cuscada. Eu queria ser ninguém. Me perder entre os guaipecas vadios e pronto. E só. Eu abraçava os cuscos e sentia o coraçãozinho lá deles batendo junto ao meu. Depois os gritos cessavam. Paravam os chutes. O futebol acabava. Os guris iam embora, cada um para sua casa, levando lembranças de dribles, defesas e gols lá deles… E os vira-latas também se iam, seguiam seu rumo. Eu, a caminho do rancho, levava nada. […]
- [A ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA DE 'O SOBRADO' - MATEUS DA ROSA PEREIRA](https://revistasepe.art.br/a-adaptacao-cinematografica-de-o-sobrado-mateus-da-rosa-pereira/): Como realizar uma adaptação cinematográfica competente do ponto de vista estético, com uma boa dose de originalidade e um diálogo profundo com sua obra de origem, sem receber acusações de que se trata de um filme com valor artístico menor, como se fosse um subproduto ou cópia da literatura? Geralmente, os filmes que tentam seguir muito de perto o roteiro sugerido pelo livro são acusados de muito literários, algo que na verdade quer dizer que o filme não ficou com feição de filme, que é monótono, lento, sintomas que, por sua vez, podem estar ligados a problemas diversos de edição, […]
- [5 CRÔNICAS DE TIAGO MARIA](https://revistasepe.art.br/5-cronicas-de-tiago-maria/): O dia que Deus falou comigo Gostaria, mesmo, caros leitores, de ser pintor, e bom pintor, para colocar sob seus olhos, com fidelidade, o encantamento que aquela aparição causou em todos os Santos do Apolinário… Mas antes deixa contar aqui como Ele me salvou da morte. Dormíamos, minha senhora e eu, como fazemos há mais de vinte anos, não mais de “conchinha”, clichê de tempos remotos, mas de “ostrinha”, cada um na sua estrutura tridimensional complexa. Ela, enrolada em camadas de lençol e edredom à moda rocambole; eu, esticado feito couro de pandeiro – quando tocou meu celular. E vocês […]
- [JOAQUIM - CATIA SCHMAEDECKE](https://revistasepe.art.br/joaquim-catia-schmaedecke/): Quando eu estava prestes a abrir a porta, um arrepio percorreu minha espinha. Senti um par de olhos em voos rasantes desde a lombar até a cervical. A proximidade de minha mulher era a certeza de não haver espaço para a desistência. O mais tênue sinal de indecisão de minha parte sepultaria a minha carreira e perpetuaria o meu fracasso. Tínhamos recebido uma advertência de alguns amigos quanto à notícia sobre a aquisição do lugar ser um péssimo negócio, mesmo assim eu fechara os ouvidos e aceitara o desafio. A facilidade em gerir o futuro da família, o dom herdado […]
- [ORIGEM DOS NOMES DOS MUNICÍPIOS GAÚCHOS E SEUS DISTRITOS - JACY WALDYR FISCHER](https://revistasepe.art.br/origem-dos-nomes-dos-municipios-gauchos-e-seus-distritos-jacy-waldyr-fischer/): Nomes estranhos de lugares despertam a curiosidade de muitas pessoas. Qual teria sido a sua origem? O que significam? Se fizermos essas perguntas para um morador da localidade, geralmente, poucos terão uma resposta. Os “eruditos” locais muitas vezes virão com uma interpretação fantasiosa. O pior é que esssas interpretações são passadas adiante e acabam sendo consideradas verdadeiras. A interpretação fantasiosa do topônimo Viamão é bastante conhecida. Quem já não ouviu dizer que ele vem de “Vi a mão”? A mão seria composta por cinco rios correspondentes aos dedos vistos de uma certa altura. Arsène Isabelle, em sua Viagem ao Rio […]
- [ERNESTO EM PORTO ALEGRE - CRISTIANO FRETTA](https://revistasepe.art.br/ernesto-em-porto-alegre-cristiano-fretta/): Quando Ernesto chegou a Porto Alegre, ela lhe pareceu mais movimentada do que ele imaginava. Não esperava encontrar aquele formigueiro de gente e muito menos o intenso barulho de motores e buzinas de automóveis: pensava que a cidade guardaria qualquer coisa da extensão do pampa que ele tanto havia percorrido até chegar a ela, como se de qualquer canto em que estivesse fosse possível ver campos verdes e ondulados. De onde estava, no entanto, ele observava uma fumaça branca e densa que vinha de longe e aos poucos perdia sua textura sobre a cidade. À sua direita, uma agradável praça, […]
- [O TAL BEIJO POLÊMICO - ANGELA DAL POS](https://revistasepe.art.br/o-tal-beijo-polemico-angela-dal-pos/): Todo mundo já falou e se indignou com a moça que deu um beijo no seu agressor, no final do júri em Venâncio Aires, condenado pelos cinco disparos de arma de fogo desferidos contra ela, em janeiro de 2020. Saiu na imprensa e virou polêmica. Teve gente tão revoltada contra a moça que nos comentários da matéria escreveu que o cara deveria ter sido mais eficaz nos tiros. Não julgo o comportamento dessa moça, vítima do ciclo da violência, incapaz de sair de um relacionamento abusivo e tóxico. Como Promotora de Justiça, eu e muitos e muitas colegas já vimos mulheres perdoando […]
- [SANTIAGO NAUD (1930-2020) - HOMENAGEM DO INSTITUTO ESTADUAL DO LIVRO (IEL)](https://revistasepe.art.br/santiago-naud-1930-2020-homenagem-do-instituto-estadual-do-livro-iel/): O Instituto Estadual do Livro (IEL) e a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) lamentam o falecimento de um dos fundadores do IEL, o professor e escritor José Santiago Naud, ocorrido ontem (20/07). Nascido em Santiago em 24 de julho de 1930, formado em Letras Clássicas, Naud era autor de dezenas de obras, dedicando-se especialmente à poesia e à crítica literária, estando ainda entre os professores fundadores da UnB (Universidade de Brasília) e entre os fundadores da Associação Nacional de Escritores. Em 29 de janeiro de 1954, ele participou, juntamente com Manoel Sarmento Barata, da fundação do IEL, tendo atuado […]
- [DE 'EU VOU PIORAR', DE FERNANDA BASTOS](https://revistasepe.art.br/de-eu-vou-piorar-de-fernanda-bastos/): Identidade já fui carneirofernanda carneiroe depois bastoscarneiro foi doação de vovópara fechar com dois nomesenquanto mamãe apagavaque papai sabe-se lá onde no exato dia em que papaisoube-se aqui na frenteperdi a herança de vórecebi um pires e um abraço não ganhei nada. Ali o samba acabou O documentário mostra o tio compondoinvadido de Paz e Beleza no seu coraçãocingido de mulheres iguais entre elas mulheres que podem sorrir o fazem e devem a vida do tio é privadae as mulheres dele brancas a família do tio embranqueceué seu direito acreditar na miscigenaçãoe no sítio do picapau amarelo o presidente brasileiro […]
- [COLECIONANDO ESPÍRITOS - HITALLO DALSOTO](https://revistasepe.art.br/colecionando-espiritos-hitallo-dalsoto/): “Loja de Invocações”, informava a placa de madeira balançando sobre a porta. Localizada no fundo de um beco úmido, entre uma loja de chás e uma locadora de vídeos falida. Seria difícil encontrá-la, visto que nem mesmo consta seu endereço nas buscas pela internet. Janice ouviu de uma vizinha, que soube de uma amiga, que ficou sabendo por sua avó, que ouviu de uma criança, sobre a existência de tal estabelecimento. Desesperada por ajuda, optou por procurar o local. Quando Janice cruzou a porta o som da rua foi abafado. Lá dentro a luz amarela tremia fraca sobre uma mesa […]
- [O SORRISO DA BONECA DE PLÁSTICO - DORALINO SOUZA](https://revistasepe.art.br/o-sorriso-da-boneca-de-plastico-doralino-souza/): A frase da carcereira gritada com força ecoa na cela. “Saracura, vem pro pátio, Saracura”. Cabisbaixa, ela não dá atenção, sentada à beira da cama, continua penteando o cabelo da boneca, horas a fio na escovação. A carcereira parada à entrada do cubículo, mão apoiada na grade de ferro da porta, outra na cintura, insiste: “Lá fora tem sol que faz bem pro corpo, tem ar puro, vem, Saracura, já resolvemos a questão, está tudo bem agora, ninguém vai te aborrecer”. A outra parece não ouvir. Deixa a escova descer num cuidado compassado. Enquanto alisava os fios de náilon, lembrou-se […]
- [DE 'USO INTERNO', DE LARA POZZOBON](https://revistasepe.art.br/de-uso-interno-de-lara-pozzobon/): AO LEITOR Se é que algum leitor existerecomendo que faça uso deste livrinhocomo eu fiz: usei cada palavra em meu proveito Por que o livro não serviria a alguémque por acaso sinta-se despedaçadoe se queira colar, como a um vaso? Parece mais um tormentomas se calo a vida não muda;como quase não falo, tentei essa tradução [O poema é o que se pensa em dizer sem falar] PRIMEIRA PESSOA A primeira pessoa não sou eunão dei causa ao verboque tudo principia Sou talvez as coisasàs quais imploro que me acolhamcomo se apenas coisas fossem Sou talvez as montanhasque vibram sob […]
- [DE 'TIMBIRUPÁ', DE LUÍS DILL](https://revistasepe.art.br/de-timbirupa-de-luis-dill/): Reprodução do capítulo 1de Timbirupá, romancede Luís Dill, cujo lançamento foicancelado em função da pandemia. No 13 de outubro de 1930, dia anterior à catástrofe dantesca verificada em Timbirupá, o padre Agostino Guglieri apanhou seu mosquetão Mauser escorado na pia batismal e avançou pelo corredor entre os bancos da igreja. Ouvira o piado do mugum-três-cores vindo do telhado e ele não era homem de se enganar com essas coisas. O canto era igual ao grito de uma dobradiça enferrujada. Esses desaforados não vão se arrancheirar no meu telhado, ele murmurou. Duas carolas, as irmãs Xaveiro, que vinham entrando, se espantaram […]
- [5 POEMAS DE ARMANDO MOURA FILHO](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-armando-moura-filho/): CORAGEM Quero ter a coragemDe enfrentar a dúvidaQue nos faz humanosE de conviver com o desconfortoAngustiante da incerteza,De não me refugiar no desesperoQuando a confiança balançar,De continuar toleranteQuando a tolerância acabar,De não arriscar, quandoDesnecessário correr o risco,De não ser arrogante na vitóriaPor mais contundente que ela seja,Quero ser tão altivoQuanto humilde, nas ocasiões certasE na medida exata,Quero ter forçaPara manter a mão estendidaQuando você, amigo, a recusar,Não vejo a vida como umJogo de azar,Antes disso, vejo-aComo compromisso.Amigos, irmãos, não é fácilSer, mas é o que somos. TRISTEZA Sol, céu muito azul,Mas a tarde desta sexta- feiraEstá envolta pelo frio…Tenho as […]
- [DE 'MENINA DE TRANÇAS', DE LILIAN ROCHA](https://revistasepe.art.br/de-menina-de-tranca-de-lilian-rocha/): DESARRANJO Canções desafinadasArrebentamOs acordesEsticadosEm pausasIntermináveisDo descasoDissonanteDa tua arrogânciaCantadaEm versoE prosaNo arranjoDescompassadoNota por notaNa semióticaDa tua falsaPartituraTenha DÓE sustenhaA tua FÁ LÁ! AMOR NEGRO AmoA tua peleNegraMistoDe paixãoE magiaCorposEm fusãoAncestralidadeNua e cruaNa bocaQue estremeceNa coxaQue aperta.Meu ébano preciosoContigo ouçoO ressoar dos tamboresO toque cadenciadoDos berimbausA voz profundaDo nosso amorNegro carnal. GARGANTA Na gargantaUm grito mudoPaciência mulher…Cansei de paciênciaDe inocênciaRoubadaE do sorrisoEstampado no rostoComo cartão de visitaQuero que o meu gritoEcoeReverbereE ressoeEm todas as mulheresPeito a peitoOlho no olhoSororidadeDe manasQue se reconhecemE amanhecemTransformadasPela vibraçãoDe cada voz femininaLiberta, igualSalveNegra bendita. MARCAS Na pele a marcaDo rasgo profundoCerzidoPelas histórias distorcidasDe um povoRoubado em suas […]
- [RUAS DE MAIO - IURI MÜLLER](https://revistasepe.art.br/ruas-de-maio-iuri-muller/): Saio de casa vestindo a camiseta, pouco depois das duas da tarde. Faz sol e o outono naquela hora abre mão do vento frio. As ruas estão quase vazias, como acontece normalmente aos domingos. Muitos ainda estão nos churrascos neste horário, e dá para sentir o cheiro da carne desde as calçadas. É assim nas casas do Centro e nos bairros que se erguem na medida em que se caminha pela avenida. Mas eu ando devagar, com as mãos no bolso do casaco de lã. Primeiro pela Pantaleão, logo na Henrique Dias. Dali, já enxergo as costas da Catedral, que […]
- [DA JANELA, O TERRAÇO - LETÍCIA MÖLLER](https://revistasepe.art.br/da-janela-o-terraco-leticia-moller/): Amanhece. Se fossem tempos normais, muito cedo eu já estaria vestida, dando café aos meninos, apressando-os, olhos no relógio. Já estaria apresentável para abrir a vidraça e dar bom dia a Dona B., que no seu terraço alimenta os pássaros. Seriam seis e meia da manhã. Uma cumplicidade no bom dia por sabermos que cada uma amanhece cuidando dos seus. Não sendo tempos normais, não há pressa. Chego à sala uma hora mais tarde, de camisola, olhos pequenos e cabelo bagunçado. Silenciosa, espreito. Não abro a vidraça para não acusar minha presença. Oculta pela cortina de voal, posso observar sem […]
- [A MULHER DA LAGOA - SILVANA CORRÊA](https://revistasepe.art.br/a-mulher-da-lagoa-silvana-correa/): São 5h 30 da manhã, ainda está noite, o sol não apareceu para colorir com seus raios a manhã que inicia. Meus braços estão vazios, meu amor não está mais entre eles. Levanto-me ainda sentido o ritmar dos seus beijos, o pulsar do seu corpo. Olho em volta e só vejo água, meus braços estão molhados, meu corpo está molhado, meu pulmão está molhado. Adormeço novamente. Acordo, agora assustada, tento recuperar o folego, vou à tona, nado até a margem, a noite está calma, o vento está parado. Sinto-me só, corro até a rodovia, na escuridão da noite vejo um […]
- [DE 'A MENINA QUE MORAVA NO SINO', DE CELSO GUTFREIND](https://revistasepe.art.br/de-a-menina-que-morava-no-sino-de-celso-gutfreind/): O nome do Vitório era Vitório porque ele já tinha sido adotado e, quando a gente é adotada, ganha um nome. E comida, é claro. Aí já não tem dor de dente, ou, se tem, ganha remédio, atenção, e passa. Recebe respostas certas ou erradas. Aprende a ver as horas, a amarrar os tênis e os sapatos. A andar de bicicleta. Fica junto quando toca, dança ou interpreta. Fica junto quando não toca, não dança ou não interpreta. Ganha até um sobrenome, mas a gente não sabia qual era o do Vitório. Uns diziam que era Pacheco, mas ninguém tinha […]
- ['PEDRÃO QUEBRA PEDRA', DE JOÃO COUTO E MONIKA PAPESCU](https://revistasepe.art.br/pedrao-quebra-pedra-de-joao-couto-e-monika-papescu/): Pedrão Quebra Pedra é um poema épico, que narra a saga de um sonhador. Um livro onde letras e imagens conspiram por trilhas guiadas por sonhos, acertos e desacertos. As prévias a seguir fazem parte do livro “Pedrão Quebra-Pedra”, com textos de João Couto e ilustrações de Monika Papescu. O livro foi publicado em 2014, pela Papo Abissal, e pode ser adquirido no link ao final da página. João Couto é mato-grossense e passou a infância brincando às margens do rio Araguaia, uma região permeada por histórias e seres encantados. Radicado em São Paulo capital desde 1996. Professor por formação, […]
- [3 POEMAS DE LUCIANA ALBRECHT](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-luciana-albrecht/): O bilhete Sim, fui embora.Mas te deixei meu adeus. Abre a gaveta da cômoda,Lá tem um bilhete meu. Com a letra um tanto tremida,Mas tudo bem explicado. Sem muitos rodeios está escrito:Me enchi dos nossos vazios. Assombros Ando pela casaÉ noiteNão durmoApenas recordoObservoOs quadros pelas paredesDetalhes singelosDa morada do EuPercebo e sintoCada cantoCada quadroAté mesmo nos álbunsDe coloridas fotografiasEm toda partePoesia. Um poema pra mim Sou toda cor.Dor? Sim, às vezes.Mas é o amor que me conduz.Se eu desisto hoje,Amanhã já esqueci.Voltei a lutarE nem percebi. Luciana Marinho Albrecht é gaúcha, escritora, poetisa, contadora de histórias e palestrante. Youtuber no […]
- [5 POEMAS DE EDUARD TRASTE](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-eduard-traste/): UMA VERDADE tudo em mim soa assimdesagradável, simmas vou mentirpra mim? seguir assim, eupor mim desejo que meu fimseja assim, nesta linha verdadeiraeu por mim e minha vida,inteira. POETA AMARELO nasceu estranhoe virou piadamas era bom demaispra ser apenas piadano fim das contasvirou poemae morreu estranho sem rima,sem nada A VERDADEIRA TRAGÉDIA e o mundo vai ficandosuportável. problema mesmo:acostumar-se. FANTASCÓPIO alongo mentalmentepara um dia imaginárioum morto feitopreparado para o Solque nunca chegaque lá fora brilha feito vidaimagina-se aindainstigando aqui dentroo ser apagadoesquecido, tolidonas sombrasda vida, das vidaspouco resta,pouco resto,transpondo paredesnuas, nuquero absorverquero ser absorvidoquero sentir algoprecisoestou cansado de serquem tenhosido […]
- [DE 'CRISTAIS COLHIDOS NA NÉVOA, DE CARLOS HAHN](https://revistasepe.art.br/de-cristais-colhidos-na-nevoa-de-carlos-hahn/): Infância Na sanga, maçarico e saracuraCipós, aroeiras e pitangasSinfonia de cigarras sobe a ruaCoroando, de auroras, cachoeiras Houve um tempo em que descia o morroCom uma ideia estampada na camisaE o sorriso engolindo brisaA chuva vinha e eu chovia juntoAprendendo a esparramar o pranto sem esparro Tempo e espaço de sobraPara inventar o que pareça bomCaldo e melaço de canaPara colar cabeça e coração Violão Tábua de salvação na vertigem da vidaPinho que assovia sob o fogo do peitoAbre-alas da alquimia do lamento Alforje do espíritoForja em seu bojoO jongo do destino Insônia Sob a chibata do relógio de paredeCalou […]
- [5 POEMAS DE RAMON CARLOS](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-ramon-carlos/): Anestésico Depois de descobrirQue os mosquitos têm dentesTodas as noites,Quando esses bastardos decidem aparecerEu tenho uma certeza, meu bemDe tanto sugarem vocêAgora eles precisam de mimDo meu sangue alcoólicoPara aliviarem suas doresE é só por issoQue não os matoApenas mastigoUm que outroPara velarSeu sabor Magnitude Sangue talassêmicoOs cabelos brancos de VirgíniaEnquanto estende as roupas, cantarolandoFeito pássaro de madrugada, fazendo ninho dentro do túnelAves de peitos luminosos, como se tivessem sido pintadasPor Rafael, no intervalo das MadonasEsquinas de um corpo esfarelado em diamantesFaíscas que verberam entre as frestas dos seus olhosAntíteses selando um acordo efêmeroNatural como cobras nadando em leite materno“Rafael […]
- [RETRATOS NA PAREDE - MARISTELA SCHEUER DEVES](https://revistasepe.art.br/retratos-na-parede-maristela-scheuer-deves/): Os antepassados o olhavam dos retratos. Não um, mas vários, uma dezena, várias dezenas deles. Tios-avós, bisavós, tataravós. Algumas das fotos na parede retrocediam mais de um século no tempo, e por diversas vezes se perguntara sobre como teriam conseguido, naquele interior do interior, um fotógrafo para fazer os registros mais antigos. Quando verbalizou sua dúvida, a mãe explicou que alguns retratos eram na verdade pinturas – mas tão realistas que, para ele, o pintor devia ter sido um gênio. Em meio aos retratos, imagens de santos, também dezenas, várias dezenas delas (e, observando-as, ele se perguntava quem retratara os […]
- [DE 'A ESCRITA DO CHÃO', DE RONALDO LUCENA](https://revistasepe.art.br/de-a-escrita-do-chao-de-ronaldo-lucena/): A ESCRITA DO CHÃO Minha mão se perdeu na mão grossa de meu avô. Vi nos olhos dele mais urgências que qualquer outra coisa. Deixei meus carrinhos no pátio, minhas cidades e ruas desenhadas com pedriscos, meus amigos imaginários na sombra do jacarandá. Com passos duplos, tentando acompanhar as botas enlameadas, fomos até a horta. Por entre os desenhos dos canteiros, nos fundos da casa, completei a sujeira de meus dedos na terra úmida abrindo uma pequena cova. Ele colocou dois grãos dourados na palma da minha mão. Eu os escondi no côncavo do chão, com olhos de perguntas. Um […]
- ['ÁLVARO', DE PABLO MORENNO](https://revistasepe.art.br/alvaro-de-pablo-morenno/): A mãe de Álvaro tinha uma hortênsia entre a rua e a casa. A hortênsia tinha pétalas rosadas, por causa dos metais oxidados em suas raízes. A mãe de Álvaro havia explicado à tia de Álvaro, a tia de Álvaro havia explicado à filha o róseo segredo da flor: enterre metais nas raízes. Ferro e chumbo, latas, o que for. A oxidação dos metais sobe pela seiva e tinge as pétalas. Álvaro tinha dezenove anos e um sonho. Ia matricular-se na faculdade de Medicina. Álvaro queria ser pediatra. Porque queria ser pediatra, Álvaro ia se matricular na faculdade. Porque ia […]
- [DE 'ESQUIZO ILUMINADO: MANUAL POÉTICO DE MEDITAÇÃO' - SÉRGIO CANARIM](https://revistasepe.art.br/de-esquizo-iluminado-manual-poetica-de-meditacao-sergio-canarim/): 0 – Dói agora. – Resta aquietar-se0 – Observar a dor?. – Dar boas vindas à dor0 – Não entendo, nós meditamos para acabar com sofrimento!. – Sim, se negas a dor que sentes no teu ser, ela crescerá dentro de ti 24 de abril de 2007 ficha de ônibus…respira fundo enquanto é/está/será/sai do corpo. volto à casa e sinto o gosto da velhice…o olhar para trás ever que tudo é erro e o erro é tudo que temossem jamais ser totalmente qualquer coisaerro ou acerto O que são erro e acerto?um passo atrás e são palavrasum passo atrás e […]
- [VINTE ANOS EM QUINZE MINUTOS - FABRÍCIO SILVEIRA](https://revistasepe.art.br/vinte-anos-em-quinze-minutos-fabricio-silveira/): Por volta das nove horas do dia dois de janeiro de 2019 recebi um email da pró-reitoria de pesquisa e pós-graduação da universidade em que eu trabalhava. O email havia sido enviado por uma das secretárias do setor – Samara Francisco era o nome dela – e me convocava para uma reunião pessoal com a pró-reitora na segunda-feira, dia sete de janeiro, ao final da manhã. O tema do encontro não me foi anunciado – era um email seco, uma bomba de formalidade – e optei por não perguntar nada a respeito. Tendo completado vinte anos de casa, eu já […]
- [CRÔNICA DOS MIL REINOS: ARAUCÁRIA - CHRISTIAN DAVID](https://revistasepe.art.br/cronica-dos-mil-reinos-araucaria-christian-david/): Todos acharam que podiam confiar no Diretor, realmente acreditaram nisso. Ele garantiu que daria tudo certo, que, na hora da necessidade, o prédio protegeria os seus. É bem provável que ele não se elegesse nunca mais depois desse acontecimento. A família de Osvaldo era, devido à simpatia e carisma de Mariana, a esposa grávida, bem querida na pequena comunidade e todos sofreriam com ela se o parto tivesse ainda mais complicações. Foi uma péssima ideia emprestar o obstetra justamente nesse momento. O que deveria ser simplesmente uma visita de cortesia para acompanhar o parto da esposa do soberano do prédio […]
- [3 POEMAS DE MARIA OTTILIA RODRIGUES](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-maria-ottilia-rodrigues/): ANA DO MEU SONHAR Ana, dos meus cândidos sonhosDos meus dilúvios internosDeixaste meu corpo, outrora nuEm cima de uma cama sem cobertaSem esmola, sem respostas Ana, nas pedras te eternizeiNo calor de um inverno quente te fizNos cabelos compridos me enroleiE nas mãos dadas me senti mulherDaquelas que ama e não tem medoÓ, Ana… Agora há medo em mim. Ana, nunca esquecerei teus beijosQue em apenas uma tarde foram ardentesE essa boca que era minha no entardecerNão é minha mais… Não há mais tarde. Ana, minha amada vitalíciaFicou no passado tua boca caladaEssa boca que nunca disse nadaMas que tudo […]
- [HISTÓRIAS NA JANELA - CHRISTINA CIDADE DIAS, LENICE GOMES, MARÔ BARBIERI E MILENE BARAZZETTI](https://revistasepe.art.br/historias-na-janela-christina-cidade-dias-lenice-gomes-maro-barbieri-e-milene-barazzetti/): As palavras, desde os primeiros tempos da humanidade, sempre foram instrumento de encontro: entre povos, entre tempos, entre ideias. Guardar palavras na fala, rimar para memorizar, escrever na pedra para não esquecer. Guardar para libertar. Talvez essa seja a motivação de toda a escritora. Vivemos a fantasia de escrever para eternizar, para promover encontros a partir da mágica de colocar ideias sobre o papel, na fala e nas imagens. Foi assim que construímos esse projeto, cada uma da sua janela, acreditando que as palavras poderiam abrir uma fenda de encantamento que pudesse nos motivar a seguir e ajudar outras pessoas […]
- [DE 'CARINGI - AGORA ESTOU ALI EM BRONZE', DE LÍLIA SENTINGER MANFROI](https://revistasepe.art.br/de-caringi-agora-estou-ali-em-bronze-de-lilia-sentinger-manfroi/): “Herta, são vinte e cinco horas, por que chegaste tão tarde? ” Esta pergunta ouvi retumbar em minha cabeça, a vida toda. Quando consegui sair de Berlim, muito depois de ti, Rafael, eu mesma dizia: “Herta, são vinte e cinco horas! O que vais fazer no Brasil? ” Naquela época, querido, eu não suspeitava de viver até o final do século. O ano de 1997 não existia no meu calendário alemão. Mas aqui estou, em Porto Alegre, na Galeria da Caixa Econômica Federal. Na exposição que tenta resgatar tua memória, Rafael Millano. Não é uma retrospectiva, mas é a […]
- [ESCRITORES GAÚCHOS - SÉRIE DIGITAL: SERGIO FARACO](https://revistasepe.art.br/escritores-gauchos-serie-digital-sergio-faraco/): O Instituto Estadual do Livro (IEL) está lançando o fascículo biobibliográfico “Escritores Gaúchos – Série Digital: Sergio Faraco”, em homenagem ao escritor Sergio Faraco. Este volume, o sexto da série digital Escritores Gaúchos, conta com relatos, fotos, entrevista e trechos da obra que resgatam a trajetória do autor homenageado. Sergio Faraco nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1940. Entre os anos 1963 e 1965, viveu na União Soviética, tendo cursado o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. Mais tarde, no Brasil, bacharelou-se em Direito. Em 1988, seu livro A dama do Bar Nevada obteve o Prêmio Galeão Coutinho, […]
- [UM ÚLTIMO BONDE NA MADRUGADA, por Fernando Neubarth](https://revistasepe.art.br/um-ultimo-bonde-na-madrugada-por-fernando-neubarth/): Recém-formado, cursava o segundo ano de residência em clínica médica. Estava de plantão desde a véspera daquele dezenove de junho de 1985. Madrugada usual, intercorrências de sempre. Houve tempo para olhar a noite se esvaindo sobre a cidade através das janelas da área, então desocupada, que une as alas norte e sul do andar. Lá fora o vento assobia. Uma que outra coisa bate… Através das rajadas do vento, começa a perceber um ruído uniforme, parelho, que cresce, cresce, progressivamente, se avoluma… Mal acredita. Conhece o som, da infância, quando vinha com o pai à capital. Parece absurdo, anos se […]
- [OS GALOS DA MANHÃ, por Letícia Copatti Dogenski](https://revistasepe.art.br/os-galos-da-manha-por-leticia-copatti-dogenski/): As velhas sabidas hão de dizer que com o dom da premonição não se permite brincadeira. Os que preferem a justiça terrena defenderão que um homem nascido para a dedicação aos seus apenas descansa no cumprimento de sua sina. Razão qualquer que se dê, porém, acomoda quem ouve pela primeira vez o berredo do prefeito Olívio Eutalha pelas ruas da cidade de Santo Saí, despertando os conterrâneos num cacarejar medonho, mas sem abalar aquelas almas já habituadas ao cotidiano clamor. Indignando os galos da manhã, anuncia com sua garganta rouca pelo tempo o irromper do sol, rondando pelas alamedas até […]
- [A PRODUÇÃO E A RECEPÇÃO DOS ESCRITOS DE QORPO-SANTO: APONTANDO TRANSFORMAÇÕES NAS RELAÇÕES ENTRE ARTE E LOUCURA, por Elizabeth Lima](https://revistasepe.art.br/a-producao-e-a-recepcao-dos-escritos-de-qorpo-santo-apontando-transformacoes-nas-relacoes-entre-arte-e-loucura-por-elizabeth-lima/): A partir do século XVIII tornou-se comum, entre os artistas, a prática de desenhar pessoas encarceradas em asilos; alguns desses desenhos registram loucos desenhando ou traços e figuras nas paredes das celas (Barbosa, 1998). Essas imagens nos mostram que o interesse dos artistas pela loucura encontrou um movimento de seres que, em situações limites, buscaram criar um campo expressivo, inventar linguagens e mundos, construir uma saída. Se artistas e criadores voltaram seu olhar e seu interesse para universos da loucura e se, ao mesmo tempo, pessoas que transitavam por esses universos estavam criando formas expressivas, algo se passava que ia […]
- ['QORPO SANTO', por Preqaria Companhia de Teatro](https://revistasepe.art.br/qorpo-santo-por-preqaria-companhia-de-teatro/): SOBRE A PEÇA O espetáculo “Qorpo Santo” é uma colagem-livre dos textos mais conhecidos do escritor maldito José Joaquim de Campos Leão – Qorpo Santo (1833-1883). Poeta, jornalista e anarquista, considerando louco por seus pares em sua época, foi perseguido pelas autoridades imperiais, no final do século passado, sendo internado em um sanatório. Qorpo Santo, criou no século XIX uma escrita ousada, genial, desconsiderada pelos seus contemporâneos. A originalidade de sua obra foi reconhecida pela crítica especializada. Houve quem afirmasse ser ele o precursor mundial do Teatro do Absurdo, mesmo que inconscientemente, só depois dos movimentos de vanguarda do início […]
- [MACBETH – UMA TRAGÉDIA OPERÍSTICA, por Maria Alice Braga](https://revistasepe.art.br/macbeth-uma-tragedia-operistica-por-maria-alice-braga/): Ópera Verdi com texto de Shakespeare Ópera Verdi com texto de ShakespeareMacBeth (Metropolitan de NY) – 2019Direção de Adrian Noble – condução de Marco ArmiliatoAna Netrebko, como Lady MacBethZeljko Lucic, como MacBethMattev Polenzoni, como MacDuffIIdar Abdrazakov, como Banquo Desde o seu surgimento, na Itália do século XVI, a ópera é uma forma de arte plurimidiática, formada pelo amálgama de diversas linguagens artísticas oriundas da literatura, música, teatro, dança e artes plásticas. Assim como outras modalidades artísticas, sofreu variações através dos tempos, sendo que o gênero romântico tornou-se a forma dominante no século XIX. Peças de teatro e romances trágicos, como […]
- [POLEMIQUIM EM TORNO DO GRANDE SERTÃO: GUIMARÃES ROSA DETESTOU JOYCE, PREFERIA SIMÕES LOPES NETO, por Sidnei Schneider](https://revistasepe.art.br/polemiquim-em-torno-do-grande-sertao-guimaraes-rosa-detestou-joyce-preferia-simoes-lopes-neto-por-sidnei-schneider/): Quem conta a história de Grande sertão: veredas, o romance de Guimarães Rosa, é o personagem Riobaldo. Tudo o que saberemos a partir da sua leitura é narrado por ele a um doutor da cidade. É essa narrativa que constrói o personagem e todos os outros. As opções sintáticas e a escolha vocabular que lhe confere o autor recriam a fala do sertanejo mineiro. Fala anotada de modo incansável em caderninhos durante as incursões de Rosa pelo sertão, provinha também de solicitações feitas ao pai, através de cartas, para que este lhe enviasse expressões e enredos curiosos ouvidos de tropeiros […]
- [De 'DOZE LIÇÕES', de Daniela Kern](https://revistasepe.art.br/de-doze-licoes-de-daniela-kern/): Eu sinceramente preferiria ficar em casa lendo. Vai chover a qualquer momento e tenho dor nos ombros, nos joelhos, nos pulsos, nos tornozelos. Nada aparece nos exames que fiz, já me disseram que é depressão, ou fibromialgia. O que quer que seja, sou um barômetro ambulante. Aula, aula, aula. Vamos lá… Oh, céus. Mais uma primeira aula. Não gosto de primeiras aulas. Eles ficam me testando. Sim, sim, eu li os livros com os quais vamos trabalhar esse semestre, não se preocupem. Não, não, não sou de “ralar”. Leiam e estaremos todos bem. Bom, esse é o problema, ler. Não […]
- [4 poemas de Mariana Machado de Freitas](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-mariana-machado-de-freitas/): Reflexo Existe só uma opção e o resto está errado.Aquela força frágil de embrião perfeito,nutrido a sangue e cinza em cada ventre-peito,canta: é preciso amar o amor além do amado. Trago meu dote em saco de estopa amarrado.Não vais achar ali mais que incrustado espelhonum coração chagado — mas olha direito:se, quando exposto ao sol, aos olhos tem queimado, espera a noite, que meu dote são estrelas —as que não tenho, as que não tens. Porém, enquantovais ocupado em persegui-las pelos cantos,levas na mão meu coração e o regeneras. Um urso branco Quando acordei, de manhã,vi no ar-condicionado a fauce […]
- [De 'PAREDES DE BARRO', de Nei Duclós](https://revistasepe.art.br/de-paredes-de-barro-de-nei-duclos/): EXAGERO Vamos morrendo um a umTanto o próximo quanto o ausenteTodos nos fazem falta Não temos mais o que dizerForça, meus sentimentosVai passar, nada melhor que o tempoFalamos sem certezasA não ser a proximidade da morteQue estava longe e hoje invade o bairro Ir às compras é temerárioNão há mais funerais; velóriosA não ser as tumbas, as cinzas, as orações sem despedidasCartas de suicídio, depressãoA não ser a lua que se somaÀs nossas necessidades de beleza Venha musa, amiga, princesaCubra o mundo com teu manto puroDiga que me vêE aos meus semelhantesE diversos seres humanosJunto aos animais e as plantasVida […]
- [De ‘LOS PAPELES SALVAJES’ (Marosa di Giorgio), por Giuliana M. Seerig](https://revistasepe.art.br/de-los-papeles-salvajes-marosa-di-giorgio-por-giuliana-m-seerig/): O primeiro enigma sobre a obra de Marosa di Giorgio (Salto, 1932 – Montevideo, 2004) é o de que não se parece a nenhuma outra: sua escrita, como poucas, cria para si um mundo próprio. Apontada pela crítica como uma das vozes mais originais da lírica latinoamericana e considerada uma escritora de culto no Rio da Prata, ainda é um bosque quase intocado no Brasil, pouco conhecida para além dos círculos universitários e ainda não publicada em português brasileiro. “Los papeles salvajes”, reunião de seus livros, transita entre o sonho e a infância desde uma paisagem rural e distante, por […]
- [De 'ORIENTE', de Thomaz Albornoz Neves](https://revistasepe.art.br/de-oriente-de-thomaz-albornoz-neves/): FU TA SHIH497 – 569 Tenho uma acha na mãoE não a tenho Se caminho, cavalgoum búfalo de água Não há margem se a ponte flui no lugar da correnteza WANG WEI701 – 761 CASA DE CAMPO NO RIO WANG Quase um ano sem voltarà montanha do Leste Já é tempo de semearos grãos da primavera Na chuva, parece tintao verde escuro das ervas A flor sobre o rio pendea ponto de incendiar-se RETORNO A SONG O rio Yi é seda na brisaA água flui por sentimento Ao passo, meu cavalosegue os voos migratórios Poente. O outono desertoA muralha em ruínas No […]
- [TESTAMENTO DO PEIXE (Gaston Baquero), por Mariana Machado de Freitas](https://revistasepe.art.br/testamento-do-peixe-gaston-baquero-por-mariana-machado-de-freitas/): Eu te amo, cidade,ainda que somente escute o teu rumor longínquo,embora eu seja em teu olvido uma invisível ilha,porque murmuras, tremes e me esquecesEu te amo, cidade. Eu te amo, cidade,nas horas em que a chuva nasce súbita em tua fronteameaçando dissolver teu rosto numeroso,quando até no cristal silente em que residoas estrelas aspergem sua esperança,quando sei que padeces,quando teu riso fantasmal dissipa em meus ouvidos,quando ardente é minha pele em tua lembrança,quando recordas, negas, ressurges, pereces,eu te amo, cidade. Eu te amo, cidade,quando reclinas, lívida e extática,na sepultura efêmera da noite,ao revoar das pálpebras fugazesante o fervor castíssimo,quando deixas […]
- [De ‘POEMAS SOLITARIOS’ e ‘POEMAS MISTICOS’ (Ricardo Guiraldes), por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/de-poemas-solitarios-e-poemas-misticos-ricardo-guiraldes-por-lucio-carvalho/): Fé Eu já me perdi de mim mesmo. Às vezes, tomo as lembranças entre as mãos, com carinho, e busco a infância distante, onde ficaram minha fé e minha força. Eu as vejo ainda lá, detrás de uma intransponível transparência no tempo mostrando com desprezo minha impropriedade de agora e mais admiro a chama tremeluzente de sua firmeza. Perdi-me de mim mesmo quando mais fundo me busquei, como se a força de viver houvesse morrido. Levo meus braços a frente e o que há é um sem fim. Como alcançar? Espero. Uma voz maior me dirá: Vem! E, a partir […]
- [De 'OS CONTINENTES DE DENTRO', de María Elena Morán](https://revistasepe.art.br/de-os-continentes-de-dentro-de-maria-elena-moran/): 1. De aquele episódio maldito eu lembrava retalhos, fragmentos soltos que minha família soube completar com medo. Eles disseram que Ela tentou me matar e não aceitaram atenuantes. Ela foi extirpada de nossa vida e foi decidido que eu devia odiá-la. Entre o silêncio e os anos, conseguiram esse esquecimento cruel e conveniente, mais confortável que o ódio. – Ela tinha tua idade quando começou a ficar louca – disse minha mãe quando contei que ia procurar minha avó Aída. E como Ela não devia ser mencionada nem lembrada nem invocada, Ela soou como um bofetão. Pois Ela era escombro […]
- [NINGUÉM VAI ENTENDER, por Gustavo Melo Czekster](https://revistasepe.art.br/ninguem-vai-entender-por-gustavo-melo-czekster/): Sonolento, o ônibus parou no semáforo e a placa na esquina anunciou, indiferente, letras brancas quase apagadas: Rua General Hercílio Neves, emérito lutador da pátria. Nunca tive nenhum tipo de pensamento boiola, este tipo de coisa sensível que os outros vivem esfregando na cara de quem não possui tais dotes, mas, neste instante, pensei em flores. Pois é, justo eu, fonte inesgotável de indelicadeza e de brutalidade, imaginando flores. Como o mundo seria mais bonito se, ao invés de homenagear generais e presidentes, dessem para as ruas o nome de flores: Rua Azaléia, Alameda das Orquídeas, Avenida Rosa. A imaginação […]
- [De 'CARTA ABERTA AO DEMÔNIO', de Ricardo Silvestrin](https://revistasepe.art.br/de-carta-aberta-ao-demonio-de-ricardo-silvestrin/): RONDÓ DO DESAMPARO (p. 54-56) 1 Este peso de saberque cada hora é derradeiranenhum humano suporta. Teria que assumir um ardemasiadamente gravecomo se fosse parentedos elefantes e nãodas aves, das borboletas. Deus salve a ignorânciasobre o tempo de cada um. 2 Prever rotas do destinoé um risco para humanos,já sabiam bem os gregos. Édipo Rei, que viviasem ser cego e nada via,quando viu, furou os olhos.Ao contrário de Tirésias,que era cego como o dia. Deus salve a ignorânciado futuro de cada um. 3 Escolher o desamparodói demais em cada humano,mas a dor é liberdade. Mesmo que algum deus se escondana […]
- [5 poemas de Carlos André Moreira](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-carlos-andre-moreira/): Profilaxia Esfrego as mãos até a pelePelando, desfazer seus nósE sabe-me a saibro e sabãoA pasta vencida das horasOs olhos nublados da areiavestígios de lágrima e póTateio nos vincos da faceo rosto antigo que não tenho Por mais que tome cuidadoMe corto todas as manhãsNo gume afiado do dia. Amarcord I Na cidade, vivia o AlmiranteApesar do nome, proezas náuticasnão havia em seu currículo de PMSempre sentado sozinho na varandaBoca aberta como bebendo o solPerna ausente oculta no cobertor “Maldição. Chutou a porta de um terreiro uma vez”Diziam“Espancou a amante a pontapés e ela rogou praga”Diziam“Pisou a cabeça de um […]
- [De 'AS PARTES NUAS' de Claudia Schroeder](https://revistasepe.art.br/de-as-partes-nuas-de-claudia-schroeder/): um poeta não é capaz de suturaro coração de uma criança as mãos tremerãodeixando buracosvai sangrar o peito maisdo que o protocolo permite um poeta não consertao traumade estar vivo meu corpo vaipassando pelo teuquase sem encostar a peleareia fina em mão etreabertaformigas a ponto de morrerdebaixo de passos humanos na calçada permaneço imóvelpara que vejas comomeu corpo se comportavez em quando quebro o silêncioque os ossos emitemcom tímidos e tristes te amo já de mentira sobre a camabrinquedos desmontáveise um corpo perfeitamente formado uma pequena luz sempre acesaespanta o contrário do amor hálito leitoso de umbocejo de bom diapewndurado […]
- [3 poemas de Giulia Barão](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-giulia-barao/): A pedra Se eu fosse uma pedrapresa a uma parede marítimateria sentido o desejode me soltar e sair correndosem destino, mas contracorrentee também o medode afundar no esquecimentoe também o pesode abandonar um continente. O rio Quisera esfacelar meus ossossem morrere sair pelo mundoarrastando-me, sem pressatoda sangue e biomassaamorosa, pareceque a doçura é líquidae o coração tem sedede iogurte, smoothie, sopa. Quisera esquecer o esforçode manter-me eretaimitando as torresas árvores, senhores, quiseradesfazer o sentido verticalde ter nascidoe correr pelo mundocomo um rio de planícietoda água doce, preguiça e lodo. O mundo Encontrar alguma coisaonde estou sempre medidae ninguém conhece a […]
- [De 'TODO ABISMO É NAVEGÁVEL A BARQUINHOS DE PAPEL', de Davi Koteck](https://revistasepe.art.br/de-todo-abismo-e-navegavel-a-barquinhos-de-papel-de-davi-koteck/): ato falho há um erro de digitaçãofalha frequente nos cartórios da cidadese alguém me chamar por outro nometalvez aconteça caminhar ao contrário existe algo explodindoda cabeça para dentropequenos impulsos forçamo portão de entrada da festado meu inconsciente 2.quero gritar socorro na língua dos sinaisser poeta apenas longe dos outros poetaseu faria qualquer coisa para mastigar o tédioeu faria qualquer coisa para ativar o ódiotalvez acabe este poema não fazendo nadatalvez eu mande a merda a poesia contemporânea talvez ela me mande também 3.no dia em que fui emborame doía os olhosmeu corpo parecia carregaro de outra pessoaquase liguei para velhos […]
- [De 'NENHUM AMOR IGUAL AO MEU', de Álvaro Santi](https://revistasepe.art.br/de-nenhum-amor-igual-ao-meu-de-alvaro-santi/): NOTURNO DE OLINDA Do alto dessa colina,onde plantaram mais cruzesdo que alguém contar consiga,não vejo o mar, no momento.Perscruto a noite dos tempos,vasto horizonte da história,em busca de vida, de luzes,nem sei se em mim ou lá fora. O passeio dura pouco,mas agrada a companhia.E a paz da noite convidaa partilharmos um sonho. É então que avisto o par‒ tão jovens ‒ poeta e musa.Vão subindo essa ladeira,há duzentos carnavais.Mesmo luar sobre as palmeiras,mesmo perfume do mar…A vida, porém, mais dura;o amor, quem sabe, melhor? Seus olhos buscam, ao longe,um país que não virá;não desse mesmo horizonte,onde a aurora se […]
- [Entrevista com Daniel Gruber, autor de 'A FLORESTA'](https://revistasepe.art.br/entrevista-com-daniel-gruber-autor-de-a-floresta/): Nesta edição, conversamos com o escritor Daniel Gruber, que acaba de lançar seu terceiro livro, “A Floresta”. Pela terceira vez ele publica pelo seu selo próprio “O Grifo” e, dessa vez, mergulha num enredo de folk horror ambientado nas pequenas cidades do interior riograndense de colonização germânica no qual medo, violência e bruxaria disputam a atenção de uma pequena comunidade de emigrantes. “A Floresta” é teu mais recente livro e costumaser descrito como um livro do gênero folk horror,o que às vezes é traduzido no Brasil como “terror rural”.Isso contradiz bastante uma imagem idílicaque muitas vezes é feita do mundo […]
- [De 'O JOVEM ARSENE LUPIN E A DANÇA MACABRA', de Simone Saueressig](https://revistasepe.art.br/de-o-jovem-arsene-lupin-e-a-danca-macabra-de-simone-saueressig/): 3 – QUASÍMODO Na manhã seguinte, Paris despertou com um estremecimento. “Despertou”, se é que a capital dormia. Aparentemente, nas sombras da cidade-luz, coisas macabras jamais descansavam. A notícia que corria solta tornava o incrível quase concreto e dava contornos ainda mais sinistros ao misterioso vulto noticiado pelos jornais, dias antes. Da Porte Saint-Denis ao Parque Montsouris, das sombras do Bois de Boulogne aos passantes da Praça da Nação, todo mundo comentava à boca pequena, com infinitas variações, o episódio bizarro vivido por uma vendedora de uma das modernas galerias de departamento, ao voltar para casa tarde da noite, após […]
- [De 'O'BRIEN DEVE SOFRER', de Eduardo Pacheco Freitas](https://revistasepe.art.br/de-obrien-deve-sofrer-de-eduardo-pacheco-freitas/): POR QUE O’BRIEN PRECISA SOFRER? A resposta para a pergunta do título acima pode ser dada de duas maneiras. Na primeira delas, diremos que não há motivos para O’Brien sofrer, tendo em vista o cara bacana que ele é. Já na segunda, apontaremos que, para um personagem, não basta ser bacana, é preciso conflito, drama e alguma dose de sofrimento para que ele se torne interessante. E é exatamente isso — o fato de O’Brien vivenciar algumas situações terríveis ao longo das sete temporadas de Star Trek: Deep Space Nine — que colabora para que o personagem se torne um […]
- [De ‘FABRÍCIO BOMTEMPO E AS RELÍQUIAS IMPOSSÍVEIS’, de Christian David](https://revistasepe.art.br/de-fabricio-bomtempo-e-as-reliquias-impossiveis-de-christian-david/): A MALDIÇÃO DO MEU TIO A história do meu tio é meio enrolada e já aconteceu faz um tempão. Não ouvi a história direto da sua boca, ele vivia viajando, deforma que fui criado pela minha tia. Nem cheguei a conhecer meus pais que morreram cedo. Mas a história que a minha tia me contou, e eu dei um desconto já que ela deu para embaralhar alguns dados no final da vida, foi a seguinte: Lá por meados da década de 1950, ou algo parecido, meu tio era o proprietário de uma grande extensão de terras na recém-criada e emergente […]
- [CLORETO DE FLERÓVIUM, por João B. Cabral](https://revistasepe.art.br/cloreto-de-flerovium-por-joao-b-cabral/): “Você pode muito bem usar cloreto de moscóvium, mas o de fleróvium também resolve. Os efeitos duram menos, mas é um terço do preço…”, o sujeito com cara de fuinha me diz mostrando no seu contrafator as opções que tinha. Eu precisava decidir sem olhar para ele porque, caso olhasse, não me animaria a colocar na corrente sanguínea nada oferecido por uma cara daquelas. “É, pode ser…”, digo-lhe e em seguida continuo: “Mas vou ficar com o de moscóvium!”. Ele então passa a mexer na sua tela e concorda: “Muito bem… Boa escolha!”. Depois, avisa que por ser uma encomenda […]
- [OVNI NO LARANJAL, por Augusto Darde](https://revistasepe.art.br/ovni-no-laranjal-por-augusto-darde/): As figueiras na Praia do Laranjal balançam as barbas na serventia urbana de fazer sombra aos carros estacionados. Nem todos que chegam saem para caminhar na calçada ou na areia, basta baixar o vidro e respirar a margem, assim como se faz no Cassino, onde enfileirar automóveis a dezenas de metros das ondas já é ir à praia. O vento da água doce não faz grandes ondas, mas é ele que alimenta o ar de Pelotas e conduz a molhaceira das paredes, o afogamento sutil da garganta que tosse fácil pelo sul. É um final de tarde bonito. O sol […]
- [De 'NOITE ADENTRO', de Tailor Diniz](https://revistasepe.art.br/de-noite-adentro-de-tailor-diniz/): Claridad Aguillera deu três batidas na porta com os nós dos dedos e esperou. Como ninguém respondesse, segurou a maçaneta com a mão direita e baixou-a com cuidado, para não fazer barulho. De dentro da sala veio uma nuvem quente de fumaça, que logo trespassou a porta, demorando em se desfazer. Ao fundo, no outro lado de uma mesa de mogno, sentava-se Torté Navaja, a cabeça escorada numa grande almofada amarela sobre o espaldar da cadeira, a boca aberta, dentadura à mostra e os olhos fechados. Em um primeiro momento, Antônio achou que estivesse morto. Mas fora só uma impressão […]
- [TERESA ESTAVA MUITO CANSADA, por Eloar Guazzelli](https://revistasepe.art.br/teresa-estava-muito-cansada-por-eloar-guazzelli/): Teresa estava cansada muito cansada. A casa tinha sido ocupada nos últimos dias e não existia um só lugar que não houvesse sido devassado por visitantes. O ritmo das tosses marcava o compasso das intermináveis horas de espera. Moribundos são assim, tem o espetáculo anunciado, marcham direto para o desfecho, mas adoram saborear o domínio da situação e tal chefe de seção nos fazem esperar longas horas nos sofás da espera. Então as gentes fumam e conversam e suspiram e temem o seu momento que deverá chegar um dia se deus quiser daqui a muito tempo. E no olho do […]
- [De 'ENGOLE ESSE CHORO', de Laura Peixoto](https://revistasepe.art.br/de-engole-esse-choro-de-laura-peixoto/): 201917h05. O sentimento que guardo por Lacônia do Sul sobrevive aos meus remorsos. Tenho voltado cada vez menos. Este ano talvez a última. Parece que um cordão umbilical ainda me liga a cidade. Saio do carro. Bolsa, celular, isqueiro. Acendo um. Opa! Não é que conseguiram manter o parque no centro? Mal cuidado, mas não destruído. Menos mal. Os prédios antigos se foram e os sem graça tomam conta. Ahã, povinho sem memória, sem história. Continua tudo sem graça. Grande e sem graça. Antes de chegar ao velório, dou uma volta. Mais um bairro para os laconienses novos-ricos. Que fim […]
- [De 'E FOMOS SER GAUCHE NA VIDA', de Lelei Teixeira](https://revistasepe.art.br/de-e-fomos-ser-gauche-na-vida-de-lelei-teixeira/): Pouco depois da morte da mãe, participei como palestrante do Seminário Mídia & Deficiência, a convite da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Foi nesse encontro, em 27 de julho de 2011, a minha primeira fala pública sobre nanismo para um auditório praticamente lotado. Kixi e Flavia estavam na plateia. E vê-las ali me deu uma tranquilidade incrível. Marlene me ajudou a preparar o texto e comentou, entusiasmada, que estava nascendo o nosso livro. Na escrita, partimos da nossa experiência para chegar às inquietações que cercam a vida de pessoas que têm uma deficiência. Abri minha fala com uma […]
- ['JUNTOS', O PRIMEIRO DISCO GAÚCHO INDEPENDENTE, por Leticia Morales](https://revistasepe.art.br/juntos-o-primeiro-disco-gaucho-independente-por-leticia-morales/): Nelson Coelho de Castro nasceu em Porto Alegre em 1954 e, primeiramente, morou com sua família no bairro São João, na Rua Honório Silveira Dias. Filho de um representante farmacêutico e de uma dona de casa. Em depoimento dado ao entrevistador Rui Carlos Ostermann e nos livros de Mann (2002) e Faria (2001) – duas obras referência sobre música no Rio Grande do Sul que utilizarei neste artigo – relata que a música sempre fez parte de seu cotidiano, a família sempre foi muito musical, em cada encontro de família acabava-se por cantar algo do cancioneiro popular brasileiro e gaúcho. […]
- [Sobre 'ASSIM NA TERRA' e Luiz Sérgio (Jacaré) Metz, por Leonardo Foletto](https://revistasepe.art.br/sobre-assim-na-terra-e-luiz-sergio-jacare-metz-por-leonardo-foletto/): Fazia acho que mais de ano que postergava esse momento, seja deixando as frases curtirem por dias, semanas e até meses na mente, porque cada página era uma tempestade de imagens a digerir, ressoar, refletir, viver e voltar a ler, seja com receio de acabar a “novidade” com o livro terminado, esquecendo de que, neste caso, definitivamente não estamos falando de algo que vá ficar esquecido num canto qualquer. Mas aí está: terminei a leitura do “Assim na Terra“, de Luis Sérgio (Jacaré) Metz. É um tanto difícil escolher palavras pra falar do livro. Primeiro porque, diante da profusão de […]
- ['BELICOSAS FRONTEIRAS', org. por Jonas M. Vargas](https://revistasepe.art.br/belicosas-fronteiras-org-por-jonas-m-vargas/): Ao longo do oitocentos, as Américas foram palco de profundas transformações socioeconômicas e políticas e os conflitos militares estiveram relacionados a muitas delas. Século marcado pelas independências, pelo surgimento dos Estados nacionais, pela construção das fronteiras e limites territoriais, pela abolição da escravidão africana, pelas reformas liberais que prepararam o continente para a implantação do capitalismo, ele colocou distintos grupos sociais em constante conflito: antigos membros da elite criolla e da burocracia colonial, negociantes, padres, caudilhos, indígenas e africanos de inúmeras etnias, escravos e libertos, imigrantes europeus… Homens e mulheres que a partir das muitas relações sociais de dominação e […]
- [De 'ROUPAS SUJAS', de Leonardo Brasiliense](https://revistasepe.art.br/de-roupas-sujas-de-leonardo-brasiliense/): Nos fundos da casa, ficavam os tanques: um de lavar roupas e o tacho de polenta e outro para lavar os pés na volta da roça – no inverno, lavar os pés era o banho do dia a dia; o completo, só no sábado. Atrás dos tanques, eram os dois banheiros, tudo de tábua, as paredes e os assentos. Mais atrás, a horta, para lá do poço. Geni, por ser a mais velha, cuidava da horta e da cozinha. Maria Francesca lavava a roupa. Quando a mãe era viva: ela cozinhava, Geni lavava a roupa e Maria Francesca nos vigiava. […]
- [ESCURECER NO PAMPA, por Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/escurecer-no-pampa-por-miguel-da-costa-franco/): O homem pisou algo brando e mole e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se voltar com um palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma; preparava outro ataque. Deu uns passos adiante, mas outra vez sentiu o pé apoiar-se em matéria flácida, indevida. Cruzeiras andam sempre aos pares, dizia o velho Tibúrcio, para quem não havia segredos no universo. Teriam as jararacas o mesmo hábito? Duas picadas em sequência, uma em cada tornozelo, o fizeram cair ao solo, de onde pôde acompanhar, atônito, a lenta retirada de suas agressoras pastiçal adentro. […]
- [A TRAVESSIA, por Antonio Prates](https://revistasepe.art.br/a-travessia-por-antonio-prates/): (Homenagem a Sergio Faraco) Estava bebendo canha no bolicho do Chico Bugre, um casebre de madeira cuja última mão de tinta deve ter sido dada no tempo das Missiones. Pelo menos assim o descreveu Seu Quintino, que tomava também seus tragos, de pé, junto ao balcão. Quintino estava tão borracho que deu pra falar bonito, para impressionar uma china ruiva e bem fornida que havia trazido na garupa da égua zaina. Ela fez cara de quem não tinha entendido o seu latim e ele implicou: “Vem cá, tu me disse que vem de São Luiz Gonzaga e não sabe o […]
- [O OLHO ESQUERDO DE ELPÍDIO, por Flávio Ilha](https://revistasepe.art.br/o-olho-esquerdo-de-elpidio-por-flavio-ilha/): É tudo pressa, tudo azáfama: e este fende-lhe o peitoum golpe de espada e a ferida fatal lhe devassao abismo profundo; raivosamente o selvagem se virade boca para o chão natal, e morde a terra morrendo De Gestis Men de Saa, de José de Anchieta Vinham os dois a trote. O jovem mais na frente que o velho, bem pouco, quase nada. Só se ouvia o vento naquele descampado que cruzavam, atrás de meia dúzia de reses. As nuvens rolavam para o mar, longe, levadas pelo minuano. Vestiam o de sempre, com um poncho grosso de lã por cima de […]
- [De 'MILONGA DE UM PAMPA ESQUECIDO', de Carlos Guilherme Vogel](https://revistasepe.art.br/de-milonga-de-um-pampa-esquecido-de-carlos-guilherme-vogel/): 1. Abro a janela e coloco a cabeça para fora, sem me importar com a poeira que levanta da estrada de terra vermelha. O mormaço desta tarde de janeiro é tal que piso no acelerador, na expectativa de que um vento um pouco mais forte apazigue as gotas de suor que brotam da fronte e escorrem pelo meu rosto. Mesmo assim, o calor mal se desfaz e o suor ensopa a gola da minha camiseta, causando-me um misto de desconforto e irritação no pescoço. A velha estrada de terra corta não mais as coxilhas do meu tempo de criança, mas […]
- [A CIDADE AUSENTE, por Iuri Müller](https://revistasepe.art.br/a-cidade-ausente-por-iuri-muller/): Caminho pela cidade vazia. Escolho os horários em que o vazio se acomoda e me ponho a caminhar. No primeiro dia, na verdade uma noite, fazia frio: frio e garoa, em uma segunda-feira, naquela cidade, já espantariam uns tantos; como havia, ainda, algo semelhante a um toque de recolher, o lugar era uma coleção de esquinas ermas. Subi em direção ao Centro, andei pelas ruas principais, desviei da Avenida, evitei as travessas; mesmo nas vias iluminadas se acumulavam as faltas. Durariam pouco, o frio, a garoa e as ruas tão imensamente vazias. Logo depois ventou, veio o vento morno e […]
- [O MEU BILHETE PREMIADO, por Athos Ronaldo Miralha da Cunha](https://revistasepe.art.br/o-meu-bilhete-premiado-por-athos-ronaldo-miralha-da-cunha/): Encontrei um vendedor de bilhetes da loteria federal, bem ali na esquina da rua do Acampamento com a avenida Medianeira. Era sábado de aleluia. Aleluia! A sorte me encontrou. Era o último pedacinho que tinha. O preço de face estava em quatro reais. Ele pedia seis e paguei com uma nota de cinco e uma de dois. Ficou por sete, pois ele não tinha troco. Claro, fiz a conta mentalmente e deu um ágio de 75%. Um bom negócio… para o vendedor. Mas estava concorrendo a 50 mil. Para me consolar, calculei que tinha feito um ótimo negócio. Coloquei o […]
- [3 poemas de Juliana Meira](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-juliana-meira/): ainda somos de osso de carnealguns de alma e como parte num todoa vida continuaparece até funcionar levantamos nossos mortos por sua veznossos mortos apenas elesdescansam já vou quea madrugada me ameaçacom outra manhãcom outra cara e humore gasta esperança Juliana Meira vive em Canela/RS. Publicou, entre outros, água dura (Artes & Ecos, 2019), na língua da manhã silêncio e sal (Modelo de Nuvem/Belas Letras, 2017), livro vencedor do Prêmio Minuano de Literatura na categoria Poesia, em 2018. Integra as antologias Blasfêmeas: Mulheres de Palavra (Casa Verde, 2016), Treze Mulheres e Um Verão (Feito no Ato, 2018) e o manifesto […]
- [De 'NA MINHA CASA HÁ UM LEÃO', de Tatiana Cruz](https://revistasepe.art.br/de-na-minha-casa-ha-um-leao-de-tatiana-cruz/): Helicônia da Costa Rica ao sol Queria lhe falar da elegância das helicônias ao solnão esmorecemcomo são duras as helicôniasdizem que a elegância pesae elas tudo ergueme nada pedem.Sonho em ser uma helicônia, moldada pela evolução aponto de criar em mim mesma os repelentes das pestes,reduzindo a produção do melado, do néctar, até confundiros pássaros oportunistas, ficando, assim, amarga e ereta.Eu, uma helicônia imóvel, que afasta os parasitas, e mesmoassim elegante e bonita: a helicônia de algum jardim daCosta Rica, ao meio-dia, sem suor, distinta e protegida. Você vai caçoar de mim, desinteressado de helicônias,jardins tropicais, da botânica que modela […]
- [3 poemas de Patrícia Peterle](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-patricia-peterle/): A caça Animal estranho e entranhantetímido e protervo caminhavai seguindo seu rumo em desaprumoarisco arredio temeráriosuas ações abrem trilhas promovemcontaminações inesperadas. Armadilhas de sentidosartista camaleônico e libertino que em seu obrarse desloca a todo instantepõe-se à escuta de outras vidas vozesque soam uma música longínqua. Intérprete musical? Por que não. Meio masoquistageneroso e curioso, em nada ocioso.Orgulho luciferino. É fiel a si.A aporia é parte de seu sernatureza maternal, dá tudo sem nada pedir em trocasua ação é espectral oblativa amorosa.A palavra é sua presa escorregadianessa porosidade das línguas Não estava nada branco aindamas ali havia o branco branco. Potes […]
- [6 poemas de Ines Lempek](https://revistasepe.art.br/6-poemas-de-ines-lempek/): A magia do tempo Tudo alisão lembrançasnossas memóriasmergulhadasuma piscina cheiade horasnão se esvazia Lembra daqueles diasmeus olhosteus olhosnossos olhosjuntos brilhavamno infinito congeladode nossos encontros No Jardin des Planteso corvo de Allan Poee orquídeas selvagensse entrelaçavamdançarinas de veludosobre o gigantescotapete verde e úmidocheiro de cio da manhã Na sala de estardois globosde vidro transparenteságua escorrendocachoeiras vertiamlágrimas no desertoo vale árido no peito No coraçãoasas renascidasem pós-modernidademúltiplas veiasturbinas afinadas madrugada adentro Véus e vaidadesmitologiamúsculos dúvidase corageminvadiamlabirintos secretos Teus braçosabertosno infinito vácuomeus braçosalongadoso encontrono meio do caminho Abraços docesmorangoscom marshmallowcarinhos e nectar banheira de espumantesuor e borbulhasabsinto e curaçaoalcaçuze leite condensado Testemunhas ocularessalamandrasondinase […]
- [5 poemas de Armando Moura Filho](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-armando-moura-filho-2/): Animal microscópico sobreviveVinte e quatro mil anos em geleiraDa Rússia;A vida é virtualmente eternaFora do circuito religioso.Isso, confesso, me entusiasma.O texto que segue ficou prejudicadoCom a descoberta –Tenho 77 anos de idade eApenas dois de poesia.Não disponho de muito tempoPara me aprimorar ( essa premissa ruiu ).De qualquer modo, estou presente e ativoNas madrugadas sempre tentando meuMelhor voo, o que dê sentido a minhaExistência e a faça digna das minhas netas. Experiência humanaQuando do ocidente chegavaO rubro céu do crepúsculo,E o pintassilgo vinha ao altoDas árvores cantar a tristezaDo ocaso do dia,Cheio de saudade meu jovemCoração evocava o passado,Os inesquecíveis […]
- [3 poemas de Mário Baggio](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-mario-baggio/): Parto Quando você não tiver nada,restará pelo menos a escrita.Foi algo que você prometeu em público,ao vivo:escrever até morrer,morrer se não escrever. Se, por acaso,até escrever for difícil,quando nenhuma ideia lhe ocorrer,nem nova nem velha,abra a garganta e grite.Coloque esse grito no papel.Sei que é só um grito,mas vale mesmo assim.Preferível é gritar a se asfixiar. À falta de algo melhor,mais elaborado,escreva um poema.Um simples poema,um poeminha,uma pequena punção na altura do pescoço,suficiente para aliviar o sufoco. Funciona como uma cesariana:o pequeno bastardo não sai por onde deveria,nem como deveria,mas sai.Se você tiver sorte, ele vai respirar. Resumo seis dias, […]
- [5 poemas de Marcelo Martins Silva](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-marcelo-martins-silva/): Ressaca Quando teus olhos me entram o corpoE atingem o tumulto dos sonhosRepousando as coisas pequenasQue sussurramosNa cama de lençóis amassados,É ali, nesse lugarQue a palavra nasceIluminando a hora primeiraDe todas as manhãs. Valentine’s O amor comeuo olho direito que eu tinha.Não fiquei cego – de amor,só caolho.Hoje vivoamores pela metade,mas canhotos.antes caolho doque mal acompanhado Veranico de inverno Ajoelhei-me ao coração do pátio, basalto, grama verde e alta.Matei algumas formigas no gesto. O azul do céu disse-me sim,e uma parte minha se extinguiu.Tornei-me coisa que voa, o corpo de arrependimento entrou pra dentro [da terra.Descobri outros segredos; o cachorro […]
- [3 poemas de Lucas Barroso](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-lucas-barroso/): Poema das crianças O bebê de um ano e onze meses morto a pauladas pelo pai,As dez crianças mortas pelo vigia que ateou fogo na creche,O menino assassinado pela polícia dentro casa com setenta e um tiros disparados a esmo,O garoto estrangulado pela mãe,O garoto empalado pelo homem desconhecido,A menina alvejada pela facção rival do pai,A recém-nascida morta pela mãe, guardada em uma sacola plástica e descartada no container de lixo orgânico,O garoto que vendia rapadura na rua, morto com a promessa de que teria todos doces comprados se fosse a casa do assassino,O menino que recebeu a injeção letal […]
- [5 poemas de Adroaldo Bauer](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-adroaldo-bauer/): presente sem passadopassado a limpoganhei o presentenão há futuro! 20/12/2009 vai-se só o vazioperda do que se não tinhao vazio se esvaiue se vai nele o que havia. 14/11/2009 lua alagadaintrigado ficarabombardeado, um lado da luaalagado restara 13/11/2009 Devires Grandes momentosvirão reviradosde nós mesmos 20/03/2009 Pedaços do coração 3 Atormentadas circunstânciasIndizíveis deslembrançasInda revoltam as benquerências Sou Adroaldo Bauer Spíndola Corrêa, assino Adroaldo Bauer como autor de ficção em prosa e verso. Já publiquei impressas as novelas O dia do descanso de Deus, 2007, e O Império Bandido, 2010 ambas edições do autor de 1 mil exemplares, esgotadas. Também publiquei vontos […]
- [De 'FISSURA NO ASFALTO' de Dinarte Albuquerque Filho](https://revistasepe.art.br/de-fissura-no-asfalto-de-dinarte-albuquerque-filho/): Para uma melhor leitura, selecione a imagem desejada e clique em “visualizar a imagem no tamanho original”. Dinarte Albuquerque Filho, jornalista (UCS) e mestre em Letras (UFRGS). Autor de Fissura no asfalto (2019), Leituras na madrugada (2014), Leminski, o “samurai-malandro” (2009) e Um olhar sobre a cidade e outros olhares (1995). Tem poemas gravados pelo Projeto Comma (em Subtropical Temperado, 2016), por Le Daros (em Choques Elétricos, 2004) e pelo grupo Rota Lunar (em Sobre a cidade, 2004). Foi patrono da 36ª Feira do Livro de Caxias do Sul (nov-dez/2020).
- [De 'ININTERRUPTOS, CHOREMOS RUAS DENTRO DOS OSSOS', de Delalves Costa](https://revistasepe.art.br/de-ininterruptos-choremos-ruas-dentro-dos-ossos-de-delalves-costa/): 1. não posso acreditarestar esta poesia de sentençahaverá quem a leiaapenas para elevá-la à forcahaverá quem a leiapor morar em praça públicaonde é o espetáculo mal sabia que parirde útero invertido causassetanta dor que do péde flor só brotasse espinhosatemporal urticáriaa semente extrai nasciment-os germes do tempo haverá quem a leiapara sepultá-la nas falésiashaverá quem a leiae no raso de si a desperdicemas o laudo te dirá:de parto fórceps, tempo quenão nos viu nascer 12. é urgente morrerpara não desabar embora choremos ruas dentro dos ossosnão há palavras de pontecorpo d’água: rios de nósinundam a sede da fenda natimorto, o […]
- [ELOGIO ÀS ESCADAS, por Cristiano Fretta](https://revistasepe.art.br/elogio-as-escadas-por-cristiano-fretta/): A arquitetura como construir portas,de abrir; ou como construir o aberto;contruir, não como ilhar e prender,nem contruir como fechar secretos;contruir portas abertas, em portas;casas exclusivamente portas e teto(…)Fábula de um arquiteto – João Cabral de Melo Neto Os primeiros passos eram amplidão branca e deslumbrante que se explodia em luminosidade e acabava por dilatar as pupilas de Miguel em um misto de orgulho e surpresa, pois a escultura de formas confusas parecia ter caído por entre os andares simétricos, encaixando-se perfeitamente no centro da construção. No começo havia sido a ideia de fazer um número finito de andares a não […]
- [PHALAENOPSIS OU ORQUÍDEA BORBOLETA, por Carolina Panta](https://revistasepe.art.br/phalaenopsis-ou-orquidea-borboleta-por-carolina-panta/): Pena os crisântemos serem tingidos de azul. Manchavam as mãozinhas, tinta sob as unhas por semanas. Que bobagem essa a de pintar flores. Emporcalhavam a boneca e o único vestidinho possível. Gostava mesmo era de correr sol de sábado entre os jazigos familiares. Perdia-se nas histórias de gárgulas e anjos. Portas de ferro, castelos e fadas. E aquela gente de ir a enterro de terno, coisa bonita. Mulher de meia calça preta e óculos de sol. Não economizavam em rosas e sempre pediam a coroa em forma de diamante. Aí sobrava um tantinho pra besteiras, pra picolé no parque. E […]
- [De 'POR CAUSA DO VENTO NO BOSQUE', de Myrian Beck](https://revistasepe.art.br/de-por-causa-do-vento-no-bosque-de-myrian-beck/): Tu serás sempre o menino encantador que sonhava com o campo de semente. Na estranha tarde em que morreste, depois de todos os limites entre dores e morfina, depois dos dias de esperança (nós e o beija-flor visitante), e madrugadas em vigília (nós e as corujas da esquina), naquela tarde colorida e fria voltei para casa desejando teu perfume enquanto andava pelas ruas. Abri a porta do armário para buscar entre as roupas o precioso cheiro levemente adocicado do homem que eu amava. Mas estava tudo organizado, limpo e enxaguado com amaciante… preciso dizer o que senti com mais essa […]
- [O CLUBE, por Gustavo Lagranha](https://revistasepe.art.br/o-clube-por-gustavo-lagranha/): “Nem tudo que brilha é relíquia nem joia”Racionais MCs – Eu sou 157 Dois, um e meio, dois e meio, será? Diôni tentava calcular de cabeça, para se distrair, quanto custavam os carros estacionados em frente ao beach club California Nation. Até então, um Maserati, um Porsche – não desses mais baratos, de setecentos mil, que eram mato naquela praia – e uma Ferrari. Faltava ainda o do dono do lugar, que seria, sem dúvida, o mais caro de todos – Diôni nunca tinha visto a máquina, mas sabia ser uma Lamborghini do ano. Três, três e meio, talvez? Enfim, […]
- [COMO NASCEM AS BALAS PERDIDAS, por Pablo Morenno](https://revistasepe.art.br/como-nascem-as-balas-perdidas-por-pablo-morenno/): Sou pardo, mais pra branco, embora tive um avô negro e uma avó indígena. Tenho um filho mulato, um irmão negro e, como todo branco gosta de dizer, tenho amigos negros e isso já parece ser um álibi antirracismo. No seminário – acreditem, estudei para ser padre – nunca tive um colega negro. Na faculdade de Direito, também nenhum colega negro. Sou funcionário público federal e, em quase 30 anos de trabalho, tive apenas dois colegas negros. Como dizem que não há racismo, acho que ser branco no Brasil, de alguma forma, está ligado a algum tipo de sorte, um […]
- [O NÁUFRAGO, por Catia Schmaedecke](https://revistasepe.art.br/o-naufrago-por-catia-schmaedecke/): “Caro Josias, espero que esta o encontre saudável e forte, tal como você sempre foi. Por aqui uns dias modorrentos me confundem o juízo. Já nem sei mais se tento retê-los na memória ou se o melhor seria entregar-me ao embalar das horas. O silêncio é o parceiro de jornada, o que possibilita que ainda exista em mim um verdadeiro manancial de aventuras ruidosas. Aproveito para deitar a pena no papel e seguir viagem para bem longe. Você sabe tão bem quanto eu. A bagagem de meio século sempre nos proporciona as confortáveis cabines da primeira classe. Da janela tudo […]
- [PORTO ALEGRE, TCHAU, por Paulo Damin](https://revistasepe.art.br/porto-alegre-tchau-por-paulo-damin/): Como numa música do Kleiton e Kledir, um turista pegava o ônibus na sexta de tarde e ia pra Porto Alegre. Se instalava no hotel Uruguai (duas estrelas apagadas), onde havia uma sacadinha no quarto e um interruptor que acionava a Rádio Farroupilha. Aí um turista fumava um cigarro, olhando a rua melequenta e os prédios descascados, só pra se sentir num conto do Sergio Faraco. Depois de percorrer os sebos da Ladeira e da Riachuelo, um turista pegava o rumo do Bonfim pra poder se sentir numa novela do Moacyr Scliar. Quando chegava a noite, um turista vestia a […]
- [De 'QUATRO MULHERES', de Neusa Demartini](https://revistasepe.art.br/de-quatro-mulheres-de-neusa-demartini/): Vânia tinha certeza de que nunca seria uma companheira principal, como Yolanda, e nem uma amante sofisticada como Heike. Esposa, como Marta, nem pensar! Agora estavam todas as mulheres do patrão ali, no seu velório e cremação. Os filhos sabiam delas, de cada uma e do tipo de relação com o Desembargador. Mas não sabiam que o pai também tinha relação com ela, a empregada. Todas choravam a morte de Afrânio. Inclusive ela, mas tinha que exteriorizar somente a perda do patrão, tão bom que tinha sido, um homem sério e generoso, apesar de não ser um crente em Deus. […]
- [De 'NOTÍCIAS DA GUERRA E O DESTINO DE LAURA', de Vera Ione Molina](https://revistasepe.art.br/de-noticias-da-guerra-e-o-destino-de-laura-de-vera-ione-molina/): “Laura desce para abrir a porteira. Pisa no barro. O automóvel entra. Fecha a porteira. Volta para o Chevrolet, pensando como será bom entrar na casa fechada há meses, abrir as gavetas, os armários, as janelas. A mãe pergunta se ela falava alemão nas Franciscanas. Um pouco. Sabia nomes de comidas, as horas, como cumprimentar, pedir informações. Por que nunca se interessara? A mãe a encara. Sabia que o francês era o idioma estudado em São Leopoldo. Supunha que Laura tivesse aprendido um pouco de alemão com as Irmãs e as colegas do Vale dos Sinos. Desvia o olhar: – […]
- [LOURO COM COMINHO PARA FICAR PERFUMADO, por Lucia Nogueira Leiria](https://revistasepe.art.br/louro-com-cominho-para-ficar-perfumado-por-lucia-nogueira-leiria/): Hoje, por volta das três da manhã, fomos acordados lá em casa com o telefone. Quase morri de susto. Telefone tocando no meio da noite é coisa ruim. Era uma vizinha, contando que o genro tinha virado o caminhão na estrada, aqui perto. Perdeu a carga, mas, graças a Deus, com ele não aconteceu nada. Olhe só meu dedo, ficou todo machucado de tanto esfregar as panelas. Não posso ver uma panela suja, começo a esfregar, às vezes, nem me dou conta e acabo me machucando. Está doendo, nem estou conseguindo fazer as coisas direito, até para passar o rodo […]
- [DOIS DEDOS DE PROSA SOBRE A FINA COMPANHIA DA DIRCE MELLO, por Joselma Noal](https://revistasepe.art.br/dois-dedos-de-prosa-sobre-a-fina-companhia-da-dirce-mello-por-joselma-noal/): Quando peguei o livro de estreia da Dirce Mello, já sabia que, como era dedicado ao Chico, me agradaria, porque gosto demais do artista. Mas não se trata apenas de uma homenagem ao artista, é uma homenagem à vida, à musica, à literatura, ao amor, às memórias e a toda mulher escritora que tem coragem de se desnudar, através da palavra. Então o livro muito mais que me agradou, Eu & Chico – Sete anos da mais fina companhia me encantou! Dirce Mello é Dirce de Melo Teixeira, atuou como arte educadora, assistente social, professora aposentada do DSS/UFPB e doutora […]
- [A FERTILIDADE DO MICROCONTO EM JOSELMA NOAL, por Dirce Mello](https://revistasepe.art.br/a-fertilidade-do-microconto-em-joselma-noal-por-dirce-mello/): De cara, o livro Duzentos, da gaúcha Joselma Noal, chama a atenção pela bela e bem cuidada edição: do projeto gráfico ao tipo de papel da impressão, um primor! Uma edição que mostra o respeito e o carinho para com o autor, fato relevante para escritores com experiências amargosas neste sentido, nem sempre socializadas. Portanto, faz-se importante ressaltar que a obra contou com uma edição de primeiríssima qualidade, a cargo da editora paulista Kazuá. O gracioso Duzentos é um minilivro de bolsa com 200 minicontos, categoria literária conhecida como minificção, cujo histórico e conceituação são bem explanados no prefácio Pelos […]
- [Sepé, ano 2](https://revistasepe.art.br/sepe-ano-2/)
- [‘A AUTOESTRADA DO SUL E OUTRAS HISTÓRIAS’, DE JULIO CORTÁZAR](https://revistasepe.art.br/a-autoestrada-do-sul-e-outras-historias-de-julio-cortazar/): Por Marga Cerdón Meu livro de 2020, A Autoestrada do Sul e Outras Histórias (L&PM – 2013) traz oito contos de Julio Cortázar (1914-1984). Os contos selecionados são um verdadeiro passeio pela maestria de Cortázar em narrar lugares e situações e de nos manter atentos aos detalhes da trama. Em A Casa Tomada, primeiro conto do livro, temos a sensação de sentir o olhar dos invasores a nos perseguir pelos cômodos. Todos os contos são uma viagem onde realidade e fantasia tornam-se uma e a mesma coisa. O livro é da Coleção L&PM POCKET (2013) e tem 232 páginas. A […]
- [‘A AVE LÚCIFER’, DE EMMANUEL SANTIAGO](https://revistasepe.art.br/a-ave-lucifer-de-emmanuel-santiago/): Por Leonardo Antunes Dos lançamentos de 2020, gostaria de recomendar “A ave Lúcifer”, de Emmanuel Santiago, que certamente é o poeta contemporâneo que mais admiro. Sua poesia é de um cuidado técnico impressionante e se desdobra em um repertório magistralmente variado. Em seu conjunto, os poemas do livro se encaixam como que num mecanismo de pavorosa complexidade, organizando experiências estéticas que se imprimem na mente do leitor com imagens vivas e duradouras. Um livro de poesia, quando excepcionalmente bem-sucedido, executa uma dúplice organização da realidade: (i) por meio de um estilo marcadamente pessoal e magnífico em sua complexidade; (ii) por […]
- [‘À ESPERA DE UM IGUAL’, DE THOMAZ ALBORNOZ NEVES](https://revistasepe.art.br/a-espera-de-um-igual-de-thomaz-albornoz-neves/): Por Lucio Carvalho Alguém imaginaria ser necessário sobrepor uma camada de mármore sobre Michelangelo – ou deitar uma nova pincelada em Leonardo – para mostrar o que há ali? Dificilmente. Qualquer tentativa nesse sentido seria fútil e vã na mesma medida. Seria absurda. Nesse e em outros aspectos, o mesmo eu poderia dizer de À espera de um igual, livro que o Thomaz Albornoz Neves lançou neste 2020 mais que conturbado. Quase nada posso dizer a mais que não seja simplesmente recomendá-lo porque, como o que se refere à escultura, é um livro do qual já foram extraídos todos os […]
- [‘ESCRAVIDÃO – VOLUME I’, DE LAURENTINO GOMES](https://revistasepe.art.br/escravidao-volume-i-de-laurentino-gomes/): Por Miguel da Costa Franco Neste ano tão singular em razão da pandemia, dediquei-me com renovada intensidade à literatura, em especial a de autoria negra, um tanto por acaso, outro tanto pelo interesse pessoal de esgarçar os contornos da minha bolha de branquitude. A literatura e as obras audiovisuais, de natureza ficcional ou não, são instrumentos que permitem mergulhar de forma produtiva e consequente na intimidade dos seres humanos. Ajuda-nos a entendê-los melhor, algumas vezes de maneira mais efetiva do que mediante os contatos presenciais. Transitei por clássicos brasileiros, como Machado de Assis e Lima Barreto, ou talentosos escritores locais, […]
- [‘O BAÚ DOS CONTOS DE FADAS’, DE MARISTELA SCHEUER DEVES](https://revistasepe.art.br/o-bau-dos-contos-de-fadas-de-maristela-scheuer-deves/): Por Gustavo Melo Czekster Não se pode dizer que 2020 tenha sido um ano ruim para a literatura: em virtude da pandemia, o isolamento social permitiu que muitas pessoas diminuíssem as suas listas de leituras pendentes. Ao mesmo tempo, escritores e escritoras precisaram se reinventar e, como é tradicional em tempos de crise (humanitária, política, de saúde, moral, pode-se colocar a palavra que quiser aqui e estará correta), muitas obras chegaram ao mundo nesse 2020 que preferimos esquecer. Entre as minhas leituras, destaco “Morte Sul Peste Oeste”, do André Timm, uma narrativa construída com precisão e elegância sobre os dramas […]
- [‘ENTRE DOS LUCES’, DE JOSÉ MARIA OBALDÍA](https://revistasepe.art.br/entre-dos-luces-de-jose-maria-obaldia/): Por Luis do Santos En un año tan marcado por la frustración y el delirio, un libro apareció para darme eso que a veces solo la literatura puede llegar a mostrarte. La siempre extraordinaria experiencia de ir desafiando la realidad a punta de revólver, a caballo de letras sin domar, entre imágenes y recreaciones memorables. Se trata del libro Entre dos luces (Cuentos y algo más) del Maestro José María Obaldía lanzado por la Editorial Banda Oriental, histórica celadora del pensamiento y la creación del Uruguay a través de sus casi sesenta años de existencia. Obaldía es un escritor y […]
- ['A GALINHA CEGA' DE JOÃO ALPHONSUS](https://revistasepe.art.br/a-galinha-cega-de-joao-alphonsus/): Por Lília Sentinger Manfroi Por que nas Feiras do Livro se vê tantas gentes folheando, acariciando livros? Tá bem, eu sei, você pode responder assim: porque ali só tem livros para vender, ora. Fosse feira de chuchus estariam fincando a unha para saber se é novo. Ok, folheiam porque querem conhecer alguma coisa sobre os livros que pretendem comprar. Muitos compram pelo título, pelo assunto, pelo tamanho da letra, por indicação de um amigo, outros pela capa e assim por diante. Ah, acredite, tem pessoas que gostam quando tem bastante diálogos, dizem que vai mais rápida a leitura. Pois este […]
- [‘A UTILIDADE DO INÚTIL’, DE NUCCIO ORDINE](https://revistasepe.art.br/a-inutilidade-do-inutil-de-nuccio-ordine/): Por Pablo Morenno Seria a humanidade o que é sem os saberes inúteis? Essa é a pergunta cuja resposta procura o filósofo italiano Nuccio Ordine em seu livro A utilidade do inútil, um manifesto, Editora Zahar. Deveríamos substituir as flores das cidades por batatas, já que essas são mais úteis que aquelas? Então, por que o vaso sanitário não é de ouro, se é a peça mais útil de uma casa? Quem fala sobre a importância da inutilidade para que sejamos humanos não é Nuccio. Ele apenas traz em seu manifesto as falas de Platão, Aristóteles, Montaigne, Kant, Shakespeare, Victor […]
- ['A MANIPULAÇÃO DAS OSTRAS', DE LUIZ MAURÍCIO AZEVEDO](https://revistasepe.art.br/a-manipulacao-das-ostras-de-luiz-mauricio-azevedo/): Por Juremir Machado da Silva Que livro me marcou mais neste ano da peste? Num sincerídio, eu diria: “Acordei negro” (Sulina/Figura de Linguagem), de minha modesta autoria, que publiquei em 2019 e reli agora durante a quarentena. Eu me releio. Como não é recomendável ser autorreferente a esse nível e, como disse Carlos Heitor Cony sobre os anos que passou sem publicar, ninguém tomou providências, faço melhor falando dos outros. Li três ótimos livros: “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório” (Cia das Letras), “Os supridores” (Todavia), de José Falero, e “A manipulação das ostras” (Figura de Linguagem), de Luiz […]
- ['A MULHER SUBMERSA', DE MAR BECKER](https://revistasepe.art.br/a-mulher-submersa-de-mar-becker/): Por Thomaz Albornoz Neves De Mar Becker sei que nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e que é gêmea de Marieli Becker. Sua mãe, Meiri, costurava em casa e sua avó, Maria Manoela, foi vítima de uma tragédia não revelada às netas crianças. Que estudou filosofia e hoje mora em São Paulo, na reserva de Guarapiranga, com Domênico, seu marido. Sei que é leitora voraz, que tem bom gosto poético e que é culta, que gosta de cavalos, cães, gatos, Zitarrosa, de música nativista e de Glen Gould. Que toca violão e canta, gauchinha, com voz meiga, […]
- ['A NOIVA JOVEM', DE ALESSANDRO BARICCO](https://revistasepe.art.br/a-noiva-jovem-de-alessandro-baricco/): Por Anna Mariano “Os degraus a subir são trinta e seis, trinta e seis degraus de pedra, que o velho sobe devagar, com circunspecção, como se recolhesse um a um para conduzi-los ao primeiro andar: ele pastor, eles animais mansos. Modesto é o seu nome. Serve naquela casa há cinquenta e nove anos, portanto é o sacerdote ali.“ Assim começa A Noiva Jovem – um livro descrito por Alessandro Baricco, seu autor, como sendo 20% García Marques, 20% Lampedusa e 60% Baricco – uma narrativa onírica e erótica que encanta pela linguagem poética e uma magistral técnica narrativa. Modesto é o […]
- [‘A OBSCENA SENHORA D’, DE HILDA HILST](https://revistasepe.art.br/a-obscena-senhora-d-de-hilda-hilst/): Por Ana Emilia Klein O leitor acostumado com romance de travessão e letra maiúscula certamente estranha a prosa de Hilda Hilst em A obscena senhora D (1982). A costura do fluxo de consciência da narradora-personagem e dos diálogos reais ou não entre ela e, principalmente, seu companheiro, Ehud, materializa-se na realização particular do texto, conferindo-lhe o efeito de um tempo não linear e de delírio. Esse modo de narrar não é daqueles que vai embalar o leitor para um sonho tranquilo, é antes, como bem define Alcir Pécora, uma pancada justa e certeira, tendendo muito mais a noites insones. Quando […]
- ['A TELEPATIA SÃO OS OUTROS', DE ANA RÜSCHE](https://revistasepe.art.br/a-telepatia-sao-os-outros-de-ana-rusche/): Por Christian David Fiquei bem tentado a indicar um livro que já reli diversas vezes, sendo a mais recente em 2019. Eu, robô, de Isaac Asimov, sem dúvida, merece destaque pela reconhecida habilidade do autor de contar histórias de ficção científica em uma linguagem simples e clara, e ainda assim rica e plena de significados. O ano de 2020 marca o centenário do nascimento de Asimov e eu não podia deixar de citar o criador das Três Leis da Robótica. Lembram daquelas três leis que muitos filmes, livros e seriados de FC gostam de utilizar e explorar como cerne ou […]
- [‘A TRISTE BALADA DOS HERCULÓIDES CONTRA AS LEIS TERRENAS (UMA POEMÁTICA POP-BARROCA)’, DE ODEMIR TEX JR](https://revistasepe.art.br/a-triste-balada-dos-herculoides-contra-as-leis-terrenas-uma-poematica-pop-barroca-de-odemir-tex-jr/): Por Emir Rossoni A triste balada dos Herculóides contra as leis terrenas (uma poemática pop-barroca) é um livro de poesia. Mas, para mim, neste 2020, foi bem mais que isso. O livro de Odemir Tex Jr., lançado lá no finalzinho de 2019, foi uma das obras que mais dedilhei, que mais espiei, chafurdei e quase literalmente devorei em momentos de fome esquisita. O livro abasteceu essa alma tão insegura num ano que queremos não repetir. Mas se não quero repetir o ano, quero repetir a leitura desses versos e dessas imagens que me serviram de combustível. Passagens como “- Platão, […]
- [‘ADÔNIS E O ALFABETO’, DE ALDOUS HUXLEY](https://revistasepe.art.br/adonis-e-o-alfabeto-de-aldous-huxley/): Por Luiz-Olyntho Telles da Silva Littera scripta manet, volat irrevocábile verbum.(Ditado popular, de origem medieval). Passei o ano ocupado com a linguagem e isso me levou a diferentes leituras, sem falar nas leituras dos livros dos amigos e conhecidos, que nunca são poucas. Por mais interessantes que elas sejam, com sua potência de levar-nos a dimensões extraordinárias, este ano foi especial. No ano em que vivemos e morremos pela peste, li as histórias do Decamerão com outros olhos. Lá, na Florença de meados do século XIV, os jovens que nos contam as histórias dos horrores da peste negra estão longe […]
- [‘AINDA QUE A TERRA SE ABRA’, DE RODRIGO TAVARES](https://revistasepe.art.br/ainda-que-a-terra-se-abra-de-rodrigo-tavares/): Por Gabriela Silva Desvendar o percurso de uma personagem, perceber as nuances de seu destino, a cada nova página é o que nos motiva na Literatura. Em Ainda que a terra se abra, de Rodrigo Tavares, publicado em 2020, pela Editora Taverna, o fio condutor é Martín, um homem que ao sair do Sul, não tinha a intenção de retornar, com a morte do pai, a volta ao pampa é inevitável. A personagem descobre memórias obscurecidas, o cheiro da terra, dos animais, do passado guardado nas casas da infância e da juventude, paisagem e tudo que nela habita. Toda a […]
- [‘ALÉM DE PALOMAR’, DE GILBERT HERNANDEZ](https://revistasepe.art.br/alem-de-palomar-de-gilbert-hernandez/): Por Marco de Menezes A compilação de histórias “Sopa de lágrimas”, “Diastrofismo humano” e “Além de Palomar” (publicadas respectivamente no Brasil em 2016, 2017 e 2020), sobre a vida de um povoadozinho da América Central, em narrativas repletas de melodrama, poesia, violência, humor e sexo, e transgredidas a cada pouco pela irrupção do fantástico, – enquanto discutem a identidade latina através de uma incansável coleção de personagens – posicionam o trabalho do quadrinista norte-americano Gilbert Hernandez como grande obra literária, leitura imprescindível nesse tempo, assolado pela peste e pela necropolítica. Leia mais do autor em Sepé. 🛒 Clique e encomende […]
- ['ARANHAS', DE CARLOS HENRIQUE SCHROEDER](https://revistasepe.art.br/aranhas-de-carlos-henrique-schoeder/): Por Aguinaldo M. Severino “Aranhas” é o volume publicado mais recente de Carlos Henrique Schroeder, respeitado e premiado escritor, crítico literário e roteirista catarinense, atualmente radicado em Jaraguá do Sul. Trata-se de uma reunião de trinta e dois contos: dois terços deles narrativas bem curtas e um terço comparativamente textos bem mais longos. O leitor é informado no início do livro que as histórias surgiram em meio a pesadelos associados a duas pinturas de Odilon Redon, pintor e gravador francês, um dos seminais mestres simbolistas. Todavia, como sempre na boa literatura, sempre é bom enfatizar, o leitor não fica a […]
- [‘ASSOMBRAÇÕES’, DE DOMENICO STARNONE](https://revistasepe.art.br/assombracoes-de-domenico-starnone/): Por Graziela Jacques Prestes Curioso como logo este ano pandêmico foi ser marcado por ótimas leituras, especialmente com a descoberta da editora Todavia, que publicou nada mais nada menos que a nobelizada Olga Tokarczuk, em “Sobre os ossos dos mortos”, lido nas férias de fevereiro. Ou o premiado “Afetos ferozes”, de Vivian Gornik, sobre a relação mãe e filha, que entrou com força e me fez escrever: “Nasci com a morte à espreita. Desde lá, já sentamos algumas vezes à mesa para tratarmos de negócios. Nunca consumados. A primeira vez que cegamente me abandonei deveria ter uns 12 anos. Uma […]
- ['CANÇÃO PARA OS SEUS OLHOS E OUTROS CASTANHOS', DE ANGEL CABEZA](https://revistasepe.art.br/cancao-para-os-seus-olhos-e-outros-castanhos-de-angel-cabeza/): Por Cláudio B. Carlos Indico, a pedido do editor, um livro que me marcou no ano que está acabando. Bueno, “Canção para os seus olhos e outros castanhos”, do Angel Cabeza, foi publicado no final de 2019 e valeu como o melhor livro de poesia que eu li em 2020. Deixo aqui um trecho do texto que tive a honra de escrever para as orelhas do livro: Escrever poemas pode ser uma grande armadilha, ainda mais em tempos líquidos. Escrever poemas que tratem de amor, então, é como andar em corda bamba – sem rede de proteção. Não para Angel […]
- [‘CARTA À RAINHA LOUCA’, DE MARIA VALÉRIA REZENDE](https://revistasepe.art.br/carta-a-rainha-louca-de-maria-valeria-rezende/): Por Roberto Schmitt-Prym O ano de 2020 foi certamente atípico: as editoras publicaram menos, a Bestiário, a metade das edições do ano anterior, mas por outro lado, as vendas, talvez em função da maior disponibilidade de tempo para leitura durante as restrições decorrentes da pandemia, foram boas e alavancaram as vendas on-line. A editora Bestiário teve a oportunidade de publicar algumas obras importantes: POEMAS DO JAPÃO ANTIGO, seleções do Kokin’wakashû, de Andrei Cunha, na qual o “Prefácio em hiragana”, de autoria do grande poeta e editor Ki no Tsurayuki, é visto por muitos como um “equivalente japonês” da “Poética” de […]
- [‘CAVALOS DE CRONOS’, DE JOSÉ FRANCISCO BOTELHO](https://revistasepe.art.br/cavalos-de-cronos-de-jose-francisco-botelho/): Por Dilan Camargo Indico o livro “Cavalos de Cronos” de José Francisco Botelho. É uma obra exuberante em suas qualidades literárias. Com uma linguagem vertiginosa o autor mostra o seu domínio da paisagem, dos tipos e da vida campeira na região da Campanha Gaúcha, a “Terra Soturna”, sem deixar de ser universal. Na segunda parte, “Os Encontros Infernais”, Botelho maneja o seu vasto conhecimento da história antiga e a sua erudição literária em contos marcados por personagens enigmáticos e situações insólitas. Demonstra a sua versatilidade literária ao escrever dois brilhantes contos em versos decassílabos e na redondilha maior. As suas […]
- [‘CLANDESTINIDADES’, DE MARCOS MANTOVANI](https://revistasepe.art.br/clandestinidades-de-marcos-mantovani/): Por Lúcio Humberto Saretta A princípio, o título do romance Clandestinidades (Ed. Virtua, 2020), de Marcos Mantovani, soa como um neologismo. Na verdade, a palavra é apenas o plural de um substantivo feminino existente, embora seja também um claro sinal da originalidade estilística do autor. De fato, Mantovani mostra competência para construir e conduzir a narrativa do romance, que tem como pano de fundo o desastre aéreo do voo 447 da Air France, ocorrido em 2009. As relações afetivas do personagem Rui, um enfermeiro que vive em Porto Alegre, especialmente aquelas com o seu pai, mas também com seu irmão […]
- ['CONTOS ANCESTRAIS DE MULHERES VALENTES', DE SUSANA VENTURA](https://revistasepe.art.br/contos-ancestrais-de-mulheres-valentes-de-susana-ventura/): Por Milene Barazzetti Sempre é uma grande alegria colaborar com a Revista Sepé, ainda mais com essa proposta bacana de indicarmos um livro que marcou o nosso ano de 2020. Eu tive vários livros marcantes, mas quero indicar um livro que me fez pensar muito mais no papel da mulher em diversos tipos de sociedades e culturas. Além disso, como pesquisadora de contos, auxiliou no meu trabalho como escritora e narradora de histórias. No livro “Contos ancestrais de Mulheres Valentes”, de Susana Ventura, a escritora faz a coleta de histórias desconhecidas aqui no Brasil e que colocam a mulher em […]
- ['DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO', DE EDWARD GIBBON](https://revistasepe.art.br/declinio-e-queda-do-imperio-romano-de-edward-gibbon/): Por José Francisco Botelho Tenho algo em comum com Iggy Pop: a escolha de livro predileto. Tanto eu quanto o ex-vocalista de The Stooges somos aficionados pela sereníssima e avassaladora obra-prima de Edward Gibbon (1737-1794), História do Declínio e Queda do Império Romano. Digo sereníssima, porque a obra contém uma das prosas mais límpidas da literatura inglesa: um oeil d’oiseau que sobrevoa quatorze séculos da história humana, às vezes observando vastos panoramas com fleuma olímpica, às vezes dando rasantes em vertiginosos detalhes, como se a impessoalidade do passado subitamente se abrisse e sentíssemos o pulsar da vida e da morte […]
- [‘DENTES NO COPO DE UÍSQUE’, DE DORALINO SOUZA](https://revistasepe.art.br/dentes-no-copo-de-uisque-de-doralino-souza/): Por Robertson Frizero É difícil ser inovador em um gênero que, por vezes, se mostra tão formulaico. Mais que isso, é uma aventura ainda mais arriscada quando o autor não tem fôlego ou verve para abraçar esse gênero com um olhar próprio, capaz de oferecer ao leitor estranhamento no que é quase sempre clichê, ou novidade em um terreno tão dominado pelo lugar-comum dessas narrativas. Pois a minha grande surpresa de 2020 foi conhecer este pequeno grande livro de contos que me capturou a atenção desde o inventivo título: “Dentes no copo de uísque”. Para ser honesto, preciso confessar-me perante […]
- [‘DIÁRIO DO AÇO’, DE BETZAIDA MATA](https://revistasepe.art.br/diario-do-aco-de-betzaida-mata/): Por Mar Becker Um romance de limiar. De fronteira. É assim que Betzaida Mata escreve seu “Diário do Aço” (Penalux, 2019) – como um romance que se equilibra tênue entre o dizível e o indizível. A história se passa na região do Vale do Aço, interior de Minas Gerais. Já de início Mata assume que a linguagem fracassa, que há de fato coisas sobre as quais não se pode falar. O início de tudo, o gênesis – ou, como ela lembra, “o sertão” de antes do vale, esse escapa à voz. “Para os portugueses recém-chegados aos trópicos, não existia Vale […]
- ['ENTRE OUTRAS MIL', DE ROCHELE BAGATINI](https://revistasepe.art.br/entre-outras-mil-de-rochele-bagatini/): Por Luis Augusto FIscherPublicado primeiro na Zero Hora, em 01/12/2020. Tese que defendo há muitos anos, sem muita originalidade: a formação lírica do brasileiro é feita pela canção, e a formação épica, pela telenovela. Aprendemos a amar cantando Roberto Carlos, Chico, Rita Lee, Vinicius e os atuais protagonistas da sofrência e do funk; aprendemos como funciona o mundo cotidiano das classes sociais e a luta pelo poder com Janete Clair, Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Glória Perez e tantos outros. Estudar a canção nessa condição de nossa formadora tem sido possível, em vários níveis. Uma das facilidades: canção é arte […]
- [‘EQUADOR’, DE MIGUEL SOUSA TAVARES](https://revistasepe.art.br/equador-de-miguel-sousa-tavares/): Por Claudio Corrêa Noronha O autor, Miguel Sousa Tavares, é segundo filho do advogado, jornalista e político português Francisco de Sousa Tavares e da escritora e intelectual Sophia de Mello Breyner Andersen. Esta é considerada a maior poeta portuguesa de todos os tempos; ganhadora do Prêmio Camões, teve, postumamente, seus restos mortais transladado para o Panteão Nacional, tendo sido também homenageada com a pintura de seus versos sobre o mar, foco da sua poesia, no Oceanográfico de Lisboa. Nascido em berço de letras, o escritor é autor de diversas obras, tendo várias publicadas no Brasil, mas a que, sem dúvida, […]
- [‘EU AMO DICK’, DE CHRIS KRAUS](https://revistasepe.art.br/eu-amo-dick-de-chris-kraus/): Por Fabrício Silveira O livro Eu Amo Dick nos impõe inúmeros desafios. Lançado originalmente em 1997, a obra de Chris Kraus foi reeditada em 2006, tendo saído no Brasil em 2019, com tradução de Taís Cardoso e Daniel Galera, pela editora Todavia. O livro já foi saudado como um manifesto feminista, muito oportuno, forte e capaz de suscitar polêmicas. Uma das dificuldades colocadas diz respeito ao dimensionamento das características que lhe garantem essa atualidade contínua e sempre requalificada. Outro fator de problematização – e que ampliou o debate em torno do texto, além de contribuir para meu interesse pontual – […]
- [‘GNAISSE’, DE LUÍS CARMELO](https://revistasepe.art.br/gnaisse-de-luis-carmelo/): Por Ronaldo Lucena Este é o primeiro livro da trilogia sobre o amor do escritor português Luís Carmelo (Por mão própria e Sísifo são os outros dois romances). Narrado em primeira pessoa, como uma armadilha que nos faz embarcar no universo, por vezes desconexo em sonhos e visões, de um professor apaixonado por uma aluna de sua classe de Filosofia da Arte. Nem se quer o nome dessa personagem sumida, e tão presente, se sabe pronunciável. Tateamos por pistas, numa sensação aflitiva de tentar ajudar o personagem no reencontro desse amor, por vezes misterioso, por outras desprezado, por tantas parecendo […]
- ['HISTÓRIAS DE LIVROS PERDIDOS', DE GIORGIO VAN STRATEN](https://revistasepe.art.br/historias-de-livros-perdidos-de-giorgio-van-straten/): Por Lu Thomé Oito histórias de terror. De gelar a alma do mais corajoso dos admiradores das letras. Com imagens que ficam gravadas na cabeça, sejam de muitas labaredas, de algumas gavetas escuras ou do sumiço de uma mala. Histórias de livros perdidos traz episódios que podem ser verdadeiros, falsos, pura intriga ou utopia leitoresca. Giorgio Van Straten é um pesquisador de livros perdidos. Não daqueles tipos que já existiram, seguramos nas mãos e perdemos. Estes livros aqui tiveram suas palavras registradas em papeis, que depois foram destruídos ou desaparecidos antes que virassem livros. Ou seja: nunca chegaram ao público. […]
- [‘HOMEM INVISÍVEL’, DE RALPH ELLISON](https://revistasepe.art.br/homem-invisivel-de-ralph-ellison/): Por Luiz Mauricio Azevedo Para além da pandemia de COVID-19, que varreu vidas, afetos e ilusões, o ano de 2020 ficou marcado pela nova edição brasileira de Homem Invisível. Publicado inicialmente em 1952, essa obra de Ralph Ellison alterou a configuração da literatura afroamericana, e é um dos epicentros da cultura estadunidense, sendo admirada por muita gente relevante: de Barack Obama a Harold Bloom. A história de um protagonista sem nome, que descobre ser invisível por causa do racismo, ainda hoje é uma poderosa metáfora sobre a questão racial nas sociedades ocidentais. No Brasil, o livro permaneceu inédito até 1990, […]
- ['IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO', DE AILTON KRENAK](https://revistasepe.art.br/ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo-de-ailton-krenak/): Por Bebeto Alves Eu andava preocupado por que não conseguia mais manter meu habito de leitura, ou de ler um livro que fosse substancial, que me chamasse a atenção e que fizesse eu “perder” o meu tempo. Lendo cada vez menos livros, mas lendo tudo o que passa na minha frente, na tela do computador principalmente. Por uma casualidade, em um consultório dentário, encontrei um texto que me chamou a atenção em uma revista Piauí – Déficit de Atenção – assinado por Geoff Dyer, romancista e ensaísta inglês contemporâneo. Nesse texto, sobre a crise na leitura, encontrei um pouco de […]
- [4 poemas de Mariana Artigas](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-mariana-artigas/): John Coltrane pronuncio teu nome, cravando sete relâmpagosnas tuas costas,pronuncio teu nome gemendo na camade um outro alguém, em uma conversa casualdigo que acho teu nome bonito.j o h n c o l t r a n e ecoa e ecoa pelo apartamentoq u a t r o ou c i n c o espasmosaguardo a bruma se dissipar e ouço nina simonesinto frio e calço meus sapatosi put spell on you cause you’re mineainda sentirei meu gosto cravado nos lábios delee retornarei às avessas. rompendo este estranho silêncioque corre entre nós, meu bem o deserto do saara se estendeue […]
- [COMO NUM VELHO FILME ESPANHOL, por Luís Augusto Farinatti](https://revistasepe.art.br/como-num-velho-filme-espanhol-por-luis-augusto-farinatti/): Fecho a porta deixando para trás o apartamento vazio e caminho pelo corredor do prédio com a mochila no ombro. Passei a noite em claro. Desta vez foi porque precisava terminar um artigo. Coisa para uma hora ou duas, no máximo. Atravessei a madrugada mas só comecei a trabalhar nele quando já era bem tarde. A finalização ficou apressada. Mesmo assim enviei para a revista. Acho que ficou um horror, depois penso que não está tão ruim. Que seja, estou cansado demais para ficar me lamentando. Pego um taxi e chego à rodoviária quando já está amanhecendo. Um dia nublado, […]
- [5 poemas de Giana Guterres](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-giana-guterres/): com quais palavras se deve escrever um poema?amor, dor, pássaro, florcabe tanta coisa na rima que não cabe na sonoridadefazer do poema uma cidadeonde há casas para todosonde a fome fica do lado de láonde todo mundo é digno de ler um poemaonde não faltam bibliotecas nem escolas.todo poema é uma utopiaem que habitam os poetas. você precisa teruma janela para avistar o céuuma plantapara acompanharo desabrochar da floraté a morte da pétalauma cidade em que possa caminhare olhar nos olhosdos outroscomo enxerga a si mesmovocê precisa sermeio alegrepara contemplar o passarinhoque pousa logo à sua frentemeio tristepara contemplar a […]
- [SINAPSE, por Catia Schmaedecke](https://revistasepe.art.br/sinapse-por-catia-schmaedecke/): Do alto do penhasco Ivan podia vislumbrar a linha tênue no horizonte, uma divisão translúcida entre o céu e o mar que ali se igualava à sua estatura. Nas primeiras horas da manhã o vento soprava favorável e arrepiava-o da cabeça aos pés, trazendo consigo recordações da infância. A ideia surgira de repente à época do colégio, como solução para todos os seus problemas, enquanto a acne espalhava-se incontrolável por sua face adolescente. Então, ele passara a ansiar por esse momento que, durante todos esses anos, a vida se encarregara de fazê-lo postergar em tentativas constantes de demovê-lo por completo. […]
- [6 poemas de Luciano Lanzillotti](https://revistasepe.art.br/6-poemas-de-luciano-lanzillotti/): I Um lar tem duas facesviradas do avesso. De um ladoatividadesde engenhoe do outroo disparatede ainda se procurarpor sossego. II Complexofeito um corpo com sistema circulatóriobombas, ossose aparelho excretor. Há algo de desconhecidopor entre a alvenariada casa. III Pequenos consertose trejeitos são maisdo que necessários: uma casa desmoronapor forae por dentroem memóriae pensamentos. IV Vidrosmuito bem limposdas janelas fazemcom que vejamosmelhor o tempolá fora e nossa imagema observara vidaque passa. V Talvez não exista palavracom maior númerode sinônimos e antônimosdo que amor: a dependerda idadee da paciência de cada umem relação às sutilezasdo dicionárioalheio. VI O verbete chamado amorganha substânciacom […]
- [CERCO A JOHN HOWELL, por Flávio Ilha](https://revistasepe.art.br/cerco-a-john-howell-por-flavio-ilha/): “Há uma margem para a aventurae para o acaso, como o senhor quiser”, disse o homem alto. Instruções a John Howell, de Júlio Cortazar Atravessou o rio, ofegante. Os passos que até a pouco ecoavam como marteladas na pedra sumiram, encobertos pela neblina que tomava a rua, o chão, tornava a fuga baça, confusa, a fuga que já não tinha motivo aparente, era absurda por si só, ridícula. Os dois apitos alternados cessaram repentinamente. “Teriam pego Howell”, exasperou-se Rice. Olhou em volta e viu vultos enormes com formas abstratas; estava ainda no rio, sentia o cheiro de óleo salgado que […]
- [4 poemas de Ines Lempek](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-ines-lempek/): Transição Acordo com os primeirossons da manhão canto do pássaroabre o céucomo se descortinasse o diacom seu bico cantador A noite se encolhecom ela tua presençarecolhida no meu sonho. Ao luar Na janela semiabertaa luz trêmula da veladança prá luana garrafa de vidroum líquido corde sanguetesão das uvascolhidas ao luar. Mantra O clarear do céuabre a gargantado sabiácanta um mantracanta altoàs 6 horas da manhão canto exóticoabre a janelado meu sonhoo sabiá-relógioum sábiodos tempos. Voz num certodetox digitalouvi um barulhoi ni ma gi ná vel era a vozdo silêncio pedindopassagem avisou que — Ines Lempek é natural de Porto Alegre, morou […]
- [FELIZ NATAL, por Cassionei Niches Petry](https://revistasepe.art.br/feliz-natal-por-cassionei-niches-petry/): Eu nasci e cresci numa cidade de colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul, Brasil. No imaginário da minha infância, alguns vizinhos alemães mais velhos, que conversavam entre eles na sua língua original, poderiam ter sido nazistas. Muitos, ou todos, na verdade, eram descendentes de europeus e nunca tiveram contato com o partido. No entanto, nós, as crianças, gostávamos de brincar com essa hipótese. Dizíamos, por exemplo, que o Seu Bona, havia lutado na 2ª Guerra. Ele vivia numa propriedade grande, onde éramos proibidos de entrar. Os que se aventuravam em pular a cerca, mesmo que apenas para […]
- [2 poemas de Cleber Pacheco](https://revistasepe.art.br/2-poemas-de-cleber-pacheco/): OBLIVION Esqueci os sons das palavras,Como consultar dicionários,Os nomes das borboletas. Hoje vigoram os ruídos,Os mergulhos dos afogados,A estridência dos espectros. Será preciso reconstituirA ingenuidade da ortografia,Os resquícios dos pergaminhos,A criação do alfabeto. Só então poderei nomearAs flores fecundadas no silêncio. DIMENSÃO Os olhos do felino veemAs franjas do invisível,Mesmo quando sonham,Ainda que indolentes,Os olhos do felino vasculhamDesconfianças escavadasNa indocilidade do impalpável.Ninguém pode adivinharO que jaz sob suas pálpebras,O que fere a constituição das coisas,O que reabilita a aspereza da carne,Mesmo a mais flácida.Os olhos do felino convergemPara o astuto e doam córneasAo inverossímil, não raro abrindoPortas hermeticamente lacradas.Os olhos […]
- [ISSO VEM DE LONGE, IRÁ LONGE, por Nelson Rego](https://revistasepe.art.br/isso-vem-de-longe-ira-longe-por-nelson-rego/): Publicado originalmente no livro “Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade”,coletânea organizada por Júlia Dantas e Rodrigo Rosp,publicado pela Não Editora, em 2020. Se descobrir que guardo minhas anotações com zelo semelhante ao pudor de adolescentes que escrevem diários secretos, dirá que sou gay. Para ela, andar de bicicleta, estudar nas tardes de domingo porque faço mestrado de antropologia, tomar chá de hortelã, ouvir velhos Chico, Caetano e Gil é comportamento gay. Guardar anotações sobre o cotidiano de vidas anônimas na grande cidade será a prova definitiva para que minha tia grude de vez na vida […]
- [5 poemas de Leonardo de Oliveira](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-leonardo-de-oliveira/): Silenciosa como um vaso de floresNo quarto cheirando a vinho e cigarros.Desarrumou as gavetas, só pra arrumar de novo.Sob a luz da meia tarde as rosas murchamO mundo em chamas.Janelas verdes, ar parado, asas cortadasBorboleta aprisionada sob o vidro.Outro cigarro, outro filme, a noite se avoluma.O silêncio se intensifica, grita.Ninguém sabe do amanhecer, ciência inexata.A densidade do mundo se junta à fumaça do cigarroe ela traga.-Que a noite me traga alento – disse ao vento,E a luz se apaga Levo na mochilaUm garrafão de vinho baratoBarthes e Lorca,Para tempos de crise.Nos bolsos das calças e nas ventasCigarro, fogo, fumaça, incêndio.Nas […]
- [VÓ JANDIRA, por Cátia Simon](https://revistasepe.art.br/vo-jandira-por-catia-simon/): O conto integra o livro “Rastros de Estrela”, lançado em 2022 pela Território das Artes. Sei de muita coisa dita e não dita. Sou tão antiga, do tempo em que isso aqui estava longe de ser cidade ainda, era vila e se chamava Vila da Figueira. Sabia disso? O porquê do foguetório de ontem? É claro que sei. Sim, minha filha, eu sei que todo mundo me conhece pela leitura da sorte e aconselhamentos que dou. Sou eu mesma, a Vó Jandira, filha de índia com pelo duro. Olha pra mim, tá vendo? Tá na minha cara a marca deles. Percebe? Mas tu […]
- [3 poemas de Gonzalo Bolliger](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-gonzalo-bolliger/): Os Delírios de Narciso Nasci nas ranhuras da montanha,Cresci nelas como um arbusto raquítico e seco,Minhas folhas, que são poucasExperimentaram o vento de todos os lugares,Pois sou o filho pródigo da fugaO inconsolado, o peregrino, o inconstanteDe olhos enormes e boca silenciosa como a noite. Filho da loucura do crepúsculo dos Deuses,Observo tudo de um monte íngreme, terrível.Meus olhos – são os olhos de Deus;E minhas mãos, sozinhas, ergueram estátuasMaiores que as do próprio Egito formidável.Em mim, feneceram milhões de AfroditesQue não encontraram, no rosto de Narciso, o amor. Fui o verdugo e suicida que fez do sonho a sua […]
- [ANSIOGENESIS PERFECTA, por Luciano Prado](https://revistasepe.art.br/ansiogenesis-perfecta-por-luciano-prado/): Eu lembro da barba cinza do Capitão Espiritual e de seus polegares gordos a baterem um contra o outro bem na frente do meu rosto. A manobra, estranha e nitidamente ligada à clara intenção de amedrontar-me pelo gestual, era mais um de seus traços neuróticos e, por que não, uma roda a mais na engrenagem oligofrênica que regia o meio em que eu havia nascido. Para meu total azar, não bastando ter sido aleatoriamente trazido à vida num período tão conturbado do mundo, cismei de ancorar quase que todas as minhas vãs expectativas no fato de que bastariam vontade e […]
- [3 poemas de Daniel Ricardo Barbosa](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-daniel-ricardo-barbosa/): Memória Talvez você saia pela portadaquela casa estreita begeA madeira o vidro da saídaatrás de grades uma janela Fora uma funerária me lembrofaz tanto tempo prédio ao ladoDepois marmoraria faz sentidonão!, não faz sentido nenhumSaia depressa!, me dê as mãos Era outra época cá me senteiera dia de feira tocava músicasenhor ao lado chorava choravaporque ninguém lhe deu nadachiclete uma bala uma escada E você não me dará as mãosnão sairá detrás das gradesnão mora ali no bege da casaeu não sei em qual estreito você estátalvez um dia me escorra pelo rosto. Solidão São tantos os apartamentosquantos andaresilhadoshiatos Lá […]
- [TUDO MUITO RÁPIDO, por Fabrício Silveira](https://revistasepe.art.br/tudo-muito-rapido-por-fabricio-silveira/): Fabiano Evangelista inclinou o corpo sobre a mesa e fez um gesto ao qual a esposa, sentada ao seu lado, já estava habituada. Lucas, na frente dos dois, levou um copo de cerveja artesanal à boca e concluiu que devia se aproximar. “Vocês estão vendo aquele cara que está entrando ali?”, Fabiano alterou o tom de voz como se fosse, do nada, entregar um segredo. Lucas e Raíssa, a esposa, ouviram o cochicho. Foram discretos quando olharam na direção em que Fabiano havia apontado, à direita, em slow motion, com o pescoço. “Sim. O que é que tem?”, Lucas perguntou. […]
- [5 poemas de Sammis Reachers](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-sammis-reachers/): CARTA AO CAFÉ Café aroma de larRitual, despedida de quem vai,Abraço a quem retornaCoffea arábica, Coffea canephora,Coffea liberica, Coffea dewevreiE as raças secretas de café Cremes, bolos, infusõesDrinks, balas, canapésReversa marihuanaDe santos, céticos e sahibs Aqueduto tônico odoropulsanteOdoropulsar:Café cuspidor de estrelas,Regurgitador de luzesFestim fenomenológicoReserva moral da literatura Sol do leite, do creme, do rumSol para tantas pressurosas luasCentro da galáxia Inimigo do deus do sono Oneiros,Adversário do deus de gelo YmirMultilíngue deus de ébano & trópico Licor laboralElixir de trevas luminosasRubro fruto de a noroesteDo Eufrates e do TigreÚltimo pomo a escapar do ParaísoAntes de seu trasladoDe volta ao seio […]
- [POR QUE OS HOMENS NÃO AMAM O PRESENTE?, por Gabriel Gonzaga](https://revistasepe.art.br/por-que-os-homens-nao-amam-o-presente-por-gabriel-gonzaga/): “Como eu vim parar aqui de novo?”, respirei fundo, olhei para o canto superior do consultório, “eu lutei pra não estar aqui”. O sol a pino bateu no meu rosto, pedi para que a psicóloga fechasse as cortinas. Não chorei, contive as lágrimas. Não havia motivo para chorar. Lembrei que a última vez que estive ali sentei numa poltrona velha, com algumas avarias de gatos nas beiradas. Agora estava confortável em um sofá de couro. Ela me contou que finalmente seus rendimentos permitiram investir no consultório. Me senti tentado a perguntar o que restou dos antigos móveis. “Os pacientes”, ela […]
- [3 poemas de Maximiliano da Rosa](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-maximiliano-da-rosa/): setembro ela tira a roupa, rebolaeles tiramavida do menino, põe a culpa em quem quisertirono péretire-se para o retirotiro na ruareator incandescenteretasrótulosrainha mortao povo rezaa nós não importabandeiras: verde e amarelo e vermelhogrito do Ipirangatelefone novonenhuma utilidade novaa raiva do reacionárioo genocidaainda genocida vida a vida é uma noiva sempre cansadano final a gente casa mesmo é com a mortee a benção é do destino, gozador como sempre a mão esquerda a mãoesquerdado destinome acalantaeohomem encantado canta em meus ouvidos uma canção distorcida de The SmithsouABBAe eu escrevousando luvas por causa do frioe do desconfortomeu intestino reverberaenquanto me esforço para […]
- [PELEIAS, por Athos Ronaldo Miralha da Cunha](https://revistasepe.art.br/peleias-por-athos-ronaldo-miralha-da-cunha/): O conto intitula o livro “Peleias”, editado pela Martins Livreiroe ganhou o primeiro lugar no II Concurso de Contos Armando Mendonça 2020– promovido pela Casa do Poeta de São Pedro do Sul – Caposp.Será lançado na Feira do Livro de Porto Alegreno dia 03 de novembro, às 18 hs. Paco Diablo ajoelhou-se diante do córrego para matar a sede. Vinha de uma longa jornada de cavalgadas e peleias. No último combate contra as tropas de Amaro Missioneiro – um Pica-pau das bandas de Santiago – havia sobrevivido por conta de muita sorte. Nem sabia explicar como estava ali, diante de […]
- [3 poemas de Sonali Souza](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-sonali-souza/): RELEMBRO Avó! Avó!Quando pego os fiosda linhae teço laços e nóscom a agulha de crochê que me destesvoltam a mimnós duas.Eu a teus pésadorando-te,teu silêncio negro,tua história de mansidão,de esquecimento de si,viva que estavasna sua descendência.“Olha a saliência!” PRAGA DO TIO BETINHO Seu filho da’zunha,seu filhote de cruz-credo,num vem si metê comigo,criar quizumba,que sou sobrinhade um filho levado de dona Juditho levado morreu aos dezenove guiando uma lambreta velha – que chamava de Marlene.Que caçava tsiucom visgo em árvorena mata da Baixada.Era bamba de pipa, e me ensinava,’’’’’’’’’’’’’’’’’’tinha umas com cerol,e cortava muitas lá no alto do Céu.Era mestre em […]
- [EM QUAL COHAB MORA A TUA TRANSCENDÊNCIA?, por Vitor Eduardo Simon](https://revistasepe.art.br/em-qual-cohab-mora-a-tua-transcendencia-por-vitor-eduardo-simon/): A aliteração é uma das características marcantes da poesia de Everton Cidade e isso se mantém, como uma tradição, no seu novo livro “Cohab Goya”. Mas concentrar-se nisso seria, no mínimo, preguiça de quem está lendo. Há muito mais por trás dos fonemas que se aproximam e se buscam numa brincadeira sem fim. Brincadeira de gente grande, que já conhece bem as dores do mundo, suas paranoias, bem como os seus paliativos. O livro está bem fundamentado por três pilares, divididos de forma bastante clara. O primeiro, “Paliativos Psíquicos”, faz o livro engrenar aos poucos através de poemas curtos, mas […]
- [3 poemas de Eraldo Galindo](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-eraldo-galindo/): Canção de despedida Quando o trem desaparecer na curvae o sol poente morrer atrás da montanhaquando os ruídos da casa cessareme restarem apenas murmúrios de velhose fragrâncias de saudadessairei de mansinhoaté desaparecer na vastidãodo nada Os relógios congelarão as horase rouxinóis deixarão no ar gorjeiosde despedida Tudo é instante – bem sei Alfa e Ômega No começoo úteroo choroa luzo espanto com o mundoa vastidão da vida Descobertasaprendizadospassos à frentequedasrecomeços No fimlentidãoperguntas sem respostasdesencantamentodistânciasadormecimentosilêncio A frágil chama Quando eu for silêncioe póa falta das coisasque respirame se movemdoerá em mim Tudo é instantebem sei Nunca quis a vastidão do eternoapenas […]
- [TINHA UM CAMINHO NO MEIO DA PEDRA, por Cristiano Fretta](https://revistasepe.art.br/tinha-um-caminho-no-meio-da-pedra-por-cristiano-fretta/): A crônica integra o livro “Crônica de Um Mundo Ausente”,publicado pela editora Bestiário em 2022. Muito pouco convivi com a minha tia Terezinha. Quando ela faleceu, em 1990, eu tinha apenas 3 anos, e ela, 57. Guardo apenas algumas lembranças suas que, em forma de cenas aleatórias, estão grudadas na parede da minha memória. Lembro, por exemplo, de uma vez em que ela me pegou no colo e me sorriu com aquele seu rosto peculiar e, no entanto, sempre maquiado e com os cabelos penteados. Seus olhos pequenos contrastavam com o tamanho imenso de seu rosto. Tudo o que sei […]
- [Contos da SEPÉ - adquira o seu!](https://revistasepe.art.br/contos-da-sepe-adquira-o-seu/): Os ‘Contos da SEPÉ’ já podem ser adquiridos pela Diadorim Editora. Garanta o seu em https://bit.ly/3RpsVw6
- [VOL. 2, Nº. 7/2022](https://revistasepe.art.br/vol-2-no-7-2022/): Navegue pelo sumário da edição.
- [A LITERATURA SUL-RIO-GRANDENSE DE 1976 - 2016: PRODUÇÃO, DISSEMINAÇÃO E CONSUMO](https://revistasepe.art.br/a-literatura-sul-rio-grandense-de-1976-2016-producao-disseminacao-e-consumo/): O Instituto Estadual do Livro apresenta aqui “A Literatura Sul-Rio-Grandense de 1976-2016”, obra que preenche uma lacuna significativa nos estudos sobre a literatura no Rio Grande do Sul. A obra delineia um panorama quantitativo e qualitativo de livros e autores publicados nas últimas décadas no estado e analisa os dados resultantes de forma clara e sucinta, abrindo uma ponte entre o mundo acadêmico e o público em geral. Seu intuito é trazer subsídios para reflexões tanto aos pesquisadores do tema quanto a leitores, professores, bibliotecários, editores, gestores culturais que promovem as políticas públicas por meio de seus programas de incentivo […]
- [O LIVRO E A FEIRA - entrevista com Lu Thomé](https://revistasepe.art.br/o-livro-e-a-feira-entrevista-com-lu-thome/): Em 2021, a tradicional Praça da Alfândega e seu pavimento de pedras portuguesas, no coração do Centro Histórico porto-alegrense, voltou a receber as barracas e estandes da Feira do Livro de Porto Alegre. Nessa edição da Sepé, convidamos a curadora do evento (neste e no ano anterior), Lu Thomé, para conversar a respeito do evento e outros assuntos mais. Na entrevista, ela comenta das dificuldades e desafios de retomar este que é o principal e maior evento literário do Rio Grande do Sul e uma das maiores feiras a céu aberto da América Latina. Além disso, Lu oferece na entrevista […]
- [O SOPRO MODERNISTA NO RS, por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/o-sopro-modernista-no-rs-por-lucio-carvalho/): A poucos meses de que se iniciem as comemorações da Semana de Arte de Moderna de 1922, é e ao mesmo tempo não é custoso lembrar a efeméride e refletir um tanto acerca do impacto modernista na literatura rio-grandense. Como se sabe, trata-se de uma relação que não foi por aqui resolvida por uma arremedada variação local da semana de 22 nem por sua imediata assimilação. Não é por isso, entretanto, que se deve pensar que os sentimentos por aqui não se alteraram e pessoas não se digladiaram, apenas que isso não ocorreu de uma forma tão radical. Antes de […]
- [De 'DUAS FORMAÇÕES, UMA HISTÓRIA', de Luís Augusto Fischer](https://revistasepe.art.br/de-duas-formacoes-uma-historia-de-luis-augusto-fischer/): Porto Alegre, maio de 2020. Como se pode contar a história da literatura brasileira hoje, neste começo de novo século? Os modelos tradicionais de relato historiográfico que lidam com o objeto literatura têm ainda algum sentido? Têm capacidade para abranger o que se produziu nos tempos mais recentes? Estão eles de algum modo atualizados no forte e pródigo debate atual no campo dos relatos historiográficos? Aliás, cabe uma pergunta anterior: há algum sentido em pensar numa nova história da literatura no Brasil? Pode-se continuar pensando em uma nação específica, neste tempo de mundialização acelerada dos mercados e de instantaneidade de […]
- [BARÃO DE ITARARÉ: UM RIO-GRANDINO, por Newton Alvim](https://revistasepe.art.br/barao-de-itarare-um-rio-grandino-por-newton-alvim/): Sempre acompanhei com algum ceticismo aquela surrada máxima de que “santo de casa não faz milagre”, mas sou obrigado a concordar com ela diante da trajetória de Aparício Torelli, o afamado Barão de Itararé. Pois a vida desse pioneiro do humor brasileiro começou justamente em terras gaúchas, ao nascer dentro de sacolejante carruagem que perdera uma roda no trajeto entre a fronteira que liga o município de Rio Grande e o Uruguai. Um início realmente digno da sua vida de estrepolias e aventuras. Apesar da polêmica sobre o local exato do nascimento, muitas fontes citam o município de Rio Grande. […]
- [O MÁXIMO DAS MÁXIMAS - Dimas de Oliveira e Felipe Harazim](https://revistasepe.art.br/o-maximo-das-maximas-dimas-de-oliveira-e-felipe-harazim/): Dirigido pela dupla Dimas de Oliveira e Felipe Harazim , esta co-produção da STV em parceria com a produtora paulista We Do , fala sobre o impagável jornalista Aparício Torelly, mais conhecido como o Barão de Itararé – nascido em 29 janeiro 1895 e que, se estivesse vivo, completaria 126 anos. Saiba mais sobre Aparicio Torelly no CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas.
- [GIM COM CRÔNICA: UMA TEMPESTADE EM COPO DE CERVEJA, por André Martins](https://revistasepe.art.br/gim-com-cronica-uma-tempestade-em-copo-de-cerveja-por-andre-martins/): A primeira temporada durou um ano, mais ou menos, e a gente bebia quase toda a receita, até porque parte dela não precisava ser convertida do estado sólido do papel-moeda, ela já nos aguardava liquefeita nos vasilhames que pagavam espaços publicitários. O estado sólido do papel-moeda é força de expressão. Se não me falhe a memória, já tão fatigada quanto as retinas, o Gim com Crônica foi criado no ano de 1987. Esse ano integra um período que pode ser comparado a uma longa ressaca: depois do amplo e contagiante porre cívico que foi o movimento das Diretas Já, que […]
- [ANTI-GAUCHISMO, por Fernanda Bastos](https://revistasepe.art.br/anti-gauchismo-por-fernanda-bastos/): Dia desses, durante uma entrevista ao Centro Cultural Brasil-Peru, fui instada a falar sobre o 20 de setembro e, em um episódio de ato falho clássico, mencionei 20 de novembro no lugar do 20 de setembro Farroupilha, tendo que me corrigir na sequência. O fato de outubro ficar espremido entre dois momentos de mirada histórica determinante para mim como a Guerra dos Farrapos e a Consciência Negra ajudou na confusão, mas ambas as datas possuem um potencial de atrito. Na primeira celebração, ainda percebo a tentativa de apagamento da história do povo negro no canto de um orgulho macho e […]
- [CLARICE LISPECTOR E A FOME DE SABER DE NÓS, por Cátia Simon](https://revistasepe.art.br/clarice-lispector-e-a-fome-de-saber-de-nos-por-catia-simon/): Ensaio publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo,em 25 de abril de 2020. Clarice Lispector foi jornalista, bacharel em direito e surgiu no panorama literário brasileiro em 1943 com a publicação do primeiro romance – Perto do Coração Selvagem (PCS). Ela já havia publicado alguns contos, mas somente após o prêmio Graça Aranha, destinado a estreantes, em 1943, pode mostrar a que veio. Ela seria a segunda mulher a recebê-lo; a primeira foi Raquel de Queiroz, com O Quinze. O feito as colocaram ao lado de escritores de notoriedade: José Lins do Rego, Jorge de Lima, Jorge Amado, […]
- [BONECAS DE ARGILA – TEXTO TEATRAL - (fragmento), por Jorge Rein](https://revistasepe.art.br/bonecas-de-argila-texto-teatral-fragmento-por-jorge-rein/): QUADRO 10 Na escuridão total, só as vozes das atrizes. EVA Agora fecha os olhos. Faz de conta que este beliche é um confessionário vertical. Me fala algum segredo, de preferência sujo, algo que ninguém saiba sobre ti, algo que te envergonhe, alguma humilhação… Eu vou fazer o mesmo. Será uma espécie de pacto de sangue verbal e, no final das contas, vamos nos absolver e comungar em paz. ADA Difícil escolher. Vou pela mais antiga das lembranças. Minha tia Remédios, a irmã mais nova da minha mãe, passava as férias de verão com a gente na serra, na chácara […]
- [À ESPERA, por Gustavo Melo Czekster](https://revistasepe.art.br/a-espera-por-gustavo-melo-czekster/): É pálido, mas também início. A teia começa em algo, na inconformidade da sua urdidora, e o primeiro vestígio é um fio quase translúcido a esvoaçar em meio à sala, frágil e inocente, sobrevivendo ao vento que esboroa a janela com cortes secos, repletos de um frio invisível, crepuscular. O mundo se ressente da ausência da mulher; a casa perdeu sentido. O perfume que ainda persiste nos móveis e o silêncio varrem a sala com lufadas cheias de vazio, ora lembrando que acabou, ora trazendo a esperança de que pode reiniciar, e eu surfo entre estas forças agônicas, desejando que […]
- [AS TROVOADAS, por Antonio Prates](https://revistasepe.art.br/as-trovoadas-por-antonio-prates/): Era tempo de banho de gado, lá pros lados de Cacequi. De noitinha, depois de encerrarem a lida, os peões estavam reunidos no galpão, espalhados em círculo ao redor do fogo de chão. Uma cambona aquecia a água do mate, no meio das brasas. Sobre a trempe baixa, uma peça de costela e umas tiras de matambre assavam devagar. Volta e meia alguém se chegava, cortava um naco de carne e voltava pro seu tamborete, comendo com as mãos, em silêncio. Um dos peões, de nome Salustiano, era bem mais velho que os demais. Sentado mais longe do fogo, fumava […]
- [ESPÍRITO DAS ÁGUAS, por Vera Ione Molina](https://revistasepe.art.br/espirito-das-aguas-por-vera-ione-molina/): Permaneci à janela observando as ondas na areia, aqueles babados brancos que lembravam uma fantasia de baiana coberta de brilhos, a sambar lentamente na avenida, bem como a televisão mostrava quando focava nas saias. Chegara ao entardecer com todas aquelas latas e caixas, descarregadas num quarto da casa emprestada pelo meu patrão. Desinsetizador de residências e depósitos era o meu ofício, por isso me chamaram antes do veraneio para o combate do surto de pragas que assolava o balneário, escreveu o sub-prefeito. Precisava descansar, mas o movimento e as figuras que se formavam na água, junto com o som que […]
- [RÉQUIEM DA MEMÓRIA, por Tatiana Cruz](https://revistasepe.art.br/requiem-da-memoria-por-tatiana-cruz/): Me perguntaram quando parei de lembrar de você. Na verdade não me perguntaram. Eu me perguntei. Era domingo. A casa estava um caos e não parava de chover já fazia cinco dias. Miguel destruía ruidosamente os restos de isopor da embalagem da máquina de lavar nova. Pedro interrompia minha tentativa de finalizar um keynote para um novo cliente. A gata queria comer a comida do gato, que estava doente e não conseguia mais comer ração seca, só úmida. E ainda tocava uma playlist meio punk rock no meu celular. Tinha muito barulho. E um silêncio enorme sobre ti. É certamente […]
- [ESPAÇADO, por Adriana Bandeira](https://revistasepe.art.br/espacado-por-adriana-bandeira/): Espaçado. Dois passos, noutro lugar. Que antes de mim vinha uma palavra, mesmo que arrastada por causa do medo. Pode? Era um jeito de chegança e riso. Porque era de rir. Rir de mim por causa da sanga, da beirada do rio, da gente criança. Porque num tempo assim me conheciam gente e filiação do Germano e Noêmia. Ah! Era doce que se ganhava no Natal. Com a Hernanda vestida de vermelho, imitando o papai noel! E era besta a Hernanda! Ah ! Era! Eu com os olhos vidrados nela e ela andando feito pandorga, de vermelho e calça xadrez. […]
- [CALÇADA, por Marcelo Martins Silva](https://revistasepe.art.br/calcada-por-marcelo-martins-silva/): Lembro que passei anos – acho uns seis anos, achando que eu havia matado o Mateus Caviar de propósito, se eu teria sido mesmo capaz de ter largado a mão dele só para vê-lo se esborrachar lá embaixo. Ser capaz de matar alguém. Eu era boa pessoa, agora, por exemplo, sou secretário adjunto do Rotary Club. Mateus havia crescido comigo. O corpo dele pesava tanto àquela hora, os braços cheios de cabelos negros espessos ensopados de suor. Na extinta sétima série – ele morreu no segundo grau, nosso colégio era dos ricaços da cidade, tinha até piscina e sala de […]
- [EU CERZI A ALÇA DA ANÁGUA DA MINHA MÃE, por Luciana Paiva Coronel](https://revistasepe.art.br/eu-cerzi-a-alca-da-anagua-da-minha-mae-por-luciana-paiva-coronel/): Muitos anos atrás, encontrei na casa da minha mãe, no meio de umas roupas antigas, uma anágua. Experimentei-a e me achei bem. Ela falou que se tratava de uma peça do enxoval. Eu ri. Pensei que minha mãe pudesse ter tirado a anágua pouco antes de me conceber. Eu já era adulta, mas não sabia nada de anáguas e nem de amores. Fora uma cena rara aquela. Eu ficara sem jeito diante da mulher bonita com a lingerie preta no espelho. Ela se parecia comigo, mas em seguida se dissipou. Era um segredo inscrito no território da mãe aquela aparição. […]
- [EU DESAPAREÇO, por Cristiano Fretta](https://revistasepe.art.br/eu-desapareco-por-cristiano-fretta/): (…)What I’ve feltWhat I’ve knownNever shined through in what I’ve shownNever beNever seeWon’t see what might have been(…)The Unforgiven – Metallica Questão das mais instigantes refere-se à quantidade de vomitados nas paradas de ônibus de Porto Alegre: difícil é vermos uma única parada que não tenha um amontoado de massa triturada e mal digerida na qual sempre residem pedacinhos de tomate e cebolas sob os olhos cegos e cansados dos papéis semi-rasgados de anúncios de estúdio de gravação, pré-vestibular barato, aulas de guitarra em casa entre outras nojeiras. As pessoas que por intermináveis minutos esperam pelo cumprimento da promessa de […]
- [A LOJA DE MÁSCARAS, por Arthur Reginatto](https://revistasepe.art.br/a-loja-de-mascaras-por-arthur-reginatto/): Era início de junho. Até agora, fora um ano muito estranho; um ano de medo e especulações sobre o futuro da humanidade. Uma doença nova e perigosa assolava o planeta inteiro, e todos tentavam se adaptar às novas normas de segurança criadas para evitar o contágio. O inverno havia chegado no hemisfério sul, e, com ele, a pandemia, que todos achavam que atingira seu pior momento há um mês atrás, alcançava um novo pico, muito mais alarmante do que o anterior. As ruas da cidade estavam praticamente vazias, e o vento gelado soprava pelas calçadas, desencorajando ainda mais aqueles que […]
- [AMARE, por Catia Schmaedecke](https://revistasepe.art.br/amare-por-catia-schmaedecke/): Antigamente Porto Alegre era uma cidade murada cujo portão se fechava ao anoitecer para impedir a entrada de possíveis invasores através das águas, e abria-se nas primeiras horas do dia seguinte. Era o que aparentava à primeira vista, quando havia a escassez de chuvas torrenciais e consequentes cheias. Foi ali, às margens do Guaíba, que certa vez eu cheguei vitorioso de um penoso trajeto de verdadeiras batalhas emocionais. Naquela tarde chuvosa de novembro, após cumprir a tarefa de acompanhar a travessia de um número considerável de casais, eu percebi estar apto a qualquer outro tipo de incumbência. Durante o percurso […]
- [FUMAÇA, por Giovani Thadeu](https://revistasepe.art.br/fumaca-por-giovani-thadeu/): Doralina, mais conhecida na vizinhança como Dora, é uma senhora septuagenária, aposentada, viúva, vivem ela e Fumaça no seu pequeno apartamento. Fumaça deve seu nome ao tom cinza do seu pelo e também ao seu comportamento onipresente e irrequieto, Fumaça está aqui, ali, lá e de novo aqui. Dora é uma senhora de baixa estatura, um pouco rotunda como as figuras de Rivera, cabelo farto e sempre alinhado em tom lilás. Simpática, risonha e amável como a personagem Dona Benta de Monteiro Lobato, conservando uma sobriedade inglesa no modo de vestir-se. Tudo milimetricamente combinando e de bom gosto. Seu marido, […]
- [CIGANA, por Maximiliano da Rosa](https://revistasepe.art.br/cigana-por-maximiliano-da-rosa/): Maristela caminha apressada. São dias de angústia, de procuras vãs, esperas inúteis, o corpo e mente em desalinho, espírito denso demais. Precisa de um emprego, e logo. É nisso que pensa enquanto cruza os caminhos, percorre as ruas apinhadas de gente tosca e macambúzia, o sol demasiado quente sobre sua cabeça, fazendo ferver seu espírito fatigado. Cabisbaixa, o corpo levemente curvado, olhos fixos no chão sujo, ela se arrasta. Pensa nos filhos que estão em casa sob os cuidados de uma amiga. Precisa urgentemente arranjar um jeito de ganhar a vida agora que o marido se foi deixando-lhe sozinha para […]
- [NO MORE CHOW FUN'S, por Meire Brod](https://revistasepe.art.br/no-more-chow-funs-por-meire-brod/): Resolvi que iria dar um jeito na minha vida naquele momento. Aquela era a hora, nenhuma outra jamais se anteciparia. Era meu sim, meu princípio. Por mais que tenha demorado, por mais que tenha vacilado, entrei por um túnel que não tinha volta, nem engano. Passei bons anos vagando em uma espécie de limbo que acabava por não me levar a lugar algum. Uma dança que aperfeiçoei com o tempo, onde exercitava o paradoxo existencial que me colocava na gangorra emocional, oscilando entre o vou ou fico, puxo ou empurro, subo ou desço, morro ou vivo, rio ou choro. Foram […]
- [A VOZ DO PAI, por Luiz Mauricio Azevedo](https://revistasepe.art.br/a-voz-do-pai-por-luiz-mauricio-azevedo/): Não há um modo indolor de consertar o passado. O que sei é o que me contaram, porque vivo de histórias: em alguma tarde do ano de 1979, Álvaro Afonso e Ilma Silva conversavam em tom baixo, dentro de um Corcel creme. O banco de trás estava cheio de livros. Álvaro gostava de literatura, em especial, a de Nelson Rodrigues e Jorge Amado. Sonhava em ser jornalista. Enquanto isso não acontecia, fazia bicos em uma transportadora e escrevia para um jornal alternativo da cidade. Ilma era uma comerciária recém-divorciada, vinte e quatro anos, um filho de três, e uma dúzia […]
- [EXCALIBUR, por Milene Barazzetti](https://revistasepe.art.br/excalibur-por-milene-barazzetti/): E passaram-se dias. Quando a luz voltou, depois desse tempo, foi o momento de despertar de Esmeralda. Acordou com as lambidas de seu gato, companheiro de isolamento. No início, com luz e internet funcionando, o isolamento foi saudável. Mas, depois de algumas semanas, alguns sistemas de gerenciamento de dados não conseguiram mais dar conta do recado. E a luz, sem a manutenção diária, também se extinguiu. Restavam para Esmeralda os livros da sua biblioteca e o gato preto azulado com nome de espada. Excalibur a protegia e contava a ela tudo que via da janela. Naqueles dias, sem contato com […]
- [De 'A BIBLIOTECA DOS LIVROS AMIGOS', de Alberto Goldim e José Roberto Goldim](https://revistasepe.art.br/de-a-biblioteca-dos-livros-amigos-de-alberto-goldim-e-jose-roberto-goldim/): De onde vêm as palavras? Dona Júlia comentou com Dona Rosária que já era quase a hora de arrumar tudo e fechar a biblioteca da escola. As crianças já tinham voltado para as salas de aula e havia inúmeros livros misturados sobre as mesas. Elas pegavam um por um e recolocavam nas estantes. Quando tudo estava arrumado, apagavam a luz e saíam, fechando bem a porta. Mal saíram, o Livro Geral das Melecas disse: – Que dia foi hoje! Vários meninos e meninas me abriram, puxaram e até uma me apertou com força sobre a mesa. – É assim mesmo! […]
- [De 'DOIS AMIGOS', de Letícia Möller](https://revistasepe.art.br/de-dois-amigos-de-leticia-moller/): A primeira vez que a vida do Pirata cruzou com a vida do Figueira foi numa noite de inverno de gelar os ossos. Tinha chovido, e as ruas e calçadas acumulavam poças d’água. Figueira estava no lugar de sempre, o ponto certo onde ele se refugiava quando escurecia. Sentado debaixo do grande viaduto da avenida, as costas escoradas no papelão que, dobrado, também servia de assento e cama, olhava quieto o vazio daquela hora, já alta madrugada. Quase não passavam carros. E pelo silêncio no viaduto dava para pensar que não houvesse alma de vivente nenhum ali – só, talvez, […]
- [UM ANÚNCIO NOS CLASSIFICADOS, por Maristela Scheuer Deves](https://revistasepe.art.br/um-anuncio-nos-classificados-por-maristela-scheuer-deves/): É madrugada. A casa está silenciosa. Mas não confunda essa quietude com paz: o silêncio pode ser bem mais inquietante do que os sons. Até porque os sons chegam da rua – agitação, carros, movimento, vida. E esse excesso de silêncio aqui dentro, que contrasta com a vida que pulsa lá fora, perturba. Tem outro significado. Estou aqui trancada no meu quarto, fechada à chave, embora o resto da casa esteja quieto e vazio. Ou não estará tão vazio assim? Apuro os ouvidos. Não, o pior não é ouvir algo; o pior é suportar o silêncio. Que saudades de quando […]
- [De 'O ÚLTIMO CONTINENTE', de Simone Saueressig](https://revistasepe.art.br/de-o-ultimo-continente-de-simone-saueressig/): “Ele riu, nervoso, e a puxou na direção da porta. Meteu a mão no trinco, teve de forçar um pouco antes da folha se abrir para a escuridão e ele cair para fora. No breve instante em que perderam contato, Maria do Céu achou que ele tivesse caído em alguma armadilha da embarcação abandonada. Gritou, aflita, e avançou, só para sentir os braços de Shiaka ao seu redor outra vez. Zangada com o susto, ela o afastou com força. – Isso não é hora de brincar! Achei que você quisesse sair daqui tão depressa quanto eu. Ele riu baixinho e […]
- [DOMINIKA EM MANCHESTER, por Fabrício Silveira](https://revistasepe.art.br/vinte-anos-em-quinze-minutos-por-fabricio-silveira/): David Chorlton é um professor de inglês para estrangeiros nascido em Manchester, ao noroeste da Inglaterra. Em dezembro de 2016, completou quarenta anos de idade. Só não comemorou porque vivia do dinheiro acumulado entre aquele ano e o ano anterior, quando esteve no Vietnã junto com a esposa. No dia do aniversário, recebeu um telefonema dos pais e outro do irmão. Agradeceu e ficou em casa jogando Call of Duty a tarde inteira. David se formou em Oxford – cursou Língua e Literatura Inglesas – e aprendeu a orgulhar-se da reputação da universidade, embora desprezasse, em conversas que jamais assumiria […]
- [O PAR DA NEGRA DIRLEI, por Myrian Beck](https://revistasepe.art.br/o-par-da-negra-dirlei-por-myrian-beck/): A carroça do leite atingiu sua anca e aleijou-lhe o prumo. A negra Dirlei ficou caminhando assim, a coitada. Triscava a estrada com o pé direito, dando um volteado meio bobo no ar, para endireitar-se com ajuda do esquerdo e seguir adiante. – Aqui tá fundo aqui tá raso, gritava a gurizada em coro ao ver a Dirlei passar. Primeiro, embrabecia. Depois, deixou de ligar; nem bola pra crueldade infantil. Lá se ia num esforço de manter o corpo esticado com a cabeça em direção ao céu. Nela, equilibrava uma trouxa. Rumava para a sanga todo o santo dia, a […]
- [ARMAZÉM DE SECOS E MOLHADOS, por Lucia Nogueira Leiria](https://revistasepe.art.br/armazem-de-secos-e-molhados-por-lucia-nogueira-leiria/): Amei muitas vezes, nem sempre correspondidas, mas todas muito sentidas. Numa delas, me apaixonei pelo dono de um armazém de secos e molhados do bairro. Na verdade, era quase uma delicatessen, vendia desde artigos importados até itens mais comuns do dia a dia, mas tenho comigo boas razões para chamar de armazém. Costumava ir lá esporadicamente, para buscar um produto mais refinado, uns biscoitinhos italianos que combinavam com vinho do Porto, um pedaço de queijo holandês, algo que faltou na ida ao supermercado ou para fazer alguma compra emergencial. Um dia, percebi que ele me olhava. Eu era uma mulher […]
- [De 'DEVOÇÃO', de Guto Leite](https://revistasepe.art.br/de-devocao-de-guto-leite/): às vezes eu queria ser como um pássaro que acompanha por alguns instantes um ônibus de viagem, ser obstinado como esse pássaro, ou como um peixe, melhor, eu queria ser como o pássaro que abocanha um peixe dentro do lago, é impossível ter certeza de que ele avista o peixe antes do mergulho, quem de nós esteve atrás dos olhos de um pássaro, mais do que ver o peixe, o pássaro acredita que ele exista, atrás do muro de água, no futuro, e realiza um cálculo rigorosamente biológico, que pondera, não na razão, mas nas penas, que mais valem tantos […]
- [A PIN-UP DA AZENHA, por Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/a-pin-up-da-azenha-por-miguel-da-costa-franco/): Sentado no vaso do banheiro, nu, os pés descalços aproveitando o frescor da cerâmica do piso, Ariovaldo fumava o terceiro cigarro desde que havia se refugiado ali. Não conseguia dormir. Precisava apagar da memória aquela noite ruim. Distraía-se acendendo e apagando o isqueiro. A salvo das reprimendas pudicas de antes, que o haviam irritado muito, tinha todo o tempo do mundo para olhar o corpo desnudo de Januária, esparramado na cama rangedeira que mantinha nos fundos da oficina. Estava protegido pelo sono pesado da outra. O que tinha à vista era uma segunda versão de Januária, liberada de poses, cuidados […]
- [De 'WILDE EM BERNEVAL', de Gerson Werlang](https://revistasepe.art.br/de-wilde-em-berneval-de-gerson-werlang/): Nota de Robert Ross Embora estas cartas tenham sido endereçadas a Lord Alfred Douglas, mais conhecido como Bosie, de fato nunca foram remetidas a ele. O próprio Wilde deixa esse fato bem claro, ao fim da primeira carta. Aparentemente, ele deixou-as em Berneval, não sei se de propósito ou não, e foram entregues a mim recentemente pelo sobrinho do proprietário do hotel em que Oscar Wilde se hospedou à época em que estava na aldeia de Berneval, no litoral da França, localizada perto de Dieppe, na Normandia. Convivi muito proximamente com Oscar Wilde naquele período e nunca notei que ele […]
- [LIRISMO, SUBJETIVIDADE E SOCIEDADE: O ENTREGADOR DE PRESSA, DE MARLON DE ALMEIDA, por Marcia Ivana de Lima e Silva](https://revistasepe.art.br/lirismo-subjetividade-e-sociedade-o-entregador-de-pressa-de-marlon-de-almeida-por-marcia-ivana-de-lima-e-silva/): O verso é um doido cantando sozinho.Seu assunto é o caminho. E nada mais!O caminho que ele próprio inventa…Mario Quintana No ensaio “Lírica e sociedade”, Theodor Adorno afirma que o poema é o encontro entre subjetividades, a do poeta e a do leitor, através da linguagem que funciona como um elo entre lírica e sociedade. Ou seja, não há como pensar a representação social do poema fora da esfera da subjetividade, já que somente o indivíduo realmente mergulhado na linguagem conseguirá concretizar a relação entre o conteúdo lírico e a vida social. É exatamente isso que Marlon de Almeida nos […]
- [De 'DOMANDA NÍSIO', de Emir Rossoni](https://revistasepe.art.br/de-domanda-nisio-de-emir-rossoni/): “Sei arrivata, sei arrivata”, consegui sorrir quando tu chegou. As pessoas comentam quando sorrimos num velório. Mas o que elas mais fazem é tentar nos fazer sorrir de maneiras tão estúpidas que sentimos vontade de colocá-las no lugar do defunto. Eu sorri porque te vi. Porque tu tinha chegado. Porque eu queria que tu estivesse aqui há muito mais tempo. Sorri porque não me senti sozinha mais. E porque eu não havia conseguido chorar ainda. Apesar do Fioravante ter sido meu marido por quarenta anos. A gente se acostuma com alguém que dorme por quarenta anos ao nosso lado. E […]
- [De 'O NOVO HORROR', por Antônio Xerxenesky](https://revistasepe.art.br/de-o-novo-horror-por-antonio-xerxenesky/): O crítico cinematográfico Tom Mes já havia sentenciado: se você quer conhecer a cultura de um país estrangeiro, não dá para assistir aos filmes ditos “de arte”; estes seguem fórmulas prontas, em geral importadas da França. Para realmente mergulhar em uma cultura distinta, é necessário ver filmes de terror. Com certeza, Mes pensava na ampla variedade estilística que o cinema de gênero exibiu no século XX, das cores saturadas dos giallo à psicodelia desvairada de José Mojica Marins. Mas há algo mais por trás da frase do crítico que, a meu ver, se aplica ao horror lato sensu. É graças […]
- [BONEQUINHA DE LIXO, UMA RESENHA BREVE PARA UM LONGA RECOMENDAÇÃO, por Luís Roberto Amabile](https://revistasepe.art.br/bonequinha-de-lixo-uma-resenha-breve-para-um-longa-recomendacao-por-luis-roberto-amabile/): “Lucio, tudo bem? Não vai ter as recomendações de leitura, igual teve no ano passado? Nesse ano vamos de edição normal, Luís. Todavia, se quiseres fazer uma resenha breve de algum livro, recebo tb!” * As aspas acima intentam mostrar que pretendo deixar tudo às claras. Nessa linha, preciso dizer que conheço a Helena Terra e que ela elogiou meu livro de contos O lado que não era visível para quem estava na estrada. Então eu iniciei a leitura de Bonequinha de Lixo (Diadorim, 2021) querendo gostar. Mas não esperava gostar tanto. Gostei tanto. Por quê? Porque me lembrei do […]
- [De 'ROTAS DO FASCÍNIO', de Michael Desser](https://revistasepe.art.br/de-rotas-do-fascinio-de-michael-desser/): Michael Desser tinha seis anos quando sua mãe, uma vienense nascida na Inglaterra de pais refugiados judeus, casou-se pela segunda vez e mudou-se para a Dinamarca, deixando-o em Viena aos cuidados do pai. Essa experiência brutal de “exílio” emocional refletia, de forma invertida, a de sua mãe: com dois anos de idade, enquanto Londres era devastada pelo bombardeio alemão, ela fora entregue a uma família de acolhimento britânica. Tinha quase quatro anos quando os pais a reencontraram. Desde muito cedo, Michael demonstrou curiosidade por outras culturas, aptidão para línguas estrangeiras e uma estranha nostalgia dos trópicos. Aos 13 anos, conseguiu […]
- [EXISTE LIVRO COMESTÍVEL, por Joselma Noal](https://revistasepe.art.br/existe-livro-comestivel-por-joselma-noal/): Olivetti Lettera 32, de Carolina Panta, editado pela Zouk, em 2021, tem na capa o cartão de visitas perfeito com os bonecos criados pela artista Ana Clara Lacerda. Os tons remetem a uma foto antiga com um toque nostálgico. A ausência de um rosto, o sentido horizontal do corpo e a continuidade das pernas na contracapa dizem muito sobre o que leitor irá encontrar: uma trama original, surpreendente, instigante que é narrada assim aos pedaços. Já a dedicatória, que não está assim nomeada, marca o amor entre neta e avó, frequente laço que nada desfaz. Com a epígrafe de Wislawa […]
- [De 'O ENIGMA POR TRÁS DO MURO', de Neusa Demartini](https://revistasepe.art.br/de-o-enigma-por-tras-do-muro-de-neusa-demartini/): Bem vindos ao meu delírio.(Pichação de muro de rua) Construímos muros demais e pontes de menos.(Isaac Newton) Durante o passeio matinal até a frente da propriedade Frau Emma viu um cesto colocado por dentro do portão. Achou estranho, pois o marido tivera o cuidado de colocar uma caixa bem grande para receber encomendas e cartas que, seguidamente, algum caixeiro viajante entregava. Frau Emma chamou por Felinta aos gritos. Nervosa, porque nunca tinha visto a patroa tão alvoroçada, a cozinheira correu pensando que ela podia ter encontrado alguma cobra venenosa, a exemplo de seu finado marido. Felinta chegou e tomando ciência […]
- [De 'BREVE COMO TUDO', de Gisela Rodriguez](https://revistasepe.art.br/de-breve-como-tudo-de-gisela-rodrigues/): A luminosidade se tornou incerta, a chuva cessara. Observei a praça à minha direita. As copas das árvores estavam brilhantes e seus troncos formavam um grupo consistente, e algo remetia à imortalidade. As raízes por baixo, na terra. As folhas voltariam à terra. O tempo parecia-me nítido, apesar de tudo. Quero dizer, mesmo que eu tivesse a certeza da efemeridade dele, eu estava nele. Se instalava com seus ilimitados detalhes dentro de mim e nas folhas molhadas das árvores cada vez mais verdes. Musgo, limo, chá, broto, aspargo, bandeira, abacate, esmeralda. Três meninas surgiram no caminho de pedregulhos que cortava […]
- [MEMENTO, por José Francisco Botelho](https://revistasepe.art.br/memento-por-jose-francisco-botelho/): Em tardes de invernoque o fogo alongavaestalando chamaspra dentro do ocasominha avó contavaa velha lembrançade quando, menina,na noite do rancho,o estrondo de passoscresceu em seu sonhoe a trouxe assustadade volta à vigília. Passos de botas duras,duro tinir de esporas,estalos de rebenques,sussurros de cancelas,contra o silêncio aflitoda noite que aguardavaum grito, uma batida,na estância que dormia,exceto pelo mochono galho da caméliacujo ulular profundoera um soturno alarmano sonho da meninaque longo crepitava. E, despertando, entendeuque o sonho não era sonho,que os passos vinham de fora,das pedras mouras do pátio,e as esporas retiniamcontra os degraus e o lajedo,sobressaltando as janelas,repicando a escuridão.E no […]
- [De 'CASA 11, TELEFONE 09', de Nydia Bonetti](https://revistasepe.art.br/de-casa-11-telefone-09-de-nydia-bonetti/): manhã de sol —outros meninos brincamno rio que era meu o fim das coisas parecemesmo sercomo um rioque sempre termina ondecomeçaoutro rio (ou mar)tudo parece recomeçar raso e manso, o rio da infânciaagora transborda /enverga as amoreirasdestrói o asfalto que não haviaarranca pela raiz as velhas mangueirasdecepa os lírios brancostalvez para sempreé findo o tempo da doçura e da inocênciaáguas barrentas — fúria * perto de mim flui, generoso o riotodos mergulham, oumolham as pontasdos pés só os meus sempre secos havia um rio na minha infânciaainda hácorre lento agoraposso ouvi-lo cantarsegredosque já não podemos decifrare quando eu já não […]
- [MEMORIAL ESCRITO NUM QUARTO DE HOTEL, por José Eduardo Degrazia](https://revistasepe.art.br/memorial-escrito-num-quarto-de-hotel-por-jose-eduardo-degrazia/): 1 Lembras daquele hotel no centro de La Pazonde fiquei sozinho depois do soroche e das cervejasque tomei pensando no trem que dava voltasdesde o alto para entrar na estação da cidade?Parece que ainda hoje estou ali e a febre batenas minhas têmporas como o vento nas vidraças.Parece que desde aquele inverno eu te perdi. 2 Outra maneira de sentir foi abrir a janelapara a avenida Merulana e descobrir o amanhecer em Roma.O velho hotel rangia suas escadas de madeira e estalavafeito um coração que batesse sozinho na cidade eterna.Nunca te disse, mas me fazias falta naquele momentoem que eu […]
- [MARIA GRAZIA NAPPA: ALGUNS POEMAS TRADUZIDOS E UMA ENTREVISTA, por Paulo Damin](https://revistasepe.art.br/maria-grazia-nappa-alguns-poemas-traduzidos-e-uma-entrevista-por-paulo-damin/): Maria Grazia Nappa (Caserta, Itália, 1985) estreou na literatura em 2018, com a publicação de um livro de poemas chamado Le brutture dei cuori scalzi (“As feiuras dos corações descalços”). Em 2019, lançou Nata intera (“Nascida inteira”), também uma coletânea de poesias. Publicou em diversas revistas, como ClanDestino, 900 letterario e La lettura. Organizou com outros poetas eventos culturais em Caserta e participou de saraus nas cidades de Napoli, Milão e Florença. Alguns textos seus foram traduzidos para o espanhol e, agora, apresentamos alguns poemas dela em português brasileiro, seguidos por uma entrevista exclusiva. Esses poemas foram extraídos do livro […]
- [3 poemas de Marco de Menezes](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-marco-de-menezes/): pássaro, 1994 depois, bem depoisque meu amigo Luizse jogou do terraço do nosso apartamento,passamos a chamá-lo de homem-pássaroque era uma forma de rirmosde um assunto que não nos deixava mais tristes estava tudo previstoele, ou parte dele,já havia cortado os pulsos uma veze tomado umas pílulas outra vezmas isso a gente não sabiafoi o irmão dele que contou depois ele havia subido no telhado do nosso apartamentopermanecido ali por um bom tempo, fumando e olhandopara os lados do bairro Fátima(era bem longe o bairro Fátima) e ele vestia uma gabardinecomo quase sempreporém aquilo não nos pareceu estranhoao contrário, pareceu-nos versátil […]
- [3 poemas de Moema Vilela](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-moema-vilela/): Inscrições abertas para cursos de línguas estrangeiras 2028 Gozar, apesar,ao invés e ao revésde tudo. A partir do que for.Como um ás. Saber o gozodisponível, como o arpara a respiração. Desfrutar de todo jeito.Sem embargo e a despeito. Malgrado e não obstante.Independentemente. A conjunção de fatoressabemos bem – e também por isso gozar. Na cara deles.Na cara disso.Como se fez desde sempre. Abertamenteou sem divulgação. Não há condições outras. Na adversidade,a alternativa é premente,e a conclusão. Para além da concessão.Por inteiro e por completo.Gozar agora. embora eu não saiba nada desse rio que sobepara lavar a terra a pedra molhara […]
- [5 poemas de Jéssica Iancoski](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-jessica-iancoski/): ROLOS DE PAPEL FILME como ybásecando longe do pé dedos esticadospela ganância brancaformam uma linhado polegar ao mundinho movimentos de pinçaroubam a tangerinatentando extraira seiva interina sem que saibamrobôs descascamo firmamento frutos envoltos em etilenoenrolam horizontesem rolos de papel filme UM SÓ LAMENTO PARA O SOTERRAMENTO enquanto cipósse lançam do altodas copasbuscandoa semente pessoastrocam de nometentando aceitara mente yby seria só a terramas homens infelizesimpuseram o chão PILARES antes do soluma mãee os seus seis filhosse levantam eerguem as mãospara um deus mudo. sem que saibamsustentam o peso do mundopara que um dois ou trêshomens sem rostos subamaté a tezda […]
- [3 poemas de Violeta Rivero](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-violeta-rivero/): feita de cantos livresmesmo nas horas friasum pedaço de pedramedrado de poesialonge de deus e o mundotão perto das aguadasdeleitar de delírioscios de passaradarisos e super novasrosas, mitologiasguia de não sei ondelonge de já ser diamúsica analfabetafeita de letra poucagraves estrelas riemluas e aqualouca Que idade tem a almaDa criança que nasceu? Quantas células se agitamNesse corpo que morreu? Quem existe quando sonhoA borboleta que sou eu? Que mistérios me refletemNo espelho desse céu? Porque fico sempre sérioQuando olho o impérioDas lápides carcomidas? Que ferida não me dóiNa película da vida? Que alegria não me elevaQue harmonia não me acalmaQue […]
- [De 'OLD PARR', de Armando Moura Filho](https://revistasepe.art.br/de-old-parr-de-armando-moura-filho/): Noite espichada Noite espichada,Dia que se recusa a chegar.A noite profunda é o meu habitat,Quando ela chega saio para as ruasDesertas, o lixo carregado pelo vento,Que posso ver até onde permite a neblina.Movimento-me por calçadasIrregulares e estreitas. Às vezes,Tropeço. Quase caio.Vejo luzes de bares quebradas pelaDensa bruma,Dentro deles só corações sangrandoDe solidão.Não é real, estou delirando, digoPara ninguém. São quadros.Uma sucessão deles.Todos assinados por E. Hopper,O pintor que iluminou a solidãoPara nos deixar ainda mais solitários.Volto para a calçada escorregadia,E para a umidade, quem sabe?Quem sabe não consigo pelo menosUm cigarro? Muller & Norman Muller & Norman formavam uma duplaDe […]
- [De 'PRIMEIRA PESSOA', de Magda L. Carvalho](https://revistasepe.art.br/de-primeira-pessoa-de-magda-l-carvalho/): Primeira pessoa Livre como os cavalos nos desfiladeiros, selvagemtece teias como as aranhas apanhando suas presasarremete-se por estradas poeirentasacaricia os pássaros em voo. Sua solidão não se rompenada muda na paisagem de seus olhosmorta de um cansaço em outro além de tudoa morte anuncia-se em lampejos de luzes tremeluzentes. As cadeias em círculos concêntricosnunca saiu de onde nasceucomo árvores amarelecidas pelo tempoas palavras embotam-seos objetos permanecemas ruas escondem mentirassua sensibilidade controla o empobrecimento da verdademente a todo o momento. Prisioneira em seu túmulo confortável e tristeprisioneira seus laços cadeias elos sem fim e alegriaousa e recua em táticas desconexasapenas vai […]
- [5 poemas de Luiz Renato de Oliveira Périco](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-luiz-renato-de-oliveira-perico/): POEMA TIRADO DE UMA PALESTRA InventamosA bicicletaO carroO avião O tombo de bicicletaA batida de carroA queda de avião A vida não tem nada a ver com a morteE a morte não tem nada a ver com a vida A vida não tem fim, é interrompidaE a morte é essa fratura, é esse corte Não partimos – a vida é que é partida CICLO O terminar é ter durado,E perdurar é um processoQue sempre acaba terminado. Esse é o ciclo material:Tudo acabou desde o começo,Tudo durou desde o final. não tirem fotografiasnão há nada que mereçamais que menos de um […]
- [3 poemas de Ines Lempek](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-ines-lempek/): Refluxo das horas Havia um fogomornouma sombraocultaatrás das horasidas Um raio indiscretofulminando silênciosdiminuíao hiato No esconderijoa céu abertopalavras aqueciama pele Segredos reveladosa céu noturnona areia movediçauma estrada Olhos entreabertosa maré semeiacorpos renovadosno refluxo das horasidase vindas. Estiagem Entrego esse sorrisodobrado e guardadona caixa de fantasiasque o musgo do invernoesqueceu de cobrir a chuva metálicaacordou o silênciorecortou nuvensabrindo as cortinasda longa estiagem agorapodemos tiraras dúvidasamarrotadasna mochilado esquecimento. Enquanto era noite Enquanto era noiteficávamos à derivatentando tatearos sonhos — pescar esperançasna evanescênciados tempos havia aindamais densaa outra escuridão sobrepostaa assombrar horizontes Deixávamos a janelaescancaradaas mãos unidas —assim, seguimos. Ines Lempek é natural de […]
- [5 poemas de Thamar de Araújo](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-thamar-de-araujo/): Sinto que ficareià deriva.Mas desta veznão cristalizareias tempestades.Transformarei o além-marem marolassuficientementefrágeis,para eu repousar. Enquantoosustonãopassa, enquantoatristezanãocansa, intentarei novos altares.Amanhecerei outras.Carregarei flores,com cores inventadasque ainda nem sei,por lugares inimagináveis,onde escaparei.Anoitecerei eras.Reconhecerei poucas. Decantarei. “Tsunami” in “Memorial de Lilia.” Descobertas insensatas.Pequenos fracassos.Busco pontes movediças, inauguro naufrágiosde centenas de barcos de papelem dias ensolarados. Respiro por entre os cantosde movimentos imaginários. Incapaz de dar o salto,modelo réplicas perfeitasdas visões que tenho: Todas incompletas.Não há par. Janelas abrem e fechamem velocidades assustadoras. O ranger das dobradiçaslembram barulhos,mas são ruídos. Atendo ao seu chamadonum telefone de fios cortados. O silêncio.O dilúvio.As águas paradas,após a chuva.Uma cançãoque […]
- [5 poemas de Luize Gomes](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-luize-gomes/): Idas e vindas Em intervalos de tempoperco-meperco-me de tal maneira,que chego a sentir o gostode poesia do meu desertoem minha boca Em intervalos de tempoperco-me Quando menos esperosem mais nem porquêvoltovolto de tal maneira,que chego a desdenharde quem sem saída, se foi. Em raros dias de neutralidade internade ser limpo, que não tem pretensão de sersinto o frescor de todas as coisasa vida de quem não vivee a cidade girando lentamente:ideias repousando. Velha de nascença Nasci velhatentando desgraçadamente enfincarminha trêmula bengala no chãotentando aprumar-me e não conseguindo. Nasci velhacarregando o gosto da poeira dos caminhosna boca,nos olhos o cansaço de […]
- [De 'ELVIRA VIRGÍNIA', de Dani Espíndola](https://revistasepe.art.br/de-elvira-virginia-de-dani-espindola/): o muro estar no escurocegaem cima do muro fio-de-navalhaque retalharecorta em frangalhosa alma a dor que entalhadúvida megeraque emperraestanca a vidasangra a feridaatrapalha no murogritourroficoa esperar o desequilíbrioque me libertarádesta prisão em linha reta diagnóstico como lhe explicar, doutor,o que sinto? o que não sinto maisé o que me assustaviver em apreensão o fôlego sempre presocomo se eu pudesse me darum pouco mais de vida assim 139 palavras São 139 as palavras para descrever o gosto ácido-me-tálico em minha boca, resquício das palavras que ali permaneceram tempo demais sem conseguiremescapar, por encontrarem os lábios-portas cerradose é claro que isto é […]
- [5 poemas de Graziela Jacques Prestes](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-graziela-jacques-prestes-2/): Inquietação Em que clarão me lancei?Tanto espaço entre o calado e o expressoUm universo metaversoDia e mente escrevo parágrafosInteirosMedo e razão apagam tudoQuerem o tempo em negaçãoA segura certeza do grande irmão Poros O amor descoberto em noite de lua cheiadegustado em cálice de vinhoexpande os corposapeia, gaucheque a solidão é vento de areia Jardim de inverno Compreendo agorae te liberto de mimque sejamos felizesem outros matizes Flores despertas em agostome interessam muito mais Pingos de café Está tão habituado a virar a página da vidaque não consegue ler o livro No verso descobri que sou japonesaadoro começar meus cadernos […]
- [5 poemas de Daniel Ricardo Barbosa](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-daniel-ricardo-barbosa/): As Cinco Irmãs Ausentes estrelas, cruzeiro do sula bússola coração que vagueiaa respiração nítida condensadaacelerada como bater de palmasem espaço de engolir os sonos. Equilibre o que não pesameça a força do tempoescreva peça na escuridão. A cena é a que se repeteas crianças brincam, bolabarcos de papel, chocolateos lábios sujos de ranhomarcados pela terratudo doado, sobras. Meninas na casa de latasbonecas de meias furadascomo o teto, água gelada,calor à mesa, sorrisosraro pão com geleiabarata (s). Sortilégio Tudo está calculadopremeditada qualquer respostaa todo o desafio e oposiçãoa tornar qual seja o sanguemotor de girar engrenagem. Eles nos enganaram, não?Apesar dos […]
- [De 'LUGARES QUE ESPERAM', de Suzana Pagot](https://revistasepe.art.br/de-lugares-que-esperam-de-suzana-pagot/): Ausência Mesmo que não saibasa cidade ficou diferenteum tom a mais ou a menosno colorido de repente No meu cafépingo duas ou três gotas de tristezacostume largopara que não penses que-em-teu-ocaso-esqueci-de-tuas-mãos-nas-minhas Corro para te contar as novidadesbobagemandas por outras paragens Na ausência, o hábito faca e felensina que a vida é árvore no ventonão há como fincar raízes em tempestades. No teu ato final, o mundo não parou, chorei Sobre a mesa um bule de café ausenteA chaleira fria no fogão insenteO cigarro mudoO fósforo abatido A rua suspira aborrecidasem o toc-toc dos teus sapatos A melancolia ficou sem larA […]
- [De 'A ÚLTIMA VEZ QUE PENSO EM VOCÊ NESTE SEGUNDO', de Léo Cruz](https://revistasepe.art.br/de-a-ultima-vez-que-penso-em-voce-neste-segundo-de-leo-cruz/): dói quando eu encontrofotos nossas no meu celularocorrem dois momentos: surge um ar diferente no ambiente,uma doçura que eu apostoque toma conta da sala inteira,do andar todo, do prédio por completoe eu lembro da gente sendo feliz(afinal, ninguém tira foto de casal triste)e nem penso nos mil motivospara que tenha dado tão errado. depois, as nuvens escurecem,o céu despeja uma tempestade tão forteque o teto de onde estou é destruídoe eu sugado para fora.no meio desse temporaleu sou atingido por um raioe meu corpo explode em mil pedaços. tudo isso acontece em um segundomas dói por uma semana. subida subimos […]
- [3 poemas de Iolly Aires](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-iolly-aires/): desidentificação convidaram-me a sentar à mesacom a condição de que me alienasse de mimapenas para comer as sobrasao invés de oferenda que alimentasse o meu serpor isso, começo a expelir a bílis da assimilaçãode um desejo alheio ao que me constituide um parâmetro alheio a quem sou. o quanto de mim foi perdidodesacreditado, esvaziado?quem é este eu, diaspórico? ser neste corpo este corpo em constante travessia, com muitos atravessamentostem a sua própria geografiaeste corpo marcadocom ferro em brasaveias abertas pelo teu arado em minha peleextensa cicatrização do queloide que permanece, séculos mais tardeeste corpo que é o testemunho mais eloquente […]
- [De 'TRAVESSIAS DE AMANAÃ', de Ana dos Santos, Lilian Rocha, Carmen Lima, Fátima Farias, Taiasmin Ohnmacht e Delma Gonçalves](https://revistasepe.art.br/de-travessias-de-amanaa-de-ana-dos-santos-lilian-rocha-carmen-lima-fatima-farias-taiasmin-ohnmacht-e-delma-goncalves/): A cor do negro (Ana dos Santos) A cor do negroé o contraste entre as cores.São multicores negrasentre a mais clara e a mais escura cor.Mas ainda é negroo meu amor!Há pessoas de core há pessoas sem amor…E eu,eu amo quem sou:Negra! Preta-à-porter (Carmen Lima) Pendura a armadurapesada e dura de amargorEspalha, embaralha, realça tua corte vesteinveste na almae te acalmaCabide tudo que te aperta, espeta e torturaRompe o remendo e a costuraErgue a frontepara que nada te afrontenesta nova posturaDesata os nósque alinhavam tuas mãos, pés e vozTe envolve em cortes de valor e apreçoe desfila sem tropeçosagora, sob […]
- [De 'FÁBULA DO AFETO', de João Pedro Wapler](https://revistasepe.art.br/de-fabula-do-afeto-de-joao-pedro-wapler/): não sei dizer agora dizer assimao certo qual foi a maior rajadade vento que já dançou na minhapele. não sou tão velho assim prater o fígado lacrado pelos ponteirospodres do relógio. tenho agoratudo cronometrado só por cançõesaleatórias, neste quadrado correto,liso e desinfetado. a única aberraçãoque aqui cria limo vicia um interiorembaralhado. tenho certeza de quea infância não seria tão mais torta sedepois de anos de insolações mentaisnos uníssimos num só coro em buscado nada. bobagem esse negócio que dizemda raiva ser reguladora e redentora.quero ser calmo como o camelo, tercontrole do manto escuro da almade dentro do deserto, voar entrepirâmides, […]
- [Vol. 2, Nº. 6/2021](https://revistasepe.art.br/vol-2-no-6-2021/)
- [Vol. 2, Nº. 5/2021](https://revistasepe.art.br/vol-2-no-5-2021/): Navegue pelo sumário da edição.
- [De 'TERESAS DE ITAPUÃ', de Gabriela Coral](https://revistasepe.art.br/de-teresas-de-itapua-por-gabriela-coral/): Naquela madrugada, às três horas, Ana mandou me chamar. Com o sono pesado, demorei alguns minutos para entender o barulho, era uma das freiras batendo à minha porta. Abri um tanto irritada, estava frio e úmido, não queria sair da cama, mas era a primeira vez em anos que me acordavam daquela maneira. Imaginei a urgência. Ana estava implorando minha presença. -Assim, no meio da noite? – questionei. A freira assentiu. Suspirei fundo e disse: -Já estou indo. Quando saí, recebi o vento gelado. Visualizei a noite límpida e tranquila. O frio me despertou. Caminhei pelas ruas desertas do leprosário, […]
- [ELEGIAS ESCRITAS NA PANDEMIA, por José Eduardo Degrazia](https://revistasepe.art.br/elegias-escritas-na-pandemia-por-jose-eduardo-degrazia/): 1 ELEGIA DOS DEUSES DO MAR Os deuses que se fizeram silentes adormecidos no mar,eles, que sempre foram embuçados no mais alto etéreo,e sempre estiveram escondidos nesses abismos,os que nunca ouviram as lamentações dos simples, das viúvas,das mulheres abandonadas depois da primeira noite de amor,agora querem que toda a nossa atenção se volte para a visão,porque sabem, se nós não os olharmos e entendermos,morrerão instantaneamente, para sempre, eternamente.O mar parece indiferente às nossas súplicas a um deus desencontrado,o vento continua a soprar o seu espanto sobre a areia e sobre o vago,ó o orgulho dos deuses que não tiveram a […]
- [PANDEMÔNIO EM QUARENTENA, por Jorge Rein](https://revistasepe.art.br/pandemonio-em-quarentena-por-jorge-rein/): ORIENTADOR Daí? Todos ligados? Tiveram alguma dificuldade com o Zoom? Fomos obrigados a adaptar a disciplina de escrita criativa, evitando os encontros presenciais. A peste já levou alguns dos nossos melhores escritores, mas, em compensação, poupou todos vocês. Ao menos até agora. Talvez não seja justo. É um vírus insondável. Enfim, aproveitem a chance. Vocês oito foram os escolhidos para esta experiência de trabalho à distância, que consiste em criar uma narrativa que seja, ao mesmo tempo, individual e coletiva. A ideia é elaborar um conto reproduzindo a estrutura de um cubo. Cada um de vocês deverá desenvolver, em uma única […]
- [VIAGEM SEM VOLTA, por Ademir Furtado](https://revistasepe.art.br/viagem-sem-volta-por-ademir-furtado/): Apertou o botão do controle remoto, a grade de ferro rangeu, começou a abrir, ela manteve o pé agitado no acelerador, como se os toques leves e contínuos no pedal pudessem acelerar a abertura do portão. Pela janela do quarto não se podia ver nenhum sinal de vida lá dentro de casa. Entrou. Desligou o motor. Desceu. Abriu o porta-malas. Tirou as sacolas de supermercado. Largou as sacolas na beira da porta. Apertou a campainha. De volta ao volante. Ligou o carro. Mirou-se no espelho. Ajustou a máscara que descia, desprotegendo o nariz. O olhar sempre atento na porta. Ninguém […]
- [De 'O CONGRESSO DA MELANCOLIA', de Léo Tavares](https://revistasepe.art.br/de-o-congresso-da-melancolia-de-leo-tavares/): ANGST Sob o sol, deitados sobre toalhas, deitados sobre pedra molhada, assumindo a morosidade, o sumo sonolento da tarde. Corpos de betume, corpos de cinábrio, e, entre eles, figuras de ectoplasma, costas de rebater o branco. Ele olhava a certa distância, nada era muito longe e nada parecia perto, fazia a leitura da cor só para registro íntimo. Sungas multicoloridas, listras nas sungas, rugosidades, texturas, superfícies lisas, volumes. Pequenas montanhas, vau e vale. Eram cinco ou seis, deitados, o sol nas pedras, nas omoplatas, os cristais de quartzo despontando da terra como perfuração da beleza. Lá adiante, a cascata, a […]
- [5 poemas de Mar Becker](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-mar-becker/): Num fio I não importa o que eu diga das tuas mãos só posso amá-las como amopelo que não sei dizer amo tuas mãos ali onde elas calam no silêncio que guardam, intacto como o nomede um pássaro não catalogado II da tua boca não importa o que eu diga amo-a porque me escapa a sombra do meu desejo no teutuas palavras quando morrem nos meus lábios quandorenascem, em rasante na águaimargeável eu e tu, como se abandonadosum no outro no mar III em cada chamado teu, amoresta flor que não toco em cada haste que se ergue, em cada […]
- [LITERATURA GAÚCHA: CENA CONTEMPORÂNEA](https://revistasepe.art.br/literatura-gaucha-cena-contemporanea/): Houve um momento em que a noção de sistema literário permitia que a literatura sul-rio-grandense fosse observada, em determinadas perspectivas, com certa autonomia, como se consistisse em certa forma de independência, pela produção de uma literatura específica de autores “daqui”, para uma recepção específica, “daqui”, na constituição de um triângulo “autor-obra-público” gaúcho. Tal independência quase orgulhava um estado “evoluído”, de situação educacional privilegiada, de economia pujante, civilizado pelas riquezas da terra e pelas influências da Europa. “Pero…” Das bandas de eventuais do dito “triângulo” “daqui”, cavalgam coisas além da vã sabedoria… É certo que, em se tratando de autonomia, o […]
- [De 'POLÍTICA', por Michel Croz](https://revistasepe.art.br/de-politica-por-michel-croz/): Traduzido por Verônica Loss Poema aos vermelhos todos e todas sabem que sou colorado / do inter de poa e / do vermelho da cuaró / quis ser comunista / (seduzido pelo sangue vermelho militante juvenil / de mina gostosa / como só a ujc ensinava) / de aço e prata / todos e todas se deram conta / do meu sangue ruim / não me deixaram / os comunistas de pobreriu espiritual / bexiga vernacular Vai cair (ou O legado da peste) / cronopoema Primeira pestilência E quando caia, subiremos nas suas ruínas, por ex., por ali na Sarandi […]
- [DE 'O LIVRO', de Cecilia Kemel](https://revistasepe.art.br/de-o-livro-de-cecilia-kemel/): A mulher de 31 A madurez que olha dos meus olhostem a ternura explícitado amor vencido,o que avança das sombras ideaise riscae arriscae sonha assombra os marese ruge. A madurez me enlaçaem seu abraço.Traz no gesto o acalantodeste verso contidoque ora lês. A madureznão tem o tempo que procuromas o tempo precisoque preciso viver. O Processo I Eu denuncioas tardes vazias de amoras noites brancas, de luar suave,anônimas e frias Eu denuncioa saudade atroz que me atormentaem ritmo veloz II Condene-se à prisãoperpétuaeste teimoso, reincidente coração Que, amordaçado,se cale para sempree se esqueça de si III Eu denuncioeu julgoe eu […]
- [DE 'CARTAS DE LIBERDADES', de Marli Silveira](https://revistasepe.art.br/de-cartas-de-liberdades-de-marli-silveira/): Reproduzimos trechos da novela epistolarde Marli Silveira, Cartas de liberdades,pela editora Bestiário, de 2023. Santa Cruz do Sul, 08 de novembro de 2022 Estimado Elephante’48, Nos últimos anos, não saberia dizer desde quando exatamente, tenho me colocado a difícil, penso que impossível tarefa de me relacionar com as pessoas sem o peso dos preconceitos, sem partir de conceitos e definições anteriores. Lendo sem as reticências devidas, tão logo perceberá que é comum lermos ou ouvirmos o que acabei de escrever. Peço sua paciência afetiva, pois realmente tem sido meu exercício humano e, porque não, amoroso, permitir que s pessoas se […]
- [O HARMONIZADOR, por Flavio Dutra](https://revistasepe.art.br/o-harmonizador-por-flavio-dutra/): Companheiro de jornadas pretéritas, Arivaldo é o que se pode chamar de homem rodado profissional e matrimonialmente. A cada evento em que temos disputado salgadinhos e drinques, ele indica pelo menos meia dúzia de seus “melhor ex-chefe” ou me apresenta uma nova “minha ex-esposa”, no caso a dele. É bem verdade que o segmento ex-melhores chefes superam numa margem confortável o das ex-mulheres. – Trata-se de uma questão puramente econômica: ex-chefe não custa nada, já ex-mulher…- explica Arivaldo para a diferença numérica. Mas o traço mais importante, notável mesmo, desse paladino da bem-querença é justamente a harmonia com que se […]
- [UM QUASE ENCONTRO COM MÁRIO QUINTANA, por Eduardo Battaglia Krause](https://revistasepe.art.br/um-quase-encontro-com-mario-quintana-por-eduardo-battaglia-krause/): Casualmente hoje, 05 de maio, quando terminei de escrever esta crônica, descobri que faz 29 anos que Mário Quintana nos deixou. Já se falou tudo dele. Do jeito que ele amava Bruna Lombardi, acho que ela o amava mais, das tiradas pontuais e extemporâneas. De suas manias, enfim. Nem tanto, ele é um espaço temporal de luz, brilho e poesia. Foi lá pelos anos 80/90, vou contar como me lembro, pois é como me lembro que vale. Eu ainda não tinha escrito “A Vaca Nua” (não deixem de ler), mas já havia lido tudo o que ele escrevera até então. […]
- [VOL. 4, Nº. 9/2023](https://revistasepe.art.br/vol-4-no-9-2023/): Navegue pelo sumário da edição.
- [REDEMOINHO, uma newsletter literária - entrevista com Rafael Glória](https://revistasepe.art.br/redemoinho-uma-newsletter-literaria-entrevista-com-rafael-gloria/): Lançada no começo de março de 2023, a newsletter Redemoinho surge para trazer conteúdo noticioso e analítico a respeito da literatura brasileira. O projeto é iniciativa de e elaborado por Rafael Glória, que é também editor-fundador do Nonada Jornalismo. Com o Nonada, foi finalista em 2017 do Prêmio Parceiros da Escrita, da AGES – Associação Gaúcha de Escritores. Ganhou o edital Sesc Convida e o Prêmio Trajetórias da Cidade de Porto Alegre na categoria Livro e Leitura em 2020. Em 2021, foi selecionado para uma mentoria na Fundacion Gabo de Jornalismo. Conversamos com o Rafael nesse edição de Sepé a […]
- [MATÉRIAS DA MEMÓRIA, por Maria da Glória Bordini](https://revistasepe.art.br/materias-da-memoria-por-maria-da-gloria-bordini/): Publicado em 2022 pela Editora da UFGRS, o livro Matérias da memória da Profa. Maria da Glória Bordini é uma compilação de ensaios e artigos que ela publicou e apresentou a partir do trabalho de conservação da documentação e acervo de Érico Veríssimo. No livro de acesso aberto que pode ser lido a seguir, há certamente das mais relevantes discussões e contribuições acerca dos desafios tanto de quem investiga a memória literária amplo senso quanto de quem se preocupa com a conservação e acessibilidade das fontes primárias e bens culturais. Não é por abordar especialmente o acervo de Érico Veríssimo, […]
- [4 sonetos de Thomaz Albornoz Neves](https://revistasepe.art.br/4-sonetos-de-thomaz-albornoz-neves/): Um regente do acaso para Raul Sarasola O encarte da exposição traz o artistaempilhando discos de pedra lisa-gravity meditation não dualista-em três fotografias sem camisa (A pilha suspensa em ésse, o desnível,repele a queda mas captura a ameaçaAproxima o possível do impossívelalinhando o centro de cada massa) Vem do caos o seu olhar polifacéticoRaul se entrega ao piche, ao ferro, à telae, absorto, do escombro tira algo poético Quando plena, a ausência age, rege o acasoA face surge sempre com atrasoÉ o abstrato sumindo que a torna bela Sant’Ana, 19 de junho 2016 Fotos em exibição Há uma série oculta […]
- [3 sonetos de Álvaro Santi](https://revistasepe.art.br/3-sonetos-de-alvaro-santi/): Do livro inédito e em preparo Tons de tudo. Soneto 46 (invernal) No inverno, não conheço quem consigamanter o bom humor na tarde escura.Entre as ruínas da carne ou da utopia,as lágrimas confundem-se com a chuva. As folhas todas já caíram, secas:sobre elas, nosso ânimo rasteja.A noite é longa; a luz, escassa; o solnão chega a confortar; os dedos doem, enrijecidos pelo frio atroz.Também a consciência dói um pouco,por não poder mudar o seu entorno. Limitam-se a oferecer – os que podem– um agasalho ou prato de comidapara adiar a morte dos que não têm vida. (Inverno 2022 – 2/2/2023) […]
- [3 haicais de José Eduardo Degrazia traduzidos por Shogoro Nomura](https://revistasepe.art.br/3-haicais-de-jose-eduardo-degrazia-traduzidos-por-shogoro-nomura/): A terra engravidacom a chuva de verão –vai molhar o campo A flor luminosano meio do meu caminho –mas é pleno outono Parada no tempoa moça transforma-seem fotografia José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Publicou dezenas de artigos e crônicas em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem males, Os leões selvagens de Tanganica e e Deus não protege os certinhos. Traduziu livros de Pablo Neruda, […]
- [2 poemas de Heberto Padilla traduzidos por Dilan Camargo](https://revistasepe.art.br/2-poemas-de-heberto-padilla-traduzidos-por-dilan-camargo/): “A censura é tão antiga e onipresente como a própria escrita”George Steiner Heberto Padilla foi poeta e jornalista cubano, nascido em Puerta del Golpe, Pinar del Río em 20 de janeiro de 1932 e falecido no estado do Alabama, Estados Unidos em 2000.. Em 1968, o seu livro de poesias “Fuera de del Juego” venceu o Prêmio “Julián del Casal” da União Nacional dos Escritores e Artistas de Cuba. Os jurados sofreram pressões e intimidações das autoridades e da UNEAC para que o livro não fosse premiado. Os jurados mantiveram os seus votos e o livro foi premiado por unanimidade. Compunham o júri: J.M.Cohen, César Calvo, […]
- [A REVOLUÇÃO DE 1923 NO OLHAR DE CYRO MARTINS, por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/a-revolucao-de-1923-no-olhar-de-cyro-martins-por-lucio-carvalho/): Imagine-se um mundo sem redes sociais, sem internet, sem televisão, sem rádio ou jornais. Este é o mundo de Sombras na Correnteza, romance histórico que Cyro Martins publicou aos 71 anos de idade, em 1979, e que tem como pano de fundo a centenária Revolução de 1923. Talvez o mais certo fosse dizer que se trata do olhar de Bilo Martins, o pai do próprio Cyro que é homenageado no romance e é também o personagem que testemunha o desenrolar daqueles dias remotos detrás do balcão de um comércio rural (um bolicho, na linguagem campeira). Mas o mais certo mesmo […]
- [Cyro Martins](https://revistasepe.art.br/cyro-martins/)
- [A ARAUCÁRIA E A GRALHA AZUL: UMA HISTÓRIA DOS ANTIGOS KAINGANG](https://revistasepe.art.br/a-araucaria-e-a-gralha-azul-uma-historia-dos-antigos-kaingang/): Lançado na Feira do Livro de 2022, A araucária e a gralha azul: uma história dos antigos Kaingang está agora livre para download nos sites da editora Libretos e da editora da Fundação Ministério Público. O livro é uma edição bilingue (kaingang e português) e conta a cosmogonia Kaingang. Num de seus principais mitos, em torno de uma fogueria é contada a sutil relação e dependência entre os seres e a importância dos vínculos comunitários. O livro infantil é transcrição da narrativa oral contada pelo Cacique Mauricio Vên Tánh Salvador e tem texto vertido para o português por Ana Fonseca. […]
- [A FRUTA DENTRO DA CASCA: O NARRADOR E A OBLIQUIDADE, por Cátia Simon](https://revistasepe.art.br/a-fruta-dentro-da-casa-o-narrador-e-a-obliquidade-por-catia-simon/): O texto integra o livro “Labirintos da realidade:diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis”. Encontramos no Dicionário Aurélio a seguinte definição para obliquidade: ”[Do lat. obliquitate. ] S.f. 1. Posição do que é oblíquo. 3. Inclinação em direção oblíqua. 4. Tergiversação, evasiva, rodeio. (…) Adj. 1. Não perpendicular; inclinado; de través. 2. Torto; vesgo. 3. Fig. Indireto. 4. Malicioso; dissimulado, ardiloso; sinuoso: conduta oblíqua; atitudes oblíquas” (FERREIRA: 1986, p. 1208-9). Machado de Assis, através do seu narrador-personagem, Bento Santiago, cria a frase que se tornaria emblemática na caracterização de Capitu – “oblíqua e dissimulada”. Segundo Helder Macedo, “E se for […]
- [PÓS-ESCRITO A DANTE MILANO, por Thomaz Albornoz Neves](https://revistasepe.art.br/pos-escrito-a-dante-milano-por-thomaz-albornoz-neves/): O capítulo aqui disponibilizado para leitura abre o livro “Pós-escrito a Dante Milano & uma biografia construtivista”, publicado pela TAN Editorial em 2022. Thomaz Albornoz Neves é poeta, tradutor e editor na TAN editorial.
- [4 poemas de 'NARCISO SELVAGEM', por Narlan Matos](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-narciso-selvagem-por-narlan-matos/): Os poemas selecionados integram o livro Narciso Selvagem,publicado em 2022 pela editora Penalux. ode ao meu país para Yannik meu país nasce de repente assimdo verde sumo de meu jardim das plantas deitadas na terra escura fecundada pela chuva em mimnasce de repente como sua bandeiracheia de romances e ternuras − trigueirapor cima de tratados geográficos por cima de países paralelosniilista e doce como um marmelo sinto tanta falta de meu país onde não há nada mais belo!aqui não cantam juritis e sabiás estou no Hemisfério Norte muito perto da aurora boreal muito perto do farol da Nova Escócia mesmo tudo sendo manhãnesta clara manhã da Virgíniahá uma noite pousada […]
- [De 'OS AUTOMÓVEIS ARDEM EM CHAMAS', de Marcel Novaes](https://revistasepe.art.br/de-os-automoveis-ardem-em-chamas-de-marcel-novaes/): Leia a seguir o segundo capítulode Os automóveis ardem em chamas,publicação da Editora Penalux. Caminhavam em grupo, se esbarrando e trocando de lugar conforme falavam. Além de Mauro e Carla, estavam Eulália, Epitácio, Juvenal e Walter. Esses eram os seis inseparáveis. Todos de calças Lee e cabelos compridos, com exceção de Walter. Até Mauro deixara o cabelo crescer um pouco. Epitácio e Walter polemizavam a respeito da invasão da Tchecoslováquia, ocorrida em agosto. — Cara, a União Soviética não está com nada — dizia Walter, com voz mansa e buscando convencer o amigo. — Aquilo lá é uma ditadura, tão […]
- [CONTOS DE RAZÃO E ABSURDO, por Marcia Ivana de Lima e Silva](https://revistasepe.art.br/contos-de-razao-e-absurdo-por-marcia-ivana-de-lima-e-silva/): Leia a seguir um dos contospresentes no livro, Quarto 5. Em A Casa de Estudantes, Magali Lippert nos brinda com contos que montam um quadro dos moradores da casa de estudantes da Universidade Federal em Porto Alegre, mas que podem representar o cotidiano de qualquer casa de estudantes. As histórias são contadas tanto por um narrador onisciente, quanto pelos próprios habitantes em primeira pessoa, perfazendo o período de março de 1992 a dezembro de 2018. Partindo da experiência de moradora, Magali apresenta 29 contos, organizados em 29 quartos, cujas temáticas giram em torno das experiências da faixa etária universitária: relacionamentos […]
- [UM OBITUÁRIO SENTIMENTAL: Javier Marías (1951–2022), por Aguinaldo M. Severino](https://revistasepe.art.br/um-obituario-sentimental-javier-marias-1951-2022-por-aguinaldo-m-severino/): Javier Marías e eu quase nos encontramos por acaso um dia. Eu o reconheci pois havia sido apresentado a seus livros por uma pessoa que o conhecia muito bem, e desde o momento que essa pessoa, Cristina, me apresentou a ele, senti-me completamente enfeitiçado por sua prosa e passei a ler compulsivamente todos os livros dele que pude comprar ou alcançar. Nas três ou quatro semanas que antecederam sua morte, já tendo notícia de sua internação por conta de problemas respiratórios e por saber que ele era fumante há mais de cinquenta anos, fiquei um bocado deprimido, relendo seus livros […]
- [2 poemas de Attila Bálazs traduzidos por José Eduardo Degrazia](https://revistasepe.art.br/2-poemas-de-attila-balazs-traduzidos-por-jose-eduardo-degrazia/): O AMOR DO POETA Contigo faço o que a primavera fazcom a cerejeira –diz o poeta –frutas do matoavelãs e beijos colho para tia moça não diz nadasorri e olhacom olhar lânguido e ambíguocom admiração e nostalgiaapenas isso: olha e sorriuma mãe ou uma irmãfeito uma puta ou como uma aeromoçaigual àquela sob o qual a terra se moveaquela em que se muda alguma coisae amanhã ou depois de amanhãe ontem e anteontemna cama de outro se deitaentediada e com vergonhafeita em pedaços pela tempestadeum ramo de cerejeira branca VAMOR TOMAR CHÁ, DARLING? cores de azul entre os edifíciosa janela […]
- [De 'MATÉRIA DO SOPRO', por Ezra Pereira](https://revistasepe.art.br/de-materia-do-sopro-por-ezra-pereira/): O poema selecionado integra o livro Matéria do Sopro,publicação de 2022 da editora Urutau. À pátria do espírito hei de ir um diaantes das Parcas silenciaremaquele que delas se ria. Dos Antigos verei o que ainda restae ao poente entre colunasserei luto e serei festa. Ezra Pereira nasceu e cresceu em Lisboa nos anos 80 do século XX. Aos 18 anos começou sua errância pela Terra, passando por Londres, Paris, Buenos Aires e outras cidades. Vive atualmente em São Paulo e é estudioso de filosofia, línguas e poesia. Leituras e comentários seus podem ser encontrados no canal do YouTube Parerga.
- [LUZ DOS MONSTROS, por Paulo Scott](https://revistasepe.art.br/luz-dos-monstros-por-paulo-scott/): O novo livro de poesia de Paulo Scott, Luz dos monstros, é de livre acesso no site da Editora Aboio. Dentro do projetoAboio Acessível, autor e editores liberam para uso privadoo livro na internet a partir do terceiro mês de publicação.No link ao final da publicação, pode-se adquiriruma versão impressa do livro. Paulo Scott é autor de cinco romances – entre eles Marrom e Amarelo e Habitante irreal –, um livro de contos, sete de poesia e o romance gráfico Meu mundo versus Marta, em parceria com Rafael Sica. Recebeu os prêmios Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, APCA […]
- [De 'DESVARIOS ENTRE QUATRO PAREDES', por Cassionei Niches Petry](https://revistasepe.art.br/de-desvairios-entre-quatro-paredes-por-cassionei-niches-petry/): Primeiro capítulo do romance Desvarios entre quatro paredes, de Cassionei Niches Petry, Editora Bestiário. 04/04 já vivo em confinamento atrás das paredes da minha biblioteca há muito tempo, nesse trabalho de escritor de quinta categoria que vende histórias para quem não sabe escrever histórias e quer publicar seu livro para ser vendido para os amigos e parentes, em noites de autógrafos com direito a foto na coluna social no jornal, nada de página de cultura, ou para aqueles que querem vender em e-book, com capas apelativas, homens sem camisa, mulher atrás abraçando o cara, ou então autobiografias, ou biografias mesmo, […]
- [DE 'IBERÊ CAMARGO: UM HOMEM VALENTE', por Nilma Lacerda](https://revistasepe.art.br/de-ibere-camargo-um-homem-valente-por-nilma-lacerda/): Lançado em 2022, “Iberê Camargo: um homem valente”, de Nilma Lacerda,parte das telas mais marcantes e também dos textos memorialísticose ficcionais deixados por Iberê para recriar a sua trajetória.É o primeiro volume da coleção Tipos Raros, projeto da Editora Mínimo Múltiploe traz prefácio de Adriana Calcanhotto, texto de orelha de Silviano Santiago,apêndice de Lucas Colombo, pintura da capa feita por Theo Felizzolasobre fotos de Luiz Eduardo Achutti Voltei à minha Restinga depois de uma longa ausência, fui visitar o Buraco Fundo. Estava mais fundo, mais desolado. Saí dali, fui a Santa Maria. Outro buraco me esperava por lá. A Escola […]
- [De 'NADA QUE SE ASSEMELHE A QUALQUER ANIMAL VIVO', por Gabriela Porto Alegre](https://revistasepe.art.br/de-nada-que-se-assemelhe-a-qualquer-animal-vivo-por-gabriela-porto-alegre/): De “Nada que se assemelhe a qualquer animal vivo”,lançamento de Gabriela Porto Alegre pela editora Urutau,publicamos o poema “te dizer adeus é descer semfreio uma serra em pleno temporal”e o texto de orelha da poeta Juliana Blasina. O que permanece na certeza de que tudo convalesce? Juliana Blasina Em seu livro de estreia, Gabriela Porto Alegre nos diz que é preciso fazer com as palavras um pacto de sujidade. Regida por esse pacto, a poeta reorganiza órgãos e verbos, células e sujeitos, sílabas e organelas nas mais inusitadas composições até acessar as memórias escritas no avesso das carnes ou na escuridão dos ossários do […]
- [UM TALO DE AGRIÃO SELVAGEM, por João B. Cabral](https://revistasepe.art.br/um-talo-de-agriao-selvagem-por-joao-b-cabral/): Os tubos vencidos de oxigênio não servem para nada, são apenas lixo, é o que ele me dizia depois de tossir um pouco enquanto pedalávamos pela periferia da cidade em busca do agrião. A paisagem aqui há muito não assusta ninguém e expedições ao agrião selvagem são cada vez mais comuns. O agrião, ainda poucos sabem disso, é o melhor remédio para a congestão pulmonar e os hospitais já não têm apartamentos disponíveis para acomodar a mais ninguém. “Ali”, ele fez com que eu virasse os olhos na direção do sol poente, apontando os antigos canais de esgoto. “Ali temos […]
- [A BIBLIOTECA SUBMERSA por Nei Duclós](https://revistasepe.art.br/a-biblioteca-submersa-por-nei-duclos/): O conto integra o inédito impressoMágico deserto: contos fora de forma. Quando todos se mandaram, aí pela grande crise do Plano Cruzado nos anos 1980, Sinistrus Joe permaneceu na ponta de uma praia oculta em Florianópolis. Vive só, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir arqueológico. Ninguém dá bola para ele. É a maldição dessa geração, ser esquecida em vida. Ser enterrada cheia de coisas para dizer. Vendo todos se locupletarem na festa sem fim. Quando as contradições engarrafam na saída para a longa avenida dos textos, costumo pedir ajuda para o Sábio do Puxadinho na Pedra. Encontrei-o […]
- [CORDEIRO MÍSTICO, por Rosario Lázaro Igoa](https://revistasepe.art.br/cordeiro-mistico-por-rosario-lazaro-igoa/): Tradução de Paulo Damin. Sua única visita coincidiu com a lua cheia. Me lembro de procurá-lo com os olhos pelo campo inundado de branco, de tentar identificar sem êxito seu corpo maciço entre os eucaliptos e as touceiras de rabo-de-raposa. Em certo momento da noite, da janela alta, cheguei a distingui-lo cruzando o alambrado devagar, como se não estivesse fugindo de si mesmo, e o vi enfiar-se na área do mato nativo, perto das vacas e das ovelhas que dormiam por lá, agrupadas e em paz. A luz tênue da lua dava um tom de irrealidade ao que estava acontecendo, […]
- [A HISTÓRIA DO DESMAIO, por Wellington Amancio da Silva](https://revistasepe.art.br/a-historia-do-desmaio-por-wellington-amancio-da-silva/): Este escrito tem como base o que vi e ouvi, nos dois anos e poucos meses de convivência com o professor Raul Ornelo de Oliveira Neto. As fontes são seus textos e a memória de suas falas. Quanto aos primeiros, esta narrativa se consolidou no que li e entendi (sua letra era terrivelmente desleixada) e de parte de suas conversas que me lembro (se é mesmo que lembrança é história), o que pode levantar alguma suspeita a certos leitores. Se de fato alguma coisa realizei, oferto aqui, para que a vida do nosso personagem seja lembrada por esta nossa geração […]
- [5 poemas de 'MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA', por Armando Severo](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-manual-de-sobrevivencia-por-armando-severo/): Os poemas integram o livro Manual de Sobrevivência,publicado pela editora Bestiário em 2022. VIDE BULA Ele contava os dias conforme prescrição médica. Media em comprimidos o tempo e não olhava mais pela janela.No fundo sabia que, sendo sol ou chuva, mais tarde isso não importaria.Contava os dias sem os ter vivido. NA FOLHINHA Entristeço na medida em que perceboque quase nunca é Natal, no Natal. ATO CONTÍNUO A cada queda eu junto o que sobra,a cada sobrevida eu me preparo paraa nova queda. Essa teimosia, essapersistência, essa cirandamolda um novo eu. A cada queda,um recomeço. Um resgate dos pedaçosque me […]
- [5 poemas de Francis Kurkiecicz](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-francis-kurkiecicz/): Viver de sonhos e utopiasViver amanhãO que hoje nos faltaViver a fúria do desejoNa serenidade da esperança. Eu sou a promessa que nunca se cumpreO deus sem céuO rei sem reinoO homem sem destino;Eu sou a Jerusalém sonhadaAbandonada em favor de utopiasEu sou a promessa encarnadaMas quem me deseja real? Eu sou eu e meus poemasmeus sonhos, meus pesadelosEu sou eu e minha sombrameus enganos, meus desviosEu sou eu e meus desejosmeus apegos, desilusõesEu sou eu e minhas leiturasminhas conjecturas, meus segredosEu sou eu e minhas desconfiançasmeus espantos, meus paradoxosEu sou eu e mais vocêmais o mundo, mais o cosmosEu […]
- [5 poemas de Sammis Reachers](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-sammis-reachers-2/): Discipulado Incapazes de desvendá-lo,o tomamos como fruição:e é sempre o mar que nos desvenda. Lantejoula A menina, ainda em seus quatorze anos,anotava o nome dos que não a notavam.Nem era ninguém, mocinha ainda,e já tecia galáxias em seu coração de fiandeira. Pêssego Tua penugem, teu esse tal descalabroDe deitar urticária nas sanhasTeus pelos friccionando-se contraOs papilos das línguas…Ah! Mamilo rubicundo, cona aurirrubra,Sonho fibroso encapandoUm coração ou cerebelo de ferro Langor umidificadoQue presto escorre, raio de sumoAo ver-se contrito, entre dentesRealizado Oásis de olor, fruta de cheiroDe apaixonar um mundo inteiro Caqui Pomo de outonoDulçor em revoluçãoFruto proibido do mandarimPelo mundo […]
- [5 poemas de Gonzalo Dávila Bolliger](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-gonzalo-bolliger/): Jenny segurou a minha mão,Ela me levou através da tempestade.“Para onde estamos indo?” – perguntei –E uma voz (que eu nunca tinha ouvido) sussurrou:“Para dentro para dentro para dentroOnde os pássaros não cantamE um mar invisível reverbera.” Não havia como não segui-la,Não havia como não amar aquela imensa solidão.E sem que percebêssemos caímos em um poçoSinistro e perverso como a ausência de um sorriso.Nos primórdios do tempo pousamos nossa dor,No fundo daquele poço onde os fantasmas borbulhavamFizemos nosso casulo de onde jamais poderíamos sair… Rostos desconhecidos nesse absurdo debruçaram seus anseios,Eles profetizaram pesadelos há muito esquecidos.“Éramos prisioneiros, Jenny? TínhamosAlgum meio de fugir […]
- [4 poemas de Augusto Quenard](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-augusto-quenard/): Aos pedreiros Fazer um poema que nem o pedreiro,assim, vai e bota mais uma palavra,não, duas, e meia, que é mais certeiro,vai que abra essa tábua, e o nosso celeironão fique de pé, que eu já tô calejado,e é, bem amarrado, depois que isso seca,cimento com ferro, dá um nó que… não é?A gente não peca, é só reforçar,o cara fazendo uma coisa furrecadepois se arrepende, mas ê! Já vi tudo,não é que esses dias na dona Malenaum cara que entende, diz ele, não sei,e o cara me pega uma frase sem rima,não tinha poesia, nem alegoria,quem dera uma estrofe! […]
- [3 poemas de Helena Lukianski](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-helena-lukianski/): Dois mil e um A última vez que te vifaz quase vinte anosda roupa não me esquecie nem dos teus planos A odisseia longe da famíliaque por acasotambém é minha O carnaval com os amigos quete impediriam, tenho certezate mantendo viva Não estavaentre elesa armao tempo todote observando. 1 de setembro de 2020 2020 A Rosa de Hiroshimao fim da carnificinanovas formas de rotinao vírus e a chacina A máquina de lavaro som da televisãoo anjo em cima do altarsozinho olhando o luar Um quarto de hora Esqueço o teu nomeo meu nomeos compromissostodos latejamesperando uma resposta O ressentimentosempre à […]
- [5 poemas de Dani Espíndola](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-dani-espindola/): DE DENTRO PRA FORA É de dentro pra fora que começoa esfregaro limo crescidoaderidoreprimido inspiro pântanos inteirosexpiro prantose um lamento derradeiro derramo lamasmenstruo lágrimase a dor não purifica nadase queres saber a dor não purifica nadano meu sofrer. ENFIM o ano finda, amore apenas o mesmo torporem mimvinga um eterno sentimentode promessae tropeçoouço longe um alvoroçouma festaque nunca é minha o ano finda, amore eu nunca chegoa tempoa nadarumo a que faroleu remo? o que tanto temoé a páginanunca virada. DE LONGE Escrevo de longe… escrevo de um ontem mais antigopor isso meu corpo é memória lácteapor isso as palavras […]
- [5 poemas de Gustavo Lamounier](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-gustavo-lamounier/): O vento toca seu rosto —definha sob a janela.Tocar-lhe-ia o coração,carne feita vela? Da flor de sua mão, já se foramos rastos do jasmim.De seu corpo, o sol roubara o calor;no vestido, deixara o carmim. No ocaso,ela é pálida e imóvel.A luz esquálida,por acaso,não lhe ilumina o corpo.Flor de mil tons,seus olhos permanecem foscos. No fim do dia,nenhuma melodia pode captarsua canção de rosas.A cor é silenciosa;o reflexo, um mero brilho. Na geografia de teu rosto,marcas tão indeléveis:vales, colinas, ribanceiras… Tantas coisas, tantas tristezasque nunca alguém descobriu…Tantas raízes no teu silêncio. Tantas coisas, jamais ditas —na geografia antiga de teu […]
- [GIL, por Lúcia Nogueira Leiria](https://revistasepe.art.br/gil-por-lucia-nogueira-leiria/): Não me acho uma pessoa curiosa, daquelas que se envolvem com qualquer fato que não lhes diga respeito, sou muito autocentrado, mas, outro dia, saí para passear com o cachorro e vi no chão, perto de uma lixeira de rua, um envelope subscritado que parecia ter algo dentro. Fiquei intrigado, mas disse para mim mesmo, bobagem, hoje em dia ninguém mais escreve cartas. Caminhamos dois ou três passos, e não me contive. Voltei, juntei o envelope. Sim, havia uma carta dentro, escrita com uma fina letra. Comecei a ler e não consegui desgrudar os olhos dela. Se quisesse, poderia contar o […]
- [O QUE VALE É A INTENÇÃO, por Jorge Rein](https://revistasepe.art.br/o-que-vale-e-a-intencao-por-jorge-rein/): Este conto faz parte do livro “De fogos-fátuos e de águas-furtadas”, atualmente em processo de edição. De qualquer forma, isso pouco interessa. Independentemente de teoria ou versão, o fato incontestável é que Thor desde logo conheceu os efeitos do espírito no corpo, entendendo o espírito na líquida acepção. Tão cedo que o seu metabolismo assimilou tal condição com a naturalidade com que são aceitos normalmente, pelo ingênuo organismo dos infantes, o cálcio, a vitamina C efervescente, o leite de magnésia ou o óleo de fígado de bacalhau, que é bem pior. Os sábios conselheiros, que eram outros na época, porque […]
- [HISTÓRIAS TIPO GARDEN, por Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/historias-tipo-garden-por-miguel-da-costa-franco/): Todos os sinais são de que a obra está terminando e, em breve, o novo edifício fronteiro a minha sacada será o lar desejado e protegido de muitas famílias bem postas na vida. Até agora foram elogiáveis os cuidados com a proteção dos trabalhadores na construção do Village Garden, mas hoje, no oitavo andar, um pintor perigosamente debruçado sobre o frágil parapeito da mureta de vidro dá retoques na pintura do beiral, mostrando com seu desleixo quanto à segurança a urgência da encomenda que recebeu do seu mestre. Se a engenheira o visse, moeria seus ovos no misturador de argamassa. […]
- [BRINCADEIRA DE CRIANÇA, por Maximiliano da Rosa](https://revistasepe.art.br/brincadeira-de-crianca-por-maximiliano-da-rosa/): O desafio veio rápido: num instante eu estava quieto no meu canto, assistindo a um desenho animado idiota na tevê. No seguinte, me encontrava diante do meu quase melhor amigo, me esforçando para não parecer apenas um menino. Mandei-o procurar outro para encher o saco. No entanto, ele não me ouviu e ainda falou que eu estava era com medo. Tentei me defender dizendo que não tinha medo de nada. Claro que era mentira, mas fiz como meu pai tinha me ensinado. A mentira tem perna curta, ainda que seja algo necessário, o importante é mostrar na mesma hora que […]
- [SOBRE O ÚLTIMO ANIVERSÁRIO DE ÂNGELA, por Anaí Bueno](https://revistasepe.art.br/sobre-o-ultimo-aniversario-de-angela-por-anai-bueno/): A lasca de sardinha caiu sobre o telhado. Por pouco não atingiu Ângela. Justo no dia do seu aniversário. Estilhaçou os andares da casa, desfaleceu no meio da sala. A prima mais nova, Carola, quatorze anos recém-completos e com o apetite de um batalhão, engolia a pizza caseira quase sem mastigar. Sentada na cadeira, instalada ao lado da casa de Ângela, a adolescente engoliu mais um pedaço, deixando escorregar o pescado pelo canto da boca. A mãe de Carola, num lance de xadrez, puxou-a pelo braço, Olha o que você fez, meu anjo. A mãe de Ângela largou o bolo […]
- [De 'EMOVERE', de Celso Rodrigues](https://revistasepe.art.br/de-emovere-de-celso-rodrigues/): Os poemas integram o livro Emovere, publicação de 2022 da editora Dialogar. DEPOIS DO FUTURO ainda não sei bemcomo funcionaessa tal realidadepois sigo provisóriouma angústia no lado esquerdouma vontade do passadode estilhaçar a vidraçadiante de todos os presentes me disseram que tudo é possívelpelas mãos da tecnologiainventar o homem, vencer a mortemas me advertiramque morrer de fome é inevitávelna distopia da modernidade anunciam o grande demiurgovirá o inevitável progressoe com ele farelos e sucrilhospara alimentar os filhosmas os somente nascidosdepois do futuro FOME Assim em fragmentosnão entendo esse Estado de Direitojá posso morrer no limite da leiencontrar a dignidade da […]
- [De 'PRIMITIVOS', de Pedro Strack](https://revistasepe.art.br/de-primitivos-de-pedro-strack/): Os poemas integram o livro Primitivos, publicação de 2022 da editora Dialogar. CARMA DE DISPAROS Percorrendo entre livrosEm busca das primaveras O povo, em seu pleno florescer,Exprimiu-se nas mais rubras das ideias Quantos mais discípulos de TolstoiDevemos cultivar em nossos laresAté que as paredes já não ouçam tiros? Insistentes na potência das armasImprimimos a sangue tão frágil carma Embriagados pela brutalidadeQue arde em nossas veias VIDA CÍVICA Tão doce essa harmoniaQue me nutriu a consciênciaNa paz que veio à minha alma Quando encontrei o verde da gramaPara me dispersar deste tom de cinzaQue sobe ao sangue quando respiroNas calçadas das […]
- [INVISÍVEL, por Danilo Giroldo](https://revistasepe.art.br/invisivel-por-danilo-giroldo/): O conto integra o livro Contos de morte,de Danilo Giroldo. Publicação de 2022 da editora Patuá. Ouço o despertador do celular muito ao longe e lentamente vou retomando a consciência. Essa é uma daquelas manhãs que acordo sem saber ao certo onde estou, como fui dormir e o que eu tenho na agenda. O quarto ainda está escuro, bato a mão na tela e o alarme para de soar enquanto escuto o telefone cair atrás da mesa de cabeceira. O mau humor já me ataca, viro para o lado e me aconchego no edredom lembrando que hoje é terça-feira, me […]
- [De 'MIL PLACEBOS', por Matheus Borges](https://revistasepe.art.br/de-mil-placebos-por-matheus-borges/): Trecho de Mil placebos,publicação da Uboro Livros. Minha mãe, ao perceber que eu a observava, virou-se para mim, tentando não manifestar o que sentia, mas eu era capaz de perceber. Estava assustada, comovida, surpresa. Ao mesmo tempo, desejava que eu me sentisse seguro, do mesmo jeito que almejava solidez em meio às recentes tempestades que acometiam nossa família. Ela pegou minha mão e me disse: “Isso que você tem, isso que você está sentindo. Não tem nada de errado com isso. É algo difícil de lidar e talvez você até se sinta diferente dos outros. Diferente, sim. Mas não errado”. Acenei […]
- [1 poema de Iolly Aires](https://revistasepe.art.br/1-poema-de-iolly-aires/): quantas marias promessasmas ao fundoum gritoouvidos feitos daquele gritoum afagotransforma-se emum tapapescoço feito de mãosque sufocamburaco negro na órbitaolhos sem faceolhos e ouvidos que vigiam por dentroo que faz um animalpermanentementeameaçadodispara golpes no arno nadanuma tentativa de defesaaté entrar em estadoletárgicoporque é o alvo da violênciao corpo repeleprojeta-se para foraem suspensãoencontraum local onde não o podem atingirnão mais lágrimasnão mais tremorem sua vozaté as lágrimas nos abandonamestranhamente calmodizem que a besta fareja o medoisso a faz avançarmas se a olharmos fixamenteela recuaolhe-a nos olhos entãovejao quanto éinsignificante. Iolly Aires, Planaltina-DF. Estudante de Letras e revisora de textos. Possui poemas e […]
- [5 poemas de Carlos Castelo](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-carlos-castelo/): CARTA A UM AMIGO MORTO Curti a cartaEscrever à mão é saudávelCoisa plásticaAplaudi a sua cançãoEscrita livreToques fanopáicosBonitoConcordo: o sol sapeca quem escolhe o caminho “off road” da vidaJá estou ficando bronzeado, sem dúvidaVocê tem razão quando diz que não dou valor ao meu trabalhoNão dou mesmoMais importante é fazerNão quero estar na trilha da novelaNão quero tocar na FMNão quero fazer música — no sentido tradicional de músicaQueria ser lido-vistoMas, por enquanto, sou um exegeta sem obraUm chatoDeus é paciênciaSim, tem gente nova no pedaçoEstamos juntos há mais de anoMenina-boa-cabeçaVou ler a história do Chico e depois comentoEstive com […]
- [5 poemas de Everton Cidade](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-everton-cidade/): TIPO Estrela guiaDe galhosGuirlandasNossos joelhosDobramSinos badalamA performance do asnoNos supera.Espera!Eis as demandas. PAUL NEWMAN Era tudo inocente.Até chegar a gente.Para destruir os nomesE tomar a frenteDas feiras e das festas.O rosto sombrioAparou as arestasSem soltar pioEle soma o dramaE some entre dronesAfiando fios de fomePara morder o amareloAté que fique vermelhoE sacie sua gargantaDe zelo e conselhos. XANADÚ Arvore óticaAlma da mesma almaProcesso fractalPara o indeciso calmaPara o carismáticoPé atrás práticoPreâmbulo sonâmbuloO fogo da vidaComo ciúme frugalTorpe miúdo multiplicaEm peito e ficaAté desvanecer sonrisal. CÃS Bater cabeçaSubir o paraísoEmbriagadoPregando peçaNa linguagemDa vertigemDe pai e mãeBanho do bemFoiSe quiseraSem cascaPara ser […]
- [5 poemas de Daniel Ricardo Barbosa](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-daniel-ricardo-barbosa-2/): Refletir quebrada remendadanão era a mesmapeça com tanto sulcoderramava os chásnão servia ao caféderrubava a esperançad’equilíbrio à mesa quebrava galho como escoro calçouma seta noutra direçãoquando achou a funçãooutra vez veio a quedamuito mais fragmentos tornou-se quase quebra-cabeçafoi usada tanta colapraticamente perdeu a formaoutros contornosnovos desenhosmero peso de papel posso me deitar agorao trabalho refeitobateu o cansaçovenho quebradotodo fragmentadoespelho. Mudas Ergueu-se o pinheiroduas copas de ramastantas folhas sementesquantos galhos mudas Ergueram-se os braçosaleatórios pensamentosVistas que mal enxergamSentidos que mal percebemnotando de tudo um louco Com qual expressão desmedidaencararei a terra agorao erro escrito em cada célularetido em toda gota de […]
- [3 poemas de Ines Lempek](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-ines-lempek-2/): Vidas beira-marcurvalimiarfronteiraentre mundosa ultrapassaro mar lambea areiasolta espumase espalhase contraimicroscópicasvidasse recolhema mergulharem espiraismistériosfractaisaté explodir emgigantescaonda. Viagem viajantessem sabero ponto finalsem conhecertodo o caminhoseguimos setasumadeterminaçãobrechasno percursoumabússola cravadano meiodo peitouma estradainventadao focono infinito. Pancadas esparsas pancadasde chuvatempo aforanome ambíguotempo adentropancadasde vidaesparsos eventosnunca se sabequando vemquando vãonão se esperanem de ondenem de quem. Ines Lempek é natural de Porto Alegre, morou em São Paulo e Brasilia. Estudou Psicologia na UFRGS, e especialização em Psicanálise e Cultura na UnB. Participou de oficinas de escrita criativa, publicou em antologias, revistas literárias e blogs, com poemas, haicais e historias curtas. Lançou em 2019 o 1° livro solo […]
- [5 poemas de Lilian Rocha](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-lilian-rocha/): CORPO FECHADO Na cabeçaA marcaAncestralDe um povoNo peitoAs cicatrizesDas humilhações sofridasNas mãosAs rugasDa sabedoriaDa lutaDa resistênciaNo ventreA fertilidadeO amor à terraNos pésA base da vidaO apoioA certezaDo pertencimentoMesmo que muitas vezesA PátriaNão seja gentilTeu corpo fechadoReverbera gerações. PIÃO Na giraDos MundosGirasteFeito piãoSem direçãoDeslizaste pelo chãoA procura de um caminhoUma fenda, um buracoQualquer lugarDe pertencimentoPorémSó achasteO rodopio frenéticoRápido e fugasPerdeste a forçaTombaste em vidaMorte anunciadaNo final do dia. ESPERANÇAR Na mãoEle tinha um livroFoi detidoA arma não era letalEra muniçãoDe palavrasSabedoria em conta-gotasFoi humilhadoSeu único gestoFoi acariciar a capaO título em negrito:Esperançar é preciso! MARTÍRIO Navego em maresRasos de sentimentosMergulho em […]
- [DE 'UM NAVIO NA COXILHA', DE LUÍS DILL](https://revistasepe.art.br/de-um-navio-na-coxilha-de-luis-dill/): Reprodução do capítulo 1de Um Navio na Coxilha, mais recente romance de Luís Dill. Meu pai morreu duas vezes. Primeiro no rio Amazonas, depois aqui, em Forquilha Seca. Por coincidência, suas mortes ocorreram no mesmo dia, um 24 de agosto. Em 1932, ele se finou a bordo do Jaguaribe; em 1954, quando desembarcou do navio. Ele se chamava Edino Saraíba, tinha baixa estatura e dentes muito brancos. A testa larga desencorajava a impressão de possuir a cabeça esférica. Já as orelhas de abano reduziam o raivoso do seu olhar. Conforme mamãe, nas poucas horas em que estiveram casados, meu pai […]
- [A MULHERZINHA, por Adriana Bandeira](https://revistasepe.art.br/a-mulherzinha-por-adriana-bandeira/): A mulherzinha espia. De olho, no canto da casa. Se não lavo, não cozinho, não passo, ela fala. E eu nunca passo, sem parar! A mulherzinha faz fofoca, em pensamento, me dá rasteira, envenena minha benzedeira. Ela é dura comigo, por dentro. Desconfia de mim se fumo, se bebo. E se não, desconfia que não sei estar no mundo. Ela espia meu sexo e comenta minha performance: putinha, fingida, submissa, dominatriz. São tantos nomes que ela diz! Gorda, comilona, magra!!! Mas louca, ah! Louca me faz louca sempre! A mulherzinha sabe das coisas! Quando amo e entram em mim, a […]
- [A PALAVRA, por Guilherme Azambuja Castro](https://revistasepe.art.br/a-palavra-por-guilherme-azambuja-castro/): A Acabara o expediente e eu ia caminhando com a minha câmera fotográfica. Vi uma casa abandonada e achei estranhíssimo, qualquer empreiteira daria uma fortuna por ela. Bem, ali havia uma, e um casal de cisnes no pátio de cimento. Eram estátuas. O cisne maior, em algum momento da sua vida de pedra, erguia um pescoço orgulhoso. Agora ele estava quebrado e por isso olhava nos olhos do outro. Um filho, um amante? Atrás das grades – era um abandono protegido – enquadrei a fratura e o amor. Não eram seis da tarde, havia luz e a calma do bairro […]
- [O PESADELO, por Salvador Baladan](https://revistasepe.art.br/o-pesadelo-por-salvador-baladan/): Era noite, tarde, deitei, fui dormir, quando estava quase pegando no sono meu filho bateu na minha porta – Deixa dormir com você essa noite – pediu – estou assustado, tá ventando muito na rua – afirmou. – Tá bom, vem cá então – respondi Ele subiu na cama, me deu um beijo, agradeceu. Abracei-o, dei um beijo na testa, estiquei o cobertor e dormi. Sonhei, tive um sonho muito esquisito, se eu não o visse desde o ângulo do humor, diria que foi um pesadelo. Estava eu fazendo um churrasco, a família reunida, – a carne está pronta – […]
- [ALBERTO E CAROL: UM ROMANCE ALFABÉTICO, por Juliana Schaidhauer](https://revistasepe.art.br/alberto-e-carol-um-romance-alfabetico-por-juliana-schaidhauer/): Alberto acordou atordoado após aquele atraso de alguns minutos. Banhou-se, botou sua blusa bege, as botas bacanas e a calça de brim. Estava na beca, bonitão. Tudo combinava completamente, como convinha para conquistar o coração da colega Carol. Decidiu degustar seus deliciosos damascos durante o deslocamento para não desperdiçar mais tempo desnecessariamente. Esticou o dedo e empurrou o botão; ele esperava pelo elevador enquanto concluía que estava esquecendo de algo. Francamente, falou furioso e voltou; fechou as frestas das janelas, reposicionou a foto da família, fiscalizou as bocas do fogão e conferiu tudo mais uma vez. Gastou grande parte do […]
- [TATUÍ, por Pedro Matias](https://revistasepe.art.br/tatui-por-pedro-matias/): L. me enviou outro e-mail. Isso significa que terei de lidar com o fato de amar L. e odiar absolutamente tudo que ele escreve. Não. Isso está errado. Eu não odeio o que ele escreve: apenas considero irrelevante. Eu odeio ter de encontrar alguma coisa para falar sobre seu texto. Há algo de banal em todos eles. Às vezes, a banalidade é boa: nesse caso, ela é apenas ruim. Sabe-se lá o que L. pensa de sua “literatura”. Eu também não sei o que ele pensa de nós. Eu odeio gente excessivamente feliz, e ele parece sempre caminhar na superfície. […]
- [REFOGADO À MORENA, por Catia Schmaedecke](https://revistasepe.art.br/refogado-a-morena-por-catia-schmaedecke/): De repente o aroma do refogado na frigideira invade meu olfato e me desperta para o inesperado. Ouço com mais afinco o frigir do alho misturando-se à cebola, ao pimentão e à pimenta do reino. Deixo para acrescentar por último os tomates e o manjericão frescos. Provo o molho para certificar minha capacidade de acertar o sal, e conquistar pelo sabor. O cheiro de comida gostosa, o mesmo de minha infância, rodopia pela cozinha antes de sair para a sala e invadir todos os cantos da casa. De imediato olho para os lados à procura da figura materna, detenho-me na […]
- [DELÍCIAS DA COLÔNIA, por Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/delicias-de-colonia-por-miguel-da-costa-franco/): Tratava-se de ganhar a vida. Tratava-se, simplesmente, de suportar ganhar a vida daquela maneira. Queria acreditar que o salário compensava. Tinha feito a escolha errada lá trás, fizera muitas escolhas erradas – o curso, a desistência prematura do mestrado, o destino que havia escolhido para exercer a profissão. Sempre fizera escolhas tortas e muitos me criticavam por isso. Mas agora eu era independente, como sempre quisera ser. Ninguém mais podia meter o bedelho em minha vida. Havia o supervisor, claro, que me passava serviços como aquele. Tinha o gerente administrativo, sempre me aporrinhando com as prestações de contas. Precisava suportar […]
- [PÔR DO SOL, por Vera Ione Molina](https://revistasepe.art.br/por-do-sol-por-vera-ione-molina/): Na noite anterior fomos a uma festa. Bebi muito e, como sempre, tivemos de voltar para casa antes dos amigos. Vicente me dissera muitas vezes que não suportava mais minhas bebedeiras. Eu prometia que não beberia mais, mas odiava o jeito que aquelas alunas do meu marido o tratavam. Discutimos muito, tenho a impressão que horas a fio, mas não lembro de quase nada do que eu disse. Ele devia ter me dito algo terrível porque eu joguei na cara dele que ele era o homem mais feio que tinha passado pela minha cama. E, como bêbado não mede as […]
- [5 microcontos de Andreia Schefer](https://revistasepe.art.br/5-microcontos-de-andreia-schefer/): Vida saudável Amanhã acorde cedo. Lave o rosto e saia. Ao deparar-se com o dia frio, não desanime. Continue a caminhada. Persista. Não desista do seu objetivo. Depois de muito andar, retorne à sua casa. Deite-se no sofá e ligue a televisão. Pegue o telefone, disque o número e peça uma pizza. O mar Você nunca tinha visto o mar. Não conhecia a imensidão daquelas águas profundas; nem sabia da sua importância em nosso destino. Nos próximos dias faríamos a travessia. Você desejou um retrato no mar de nossa terra – talvez nunca teríamos uma nova oportunidade de tirá-lo. Não […]
- [O SEGREDO DAS VIOLETAS, por Cristiano Fretta](https://revistasepe.art.br/o-segredo-das-violetas-por-cristiano-fretta/): Ana, entre as plantas, envelhecia. Caminhava no verde denso da frente de casa e sentia em cada passo trôpego de seus 85 anos a certeza de que o infinito também ficava grisalho. O tempo lhe era qualquer coisa abstrata que se perdia nas dobras da rotina: envelhecer, cuidar das plantas, deixar crescer a solidão em volta da vida, cultivar uma esperança profundamente teimosa, deixar-se levar pela tristeza visceral de mãe velha e de vez enquanto distrair-se assistindo a uma televisão. Entre dois prédios, a casa de madeira há décadas pintada de verde contrastava com as imensas construções espelhadas e com […]
- [IDA AO BANCO, por Graziela Jacques Prestes](https://revistasepe.art.br/ida-ao-banco-por-graziela-jacques-prestes/): Era um início de tarde quente e abafada. Tínhamos acabado de almoçar e eu estava me preparando para sentar no sofá e assistir ao telejornal, como costumava fazer desde os tempos em que vivia com meus pais. Era a hora do cafezinho, de descansar um pouquinho antes do próximo turno. A conversa era frouxa, amenidades, apesar das notícias diárias sobre violência, corrupção e inflação. Olhei para Henri e não disse nada. “Vamos ao banco?!”, repetiu. Ergui os olhos. Ele, irredutível. Não suspirei, isso o irritaria ainda mais. Ele era furioso com as palavras, cortavam mesmo como o fio afiado de […]
- [ANA CLARA UM DIA VAI MORRER, por Luciano Prado](https://revistasepe.art.br/ana-clara-um-dia-vai-morrer-por-luciano-prado/): Entre meados de julho e os primeiros dias de agosto Ana Clara comemorou seu aniversário e decidiu que queria morrer. Quinze anos recém feitos, não houve festa nem abraços. Nenhum parente ligou para marcar a data e as poucas amigas que tinha sequer postaram juras de amor nas redes sociais. Ao entardecer daquela sexta-feira de frio seco, olhando da varanda do apartamento o céu alaranjado feito as gemas de ovo que tanto prezava no café da manhã, ela teve um marcante diálogo com a única pessoa que ainda lhe dava ouvidos: sua mãe. Marcante pois intenso mas nem por isso […]
- [VILA CAROLINA - CAP. 3, por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/vila-carolina-cap-3-por-lucio-carvalho/): Há um silêncio dentro do canto dos pássaros que é como se eles cantassem dentro do próprio canto. Cada qual no seu horário, como numa atividade inversa, o que de melhor eles fazem, afinal, é revelar o silêncio a intervalos. A cada momento de quietude em que resta o ruído dos passos na areia e na terra dando conta de alguém trafegando, com exceção do quero-quero e dos silenciosos colibris, poucos prestam para denunciar a chegada de alguém. Há os coscuvilheiros bem-te-vis a fiscalizar também, mas são tantos alertas falsos que ninguém lhes dá atenção. Vivendo sem cachorros e quase […]
- [VOL. 3, Nº. 8/2022](https://revistasepe.art.br/vol-3-no-8-2022/): Navegue pelo sumário da edição.
- [COMO E QUANTO LÊ O RIO GRANDE DO SUL?](https://revistasepe.art.br/como-e-quanto-le-o-rio-grande-do-sul/): A manchete está nos principais jornais do RS e do Brasil: “quase metade da população do RS não tem o hábito e leitura”, “metade dos gaúchos não tem o hábito de leitura”, “hábito de ler ainda não é prática comum para quase metade dos gaúchos”, e assim por diante. Obtidas da leitura dos dados de pesquisa realizada pelo IPO (Instituto de Pesquisa de Opinião), em 2022, as análises jornalísticas dão conta do dramático percentual da população do Rio Grande do Sul que declara não ter entre seus hábitos principais a leitura. Não é uma novidade nem uma exclusividade. Pesquisas a […]
- [PORTO ALEGRE: UMA BIOGRAFIA MUSICAL - entrevista com Arthur de Faria](https://revistasepe.art.br/porto-alegre-uma-biografia-musical-entrevista-com-arthur-de-faria/): Nessa edição de Sepé, conversamos com o professor, músico e pesquisador Arthur de Faria. O Arthur acabou de autografar aquele que é o primeiro volume da sua “Biografia Musical de Porto Alegre”, numa edição da Arquipélago Editorial. Até aqui, é um projeto de quatro livros. Para saber mais do andamento de seu trabalho de pesquisa e conversar um tanto a respeito do livro, entrevistamos o autor para os leitores da Sepé. Teu livro é uma história musical de Porto Alegre, mas supera bastante a questão musical, quer dizer, é um documento a respeito da cidade e de como se viveu […]
- [LARA DE LEMOS: O TENSO REMEMORAR DA DITADURA MILITAR NO BRASIL, por Katia da Costa Bezerra](https://revistasepe.art.br/lara-de-lemos-o-tenso-rememorar-da-ditadura-militar-no-brasil-por-katia-da-costa-bezerra/): O ensaio apresentado a seguir foi publicado em 2004,seis antes da morte da poeta Lara de Lemos, na revista Graphos – Revista da Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba. A predominância de uma política de esquecimento tem marcado o fim de regimes autoritários como o que se instalou no Brasil entre 1964 e 1985. Na realidade, o que se observa com o fim da ditadura militar é a presença de uma amnésia social, ou seja, uma espécie de pacto de censura que procura monopolizar os discursos na esfera pública, dificultando o afloramento de outras falas que poderiam concorrer […]
- [UM CERTO CINEMA GAÚCHO DE PORTO ALEGRE OU COMO O CINEMA IMAGINA A CAPITAL DOS GAÚCHOS, por Boca Migotto](https://revistasepe.art.br/um-certo-cinema-gaucho-de-porto-alegre-ou-como-o-cinema-imagina-a-capital-dos-gauchos-por-boca-migotto/): Publicado pela editora Pragmatha e lançado em 2022, o livro de Boca Migotto nasceu de sua tese de doutoramentorealizada no PPGCOM da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.Aqui, o capítulo introdutório do livro. Mas afinal sobre que é isso tudo? Minhas primeiras palavras para você que está acessando esse livro e, agora, inicia a sua leitura, é que pule esta Introdução. A não ser, claro, que você queira muito saber como tudo isso nasceu e qual foi o caminho para chegarmos até aqui. Resultado direto da minha tese acadêmica, este livro tem o objetivo de trazer, de uma forma […]
- [PROVINCIANISMO, por José Francisco Botelho](https://revistasepe.art.br/provincianismo-por-jose-francisco-botelho/): Há um enigma no provincianismo. Em primeiro lugar, porque poucas pessoas saberiam defini-lo de forma precisa, assim no susto. Em segundo lugar, porque, apesar da indefinição, a ideia de provincianismo parece exercer um fascínio às vezes obsessivo sobre um grupo significativo e diversificado de indivíduos. De tempos em tempos, é possível vê-los por aí, apontando o provincianismo alheio, com certo orgulho de connoisseur; mas, se lhe perguntarmos o que querem dizer por “provincianismo”, é provável que caiam na tautologia: ser provinciano é fazer isto e aquilo, porque fazer isto e aquilo é ser provinciano. Vamos ver se conseguimos clarear um […]
- [MANIFESTO LÍQUIDO, por Clarissa Ferreira](https://revistasepe.art.br/manifesto-liquido-por-clarissa-ferreira/): Presente em seu lançamento “Gauchismo Líquido”,publicação da editora Coragem,publicamos vídeo e texto do seu “Manifesto Líquido”. Eu que me rendadesse destino de prendacontemporânea gueixa gaúchadar-se feito oferendacontam em mito e lendaargumentos que repreendanuma tapera ou cascaonde o espaço compreenda A essência do cair da lágrimaconsentem ser matéria primaterços, costuras, rendasdonas de esperastudo que oprima aquele ingênuo protótipo campesina Livres galopam centaurosnão há atenção que se prenda(como no olhar da Salamanca pela fenda) Nesse mito ocidentalizado cansadode um cowboy, um “gaucho” ou um cossacosemi bárbaroanti intelectualmais dos mesmos arquétiposestilo patriarcal Os anos (re)inventam verdadeso tempo modifica os cultosmantêm fôrmas de vaidadesantigo […]
- [TERRA SEM MALES, por Dilan Camargo](https://revistasepe.art.br/terra-sem-males-por-dilan-camargo/): Do inédito “Uma escada de areia até o céu”, de Dilan Camargo, um dos contos que integra a coletânea que terá lançamento no dia 06 de novembro,na Feira do Livro de Porto Alegre. O livro traz uma seleção de contosque se equilibram num delicado trapézio no qual trafegam naturalmente imagens de um futuro em que a natureza e a técnica humana se debatem de modo muito peculiar, também as aflições do contista (aqui mais poeta que contista) com os dramas do tempo presente e ainda lampejos do passado, que o autor faz reviver com uma prosa muito afetiva, como lhe […]
- [O FILHO PRÓDIGO, por José Eduardo Degrazia](https://revistasepe.art.br/o-filho-prodigo-por-jose-eduardo-degrazia/): Desde capa, a impactante pintura do uruguaio Juan Manuel Blanes,“A paraguaia”, anuncia que o mais recente livro de José Eduardo Degrazia,“Tia Gorda e Tia Magrinha na Guerra do Paraguai e outros contos de guerra, sonho, amores” irá tomar do leitor e fazer viagens (ou incursões) em temas que estão na históriae memória dos leitores gaúchos. A Guerra do Paraguai, a Revolução Federalista de 1893e tantos outros momentos menos precisos no tempo e no espaçoque, sem dúvida, repetem o impacto da pintura escolhida para a capa do livro.Lançamento de 2022 da editora Bestiário. A mãe apontou para o caixão sobre a […]
- [PORTO ALEGRE, por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/porto-alegre-por-lucio-carvalho2/): Os poemas a seguir foram publicados em livros individuaise na antologia “Inventário”, publicação da TAN Editorial, de 2022. Porto Alegre (2013) Não te vejo mais e ainda te encontro, Porto Alegre.Não são teus lugares, talvez só as pedras do calçamento.Não são as avenidas congestionadas, mas as ruelas do centro. Não são os carros de cem mil dólares, são as carroças furtivas.Não são teus parques lotados, mas as árvores tombadas,os monumentos sem placa, tua forma em “v” desviando a passagem [do vento. Não são os dias de chuva em que me flagras na rua,nem os de calor, nem de frio, nem […]
- [De 'SAL', de Mar Becker](https://revistasepe.art.br/de-sal-de-mar-becker/): De “Sal”, lançamento de Mar Becker pela editora Assírio Alvim,publicamos o poema “Annes” e a apresentação de Lawrence Flores Pereira. A palavra em desabrigo: algumas notas sobre Sal, de Mar Becker Lawrence Flores Pereira* Diante de Sal (Assírio & Alvim, 2022) e da poesia de Mar Becker: é como, depois de uma longa viagem, ver o chão faltar. O olhar se perde na imensidão e, por instantes, o fundo tormentoso cintila, mas sem revelar o adjacente inteiro de seu engenho, que ficará em sigilo sempre. Sob a superfície árida dos poemas deste livro, boa para a cristalização mineral, toca-se numa […]
- [RUÍNAS DE SÃO MIGUEL, por Getúlio Ellwanger Neves](https://revistasepe.art.br/ruinas-de-sao-miguel-por-getulio-ellwanger-neves/): O verso penumbra que já foi um universo foi ouvido pelo poetano silêncio das ruínas quando visitou as Missões no outono de 1985.O poema, escrito lentamente nos meses seguintes,seria incluído em seu segundo livro, “Águas Siladas”,editado pela Movimento em 1992. 𝘌𝘯𝘵𝘳𝘦 𝘦𝘴𝘵𝘢𝘴 𝘱𝘦𝘥𝘳𝘢𝘴, 𝘯𝘢𝘴 𝘦𝘴𝘤𝘶𝘳𝘢𝘴 𝘧𝘦𝘯𝘥𝘢𝘴𝘢𝘭𝘨𝘰 𝘴𝘶𝘮𝘪𝘶 𝘮𝘢𝘪𝘰𝘳 𝘲𝘶𝘦 𝘢 𝘙𝘦𝘢𝘭𝘦𝘻𝘢:𝘋𝘦𝘶𝘴, 𝘶𝘮 𝘗𝘰𝘷𝘰 𝘦𝘯𝘷𝘰𝘭𝘵𝘰 𝘦𝘮 𝘣𝘳𝘶𝘮𝘢𝘴 𝘦 𝘭𝘦𝘯𝘥𝘢𝘴 1 Deponho sal nas bordas do meu versosandálias descalcei para adentrar-tepenumbra que já foi um universo Piso silêncios de clavas e Cruzde Templos, Tabas, Roques e Nheçus Aqui não sinto a paz de porcelanaadita aos deuses; não, sente-se apenaso vácuo imenso da […]
- [5 poemas de 'EU É MUITOS OUTROS', por Douglas Ceccagno](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-eu-e-muitos-outros-por-douglas-ceccagno/): NÃO SE SABE Quando quero falar sério,digo que a vida é mistério. Em cada dia que se vive,tem tanto que não se sabe:aonde foi o dia de ontem;e o amanhã, por que vem tarde? Por que nasci nesse tempo,nesta cidade, entre tantas?Por que vou morrer um dia(nem um dia depois, nem antes)? Quando quero falar sério,digo que a vida é mistério.Como eu não saber seu nome,ou como ainda haver fome. POLÍTICA Há cinco mil ações políticasse enraizando em meu quintal:em cada galho que brota,em cada folha que cai,cada formiga que deslocao peso de uma gramínea,os movimentos se consolidam,as bases se […]
- [De 'CONVIVÊNCIAS', de Norberto Presta](https://revistasepe.art.br/de-convivencias-de-norberto-presta/): Fragmento do romance inédito Convivências Do diário de Raul. Um domingo de abril. Coloquei o braço para fora da janela querendo virar à esquerda, mas a cidade não reagiu, diante de nós um muro de concreto anunciava o impacto. Me senti sozinho. Fechei a janela e liguei a televisão, o noticiário traçou uma linha vermelha que me deslumbrou, quando fechei os olhos em meu cérebro um grito sem eco me paralisou. Foi então que decidi ligar para você. Sua voz não foi de consolo… “Os supostos líderes do mundo se distraem assistindo a si mesmos na televisão e o reality […]
- [De 'NADA SERÁ COMO ANTES', de Andreia Schefer](https://revistasepe.art.br/de-nada-sera-como-antes-de-andreia-schefer/): Lançado em outubro de 2022, o romance “Nada será como antes”concorre ao 7º Prêmio Kindle de Literatura. O e-book está disponível na Amazon no link: https://abre.ai/nadaseracomoantes Ela exige uma resposta. Todos os dias insiste no assunto, repetindo sempre a mesma pergunta no café da manhã. Todos os dias a sua voz persistente martela em minha cabeça atrapalhando os meus sentidos. Há mesmo necessidade? Por que mexer em fatos tão bem enterrados? Eu me questiono, enquanto olho pela janela, tentando fugir do seu olhar inquisidor: não consigo encarar os olhos de minha filha. — Será que hoje podemos resolver esse assunto? […]
- [5 poemas de 'ENTRE MANDALAS, ESPADAS E UMA ESCADA CARACOL', por Mariana Machado](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-entre-mandalas-espadas-e-uma-escada-caracol-por-mariana-machado/): DESALINHO Eu, que não sou nenhum grau 33dessas seitas políticas que exigemo beijo impresso atrás do Baphomet,a subserviência das palavrasde alminhas devotadas, cujos punhos,desvirginando nuvens, vêm proporbrindes de sangue e leite verborrágicos;como alcançar a condição de eleita?Eu, que não tenho sido a cidadãconsciente, e não conserto o mundo, e nãoseparo o lixo dos meus pensamentos;eu, que não bato ponto nos conselhos,cultuando minorias de pelúcia,bebendo, marginal, vinhos do porto,cuspindo poemas que serão servidoscomo papel higiênico em vinte anos;eu, que não sou nenhum jovem profetapregando a castração vernacular;que não oferto os revolucionáriospelinhos pubianos aos tarados;que não sou submissa aos manuais(dos que os […]
- [De 'VENEZA SALVA' (Simone Weil), por Gabriela Porto Alegre](https://revistasepe.art.br/de-veneza-salva-simone-weil-por-gabriela-porto-alegre/): “Há muitos livros ou artigos que dão a impressão de que o autor, antes mesmo de começar a escrevê-los, e, posteriormente, logo antes de enviar a obra para o prelo, pergunta-se com verdadeira ansiedade: ‘Eu estou na verdade?’ Há muitos leitores que, antes de abrir um livro, perguntam-se com verdadeira ansiedade: ‘Encontrarei aqui alguma verdade?’ Se propuséssemos a todos profissionais do pensamento, sacerdotes, pastores, filósofos, escritores, intelectuais, a escolha, a partir de agora, entre dois destinos: ter o seu trabalho imediatamente e definitivamente rotulado como idiota, no sentido literal, com direito a todas as humilhações que tal desmoronamento provoca, mas […]
- [EUGENIO MONTALE, por Thomaz Albornoz Neves](https://revistasepe.art.br/eugenio-montale-por-thomaz-albornoz-neves/): O verbete que segue está incluído em 24 Verbetes -Ocidente-, de Thomaz Albornoz Neves, publicado pela TAN Editorial, em Sant’Ana do Livramento em 2022. EUGENIO RICCI MONTALE (Gênova, 1896–Milão, 1981) foi o quinto filho de um pai viúvo, sócio de uma próspera empresa importadora de resinas genovesa. Por motivos de saúde abrevia seus estudos secundários. Termina um curso de contabilidade e passa a cultivar suas vocações. Tem voz de barítono, estuda canto, frequenta as aulas particulares de filosofia e arte da sua irmã Marianna, matriculada em Letras Clássicas. Sua educação é autodidata, eclética e livre de condicionamentos. Dante, Petrarca, Leopardi […]
- [EM DEFESA DA ALEGRIA (Mário Benedetti), por Sidnei Schneider](https://revistasepe.art.br/em-defesa-da-alegria-mario-benedetti-por-sidnei-schneider/): para trini Defender a alegria como uma trincheiradefendê-la do escândalo e da rotinada miséria e dos infamesdas ausências transitóriase definitivas defender a alegria como a um princípiodefendê-la do pasmo e dos pesadelosdos neutros e dos nêutronsdas doces infâmiase dos graves diagnósticos defender a alegria como uma bandeiradefendê-la do raio e da melancoliados ingênuos e dos canalhasda retórica e da parada cardíacadas endemias e academias defender a alegria como um destinodefendê-la do fogo e dos bombeirosdos suicidas e homicidasdas férias e do cansaçoda obrigação de estar alegre defender a alegria como uma certezadefendê-la da oxidação e da sarnada famosa pátina do […]
- [FLAMINIA COLELLA: ALGUNS POEMAS TRADUZIDOS E UMA ENTREVISTA, por Paulo Damin](https://revistasepe.art.br/flaminia-colella-alguns-poemas-traduzidos-e-uma-entrevista-por-paulo-damin/): Traduzi cinco poemas de Flaminia Colella, poeta italiana até este momento inédita no Brasil. Eles fazem parte do mais novo livro dela, que se chama Guerrafesta (ed. Cartacanta). Na sequência, há uma entrevista exclusiva com Flaminia. Nota-se logo a postura narrativa da poeta. Seus poemas são cenas. Situações cotidianas que, em versos enxutos e sintaxe exigente, nem sempre parecem nítidas. Talvez, como a própria autora dá a entender na entrevista, a forma poética lhe aparece como a anotação de cenas que poderiam caber em narrativas mais longas e articuladas. O caso é que, muitas vezes, essas notas saem em decassílabo […]
- [UMA DAMA (Heinrich Heine) e TAPA DE LUVA (Friedrich von Schiller), traduzidos por Mariana Machado](https://revistasepe.art.br/uma-dama-heinrich-heine-e-tapa-de-luva-friedrich-von-schiller-traduzidos-por-mariana-machado/): UMA DAMA(“Ein Weib”, canção de Heinrich Heine. Versão de Mariana Machado, a partir da tradução de Wagner Schadeck) Ambos viviam uma paixão:Ela, bandida; ele, ladrão.Quando um trambique ele fazia,Ela, na cama, ria e ria. No ócio de dias sem proveito,À noite, estava ela em seu peito.Levaram-no à delegacia,Ela, à janela, olhava e ria. Fez-lhe um bilhete: “Eu vou ser morto.Te apressa a vir ao meu encontro.Não sei se vejo um novo dia.”Mas dando de ombros, ela ria. Lá pelas seis, foi enforcado;Lá pelas sete, sepultado;E às oito, nessa manhã fria,Ela bebia vinho e ria. TAPA DE LUVA(“Der Handschuh”, balada de […]
- [TRANSITORIEDADE, por Luiz-Olyntho Telles da Silva](https://revistasepe.art.br/transitoriedade-por-luiz-olyntho-telles-da-silva/): Como as coisas deste mundo são de natureza transitória e mortal, é evidente que todas, em si próprias e fora de si próprias, são geradoras de angústia ou de cansaço e sujeitas a perigos infinitos. (J. BOCCACCIO, Decameron, 1ª Novela, 1ª Jornada – Narrada por Pamfilo.) Gosto das exposições de arte porque elas, de modo geral, exercem em mim uma função antialienação. As propostas dos artistas, quase sempre inovadoras, arrastam minha percepção para novos ângulos. É a vida mostrando sempre novas facetas. O efeito da mostra de Marília Bianchini, ao expor o seu Elogio da transitoriedade, causou-me singelo efeito: levou-me […]
- ['ATAQUE - CALE-SE AGORA E PARA SEMPRE' de Ivete Nenflidio, por Menalton Braff](https://revistasepe.art.br/ataque-cale-se-agora-e-para-sempre-de-ivete-nenflidio-por-menalthon-braff/): Se o leitor que ora aqui chega já recebeu um jabe no queixo, está autorizado a abrir este livro e percorrer suas páginas, que são, geralmente, duras como gritos de protesto. E isso, sem esquecer que são poemas, então vai encontrar muita poesia pelo caminho, com todos os recursos da poética contemporânea. A estrutura dos poemas, a linguagem com suas figuras, o sentido geral. Sobre a estrutura, basta dizer que são versos livres, com seu ritmo próprio sem a camisa-de-força da métrica tradicional. Mas são também versos brancos, sem esquemas rítmicos, apesar de surgirem aqui e ali rimas que se […]
- [COMO SE COMPORTAR COM AZEITONAS, por Gustavo Melo Czekster](https://revistasepe.art.br/como-se-comportar-com-azeitonas-por-gustavo-melo-czekster/): Anos depois, ela diria que foram os olhos castanhos do recém chegado que a fisgaram tão logo se conheceram na residência do embaixador. Conversando com os amigos na biblioteca, envolto pela fumaça dos charutos, o homem colocaria as duas mãos na frente do próprio peito, pretextando abundância para mostrar aquilo que primeiro chamara a sua atenção. Cercada pelas amigas na sala de estar, ela lembraria as mãos fortes que a seguraram pelos cotovelos quando tropeçou na dança, o sorriso tímido e aberto, as rugas de preocupação vincando a testa do outro enquanto perguntava se estava tudo bem, se tinha se […]
- [1 poema de Juliana Meira](https://revistasepe.art.br/1-poema-de-juliana-meira/): pedrinhas desbastadas pela água da sangaonde rodopiam girinos e tampasde cerveja longe alguma bolita só de bici se percorre essa seara compridaque dobra a ladeira com bergamota na cestaporque o que se move gira néon sempiterna memóriacaleidoscópio construído com sobrasdo que se tinha Juliana Meira nasceu em 1981, no interior do Rio Grande do Sul, em Carazinho. Hoje vive entre Canela/RS e Brasília/DF. Tem publicados, entre outros, “água dura” (Artes & Ecos, 2019), “na língua da manhã silêncio e sal” (Modelo de Nuvem/Belas Letras, 2017), livro vencedor do Prêmio Minuano de Literatura na categoria Poesia no ano de 2018, […]
- [A RUA DOS IMORTAIS, por Simone Saueressig](https://revistasepe.art.br/a-rua-dos-imortais-por-simone-saueressig/): para Gustavo …nuvens por toda volta. Mas é só nuvens, não chove, chuva, só amanhã. O calor segue até o final de semana. Depois a gente entra em um período que vai até o final de maio… Abaixo o volume do rádio. Esse Cléo Khun, aposto que hoje chove. A porta do outro lado da rua se abre e fecha. Lá vai o Agnaldo com aquele casaco verde, horrível, e o boné que a neta dele deu de presente de aniversário. Vou te contar, dar boné de presente para avô… que falta de criatividade. Ele vai com os bolsos […]
- [1 poema de Vera Ione Molina](https://revistasepe.art.br/1-poema-de-vera-ione-molina/): EM TEMPOS DE LUTO Naqueles tempos antigosquando a família perdia um membroas mulheres surgiam vestidas de pretoda cabeça aos pésas crianças ouviam gritos e odiavam o falecidoSabe-se lá se as velhas obrigavam as meninas-moças a gritaros sons delas pareciam fingidos de tão agudoscomo se os homens amados tivessem partido para uma revoluçãoOs gritos das mães, tias e avós eram guturaisde assustar os pequenosO defunto era levado em procissãotão longa conforme a extensão de seus campose as mulheres continuavam vagando gravespelas casas de pé direito altoAs moças talvez lavassem com raiva os panosquando ouviam notícias de bailes e companhias de teatroe […]
- [ÁGUAS CORRENTES, por Giuliana M. Seerig](https://revistasepe.art.br/aguas-correntes-por-giuliana-m-seerig/): Mesmo com o andar dos anos, não alcançou mais aquela sensação de que o tempo estivesse detido, suspenso, nem mesmo nas grandes esperas que vieram depois. As horas deslizavam, naqueles verões à margem do rio, em um ritmo que, agora sabia, nunca pôde experimentar novamente. Chegava-se à casa, uma pequena chácara que a família mantinha, por um percurso que parecia ainda mais longo pela precariedade da estrada. Já no movimento de sacolejar da ida, sentia entrar pela janela o batismo da poeira densa, o tom ora rosado, ora alaranjado da terra que a acompanharia por todos os dias, que seguiria […]
- [5 poemas de Lígia Savio](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-ligia-savio/): HÉCATE Só quem se desviou da rota principale pegou uns caminhos tortosé que pôde enxergaroutros céus, outras paragens,os azuis esverdeados,descoberta de um poetanavegando em barco bêbado.Também eu quisSentir o gosto das frutas interditasMe fui ou fui levada?Que dimensão era aquela?Entrava-se na íris das pessoase se via tudo por dentro,mente e coraçãoQue infinitos terríveis se abriram para mim?Um milhão de aves de ouro me guiouEm muitas outras realidades mergulheialém do pequeno pedaçoque os mortais normalmente recebemFui batizada numa noite a céu abertocom a Via Láctea quase tocando a Terra.Fui ungida com gotas de orvalhocomo filha de deusas pagãs.destinada a trilhar uma […]
- [MAMÃE TRABALHAVA À NOITE, de Emir Rossoni](https://revistasepe.art.br/mamae-trabalhava-a-noite-de-emir-rossoni/): O conto intitula o livro “Mamãe trabalhava à noite”, em etapa de financiamento coletivo pelo catarse até 16 de outubro de 2022.https://www.catarse.me/mamae_trabalhava_a_noite_f00b?ref=project_linkLançamento previsto para novembro de 2022. Mamãe trabalhava à noite. “Cuide da maninha até eu voltar.” Sempre que faço sombras de lua, lembro-me dela. Ela só voltava na madrugada. Maninha chorava, maninha brincava. Mas eu nunca dormia. Nossa vida era pacata e quase normal. Só agora sei que mamãe dormia nas manhãs, depois que eu saía para o colégio. “Pegou a merenda?” Eu não gostava muito dos sanduíches. Porém, ela sempre preparava as fatias de pão com recheio antes […]
- [1 poema de Myrian Beck](https://revistasepe.art.br/1-poema-de-myrian-beck/): GOTA MÍNIMA Dentre as gotas q caiam sobre a aridez da terraapenas uma tinha consciência de ser chuva.Precipitou-se, feito quem se acaba chorando. Isso.Inundou o mundo feito quem ama. Quando pequenaouvira narrar sobre histórias de lugaresdonde garoa q ousa não retorna.Lugares onde o lobo guará seduz a luae as salamandras exibem malabares no interior do fogo, lugares onde visõesrevelam-se na fumaça do cachimboe ascendem ao céu pela boca dos ancestrais. Gota Mínima,sabia que mesmo Deus está só na própria casa mas encarou a sina.Por anos, antes de cumpri-la teve medo, masa hora veio e -quem diria?- plena de suspiros.Ocupada em […]
- [RESTAURAÇÃO, por Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/restauracao-por-miguel-da-costa-franco/): Quando despertei, estava meio enjoado. Senti-me oprimido, como se estivesse enfiado numa tumba. Aos poucos, lembrei da truculência de nossos captores e das garras fortes que me haviam sujeitado; da agulhada no pescoço e das presilhas apertadas com que manearam minhas mãos e pés; dos gritos desesperados de Vítor, chamando por mim. Tentei mover-me, mas continuava com braços e pernas amarrados. Chamei por meu filho. Meu brado ribombou, soturno, nas paredes da minha cápsula, fazendo um eco metálico, Vítor, Vítor, Vítor… Não tive respostas. Havia um cheiro de desinfetante no ar, passos descansados e murmúrios incompreensíveis no meu entorno. Ao […]
- ['O PESCADOR DE ARENQUES', DE JAIRO SCHOOL](https://revistasepe.art.br/o-pescador-de-arenques-de-jairo-school/): Por Boca Migotto Dentre inúmeros livros que eu poderia escolher para indicar, optei pelo grande romance do meu amigo Jairo por vários motivos. Primeiro porque ele é, realmente, um excelente livro. Segundo, porque dentre tantos livros bons e excelentes, de escritores conhecidos e reconhecidos, os quais as pessoas naturalmente acessam, indicar um livro de um escritor que, assim como eu, é menos conhecido e, portanto, lido somente quando indicado por amigos, me parece mais do que justo, necessário. Terceiro, porque o livro, que eu conheci em 2008 quando conheci também o Jairo, em meio a uma viagem de pesquisa para […]
- ['O QUE SE ESCONDE NA GENTE', DE INARA MORAES GUAZZELLI](https://revistasepe.art.br/o-que-se-esconde-na-gente-de-inara-moraes-guazzelli/): Por Alexandre Britto O corpo é um todo maravilhoso — joelho, cabelos, pescoço. Algo completamente esplêndido: cabeça, tronco, membros. Partes extensas, partes diminutas- garganta, estômago, medula. Um sem fim de órgãos, glândulas, músculos, que vestem as vestes da pele, se erguem sobre os próprios ossos e partem para conquistarem o mundo. Porém, certas partes desta obra de arte feita de sangue, tutano e carne, não estão em primeiro plano, não ganharam palco, não aparecem em destaque. Mas cada artéria, alvéolo, gânglio, da planta dos pés às ramificações cartilaginosas dos brônquios, merecem a sua cota de assombro. O ouvido por exemplo, […]
- ['FOTOSSÍNTESE', DE SINARA FOSS](https://revistasepe.art.br/fotossintese-de-sinara-foss/): Por Antonio Prates Fotossíntese, o livro mais recente da escritora gaúcha Sinara Foss, publicado em parceria pelas editoras Gog e Bestiário, abre com o conto homônimo, onde acompanhamos o drama kafkiano de uma garota que experimenta uma traumática mutação e aos poucos vai se transformando em uma planta que projeta ramos, galhos e raízes para fora do seu corpo. O efeito, para o leitor, é brutalmente impactante. Ora vemos a cena de fora, com incredibilidade; ora nos identificamos com a garota e seu pavor. Ao final, ofegantes, nos perguntamos: isso foi um conto de terror, um exercício de surrealismo, um […]
- ['CARTA À RAINHA LOUCA', DE MARIA VALÉRIA REZENDE](https://revistasepe.art.br/carta-a-rainha-louca-de-maria-valeria-rezende-2/): Por Catia Simon Maria Valéria Rezende é uma escritora premiada e conhecida dos gaúchos e gaúchas. Recebeu vários prêmios, entre eles o Jabuti em 2015 pelo livro Quarenta Dias que tem sua trama ambientada na cidade de Porto Alegre. Não bastasse esse vínculo textual, publicou com a Casa Verde Ninhos de haicais (2018) cuja editora Laís Chaffe é também a diretora e roteirista do documentário Mesmo que tudo dê errado, já deu tudo certo (2022) sobre a vida da referida escritora. Há muito que dizer sobre a trajetória aguerrida dessa santista de nascença e paraibana de coração. O trabalho desenvolvido com a alfabetização […]
- ['VERBETES', DE HELENICE TRINDADE](https://revistasepe.art.br/verbetes-de-helenice-trindade/): Por Catia Schmaedecke Há uma beleza pungente na intensa narrativa de Helenice Trindade em “Verbetes” ed. Bestiário, Porto Alegre RS, ano 2022. Como na frase metafórica da página 35: “Nunca fui egoísta e fraca. Venço as dificuldades e procuro um dos sóis, aquele que a nuvem descobre.” Dessa vez a autora reveste-se de coragem para desnudar a intimidade de uma união avassaladora, quando o intento de harmonia é covardemente destruído por um homem desrespeitoso e sem escrúpulos. E escancara de modo visceral a crueldade machista que permeia boa parte dos casamentos de ontem, de hoje e de sempre. Em “Verbetes” […]
- ['A DAMA DO SALADEIRO', DE CYRO MARTINS](https://revistasepe.art.br/a-dama-do-saladeiro-de-cyro-martins/): Por Fernando Neubarth Há lembranças que guardam a um tempo a sensação de perenidade e o fugaz. O giro inevitável das horas e a constância, algo mágica algo acolhedora, dos ciclos, das marés, das arribações. Esse calor extemporâneo saúda as andorinhas que vejo através da janela e a teimosia leal das flores do marmeleiro japonês, em sua singela beleza. Lá fora, também o vírus, silencioso, solerte, ameaça entre tantas, que, também recorrentes, bloqueiam respiros, sufocam aspirações, desejos. Há braços que se fortalecem e se levantam em infames saudações enquanto vigora contido exercício pleno dos abraços. Releio A Dama do Saladeiro, […]
- ['FALSO LAGO', DE CAROLINA PANTA](https://revistasepe.art.br/falso-lago-de-carolina-panta/): Por Cristiano Fretta O que há por trás da indicação de um livro? Que caminhos são trilhados ao dizermos para outras pessoas que uma determinada obra literária deve ser lida? Em primeiro lugar há a leitura individual, permeada de subjetividade, ato silencioso e íntimo, para dentro de si. Depois, em uma consciência de que a matéria e a estética do lido há de encontrar ressonância em outras subjetividades, faz-se a indicação, na certeza de que uma das capacidades mais formidáveis de qualquer obra de arte é perspectivar o universal a partir do individual. É nesse sentido que gostaria de indicar […]
- ['MEMÓRIA IMPURA', DE LUIZ VADICO](https://revistasepe.art.br/memoria-impura-de-luiz-vadico/): Por Gonzalo Bolliger O livro Memória Impura (2012, editora Novo Século) do desconhecido escritor Luiz Vadico, foi uma verdadeira revelação. O encontrei em um sebo em Campinas (eu sou do antigo regime: praticamente só compro livros que encontro fisicamente, dos quais posso ler trechos e analisar o estilo) e foi um dos melhores conjuntos de contos, a nível mundial, que eu já li. O livro é conceitual e trata sobre personagens da antiguidade, alguns conhecidos e a maioria desconhecidos. Um escravo que conspira contra seus senhores para obter a liberdade; um filósofo que se apaixona por um de seus alunos […]
- ['O VIAJANTE DO SÉCULO', DE ANDRÉS NEUMAN](https://revistasepe.art.br/o-viajante-do-seculo-de-andres-neuman/): Por Monique Rodrigues Já dizia Mario Quintana que “viajar é mudar a roupa da alma”. Ah, a sabedoria de um poeta. Neste livro, um viajante peculiar chega numa cidadezinha desconhecida em plena Alemanha do século XIX, e tudo muda: o vilarejo e a sua vida. O livro em questão é O viajante do século (lançado em 2009, e, no mesmo ano, vencedor do Prêmio Alfaguara e do Prêmio da Crítica, na Espanha), do escritor argentino Andrés Neuman, publicado no Brasil pela editora Alfaguara, em 2011, e ainda pouco conhecido por aqui. Hans é um forasteiro que chega à cidade enigmática e […]
- ['OS ÁRBITROS, AS BOTAS, AS MELANCIAS E OS POSTES', DE FERNANDA BASTOS](https://revistasepe.art.br/os-arbitros-as-botas-as-melancias-e-os-postes-de-fernanda-bastos/): Por Luiz Maurício Azevedo Nessa reunião de ensaios, publicada ainda durante a pandemia de COVID-19, a poeta, tradutora, editora e jornalista porto-alegrense Fernanda Bastos enfrenta os grandes temas da arte contemporânea. Desfilam, ao longo de 140 páginas, arrazoados profundos e corajosos sobre as repercussões éticas das estéticas hegemônicas do nosso tempo. Com uma redação ágil e limpa, Bastos (que pelo segundo ano consecutivo compõe, ao lado de Milena Britto, o coletivo curatorial da prestigiosa FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty) fornece elementos preciosos para uma nova chave interpretativa do mundo que nos cerca. O resultado da empreitada sugere que, […]
- ['OBRAS COMPLETAS', DE LUIZ GAMA](https://revistasepe.art.br/obras-completas-de-luiz-gama/): Por Carlos Roberto Martins dos Santos O editor da revista Sepé me informa que é um convite especial que ele está me fazendo. Deseja que eu escreva uma apresentação para um edição também especial, de fim de ano, na qual dezenas de escritores e escritoras recomendam livros publicados de qualquer época que impactaram sua leitura nesse findouro 2023. Como é especial o convite, ele não me deixa escolher e sugere que eu fale um pouquinho de uma obra mais que especial, mais que obra um projeto, nada menos que o “Projeto Luiz Gama”, organizado pelo pesquisador Bruno de Lima e […]
- ['MARTELO ALAGOANO', DE THALLES GOMES](https://revistasepe.art.br/martelo-alagoano-de-thalles-gomes/): Por Magali Lippert “Foi nos tempos do Collor.” É assim que, no sul do Brasil, nos referimos àquele período de turbulência política, em que um homem desconhecido das massas – até sua aparição nos programas eleitorais – fosse eleito Presidente da República. A sensação de fracasso foi imensurável – acentuada por não ter sido em qualquer eleição, mas sim na primeira eleição presidencial democrática brasileira. O tempo de Collor presidente não durou muito, mas foi suficiente para consideráveis estragos psicológicos em boa parte da população brasileira. No sul do país, entretanto, é uma memória que não encontra ressonância. Guardamos no […]
- ['FREUD: DE VIENA A PARIS', DE ARIANE SEVERO](https://revistasepe.art.br/freud-de-viena-a-paris-de-ariane-severo/): Por Myrian Beck Freud: de Viena a Paris, da escritora e psicanalista gaúcha Ariane Severo, é um livro inspirado, primorosamente escrito, num ritmo adorável, com imagens fortes, texto criativo e comovente. Quer seja pela forma como contextualiza o período da Segunda Guerra Mundial e a loucura perversa do nazismo; quer seja pela tragédia humana de dores, medo, mortes, forme, desesperança, onde milhões de pessoas estão mergulhadas, entre eles Sigmund Freud e sua família. A autora nos leva a varar a noite glacial que parece não ter fim na viagem de trem de Viena a Paris, onde eles embarcam saindo, enquanto dá […]
- ['SOPAPORIKI', DE RICHARD SERRARIA](https://revistasepe.art.br/sopaporiki-de-richard-serraria/): Por Adriana Bandeira ÔO!! Que nascida é esta canção! Sopaporiki é assim. Puro convite para dizer do jeito que vem. Chego a esta conclusão, num suspiro bom, depois de um trabalho extenuante para escrever uma resenha de um jeito formal, numa perspectiva de aconselhar a leitura, ou transmitir o que de bom este livro faz. Impossível dizer disso sem trazer vocábulos espontâneos, transcrições simples de uma surpresa, uma satisfação, um assombro, uma descoberta dentro, uma caça ao tesouro na alegria da enunciação vívida de quem está alfabetizando-se. Sim! Senti-me desta maneira ao ler Sopaporiki. Este sentimento, confesso, quis de mim […]
- ['BLACK BAZAR', DE ALAIN MABANCKOU](https://revistasepe.art.br/black-bazar-de-alain-mabanckou/): Por Augusto Darde No carnaval de 2023, visitei São Paulo e encontrei, num passeio, o livro Black Bazar (2009), de Alain Mabanckou. Já conheço a obra dele há algum tempo, além de admirar muito suas falas em torno da literatura de língua francesa escrita por autores negros e autoras negras. A importância dele é tanta que, em 2016, foi convidado por Antoine Compagnon a ministrar aulas sobre literatura da África no Collège de France, ápice da carreira de qualquer intelectual na França. Black Bazar é escrito em primeira pessoa, já que se trata do diário de Fessologue – algo como Bundólogo em português […]
- ['CURTA FICÇÃO', DE ELENILTO SALDANHA DAMASCENO](https://revistasepe.art.br/curta-ficcao-de-elenilto-saldanha-damasceno/): Por Cecilia Kemel Curta Ficção, de Elenilto Saldanha Damasceno, Editora Metamorfose, 113 páginas, conta histórias de vida. Várias vidas, que nos trazem cores e sombras à mente e ao coração. Bem arquitetado, é muitas vezes surpreendente, despertando o interesse e prendendo o leitor nas teias do enredo. Elaborado nos parâmetros do conto, é costurado com retoques de alta criatividade. A ficção pode ser curta, mas é longa a permanência na memória e na sensibilidade. Um livro inspirador. Leia mais da autora em Sepé.
- ['POETA CHILENO', DE ALEJANDRO ZAMBRA](https://revistasepe.art.br/poeta-chileno-de-alessandro-zambra/): Por Lucas Borges “Se você ama uma pessoa, deixe-a livre,se ela voltar, é sua. Se não, nunca foi” Eu me perdi. Em uma noite de Domingo não soube me identificar. Não soube de fato dizer a mim mesmo quem eu era. Quem sou eu? E o mais importante: o que eu quero ser? No fim, me perdi tentando identificar quem sou. O prelúdio de um temporal soa como uma ameaça verossímil. Nas outras vezes que me perdi a Literatura me salvou, foi a minha bússola, por assim dizer. Anos atrás estava preso dentro de um sistema do qual não queria […]
- ['O COFRE DO DR. RUI', DE TOM CARDOSO](https://revistasepe.art.br/o-cofre-do-dr-rui-de-tom-cardoso/): Por Athos Ronaldo Miralha da Cunha O Brasil precisa conhecer a sua história. Precisamos refletir sobre os anos de ditadura. Os anos dos atos institucionais. O livro de Tom Cardoso “O cofre do Dr. Rui” narra de forma romanceada uma das maiores expropriações da luta armada nos anos de chumbo. No dia 18 de julho de 1969 onze guerrilheiros da Var-Palmares assaltaram um casarão onde constava parte da fortuna do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. O livro trata com fidelidade os fatos históricos. Nos coloca dentro da guerrilha e nos transporta para o passado com uma leitura que […]
- ['A REVOLTA DAS VÍSCERAS', DE MARILUCE MOURA](https://revistasepe.art.br/a-revolta-das-visceras-de-mariluce-moura/): Por Luciana Coronel No teatro da memória, as mulheres são uma leve sombraMichele Perrot Mariluce Moura, jornalista bahiana, ficcionaliza em A revolta das vísceras (1982) sua experiência na resistência ao autoritarismo vigente durante a ditadura civil-militar (1964/1985). Trata-se de uma narrativa notavelmente bem construída, na qual a personagem Clara busca reunir os fragmentos da memória de violências sofridas para elaborar em chave simbólica os traumas, que são por definição interditos à palavra. Militante nos anos 1960/70 da organização Ação Popular Marxista-Leninista (APML), a autora compõe o romance por meio de uma enunciação distanciada, no interior da qual são inseridos estilhaços da voz […]
- ['A POESIA DA HORA BRABA', DE MALU BAUMGARTEN](https://revistasepe.art.br/a-poesia-da-hora-braba-de-malu-baumgarten/): Por Lígia Sávio Já conhecia vários poemas de Malu Baumgarten, gaúcha radicada em Toronto, Canadá, publicados no Facebook e no seu blog. Organizados agora numa estrutura muito bem elaborada pela autora, numa bela edição da Editora Bestiário selo Invencionática, adquirem outra dimensão. A capa e as ilustrações, produzidas por Elizabeth Baumgarten, filha da poeta, enriquecem a obra que é bilíngue, proporcionando a quem lê em inglês uma dupla satisfação. Eu diria que “Poesia da Hora braba” deixa o leitor em estado de desassossego e – mais ainda – em estado de turbulência. O eu-lírico (aqui mais anti-lírico) conversa com uma […]
- ['A LÍNGUA SUBMERSA', DE MANOEL HERZOG](https://revistasepe.art.br/a-lingua-submersa-de-manoel-herzog/): Por Leonardo Antunes Em “A língua submersa” (Alfaguara, 2023), Manoel Herzog apresenta um Brasil pós-apocalíptico, dominado por fundamentalistas neopentecostais e marcado pelo aumento do nível das águas, que causou um sem-número de desastres e mais que dizimou a população humana. Esse ambiente de ficção científica é usado para contar histórias acerca dos sobreviventes brasileiros, que falam uma espécie de portunhol, são dominados pela influência chinesa e têm problemas e neuroses não muito diferentes das nossas próprias. Com o virtuosismo narrativo que marca seu já extenso rol de romances, Herzog nos oferece um olhar tão sarcástico quanto desolador a respeito do […]
- ['PARA MULHERES QUE...', DE CECÍLIA KEMEL](https://revistasepe.art.br/para-mulheres-que-de-cecilia-kemel/): Por Marga Cendón O livro é composto de textos curtos ou, como denomina a própria autora, “semicontos”. O conteúdo, apresentado de forma delicada e elegante, leva a um universo de emoções que fazem da leitura uma experiência extremamente prazerosa. Vale conferir. Abaixo, segue um trecho selecionado do livro. “Quem de nós já não pensou, numa chuvosa e solitária noite de sábado, em acabar com tudo? Quem não desejou outra visão que não aquela do homem semideitado no sofá da sala, pescoço pendendo para frente e para trás, ressonando como um velho gato doméstico, saciado e tranquilo, à beira de um […]
- ['DISFORMIA DESATADA', DE RAQUEL ZEPKA](https://revistasepe.art.br/disformia-desatada-de-raquel-zepka/): Por Everton Luiz Cidade A atriz, diretora e escritora Raquel Zepka já disse que seu livro era um diário de mentiras. Eu o leio como um diário de revelações de realismo ultra mágico. Um carrossel multicolorido e sombrio de verdades cruéis ficcionadas. São poemas de imolação. Poemas soco. Poemas susto. Tão necessário quanto Hilda Hilst. TIO CÉSAR Pouco antes de morrermeu tio César sonhava frequentementecom cães gigantes dilacerandoum homem de smoking. Enormes Rotwaillers e Dobermans espumando,ladrando aos céus a música de invocaçãode algum demônio furioso. Não sei se foi isso mesmo que eu ouvi. Por alguma razão essa conversaentre meu […]
- ['SEMENTES DE AMÁLIA', DE BEATRIZ BALZAN BARBISAN](https://revistasepe.art.br/sementes-de-amalia-de-beatriz-balzan-barbisan/): Por Cristina Macedo Já disse alguém que não existe “um longo tempo atrás” mas, sim, memórias que significam alguma coisa e outras que nada significam. Beatriz Balzan Barbisan, neste Sementes de Amália, presenteia o leitor com suas memórias plenas de significações, cujo centro é a Mãe, motriz e matriz, dedicada à roça e às hortaliças, às flores e à família. O relato memorialístico de Belatrice, como bem a chamava a nona Dal Ponte, está dividido, poeticamente, em quatro atos, a saber Alvorecer, Meio-dia, Pôr do Sol e Novas Auroras, acompanhando o desenrolar das vidas. Sobre a mãe enquanto jovem, Beatriz conta, […]
- ['ESBOÇO, TRÂNSITO, MÉRITO', DE RACHEL CUSK](https://revistasepe.art.br/esboco-transito-merito-de-rachel-cusk/): Por Tatiana Cruz Talvez por apreciar a solidão, talvez por viver sempre acompanhada, a leitura da trilogia de Rachel Cusk tenha caído como um bálsamo pra mim na reta final deste ano. Faísca atrasada, dirão, e vou assentir com a cabeça. Todos já a descobriram. Todos já falaram dela. Eu sou tipo a ultima mulher do músico ou do pintor famoso antes de sua morte, chego depois da glória, evitando me apegar ao já dito e referido, dou as curvas nas opiniões e me permito degustar, ao meu jeito, as sobras. Rachel tem uma narradora única, meio rara: uma primeira […]
- ['ELA SE CHAMA RODOLFO', DE JÚLIA DANTAS](https://revistasepe.art.br/ela-se-chama-rodolfo-de-julia-dantas/): Por Milene Barazzetti Afinal quem é ela que se chama Rodolfo, no livro de Julia Dantas? O livro já desperta curiosidade com o título e quando começamos a leitura mergulhamos na vida de Murilo, o protagonista, ou um dos protagonistas da história. A narrativa da busca de Murilo por um tutor para uma tartaruguinha deixada em um apartamento, que alugou de uma locatária chamada Francesca, nos mostra a sensibilidade do personagem, na medida que se depara com obstáculos surpreendentes em seu caminho. Junto com isso, Murilo conhece personagens curiosos e intrigantes abordados pela autora e faz com que ele mesmo […]
- ['NA RUA, NA LUA, NA SUA', DE ÉRIKA BATISTA](https://revistasepe.art.br/na-rua-na-lua-na-sua-de-erika-batista/): Por Luiz Renato de Oliveira Périco Escrever poesia lírica atualmente é muito, muito difícil. Digo isso isso como alguém que se arrisca a isso. Primeiro, porque há séculos de poesia lírica atrás de nós, de Safo a Vinícius de Moraes, passando pelo Cânticos dos Cânticos, Camões (claro), os romantismos e tudo que veio depois deles, entre tantos outros mais. O sarrafo é muito alto. Além disso, os tempos não são “líricos”: estamos na “era do político”, conforme Julien Benda, e a paixão política a tudo contamina, transformando o estético e, especificamente, o poético, senão em ferramenta da política, em mera expressão […]
- ['ANTES DO BAILE VERDE', DE LYGIA FAGUNDES TELLES](https://revistasepe.art.br/antes-do-baile-verde-de-lygia-fagundes-telles/): Por Guilherme Azambuja Castro Lygia Fagundes Telles publicou Antes do Baile Verde em 1970. Ela já havia publicado contos em outras antologias, mas agora vai reunir o que havia escrito de melhor no gênero. Eram os anos do boom no conto brasileiro. Quando comecei a querer me aventurar a escrever contos, fim dos anos 2000, fui orientado por meu professor de oficina literária a ler os contistas dessa época. Eu ainda era muito fiel a autores estrangeiros, e isso me cegava um pouco. Então li Luiz Vilela, Rubem Fonseca, para citar dois, e uma coletânea de contos selecionados de Lygia – […]
- ['VÉSPERA', DE CARLA MADEIRA](https://revistasepe.art.br/vespera-de-carla-madeira/): Por Almir Zarfeg Eu li “Véspera” (Record, 2021), de Carla Madeira, de quatro fôlegos, tamanha a atração que a obra exerceu sobre mim. São dela também “Tudo é Rio” (2014) e “A natureza da mordida” (2018), livros editados pela mesma editora e que pretendo ler em breve. Agradeço à amiga Janeuce Cordeiro a indicação. A leitura de “Véspera” me fez compreender alguns porquês do sucesso de Carla Madeira como ficcionista. Hoje ela é a escritora mais lida do país, ao lado de Itamar Vieira Júnior, autor dos best-sellers “Torto Arado” (2019), que resenhei, e “Salvar o Fogo” (2023), que ainda […]
- ['LA CABEZA DEL CORDERO', DE FRANCISCO AYALA](https://revistasepe.art.br/la-cabeza-del-cordero-de-francisco-ayala/): Por Salvador Baladán O livro, La cabeza del cordero (1949), de autoria do escritor espanhol Francisco Ayala, é composto por um prólogo do próprio Ayala e cinco romances curtos, A Mensagem, O Tejo, O Retorno, A Cabeça do Cordeiro e Vida pela Opinião. Cabe destacar que no prólogo o escritor se justifica sobre seu silêncio inicial em relação à literatura no pós-guerra imediato e relata seu retorno tardio ao palco da criação literária; neste ponto, Ayala demonstra certa inquietude em qual é o seu papel como escritor espanhol exilado na América, posto que, como também manifestou no prólogo de Los Usurpadores […]
- ['POEMAS MAIS OU MENOS DE AMOR & OUTROS POEMAS', DE DIANE DI PRIMA](https://revistasepe.art.br/poemas-mais-ou-menos-de-amor-outros-poemas-de-diane-di-prima/): Por Gisela Rodriguez Quando li pela primeira vez a Diane di Prima eu era uma adolescente rebelde, entediada, com o vício de ver poesia em tudo, e uma feminista ainda calada por não saber bem como dizer o que me incomodava na realidade a minha volta. Di Prima me trouxe uma estranha liberdade. Digo “estranha” pois abriu uma ainda inexistente possibilidade: a poesia como revolução sexual. Encontrei uma mulher falando sobre a sua sexualidade sem os ranços de uma sociedade patriarcal. Falando sobre maternidade, instintos atávicos ligados à natureza, situações místicas enredadas em versos, e o engajamento político delineado por […]
- ['PONCIÁ VICÊNCIO', DE CONCEIÇÃO EVARISTO](https://revistasepe.art.br/poncia-vicencio-de-conceicao-evaristo-2/): Por Nelson Rego Em 2023, comemorou-se o aniversário de vinte anos de Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. A primeira edição foi bancada pela própria autora, oriunda da favela, em Belo Horizonte, empregada doméstica que se formou normalista no ensino médio aos 25 anos – professora na rede municipal em Niterói e mestre em literatura pela PUC-Rio, na época da publicação do livro; depois, doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e professora na PUC-Rio, na Universidade Estadual da Bahia, na Universidade Federal de Minas Gerais, na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, no Middlebury College. Da chegada […]
- ['VIA ÁPIA', DE GEOVANI MARTINS](https://revistasepe.art.br/via-apia-de-geovani-martins/): Por Gabriel Gonzaga Li O Sol na cabeça (2018) num curso sobre escrita de narrativas curtas. Foi uma daquelas leituras que nos leva pro autor, e pras ideias do autor e depois pras suas páginas das redes sociais. Fui fisgado pelas letras de Geovani. Não que eu seja autoridade nem nada, apenas parecia algo diferente. Um cara que defende a legalização das drogas, que denuncia o genocídio da juventude negra e a brutalidade policial. Esse mesmo cara escreve histórias ambíguas, que nos carregam pra algum canto, sem dizer pra onde nem quando. Indiquei o livro de contos do Geovani pra todo […]
- ['DIÁRIOS', DE FRANZ KAFKA](https://revistasepe.art.br/diarios-de-franz-kafka/): Por João B. Cabral Acho que o mais estranho que se pode encontrar nos diários de Franz Kafka é a impressão de que podemos estar sendo levados a acreditar nas narrativas oníricas do escritor como se fossem verídicas e as verídicas como se fossem ficcionais. Mesmo assim, o mais importante autor do séc. XX na opinião de Jorge Luis Borges e de Harold Bloom surge para o leitor apenas desconcertante com a sua literatura tanto ou mais assombroso do que em suas próprias palavras. E no caótico mundo de fragmentos de cartas, relatos cotidianos, especulações metafísicas e memórias ergue-se a […]
- ['A MERCADORIA MAIS PRECIOSA', DE JEAN-CLAUDE GRUMBERG](https://revistasepe.art.br/a-mercadoria-mais-preciosa-de-jean-claude-grumberg/): Por Lucia Nogueira Leiria A Mercadoria Mais Preciosa – uma fábula, de Jean-Claude Grumberg, como o próprio nome anuncia, é uma preciosidade. Relata a vida de um casal de lenhadores muito pobres e sem filhos. Ele agradecia todos os dias por não ter filho para alimentar, ela pedia a todas as forças do universo que lhe agraciassem com um filho para querer bem. Eram os tempos nefastos da Segunda Guerra, ele foi requisitado para serviços de interesse público, a ela coube percorrer o bosque para tentar abastecer o lar. Um dia, umas máquinas poderosas irromperam no bosque e construíram uns […]
- ['A MENINA INVISÍVEL E OUTRAS HISTÓRIAS DE VISAGEM', DE MARY SHELLEY](https://revistasepe.art.br/a-menina-invisivel-e-outras-historias-de-visagem-de-mary-shelley/): Por Lucio Carvalho E nsina a ciência que ele se inicia por um disparo sutil das supra renais. Logo, o corpo inteiro é avisado de que a carga de stress habitual deve subir um pouco mais e manter-se num nível mais alto de atenção e vigilância. Hormônios adrenais a postos, a pessoa então se vê na situação de ser levada pelo desencadeamento de uma das mais primárias forças irracionais: o medo. Mas o medo não é uma reação que se dá somente diante a um risco real ou pela predisposição evolutiva; na prática, ele se manifesta sempre que os instrumentos […]
- [VOL. 4, Nº. 10/2023](https://revistasepe.art.br/vol-4-no-10-2023/): Navegue pelo sumário da edição.
- [O FUTURO DA LEITURA, uma entrevista com Andréa Winkler](https://revistasepe.art.br/o-futuro-da-leitura-uma-entrevista-com-andrea-winkler/): A professora Andréa Winkler desenvolve há alguns anos a pesquisa Estratégias de leitura no contexto escolar da contemporaneidade. É professora do curso de Pedagogia da Faculdade Cenecista de Santo Ângelo e Mestre em Educação nas Ciências. Nossa conversa com a professora Andréa teve a finalidade de discutir temas que nos últimos tempos têm estado sempre em questão para educadores, escritores e demais interessados na leitura literária: qual afinal o impacto da tecnologia no mundo da leitura, quais as características desse encontro inevitável, o futuro do livro, do uso da inteligência artificial e da própria educação? Para além de constatar as […]
- [CORONEL FALCÃO, por Fernando Neubarth](https://revistasepe.art.br/coronel-falcao-por-fernando-neubarth/): Nota do autor: O coronel Falcão é o narrador-personagem de Memórias do Coronel Falcão, de Aureliano de Figueiredo Pinto (1/8/1898-22/2/1959), médico, escritor, poeta. O romance concluído em 1937 foi publicado somente em 1973, graças aos cuidados de Carlos Jorge Appel, com a colaboração de Antero Marques, Henry Saatkamp e José Antonio de Figueiredo Pinto. Esse texto foi publicado originalmente no Caderno de Cultura de ZH, no sábado, 31 de julho de 1999, para uma série especial sobre os 20 personagens da Literatura Gaúcha do Século 20. O coronel Falcão mantém-se vivo. Quem é o Coronel Falcão? Já vou perguntando e […]
- [Aureliano de Figueiredo Pinto](https://revistasepe.art.br/aureliano-de-figueiredo-pinto/): Matéria do telejornal Atividade Simers sobre o médico e poeta Aureliano de Figueiredo Pinto. Exibido em 06 de fevereiro de 2010. O Museu de História da Medicina do RS – www.muhm.org.br – é fonte nesta série do telejornal. Reprodução gentilmente cedida.
- [UM INÉDITO AURELIANO DE FIGUEIREDO PINTO, por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/um-inedito-aureliano-de-figueiredo-pinto-por-lucio-carvalho/): Possivelmente não exista na poesia rio-grandense livro tão inédito quanto foi Itinerário – poemas de cada instante (1998), de Aureliano de Figueiredo Pinto. Aureliano não apenas não o publicou em vida como tratou de garantir que o caderno de manuscritos não fosse conhecido até que ele mesmo e sua esposa não vivessem mais. Mesmo assim, ainda levou cerca de 40 anos mais (Aureliano morreu em 1959) para que o filho entregasse os originais para publicação, aos cuidados do Prof. Carlos Jorge Appel, da editora Movimento. Na página frontal do manuscrito, uma misteriosa dedicatória rasurada indicando a quem o livro seria […]
- [COSMOPOÉTICA, por Paulo Damin](https://revistasepe.art.br/cosmopoetica-por-paulo-damin/): Somos linguagem e à linguagem retornaremos. O corpo expira, mas permanece a inspiração da linguagem, que volta a se reunir na infinita Cosmopoética. Deixamos de ser mentes individuais que fazem ou não esforço para se comunicar e passamos a integrar a compreensão perene. A sabedoria, no contexto terrenal, é uma grande sensibilidade que acessa trechos da Cosmopoética, pelos caminhos da linguagem, da literatura, da tradução. Não importa se o indivíduo, durante a escrita de sua história terrena, não consegue se fazer compreender ou demonstra desinteresse pela compreensão dos demais. E não importa se o indivíduo realiza textos acessíveis e profundos. […]
- [ATRÁS, O TREM, por Gustavo Melo Czekster](https://revistasepe.art.br/atras-o-trem-por-gustavo-melo-czekster/): Assim que coloco o pé na calçada, escuto o gemido do metal se contorcendo atrás, logo atrás do meu ouvido, e começo a correr. Não tenho tempo nem para confirmar com os olhos o impossível, pois o tempo se tornou essencial, e a ideia de desperdiçar segundos para virar o pescoço e ver a máquina resfolegando parece inconcebível naquela situação. A visão é somente um dos sentidos, e não preciso me virar para ouvir o barulho cardíaco das engrenagens e cheirar o carvão queimando em fúria. O trem está correndo, e vem atrás de mim. Não é a primeira vez […]
- [5 poemas de Estefanía Ceballos](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-estefania-ceballos/): Traduzido por Dilan Camargo A GUARIDA nesta casa vive uma menina de olhos tristesme pergunto se haverão outros com mais tristezanão carrega mais pasado que uma brisa de jasminsinundando a sua última primavera as mãozinhas se enredam de escorpiões douradosenquanto cruza o corredor do escritório à cozinhamas esses passos esses pasosparece levada por um sopro de anjos ansiosos que abremcaminhos para que a sua princesa levite triunfalmente pelo céunada a detén entre esas paredes nem as risadas e nem os mortos quando dorme rosna ferozmentecomo um animal selvagem fuçando uma saídame aguça os sonhos dentro de sua casacom bonecas nuascaminha […]
- [DO INDIANISMO À LITERATURA INDÍGENA](https://revistasepe.art.br/do-indianismo-a-literatura-indigena/): Custou muito tempo para que a representação literária dos povos indígenas superasse aquela formalizada no “indianismo” brasileiro. Trata-se, a bem da verdade, de um processo ainda não concluído. Não é que Gonçalves Dias e José de Alencar tenham sido irrepreensíveis em seu trabalho, mas a marginalização das identidades indígenas brasileiras por mais de um século competiu na manutenção de uma visão estereotipada da realidade e condições de vida dos povos originários. Nesse julgamento, de certo modo fosse mais correto inocentar os autores românticos e denunciar, talvez, o interesse pitoresco da sociedade brasileira para com uma população que, a despeito das […]
- [LA MINUANA, por Lucio Carvalho](https://revistasepe.art.br/la-minuana-por-lucio-carvalho/): La Minuana foi removido para preparo de uma nova edição.No link ao final da publicação, pode-se adquirira versão impressa do livro. Nesta novela, um pequeno clã remanente das etnias originárias da Cisplatina vaga pelo pampa da fronteira com o Uruguai entre as guerras dos fins do séc XIX. Premido pela doença e pela nova organização social, o clã desenvolve uma reação de fuga e sobrevivência. Enquanto adaptam-se às novas condições de vida, os indígenas travam com o homem branco uma relação de violências e apagamento. Narrado em linguajar fronteiriço, pela voz de um desertor brasileiro acolhido pelos indígenas, La Minuana […]
- [O PODER DE UM GRÃO DE MILHO, por Jorge Miguel Cocom Peche](https://revistasepe.art.br/o-poder-de-um-grao-de-milho-por-jorge-miguel-cocom-peche/): Traduzido por José Eduardo Degrazia Naqueles tempos, quando escutar histórias e contos pela voz dos nossos velhos era o passatempo favorito das crianças, soube da existência de personagens, animais e lugares desconhecidos. Nesses dias, e na falta de livros e revistas ilustradas, fazíamos um grande esforço para botar nas nossas cabecinhas duras as imagens de todas aquelas maravilhas descritas nas narrativas. Assim, a primeira imagem que tive de um rio foi de uma quieta e ondulante serpente de água, e apenas podia acreditar e enfiar na minha cabeça que o avião era como um pássaro de metal rugindo enquanto voava […]
- [O PERCURSO DO GRITO, por Jorge Rein](https://revistasepe.art.br/o-percurso-do-grito-por-jorge-rein/): Em se tratando de seres de imaginação mediana, escassa ou até nula, torna-se imprescindível a existência de um tema inspirador e catalítico que, para abreviar, chamaremos de motivo ou de causa. Suponhamos, por exemplo, um cavalo esvaindo-se em sangue, mansamente deitado sobre a areia úmida de uma praia deserta numa manhã de inverno. Tão importante quanto o motivo deve considerar-se a presença do sujeito passivo-ativo da experiência, que é, ao mesmo, tempo, observador e intermediário. Para tais fins pode nos ser de alguma serventia o concurso da senhorita Aurélia, levando em conta que, apesar de não ser possuidora de qualquer […]
- [É PESADO ESSE BALDE, CHICA, por Nelson Rego](https://revistasepe.art.br/e-pesado-esse-balde-chica-por-nelson-rego/): Publicado originalmente no livro“Daimon junto à porta”, pela DublinenseVencedor do Prêmio Açorianos de Literaturapara o melhor livro de contos, em 2011 1. Quando a vovó lhe diz “vai ao poço, hija, traz um balde d’água” (assim mesmo, a abuela uruguaia lhe chama de filha), a menina vai correndo, a velhinha não tardará a tirar os pães do forno e a colocá-los cheirosos sobre a mesa, a água é para ferver e preparar o café. Desce correndo a coxilha e sobe a outra. A vovó fica à janela, gosta de ver a neta com as trancinhas ao vento, voando, de tão […]
- [O PRIMEIRO DIA NO JARDIM DE INFÂNCIA, por Milutin Durickkovic](https://revistasepe.art.br/o-primeiro-dia-no-jardim-de-infancia-por-milutin-durickkovic/): Tradução de José Eduardo Degrazia Todos ficaram felizes e excitados quando chegou o tempo de irmos para o Jardim de infância. Nossa mãe nos vestiu com pequenos e graves ternos, com gravatas coloridas, enquanto nosso pai cuidava do estilo dos nossos cabelos nos penteando com água fria. – Eles são bonitos como eu e inteligentes como o pai. – Ele disse com orgulho e risadas. – Você tem certeza? – mamãe protestou. – Como se eu não os tivesse trazido a esse mundo… O primeiro dia no jardim de infância foi muito formal. Todo mundo entoando jogos e canções. Normalmente […]
- [3 poemas de Suzana Vargas](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-suzana-vargas/): Genuflexão número 1 A morte não é discretae nos tira de cena devagarDevagar acende nossas rugasnum olhar que vai ficando maise mais azul Indiscretafaz-nos invisíveisrisíveis a olho nuressecados e planos,submissos e vagosfalando por hieróglifoscelebrandouma vagae claudicantememória de elefante (Ou estou no meio dissoassimfalando mesmode mim?) Genuflexão número 2 Quando morrermosmorrerá também a nossa eternidade? A quem mais pode importar o eternosenão a nós?E afirmar a existência do divinoe divinizar a vida ? Dá-me, senhor, a eterna vigilânciadaquilo que em mim é perecívele constante,daquilo que posso tocarvendo sumir aos poucos,na linha do horizontecomo essa pontede eternidade visível e mortale sempre nossaaté […]
- [De 'ANTOLOGIA INVENTADA', por Rafael Courtoise](https://revistasepe.art.br/de-antologia-inventada-por-rafael-courtoise/): Tradução de Thomaz Albornoz Neves X – Houllebecq Desencarnado “Os outros são a consciência do tempo em si enquanto que o um (que abarca reconhecidamente mais do que o eu no que concerne a estrutura, autoconhecimento e desconhecimento, pois inclui a condição animal, inata) é o saber do tempo como circunstância, como mera articulação do que exige ser sem ser alcançado. É o que ocorre com a narrativa de Michel Houellebecq, é o que ocorre com a imbecilidade: é um transcorrer entre o ser em si, e o pretender ser em si, um tipo de alteração ou ruptura do Princípio […]
- [DE 'PÔR A PRUMO O TEMPO', de Pâmela Filipini](https://revistasepe.art.br/de-por-a-prumo-o-tempo-de-pamela-filipini/): VOLTAR-SE PARA SI MESMO Voltar-se para si mesmo.Dar-se em Ternura aos fluentes de espíritoe rebanhar a Solidão que cresce montanhosa no interior das árvores.Dar de comer ao Tempo.Sonhar a Velhice sem infestar o Silêncio.Dar de comer aos povos de cada Artéria.Fechar-se em Semente.Criar medula na possibilidade de Fruto.Colher-se no fim da vida que é,irrevogavelmente, agora.É nisto que me alegro― sem nenhuma misericórdia:a feia e magra sensação do infinito.Um olhar às estrelas e se saber tudo o que hánão sabendo de coisa alguma senão a coisafeita do que sonhamos. ENVELHECIDA É vela onde me escureço.Esta coisa velha que sou,exposta ferida que […]
- [FIM DA AVENIDA, por Myrian Beck](https://revistasepe.art.br/fim-da-avenida-por-myrian-beck/): O meu amor foi deixado ali, para morrer. Eu sei. Eu estava lá. Depois de outra cirurgia de amputação, com menos de quarenta e oito horas na CTI – não tem mais indicação de permanecer aqui – mandaram-no para o quarto. Nao retornou para a ala da cardiologia junto aos outros infartados. Quando percebi, tinham levado sua maca para o andar da neuro, no setor mais antigo do hospital. Havia um pé direito alto como nas igrejas com suas janelas arredondadas na parte superior, viradas para o poente. Ao “escanear” o lugar, ficou óbvio uma infestação de cupins: Rente às […]
- [5 poemas de Lígia Savio](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-ligia-savio-2/): MULHER CHAMADA ADÉLIA Meu consolo é que a mulher chamada Adéliafazia bainha nas calças, como eue ia à missa, como eu não faço mais.E depois a mulher chamada Adéliasentava na varanda e na calçadacom seus compadres a descascar laranjas.De noite pegava o bastidore lá ficava a bordare invocava Maria e outras santas.Minha vizinha, Dona Eusébia,nas tardes de domingo é quem me aconselhava,já que Adélia estava longe,a levantar cedo, rezar muitoe a não deitar mais com o moço cafajesteque me fazia tremer.Mulher chamada Adélia lá do seu interiorqueria só me ver feliz com seus escritos,mas a gente teima e faz bobagem,escolhe […]
- [HOMO FICTUS, por Tiagua R. Kickhöfel](https://revistasepe.art.br/homo-fictus-por-tiagua-r-kickhofel/): O roteiro de curta-metragem é o episódio pilotoda série “Homo fictus” – corpus autoral da tese em desenvolvimento que defende o roteiro como objeto literário,cujo processo de criação parte do deslocamento biográficode pessoas escritoras para o universo de suas poéticas Tiago Kickhöfel – ou Tiagua, como sua avó o chamava -, é um produto do choque cultural entre a sanga e a valeta. Nasceu porco em Canguçu/RS, mas entendeu-se veado nas vilas de Pelotas quando quis ser poeta. Obstante, é pintor, faxineiro, chapa, cartomante e doutorando em Estudos literários aplicados no PPGL-UFRGS.
- [DE 'SITUAÇÕES', de Léo Tavares](https://revistasepe.art.br/de-situacoes-de-leo-tavares/): Situações é uma publicaçãoda LTG Press, de 2023. 1 -> 2 3 <- 4 5 -> 6 Léo Tavares. Nascido em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, vive e trabalha no Distrito Federal. É Doutor em Artes Visuais pela Universidade de Brasília. Pesquisa a relação entre a palavra e a imagem. Autor dos livros de contos O Congresso da Melancolia (Urutau, 2021), Ruibarbo do deserto (Patuá, 2019) e Os Doentes em Torno da Caixa de Mesmer (Modelo de Nuvem, 2014), prêmio Contista Estreante, pela FestiPoa Literária, de Porto Alegre.
- [3 poemas argentinos de Marco de Menezes](https://revistasepe.art.br/3-poemas-argentinos-de-marco-de-menezes/): AS MÃOS RÚSPIGAS as mãos rúspigasnas bordas do café com leiteo cabelo encaracolado e cinzentofarelo de pão que voaquando a porta abree ela abre muitas vezes um chaveiro que é a cabeçade um mergulhadorbotes anônimos sumidos no mar marromcomo corposa piscadela do garçome ele pisca muitas vezes dezenas de garrafas de Brancaperfiladas na sacadaPancho Chévez Capitán Betono se adelanteo el sentinela abrira fuego alfajor matambre e binoas mãos rúspigasas abas de temporalna direção de Saltaum detetive fantasmaque abre as portase elas abrem muitas vezes um fidéo, uma lágrimauma da tarde em NeuquénSelva Almada em Villa Elisae o menino Cenair em […]
- [5 poemas de Gustavo Lagranha](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-gustavo-lagranha/): o mesmo vento que varre as ruas da cidade vazia… o mesmo vento que varre as ruas da cidade vaziasuspende os braços dos ciprestes e cinamomosaquionde não alcança o rumor maquinalonde vários verdes fraturam a gramaé o ruído dos sapos e aves noturnasentoando precesaquionde a luz vence a sombra apenas a tempode eximir o medoe chamar os insetosaquionde se respira mais largono tranquito dos cavalosé essa tarde que não cai não caivermelho a se esparramar no horizonteaquionde o pensamento se espichafumaça do cigarrocírculos concêntricos no açudemesmo vento que encrespada água a vagapenugem balada daqui destes campos abraçam estes campos a […]
- [3 poemas de Juliana Meira](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-juliana-meira-2/): por sobre o tapete de ipêos pombos recolheram suas asasas gentes se acertaram em suas cascasseus meandros a rua recompôs-sedepois que passamos . detrás da paineiraa tarde custa a passarse aconchega . em quantas coisas aquela voz mexenem as amparo mal seguro a tarde prestes a cair Juliana Meira vive em Canela/RS. É autora de Estes que têm futuro bastante (Editora Bestiário, 2023), Água dura (Editora Artes & Ecos, 2019), entre outros.
- [4 poemas de mulheres de língua inglesa, traduzidos por Malu Baumgarten](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-mulheres-de-lingua-inglesa-traduzidos-por-malu-baumgarten/): A primeira água é o corpo (fragmento) Natalie Diaz O rio é minha irmã – eu sou sua filha.Ele é minhas mãos quando dele bebo,meu próprio olho quando choro,e meu desejo quando ardo como um sino de mandiocana noite. O rio diz, Abre tua boca para mim,e eu te farei mais. Porque até um rio pode ser solitário,até um rio pode morrer de sede. Eu sou ambos – o rio e a que contém o rio.Ele me mapeia aluvião. Uma rede de peixes da cor da lua.Passei por ele como fio de cobre. (Natalie Diaz nasceu na California. Ela é […]
- [3 poemas de Letícia Chaplin](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-leticia-chaplin/): PELA PRIMEIRA VEZ eu reconhecia aquele sentimentoum profundo pesar por todas as vidas que eu não viveriauma ojeriza a toda aquela ostentação de vidae de planos irrealizáveis (nem em malditos mil anos)e que te povoam estupidamente aos vinte anos.eu reconhecia aquela sensaçãoa certeza de inaugurar o mundo(ou os mundos)pisando a grama devagar como quem sabeda fragilidade das coisas.mas não sabe.não sabe. não sabeaté que o chão suma pela primeira vezdebaixo das tuas solas duras e cascorentasaté que o céu deságue bombas pela primeira ou segunda vezsobre tua cabeça tontaaté que teu coração pare de bater por trinta eternos segundosantes de […]
- [A ESPADA DO GENERAL, por Luiz-Olyntho Telles da Silva](https://revistasepe.art.br/a-espada-do-general-por-luiz-olyntho-telles-da-silva/): O cesto de lixo, ao lado da pequena escrivaninha, já estava quase cheio de folhas de papel amassadas, mas finalmente encontrara o tema para seu romance: a subversão. Ainda estavam vívidas em sua lembrança as correrias das pessoas, na Rua da Praia, para escapar das bombas de gás lacrimogênio, e mesmo das balas, ocasião em que as cortinas de ferro das lojas serviam de barricadas. Mesmo no medo, abria-se, interiormente, um espaço para o gesto romântico de oferecer um lenço à moça que, só aí, já em segurança, no recinto de um magazine, havia descoberto um ferimento na perna feito […]
- [O TINHOSO SUICIDA, por Salvador Baladan](https://revistasepe.art.br/o-tinhoso-suicida-por-salvador-baladan/): Num canto das vastas terras deste Brasil, cujo nome não importa lembrar, ocorreu um feito corriqueiro entre os tantos que ocorrem diariamente, nada meritório, mas tampouco sem seu mérito habitual. – Eu odeio minha mãe! – Disse uma voz, como solta no ar, parecia um conjunto de sons que não iam de encontro a ninguém, mas alguém respondeu com um gesto de carinho, botando uma mão em cima da mão do filho raivoso. Tem ódios que são atemporais, o tempo passa, mas o ódio continua intacto no peito, do mesmo modo que o amor pode passar anos adormecido num coração, […]
- [NO DESERTO DO OESTE, por Gustavo Lamounier](https://revistasepe.art.br/no-deserto-do-oeste-por-gustavo-lamounier/): No deserto eu me vi, sem direção. Era o fim da tarde. Ali, no deserto, há um homem perante a vastidão. A terra arde, o vento passa. Ninguém sabe que há um homem ali, perante a vastidão. A tarde não sabe, o vento não sabe. Nem os urubus sabem. Deus saberá…? O deserto do oeste me deixara às margens do grande rio. O deserto do oeste o seguia — e espalhava-se por todas as partes. O que é um deserto? — perguntam os profetas. O que não tem margem — responde Deus. Às vezes, o deserto não tem margem, não […]
- [DO QUE VERTE, por Ronaldo Lucena](https://revistasepe.art.br/do-que-verte-por-ronaldo-lucena/): O conto venceu o primeiro concursode contos de Carlos Barbosa, 2022 Na primeira manhã que acordou e viu seu lado da cama encharcado, pensou tratar-se da noite de sonhos estranhos, tendo deixado o corpo em febres. Tapou com o lençol a mancha molhada acreditando, assim, esconder da mulher quando vestisse o leito. Já fazia tempo não ter pressas pela manhã, não sofria mais pelo horário. Desbebeu o corpo e no banho não se deu conta de estar aberta a ferida antiga, nas costas do ombro esquerdo. Por anos a havia esquecido. Também não dava contas das outras marcas envelhecidas no […]
- [COMÉDIA, por Flávio Ilha](https://revistasepe.art.br/comedia-por-flavio-ilha/): Era a ele que todas as honras deviam ser dirigidas. Mas, por uma dessas idiossincrasias da vida, coube a mim o papel central na comédia de erros que aconteceu. Não me queixo. Apenas gostaria de manter um mínimo de franqueza em minhas declarações, como forma de advertir sobre os riscos a que todos estamos expostos. É um exercício solitário e secreto. E perverso, também. A fama tem lá suas chateações. A burocracia da máquina me cansa, os contratos são prolixos. Os advogados, esses seres bizarros, nem sempre sabem como tratar uma cláusula. Se perturbam com seu circuito de condutas e […]
- [UMA CASA BOA, por Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/uma-casa-boa-por-miguel-da-costa-franco/): “Olha, guria, não vai perder o negócio por causa disso! A casa é tão boa, arejada… A rua tranquila… É garantido que a gente resolve. Me dá só uns dois anos e eu tiro ela daqui. Essas mortes violentas são sempre traumáticas. A pessoa não se acostuma, não entende bem o que aconteceu, se recusa a partir”. A sobrinha, que fora buscar o aconselhamento da tia seguidora do espiritismo para aplacar seus temores, não gostou do que ouviu. Todo mundo sabe que essas coisas não se resolvem assim, assim… Ainda tinha bem viva a lembrança da casa mal-assombrada da Haydée, […]
- [MEMÓRIAS DE UM TEMPORAL, por Marga Cerdón](https://revistasepe.art.br/memorias-de-um-temporal-por-marga-cerdon/): . Essa é das brabas”, resmungava a tia solteirona. “É São Pedro arrastando cadeiras”, a mãe retrucava. Iniciavam então os rituais: espelhos cobertos com toalhas, cruz de sal, nacos de sabão no telhado. E para Santa Bárbara, velas e rezas fervorosas. “Tomara passe logo e não faça muito estrago” As nuvens apagavam a tarde e o céu parecia uma imensa chapa sobre o quintal. Pelo desenho dos dedos na vidraça embaçada, espiava o balanço girando sozinho e vento brincando nos cinamomos. Impossivel andar lá fora. As mulheres da casa pareciam não notar o aguaceiro nem temer os relâmpagos. Riam e […]
- [LIBERTA, por Maria da Graça Rodrigues](https://revistasepe.art.br/liberta-por-maria-da-graca-rodrigues/): Trabalho escravo, Mariana? De onde tiraste isto, menina? Não, Mariana, por favor, não me faz passar uma vergonha dessas, tudo o que temos é graças à Dona Vera e ao Doutor Coelho, minha filha. Não vou assinar nada, Mariana, podem me chamar de tudo, menos de que eu seja uma pessoa mal-agradecida. Não quero nem saber pra que serve essa papelada toda e de onde foste tirar esse monte de asneira. Logo agora, Mariana, que a dona Vera está uma pilha de nervos com a morte do doutor Coelho e a coitada sabe que os filhos são uns boa-vida preguiçosos […]
- [De 'OLHAR O AR', por Felipe García Quintero](https://revistasepe.art.br/de-olhar-o-ar-por-felipe-garcia-quintero/): Tradução de Thomaz Albornoz Neves Eu o vi. Foi assim: Um rio de ouro puro, amplo e profundo, brilhava nos meusolhos fechados. Em seu nodoso pulsar, vale adentro, uma selva solitária era a montanha líquida do sol. E de pequenas escamas, três pássaros singravam esse céu em seudorso branco. Com amor de pedra O pássaro olha o céu preso na água.Gota a gota o estilhaça. E a sorvos o reflexo das alturas. Ao voltar de relance ao ar-aquela volta ao ar do olhar-cheios de sede seus olhos tremem. Minha casa, como o deserto, não tem teto nem porta, somente boca. […]
- [DE 'KAIRÓS', de Luiz Renato de Oliveira Périco](https://revistasepe.art.br/de-kairos-de-luiz-renato-de-oliveira-perico/): Há pó sobre os meus livrosOs lidos e os não lidosHá pó sobre a estanteE sobre a escrivaninha Há pó sobre os móveisImóveis no escritórioE vê-se à contraluzQue há pó até no ar Passo o dedo na mesaE desenho uma linhaEsse pó no meu dedoÉ sua vida e é a minha OS SINOS DA MEIA-NOITE Os sinos da meia-noiteAvisam que um dia termina.Ou que um dia começa? (A dubiedade dos sinosDa meia-noite me atravessa…) DUAS NUVENS 1.O sol encoberto pelas nuvens –catarata esbranquiçadasobre olho amarelado 2.As nuvens brancas no horizonte –Uma montanha nevadaEm plena tarde tropical O’HARIANA tomar uma Coca-Cola® […]
- [3 poemas de Ines Lempek](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-ines-lempek-3/): O menino O menino era sonâmbuloabriu a portano meio da noite e saiu era invernoflocos de neve caíamsobre as calçadas havia no ar uma luz azulele parouem frente à fontea água estava petrificada ele alcançou um estilete geladosua pequena mão o segurouno ato, o pedaço de gelo se partiu a noite seguiu nua, desertaazulada a pálida manhão encontrouencolhido –na soleira da porta. Breves eternidades uma mulher bonitade sorriso francono aconchego do seu coloo bebê descansa a imagem preserva o laçoquanto tempo pode passare ainda assim ser preservado quanta incertezasobrevoa os pensamentosna curva dessa sobrancelha quantos oceanos atravessaa doçura desse olharna […]
- [5 poemas de Luciana Nobre](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-luciana-nobre/): entre suavidadese agressõeso mar conquista a inconstância sedenta da praia nuvens passamgaivotas sondamchoram estrelas um amor de espumasao solconta apoucadas luasaté lhe carreguepor força incontestea leveza insólita da menor brisa ah! mar!castelo arenoso,o imperfeito não se sustenta algum mistério em teu olhar…jaz?pulula? ah…o quero traduzir! talvez não diga nada alémdo silêncio próprio das lápides esquecidasmas talveztalvezalbergue a própria poesiano calor taciturno de um par de íris plácidasa uma faísca da refração que nos ressuscite a luz um quê de tristurame pousou úmidoos retentores das frestasna centelha desfalecidaum verde pálidoquase cinzabrinca de se esconderquerendo querendo se espraiaronde estás, amor,que não nos […]
- [1 tríptico de Lucíola Macêdo](https://revistasepe.art.br/1-triptico-de-luciola-macedo/): A delícia do engano. Nuvens de chuvas e névoas deliciosas. Você não devia ter acreditado em mim. Saber-se enganada é um novo tipo de delícia, calada, como aqueles breus sedosos e sem fundo que vez por outra rasgam os céus. Saber-se enganada não lhe causa a angústia e a decepção das paixões tristes em bodas com a verdade. Vem como maré mansa, avançando aos poucos, indo e vindo, suavemente, tomando o ventre desarrumado. Enganada em suas próprias certezas, em suas intenções, em qualquer pretensão de cálculo. Areia, grãos de areia, milhões deles trazidos e levados pelas águas num fluir e refluir. Perder-se irresponsável […]
- [DE 'OS HERÓIS DO PARQUE BOROWSKI', de Miguel da Costa Franco](https://revistasepe.art.br/de-os-herois-do-parque-borowski-de-miguel-da-costa-franco/): Trecho da novela publicada pela Boaventura Editora (Porto Alegre, nov/22). (…) Foi sem a desejada entrevista prévia com o Turco que o garoto compareceu à Chefatura de Polícia naquela quarta-feira à tarde. Como esperado, o pai exagerou nas recomendações quando estavam a caminho: – Fala só o necessário. Economiza nas palavras. Só responde o que te perguntarem. A repartição pública era acanhada e a saleta do delegado transbordava de móveis, grossas pastas de papel e, mais literalmente, da água acolhida em baldes e tigelas, em razão das goteiras que a irrigavam, aqui e ali. Um escrivão de dentes ruins postara-se […]
- [PASSAGEM PARA A ÍNDIA NO BOM FIM, por Cátia Simon](https://revistasepe.art.br/passagem-para-a-india-no-bom-fim-por-catia-simon/): Conto publicado em A arca de desejos por Porto Alegre– org. por Cátia Castilho Simon e Liana Timm.Porto Alegre: Território das Artes, 2022. Escolheram a dedo o filme, todo mundo comentava que era imperdível e passava no cinema do Bom fim, podiam ir a pé mesmo em cima da hora. Mal fecharam a porta e o telefone tocou. Olharam-se e comentaram que devia ser o pessoal da reunião que dali a pouco iniciava. Já haviam decidido que não iam e seguiram em frente. Da Felipe Camarão até a Oswaldo era um pulo e andaram rápido. Entraram no Baltimore quando as […]
- [DE 'CARANCHO', de Rodrigo Tavares](https://revistasepe.art.br/de-carancho-de-rodrigo-tavares/): Leia a seguir o capítulo 2 de Carancho,novo romance de Rodrigo Tavarespublicado pela editora Diadorim. Interior de Santa Vitória do PalmarJaneiro de 1893(capítulo 2) Quando saiu de nossa casa, meu marido, Tarcísio Gutiérrez, estava inquieto, revisava os bolsos, entrava e saía do rancho, como se tivesse esquecido algo. Fazia de tudo para fugir do meu olhar. Encilhou o cavalo e mal nos deu atenção. Partia para a guerra pela primeira vez. Ele tremia quando escabelou Floriano, nosso pequeno. Essa era uma pequena brincadeira dos dois. Segurei a mão dele. Apertei firme e encarei seus olhos, enquanto acariciava a barba farta, […]
- [DE 'MADRESELVA', de Angela Quartas](https://revistasepe.art.br/de-madreselva-de-angela-quartas/): O corpo e o sangue de Cristoé um dos 52 contos de Madreselva,livro lançado em 2023 pelaa Diadorim Editora. Ana Lucía engoliu a mãe quando tinha nove anos e cinco meses. Foi no dia da sua primeira comunhão. A princípio, o mais importante que Ana Lucía engoliria naquele dia seria a hóstia consagrada, inclusive tinham ensaiado o momento por mais de três meses na capela do colégio em duas filas organizadas em ordem de estatura. As meninas se aproximavam do altar da capela e, com a solenidade que o corpo e o sangue de Cristo exigiam, abriam com delicadeza suas […]
- [4 poemas de Diego Petrarca](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-diego-petrarca/): O homem não sorrivibra por ele o que ele vêquando o rio diminui o som da tardeem águas disparadas No quartosobe a poeira azulluzes revezam Noite choverandoasfalto molhadoa rã salta alto Bafo de calorpiscina pra consolopás do ventilador Diego Petrarca nasceu em Porto Alegre em 20 de março de 1980. Publicou, entre outros títuos independentes, os livros: CadaCoisa (Multifoco – 2012), Vento & Avenca (Athy – 2012) , Hai-Cábulos, (edições Dulcinéia Catadora – 2012) com Andréia Laimer, Tudo Figura, (IEL- 2014), – selecionado pelo Plano de Edições do Instituto Estadual do Livro (indicado ao prêmio AGES poesia 2015), Carnaval Subjetivo (Bestiário – 2018), Melhor é ser um peixe (Plaquete – […]
- [4 poemas de Gyzelle Góes](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-gyzelle-goes/): camuflagem cores e carpas,o coração, bravio,no interior do poema risco os teus ouvidos, camufladobrincos de escamas brinco. movido de mudez,os teus ouvidos. mínima faísca reparei-os pela manhã,ao invés da cor dos terremotose da carne dos falcões, eu reparei seus olhos vermelhosmais vivos do que a coloraçãoda íris dos vulcões no dia em que eu abriro meu coraçãoa você você vai reparar como é avermelhadoo meu coração:basta uma mínima faísca. onde dormem os barcos inicio um poema de mãos ásperasda maresia que ilustrei o teu nomecoisa boba e raraum marisco,o rabiscoao chão uns grãos de areia da casa eu te aponto […]
- [2 poemas de Myrian Beck](https://revistasepe.art.br/2-poemas-de-myrian-beck/): Abuso A luz quebrada do abajur,a espera.Respiras perto do vidroteu vapor nubla janela.Um drinque, doislâmina na memóriao segredo da tapera “até depois”. Um coração partido resistindobravo coraçãoo sol se indolágrima pelo vão do céuo sono cujo véu não chega ensina:reza unindo as pernas queassombração não cai por cima. Lá fora, garoa no capô te nina.Lama tem carbono, orienta freiraressecada no pneu da rural willisem tom grafite geladoDe dentro do cobertordás adeus à Via Lacteanum só olho arregalado. Boazinha, trazes ovos para o bolo(me abomino)malvada, apedrejas passarinhos(me protejo)frente ao espelho de cristal da bisaabre-te em dedos(faço treze no final do ano)eis […]
- [4 poemas de Almir Zarfeg](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-almir-zarfeg/): Os quatro poemas acima compõem o livro inédito Poemia,que deverá ser publicado em breve. À LA GODARD Nosso pai está morto da silva e veladobem encenado e infartado do miocárdio Dizia vou ali e volto já, palavra de José eo bicho homi desaparecia no vasto vale Retornava uma semana depois com seucinismo em 1º plano e roteiro de segunda O pássaro branco passava rente à nossacasinha de barro bufando zoeira e zás E necas do safado que, de novo, haviatrocado o lá doce lá por um rabo de saia Assim nos matava, a um tempo, de raivae saudade tecidas com […]
- [2 poemas de Cristina Macedo](https://revistasepe.art.br/2-poemas-de-cristina-macedo/): Perdendo Ando perdendo coisasrarasbanais Ando perdendo amigosde antese atuais Perdendo o gostoa paciênciamúsculos Perco meus diasouvindo bazófiasfalso-filosóficas Perco noites de sononessa era macabradesprovida de sonhos Ando perdendo o humora cabeçao apetite Perdendo oportunidadesperdendo pontosperdendo o trem Ando perdendo a palavraa eloquênciao espetáculo Ando perdendo muitoando perdendo tantotempo Dimensões entre o silêncio e o silêncioinfinitasdimensões coragem de temermedo do escuro entre o silêncio e o silênciosonho fecundotorto mundo viro o discoviro o copoquebro o vidro entre o silêncio e o silênciotodas asconstelações Cristina Macedo é poeta, escritora de contos, tradutora e professora de inglês, mestre em Literaturas de Língua Portuguesa. É […]
- [1 poema de Dinarte Albuquerque Filho](https://revistasepe.art.br/1-poema-de-dinarte-albuquerque-filho/): espero a primaverapara voltar a sentiro perfumeespero não me submeterao negrume das máquinas à ausência das fábricas à impermeabilidade do betume.quero o q é meu : a alegria de olhar pela janelaescrever um poema paraàs sete da manhãreceber um bom diade quem há muito me ocupa.cansei da culpa ede querer fazer sentido ede dar ouvidos aquem me entristece; estou fartode preconceito e de inverdadesde pretender o controlesucumbir às vaidades– canseido q é friocanseido q é perfeito masenquanto isso não passaenquanto não parto penso em ti, como pensofico em silênciona sombra do meu corpo me recomponhoentre sonhos q me assombram aguardo […]
- [5 poemas de Liana Timm](https://revistasepe.art.br/5-poemas-de-liana-timm/): CISMA há uma ilha dentro de mimuma ilha distante do continentede praias sem fimcom serpentes e gengivasdiabos e santidades dentro de mimuma ilha de eclipses inominadose fraturas expostas ecos e reverberaçõesexprimem a ventaniacom flor a agonia na incerteza do entendimentoa perfeição do ovo bate nos coraiscomo um peso de papel as palavras vão aos cardumesbuscar na solitária escolhaa compulsiva imaginação SEDATIVO por minha conta e riscovou ao despenhadeirochego no limite triunfante do medopercorrida por um fio gelado de águaentrado pelo paraíso negro da mente recuo a vida dói e róino caracol da terraredonda ilusão de inércia nem enganos mais colecionotudo […]
- [3 poemas de Daniel Rodas](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-daniel-rodas/): A MENINA DO BRINCO Como quem do nada me atiça numafoto (Coisa que ainda nem existemas já captura no instante-susto) Salta sobre mim o velho Vermeercom sua sede de ventres e pincéis Traçando meu rostoDando-me um brinco Uma pérola falsa que amanhã mesmodesbota Enquanto a tintaNódoa brancaPermanece. RÉQUIEM PARA ÓSSIP MANDELSTAM Na selva fria de VladivostokLá perto de onde o sol se esconde Vejo teus olhos numa tarde deInvernoSorvendo a distância nos buracos daPele E de pertoNa calha da cabeçaO pensamento no correr de Nadiejda Os poemas mortosQuase sempre mornosAquecendo a solidão de estar ali Mas não aquiNa selva friaLonge […]
- [EU PRECISAVA ENTERRAR MEU PAI, por Lúcia Nogueira Leiria](https://revistasepe.art.br/eu-precisava-enterrar-meu-pai-por-lucia-nogueira-leiria/): A funerária só levaria o caixão até a entrada do cemitério. Faltava acertar os serviços internos, o coveiro, a foto na lápide, os dizeres, essas coisas todas, mas urgente mesmo era alugar o carrinho que faria o traslado até o túmulo. O ambiente era familiar, eu já havia estado lá outras vezes. No enterro de um tio, de um primo, de uma prima, de uma amiga. Tantas vezes. Lembrava bem da entrada, um portão grande de ferro preto, túmulos em tons acinzentados e o chão coberto por uns pedregulhos minúsculos. Decidi ir andando. No caminho, me distraí. Vi um pé […]
- [O DIA EM QUE DESCI O MORRO, por Vera Ione Molina](https://revistasepe.art.br/o-dia-em-que-desci-o-morro-por-vera-ione-molina/): Sentinela acordou, tomou água fazendo aquele barulho que soava como uma pessoa nadando no riacho. Minha mãe passava a colher na panela e virava os restos do almoço na tigela dele. Comeu balançando o rabo e correu para a porta da rua. Ele sabia que eu precisava ir em direção às luzes da cidade. A vista noturna parecia um filme, e eu queria fazer parte dele, ou chegar tão perto da tela quanto possível. Caneta, caderno, tênis calçados, garrafinha com água, saí de casa e mais uma vez olhei o movimento lá longe. Sentinela corria à minha frente e voltava […]
- [ONTEM, HOJE, AMANHÃ, por Catia Schmaedecke](https://revistasepe.art.br/ontem-hoje-amanha-por-catia-schmaedecke/): Ainda que ela se esticasse nas pontas dos pés, mal alcançava a velha lata de biscoitos em cima do balcão. Lucinha podia ouvir o estômago do irmãozinho contorcendo-se em um longo lamento desde as primeiras horas da manhã, quando um raio de sol invadira o barraco através da rachadura na parede. Quem escutava de longe o choro de Maicon não acreditava quando o via de perto. O menino de rosto encovado e pernas de cambito transmitia toda a fragilidade no olhar. O sofrimento causado pela fome é que, à distância, o fazia parecer muito maior. Ela bateu na lata para […]
- [FORÇA, por Cristiano Fretta](https://revistasepe.art.br/forca-por-cristiano-fretta/): (…)Assim expira o mundoAssim expira o mundoAssim expira o mundoNão com uma explosão, mas com um suspiro. Os homens ocos – T.S. Eliot Mas a lomba, a insensível e petrificada inimiga dos asmáticos e das barrigas cheias que tentavam subir a Rua da Praia em direção à Independência, continuava lá durante todas as tardes em que eu a via por detrás da minha embaçada janela de bocejos de papéis que não podiam ser rasgados. O Seu Seixas então surgia, agredia a firmeza da minha mesa com um soco de pilhas de folhas e sumia-se em direção ao reino do não […]
- [NEGRURA, de Edson Cruz, por Almir Zarfeg](https://revistasepe.art.br/negrura-de-edson-cruz-por-almir-zarfeg/): Com exceção dos títulos (grafados em caixa alta), todos os poemas que compõem “Negrura” (Kotter Editorial, 2022), de Edson Cruz, se iniciam com letras minúsculas. No geral, os textos poéticos assumem a forma de versos livres e, portanto, prescindem das rimas e da métrica, com raras exceções, como no caso do “Soneto de bolso”, que apresenta apenas o 1º quarteto – com versos rimados (ABBA) e metrificados (decassílabos). Aparece também uma quadra (não uma trova, conforme informado) – com rimas nos 2º e 4º versos, mas sem a presença da métrica. Formalmente, os textos são escritos em uma linguagem simples, […]
- [4 poemas de Carlos Badia](https://revistasepe.art.br/4-poemas-de-carlos-badia/): Aescrita e sua oralidade, a dimensão gráfica da palavra, a disposição diagramática – feito mapa – do encadeamento das frases/palavras, as junções, os tempos e ritmos, as intersecções, as metalinguagens, as transversalidades, as possibilidades ocultas do subtexto e as alternativas linguísticas e poéticas para além da obviedade, sempre me interessaram na Literatura. No labor textual. Creio que sejam os elementos que alimentam mais profundamente minha escrita e o olhar. E o correr riscos sem estar maneado. Um pouco de subversão sem desrespeito aos cânones acadêmicos ou formais. E a candura possível nesse mundo de tanta dor e descaminhos. Eis-me texto […]
- [BRAVA SERENA E ALICES DE ROBERTO, por Monique Rodrigues](https://revistasepe.art.br/brava-serena-e-alices-de-roberto-por-monique-rodrigues/): Recomeçar. Essa é uma das tarefas mais difíceis da vida, porque recomeços implicam abrir mão do que já é seu. Significa abandonar a sua zona de conforto em busca de algo novo. Seja outro emprego, outro relacionamento ou outro lar, o fato é que recomeçar é encarar o novo, de novo. Uma história de recomeços é o que nos apresenta o gaúcho Eduardo Krause, no seu romance Brava Serena, publicado em 2018 pela editora Dublinense, e atualmente na segunda edição. No livro, conhecemos Roberto Bevilacqua, um viúvo aposentado, de setenta e dois anos, que resolve mudar-se de vez para a […]
- [DE 'UMA CHANCE DE CONTINUARMOS ASSIM', de Taiasmin Ohnmacht](https://revistasepe.art.br/de-uma-chance-de-continuarmos-assim-de-taiasmin-ohnmacht/): Leia a seguir o primeiro capítulo deUma chance de continuarmos assim,lançado no último 30 de junho em Porto Alegre CLARO DEMAIS(Capítulo 1) Eu não enxergo nada. Por muito tempo tive pavor do escuro, vivia um terror absoluto quando acordava no meio da madrugada. O breu do quarto e o silêncio da casa me lançavam em uma sensação de perigo iminente, vivia a certeza de que algo me tomaria de assalto e me aniquilaria. Eu só tinha uma defesa: acender a luz. Na verdade, poderia gritar também, nada me impedia, ainda assim algo em mim permanecia lúcido o suficiente para saber […]
- [3 poemas de Blenda Santos](https://revistasepe.art.br/3-poemas-de-blenda-santos/): Crio tecnologias com a boca uma mulher carregando no ventre um caixão de uma tonelada levantou voo nesta madrugadaum menino correndo na rua atrás de uma bola também desafiou as leis da físicaela que não aprendeu a ler, me ensinou a escrever poesiae se eu esquecer, eu nem sei mais o que fazereles não queriam que eu viesse, mãee eu sou poetacrio tecnologias com a boca, pois preciso lembrar de cada animal em extinção nesse país, em que todo mundo sonha em ter um painós não somos iguais e graças a deusum movimento contínuo para queimada de sutiãs nunca me […]
- [1 poema de Antonio Prates](https://revistasepe.art.br/1-poema-de-antonio-prates/): Ezequiel 23:5 Ai da terra que projeta suas sombraspara além das montanhas da Etiópia,e ai daquele que estende as mãos em direçãoàs finas folhas desse livrocujas palavrasescorrem entre os dedose se precipitamcomo anjos caídos. Porventura podem as terras serem lavradas por búfalos?Ou os cavalos se perderem em disparadadespencando entre os rochedos e as ravinas? As línguas desses ídolos de ouroforam polidas pelos homensmas tudo o que proferemsão ardis para os encantar.Dizem, ao redor das fogueiras,que se alguém se aproximar o bastantede suas bocarrasouvirá guinchos e urrosabafadosque não escondem suas indecênciasmesmo quando expressas em línguas ignotas. O pária espreita atrás das colunase […]
- [De 'EFEBA', de Maria Ottília Rodrigues](https://revistasepe.art.br/de-efeba-de-maria-ottilia-rodrigues/): Poemas de Efeba, lançamentoda Editora Bestiário em 2023. Peso do tempo Tem um elefante nos meus braçoscarrego o bichonão come enão emagreceele descansa nos meus sonhos O elefante berra muitoa trompa me puxafico atordoadapresa e surda Não me deixa dormir o elefantenão me deixa falar(o elefante só engordacom o passar da vida). Carnaval Ouço gritos e risos na esquinadança à frente o Divinoobservo a felicidade rodandoem um cortejo finito de vidas. Continuidade Ao olhar o caos no centro de uma cidadenuma quarta-feira qualquerem um dia de outono qualquersinto que tudo está nos eixosos olhos esbugalhados dos vendedoressorvetes e picolés na […]
- [DE 'AZUL INSTANTÂNEO', de Pedro Vale](https://revistasepe.art.br/de-azul-instantaneo-de-pedro-vale/): É preciso viver sem paixões.Mergulhar no absoluto anonimato,Permanecer morto ou vivo até ao fim.Aclamar o tumulto escuro e bruto.Encenar o drama clemente e lento.Sentir um amor ideal por anjos nebulosos.Descobrir um novo fundo de poesia e aguardaruma voz que nos ordene docilmente:– Não te movas, nem te inquietes,nem traias o queainda nãoés. PortoA poesia vaiPela rua,Nua.Esconde-seNas manhãs maisFrias.E é à noite que lhe fogeA voz.LentaE lenta,Lentamente,AtéDesembainharNaFOZ Luz(a) almaSossega e vive do arA cómoda alma, armário espacial.Plana e cisma a esmola pintadaNa rua nua e perfumada.Sonha a universal fundação,À beira-rio, navio-fantasma e fruição.Entoa, na guitarra infantil, dramática gente,Num acorde simples, medieval.– […]
- [DE 'A INEVITÁVEL FRAQUEZA DA CARNE', de Wilson Gorj](https://revistasepe.art.br/de-a-inevitavel-fraqueza-da-carne-de-wilson-gorj/): Aqui, o prólogo de A inevitável fraqueza da carne,de Wilson Gorj, publicação da Penalux, de 2023. E o livro? Sai quando? Por trás do balcão, o garçom puxa conversa comigo enquanto abre a cerveja e vai enchendo devagar meu copo, mantendo certo cuidado para não espumar muito. — Sinceramente, não sei — respondo, depois do primeiro gole. — Ainda estou nos ajustes finais. Talvez demore um pouco. Esse rapaz é o único auxiliar que o dono mantém nesta birosca que frequento desde que me mudei para cá há poucos anos. O fato é que não cheguei a comentar nada com […]
- [Missões: entre a memória e o esquecimento](https://revistasepe.art.br/missoes-entre-a-memoria-e-o-esquecimento/): Lucio Carvalho07/2026 Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia […]
- [400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis e a literatura do RS](https://revistasepe.art.br/400-anos-das-missoes-jesuiticas-guaranis-e-a-literatura-do-rs/): Os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis representam uma oportunidade singular para a reflexão acerca das relações entre a literatura, os povos indígenas e a experiência missioneira, bem como sobre seus desdobramentos históricos e culturais. Neste encontro, escritores e pesquisadores apresentarão suas pesquisas e obras, promovendo um diálogo com o público acerca do processo histórico e de suas conexões com a produção literária do Rio Grande do Sul.
- [Encerramento](https://revistasepe.art.br/encerramento/): Publicada pela primeira vez em fevereiro de 2020, a revista Sepé encerrou suas atividades em dezembro de 2024, após a publicação de 13 edições nas quais foram publicadas milhares de páginas trazendo literatura na forma de poesia, ficção, ensaio, crônica, crítica e entrevistas. Em agosto de 2021 (n. 6) e agosto de 2024 (n. 12), foram publicadas edições especiais trazendo toda a publicação inédita veiculada na revista, isto é, conteúdo que teve sua primeira publicação na Sepé. Alguns destes conteúdos em prosa podem ser obtidos por meio do livro Contos da Sepé, disponível neste link ou nas livrarias. O acesso […]
- [VOL. 5, N. 13/2024](https://revistasepe.art.br/vol-5-n-13-2024/): SUMÁRIO ‘A ANALFABETA’, DE ÁGOTA KRISTÓFDaniela Kern ‘A ARTE DE ESPANTAR DINOSSAUROS – COMO A ARTE PODE INSPIRAR A MEDICINA’, DE ANDRÉ ISLABÃOLelei Teixeira ‘A CABEÇA DO SANTO’, DE SOCORRO ACIOLIRonaldo Lucena ‘A CIDADE DAS LETRAS’, DE ANGEL RAMALuis Augusto Fischer ‘A ELEGÂNCIA DO OURIÇO’, DE MURIEL BARBERYAnaí Bueno ‘A FALÊNCIA’, DE JULIA LOPES DE ALMEIDACatia Simon ‘A LENTIDÃO’, DE MILAN KUNDERAMarli Silveira ‘A MORTE DA MÃE COMO CENTRO DOS RELATOS EM ‘DIÁRIO DE LUTO’ E ‘LILI: NOVELA DE UM LUTO’Dani Langer ‘A MULHER QUE ME SONHA’, DE MARINA DELLA VALEMar Becker ‘A PAZ SEJA CONVOSCO’, DE SCHOLEM ALEIHEMCelso Gutfriend […]
- ['A ANALFABETA', DE ÁGOTA KRISTÓF](https://revistasepe.art.br/a-analfabeta-de-agota-kristof/): Por Daniela Kern Apenas recentemente fui introduzida à obra de Ágota Kristóf (1935-2011), escritora húngara exilada na Suíça. Lembro até da primeira menção a ela que encontrei, feita por Elvira Navarro, que a aproxima à literatura de Aurora Venturini. Fiquei curiosa e assim que soube que a brevíssima autobiografia de Kristóf (A analfabeta: um relato autobiográfico. Tradução: Prisca Agustoni. São Paulo: Editora Nós, 2024) havia sido publicada em português, corri para lê-la. E li antes de ler o outro lançamento de Kristóf em português, a Trilogia dos gêmeos (O grande caderno; A prova; A terceira mentira. Tradução Diego Grando. Porto […]
- ['A ARTE DE ESPANTAR DINOSSAUROS – COMO A ARTE PODE INSPIRAR A MEDICINA', DE ANDRÉ ISLABÃO](https://revistasepe.art.br/a-arte-de-espantar-dinossauros-como-a-arte-pode-inspirar-a-medicina-de-andre-islabao/): Por Lelei Teixeira O ano de 2024 foi marcado por muitas leituras e eventos ligados aos livros, confirmando a certeza de que o envolvimento com cultura, criação e arte traz identidade e salva. Ao jogar luzes no meu cotidiano, esses momentos descortinaram novos horizontes, me estimulando a seguir em frente. Abriram portas e aguçaram os meus sentidos. Um livro que simultaneamente me ensinou, emocionou e apontou caminhos, deixando um rastro literário instigante ao entrelaçar a criação com o nosso bem estar foi “A arte de espantar dinossauros – Como a Arte Pode Inspirar a Medicina” (Pelotas – Ballejo Cultura & […]
- ['A CABEÇA DO SANTO', DE SOCORRO ACIOLI](https://revistasepe.art.br/a-cabeca-do-santo-de-socorro-acioli/): Por Ronaldo Lucena O primeiro romance de Socorro Accioli, de uma ideia desenvolvida na oficina literária “Como Contar um Conto”, de Gabriel García Marques, em 2006, nasceu só em 2014. Um exercício de imaginação, na árvore do realismo mágico e suas inspirações, sendo o personagem Samuel, do livro de Socorro, quase um irmão gêmeo de Juan Preciado, das páginas de Pedro Páramo (Juan Rulfo). Ambos os personagens obedecem à mães moribundas, e partem em busca do pai desconhecido, numa trajetória longa em tempo e distância, de fome e mistérios. Samuel sai de Juazeiro do Norte, tendo como destino a pequena […]
- ['A CIDADE DAS LETRAS', DE ÁNGEL RAMA](https://revistasepe.art.br/a-cidade-das-letras-de-angel-rama/): Por Luís Augusto Fischer Nos tempos coloniais e ao longo do século 19, às vezes ainda depois disso, as ruas costumavam ter nomes relativos ao seu uso, à sua forma ou a figuras ali residentes. Rua da Praia; da Olaria; do Comércio; dos Cachorros; do Cotovelo; do Poço; da Ladeira. Beco do Mijo; do Fanha; dos Guaranis. Depois da Independência e depois com o advento da República, esses nomes foram mudados para homenagear as figuras e os heróis do novo tempo. A praça do Paraíso virou praça Conde D’Eu e, depois de 1889, XV de Novembro. A rua da Igreja […]
- ['A ELEGÂNCIA DO OURIÇO', DE MURIEL BARBERY](https://revistasepe.art.br/a-elegancia-do-ourico-de-muriel-barbery/): Por Anaí Bueno A elegância do ouriço é narrada em primeira pessoa, com capítulos alternados entre duas protagonistas com idades e classes sociais distintas: Renée Michel, 54 anos, zeladora e Paloma Josse, 12 anos, estudante. Ambas moram num prédio de luxo em Paris, mas não se encontram durante boa parte da narrativa. Renée trabalha como zeladora do número 7 da Rue de Grenelle, há vinte e sete anos, lidando com moradores ricos e tradicionais, cujos apartamentos são transferidos via herança. Mora com seu gato Leon e cultiva amizade com Manuela, uma faxineira portuguesa que também é rainha. Quanto aos outros, […]
- ['A FALÊNCIA', DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA](https://revistasepe.art.br/a-falencia-de-julia-lopes-de-almeida/): Por Cátia Castilho Simon A falência (1901) foi o quarto romance de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) que teve uma carreira profícua, sendo considerada uma das primeiras intelectuais brasileiras do final do século XIX e meados do XX. Também escreveu contos, peças de teatro, crônicas, obras didáticas e literatura infantil A escritora publicou em folhetins muitos dos seus romances. Consta que Memórias de Marta (folhetim de 1888 a 1889 e livro em 1899) trata do universo dos cortiços antes mesmo de Aluísio de Azevedo ter publicado O cortiço (1890). No entanto, quase nenhuma referência é feita ao fato. Perdemos nós, […]
- ['A LENTIDÃO', DE MILAN KUNDERA](https://revistasepe.art.br/a-lentidao-de-milan-kundera/): Por Marli Silveira A sensação do transcurso desatinado das horas é o sintoma do mundo contemporâneo, acolhido das grandes transformações tecnológicas que alargaram por completo os limites do espaço-tempo. Muito embora a fisiologia da cronologia, se assim podemos dizer, repercuta uma pequena variação na velocidade mesma do transcurso, a percepção de que o tempo passa mais depressa atravessa todas as experiências humanas, impondo um ritmo que reafirma e retroalimenta o sintoma. Não é à toa que a infância se transformou na principal geografia que guarda certo compasso com a lentidão e um tipo de experiência mais qualificada e original/originária. O […]
- ['A MORTE DA MÃE COMO CENTRO DOS RELATOS EM 'DIÁRIO DE LUTO' E 'LILI: NOVELA DE UM LUTO'](https://revistasepe.art.br/a-morte-da-mae-como-centro-dos-relatos-em-diario-de-luto-e-lili-novela-de-um-luto/): Por Dani Langer Durante a escrita de meu trabalho mais recente (o romance Deságua, lançado pela editora Zouk neste ano), percebi que minha biblioteca começou a ganhar uma nova configuração. Sempre mantive a organização dos livros da maneira mais simples possível, tanto por uma questão de espaço quanto de praticidade: separo as prateleiras por prosa, poesia, escrita criativa e não ficção. Em cada uma das categorias os livros estão reunidos por ordem alfabética do sobrenome de suas autorias. A partir de 2014, quando iniciei a pesquisa do romance, vi surgirem pela primeira vez em minha vida de leitora pequenas coleções temáticas: […]
- ['A MULHER QUE ME SONHA À NOITE', DE MARINA DELLA VALLE](https://revistasepe.art.br/a-mulher-que-me-sonha-a-noite-de-marina-della-valle/): Por Mar Becker “Cova profunda é a boca das mulheres estranhas”, dizia a catequista do grupo de jovens da igreja, “aquele contra quem o Senhor se irar cairá nelas”, lia e repetia o provérbio, os lábios de moça crispando-se na tentativa de disfarçar a língua ligeiramente presa, a pronúncia lavrada pela miragem da velha, à figuração de uma costureira que sustém no beijo teso um alfinete – como um ferrão. Não sei em que lugar de mim estava escondida essa lembrança; sei que o encontro com este A mulher que me sonha à noite, de Marina Della Valle, avivou-a de […]
- ['A PAZ SEJA CONVOSCO', DE SCHOLEM ALEIHEM](https://revistasepe.art.br/a-paz-seja-convosco-de-scholem-aleihem/): Por Celso Gutfreind “A paz seja convosco” é uma coletânea de matérias sobre e contos do escritor Scholem Aleihem, um mestre do gênero narrativa curta. A edição é da Perspectiva, de 1966. Um luxo com direito a reflexões iniciais de Otto Maria Carpeaux, entre outras feras literárias. Scholem influenciou uma legião de escritores judeus e não judeus do Século passado, e mesmo deste, o que inclui narradores do porte de Roth e Bellow e, entre nós, Moacyr Scliar, admirador confesso do mestre. Nascido na Rússia, no meio do Século XIX, deu vida a personagens judaicos reclusos no shtetl, ou pequenas […]
- ['A SOMBRA DO MAL', DE NEUSA DEMARTINI](https://revistasepe.art.br/a-sombra-do-mal-de-neusa-demartini/): Por Vera Ione Molina Vozes da Ancestralidade e Segredos da Rua Mundo, Editora Metamorfose; Quatro Mulheres e O enigma por trás do muro, Editora Bestiário são as novelas que antecedem “A sombra do mal”, todas escritas depois dos setenta anos, como a autora, Neusa Demartini, gosta de destacar. Conheci Neusa no início dos anos noventa, em uma oficina de literatura para a infância, ministrada pela escritora Zahyra de Albuquerque Petry. Ela andava então às voltas com as duas universidades onde lecionava nos respectivos cursos de jornalismo e havia escrito uma peça de teatro que fora premiada. A professora estava interessada […]
- ['A TEORIA DA BOLSA DA FICÇÃO', DE URSULA K. LE GUIN](https://revistasepe.art.br/a-teoria-da-bolsa-da-ficcao-de-ursula-k-le-guin/): Por Rochele Bagatini A estória não quer ser história. A estória,em rigor, deve ser contra a História.João Guimarães Rosa, Tutameia O livro A teoria da bolsa da ficção chegou até minha casa pelas mãos do meu companheiro que, entre outras coisas, é livreiro e conhece minha paixão pela criação literária e pelos mundos imaginados de Ursula K. Le Guin. Chegou numa ecobag, com outros livros selecionados por ele para nós. Só abri depois de retirá-lo do meu recipiente de livros, a estante, quando o grupo de estudos do qual faço parte decidiu estudá-lo, um tempo depois do exemplar chegar aqui, no meu […]
- ['A TRAVESSIA', DE CORMAC MCCARTHY](https://revistasepe.art.br/a-travessia-de-cormac-mccarthy/): Por Lucio Carvalho Billy Parham não tem dezessete anos ainda. Tendo vivido desde sempre no rancho da família, ele não tem muita experiência de vida também. A Segunda Guerra ainda não eclodiu, está eclodindo, e seus ecos chegando ao solo norte-americano, mas o que Billy precisa viver é o mesmo que fosse a guerra, seu desespero e ansiedades generalizados e um tempo no qual o instinto de sobrevivência é imperioso, ainda mais que em meio a um mundo que parece não ter mais muito em conta (ou desprezar) o menor indício de racionalidade. Numa noite de inverno, uma loba chega […]
- ['A VEGETARIANA', DE HAN KANG](https://revistasepe.art.br/a-vegetariana-de-han-kang/): Por Flávio Oliveira Durante mais ou menos quinze anos da minha vida fiquei sem comer carne. Foi uma decisão voluntária baseada em razões individuais e também coletivas que não vêm ao caso destrinchar aqui. Mas posso dizer com tranquilidade, que tal experiência contribuiu bastante, e de várias maneiras, para a minha formação pessoal. Talvez tenha sido por isso que o romance A Vegetariana, da escritora sul coreana Han Kang (1970), despertou a minha curiosidade quando, em 2018, foi relançado no Brasil pela Todavia. Antes, ele havia sido publicado pela Devir em 2013, porém sem grande repercussão. Confesso que o fato […]
- ['A OUTRA VOLTA DO PARAFUSO', DE HENRY JAMES](https://revistasepe.art.br/a-outra-volta-do-parafuso-de-henry-james/): Por Cecilia Kemel Um clássico incontestável da literatura fantástica é esta narrativa do mestre Henry James. Desenvolvendo nítidas características do gótico, em ambientação sombria, com apelo ao sobrenatural, é uma história precursora da tipologia que se movimenta pelo suspense e pelo medo. Narrado ao pé da lareira, em noite fria, a um seleto grupo de amigos, o relato se faz por meio de um escrito da preceptora de um par de crianças. Envolve diretamente as ações de um antigo criado de quarto, Mr. Quint, e da ex-preceptora dessas crianças, Miss Jessel, ambos mortos, cujas aparições constituem o foco nomeado, na […]
- ['AL BORDE DE LA BOCA', DE CARMEN M. CÁCERES](https://revistasepe.art.br/al-borde-de-la-boca-de-carmen-m-caceres/): Por Iuri Müller Anotado em um diário, com data de 14 de maio de 2024. Há duas semanas, antes da subida das águas do Jacuí, do Taquari e do Guaíba, deixei reservado com o livreiro Miguel Gómez, da livraria Calle Corrientes, um ensaio literário sobre o mate, livro escrito por uma escritora missioneira: Al borde de la boca, de Carmen M. Cáceres. Não sei quando poderei retirar o exemplar. A Calle Corrientes fica na esquina da Mauá com a Uruguai, a poucos passos do rio: como a sala do livreiro está no segundo piso do edifício, penso que o acervo, […]
- ['AMRIK', DE ANA MIRANDA](https://revistasepe.art.br/amrik-de-ana-miranda/): Por Antonio Prates O romance “Amrik”, de Ana Miranda, publicado em 1997 pela Companhia das Letras, trata da história e da memória de um grupo de libaneses cristãos que se estabelecem na cidade de São Paulo no final do século XIX, no entorno da famosa Rua 25 de Março. O título, que significa “América” em árabe, evoca a esperança e os desafios enfrentados pelos imigrantes levantinos que deixaram suas terras, então parte do Império Otomano, em busca do sonho de construção de uma nova vida. Nascida em Fortaleza, com passagens em Brasília e Rio de Janeiro, Ana Miranda é autora […]
- ['AS ARMAS SECRETAS', DE JULIO CORTÁZAR](https://revistasepe.art.br/as-armas-secretas-de-julio-cortazar/): Por Guilherme Azambuja Castro Avesso à ditadura peronista, Julio Cortázar deixou definitivamente a Argentina em 1951. Quando publicou seu terceiro livro de contos, As armas secretas, em 1959, portanto, já vivia em Paris há oito anos. O fato de Paris ser o cenário dos cinco contos do livro parece um sintoma desse processo de desterro. Mas penso, ainda, se Cortázar não teria encontrado nestes contos justamente uma forma de expressar, com as ferramentas do fantástico, as angústias causadas por um existir ainda ambíguo, dividido entre duas nacionalidades: um eu anterior e um eu atual. Em “Cartas de mamãe”, um conto sobre […]
- ['AS IRMÃS & OUTROS CAUSOS', DE ANTÔNIO PRATES](https://revistasepe.art.br/as-irmas-outros-causos-de-antonio-prates/): Por Sinara Foss Abro o livro “As Irmãs & Outros Causos – Fragmentos de uma mitologia dos pampas”, o segundo livro de Antônio Prates, gaúcho que vive no RJ desde 1974. Mergulho na narrativa. Ansiosa, amarro meu cavalo crioulo no palanque embaixo de uma frondosa figueira. Meu cusco, fugindo do minuano frio que assobia em nossas orelhas, entra faceiro no mais sortido bolicho de Dom Pedrito, cidade no extremo sul do Brasil, fronteira com o Uruguai, onde nasceu o nosso autor. Chacoalho meu pala e, da porta, vejo o índio velho, pelo duro (1) – que pode ser o narrador dos […]
- [‘AS PRIMAS’, DE AURORA VENTURINI](https://revistasepe.art.br/as-primas-de-aurora-venturini-2/): Por Lucia Nogueira Leiria As primas, romance de estreia da argentina Aurora Venturini, foi lançado em 2007, quando ela tinha 85 anos. No Brasil, foi editado pela Fósforo Editora em 2022, com tradução de Mariana Sanchez. A narrativa é contada de forma tragicômica em primeira pessoa pela voz de Yuna, uma jovem disléxica, com histórico de fracasso escolar e perspectivas de vida tão difusas quanto sua escrita. Vive numa família protagonizada por mulheres, acometida por toda a sorte de horrores, com muitas adversidades sociais, econômicas e genéticas. Em meio a essa desgraça, Yuna, dotada de habilidades artísticas, conhece o professor […]
- ['ASCENSÃO E QUEDA DE ADÃO E EVA', DE STEPHEN GREENBLATT](https://revistasepe.art.br/ascensao-e-queda-de-adao-e-eva-de-stephen-greenblatt/): Por Douglas Ceccagno Talvez nenhuma narrativa tenha influenciado tanto o Ocidente quanto aquela da criação da humanidade e sua subsequente expulsão do lar edênico, carregando a culpa original. Convivemos, desde então, com essa falta que nos move, em que convivem orgulho e desprezo. O mito de Adão e Eva tem antecedentes sumérios, porém tomou sua forma, vamos dizer, definitiva, em algumas poucas páginas do Gênesis, o livro de abertura da Bíblia cristã. Daí, então, a história é longa. E é esse percurso histórico, teológico, literário, filosófico, geográfico, psicológico, sociológico etc. que Stephen Greenblatt reconstrói em seu livro Ascensão e queda […]
- ['BECOS DA MEMÓRIA', DE CONCEIÇÃO EVARISTO](https://revistasepe.art.br/becos-da-memoria-de-conceicao-evaristo/): Por Fátima Farias Escrevivência significa escrever vivências, o que se está vivendo, libertar o que se sente na forma escrita baseada na oralidade. Uma vida inteira cabe em um beco de memória, outras da mesma forma, por que não? “…primeiro foi o verbo de minha mãe. Ela Dona Joana, me deu o mote – Vó Rita dormia embolada com ela!” As vozes dos nossos antepassados e das nossas antepassadas se eternizam, são ouvidas durante toda nossa existência, se fazem sopros enquanto escrevemos. Custei a entender de onde tiro tantas histórias. Hoje sei. Obedientes, escrevemos aliviando este acúmulo de informações criadas pelo silenciamento […]
- ['CANÇÃO DERRUÍDA', DE MAR BECKER](https://revistasepe.art.br/cancao-derruida-de-mar-becker/): Por Dilan Camargo A vida nasceu no mar. A poesia renasceu no infinito mar de Mar Becker. Permitam-me logo usar o lugar-comum para me afastar duma pedanteria tão notória quando se escreve sobre poetas e poesia. Ao contrário, prefiro me aproximar de Mar Becker e da sua poesia como um humilde pescador que vai ao mar em busca de um peixe que nada arisco em profundezas. Mesmo que fique para sempre com as redes e anzóis vazios entre as mãos, ele vai ao mar. Não vai pelo peixe, mas pelo o que ele nada. Vou à sua poesia pelo que ela […]
- ['CASA 11, TELEFONE 09', DE NYDIA BONETTI](https://revistasepe.art.br/casa-11-telefone-09-de-nydia-bonetti/): Por Luize Gomes Enxergo a poesia da escritora paulista Nydia Bonetti como uma potência luminosa, mesmo quando na escuridão (e mais ainda na escuridão). Desde que pus os olhos em alguns de seus poemas, há alguns anos, vi uma luz muito forte. É a condição de sensação do espanto, rebuliço, vertigem, que faz com a gente não se engane em pensar que estar diante dos escritos de uma grande poeta, e que a poesia gosta dela. Mas o sentir que falo não para só na agitação. A sensação pousa. E pousa profundamente, emaranhando-se em ecos internos do leitor. Casa 11, […]
- ['CAVE CANEM', DE DANILA COMASTRI MONTANARI](https://revistasepe.art.br/cave-canem-de-danila-comastri-montanari/): Por Giovani Thadeu Renomada autora de romances policiais históricos, Danila Comastri Montanari (Bolonha, 04 de novembro de 1948 – Bolonha, 28 de julho de 2023) traz à vida o senador Públio Aurélio Estácio, cujas aventuras têm conquistado leitores na Itália e no mundo. Neste enredo, Públio navega por palácios e arenas, onde ninguém, nem mesmo o imperador, está a salvo de sua investigação. Formada em Pedagogia e Ciência Política, há vinte anos ensinava e viajava pelos quatro cantos do mundo. Em 1990, escreveu seu primeiro romance, Mors Tua, e desde então se dedicava ao exercício da escrita. Cave Canem: Um romance policial da antiguidade. […]
- ['CIRANDAS E RODOPIOS', DE ENELITA FREITAS](https://revistasepe.art.br/cirandas-e-rodopios-de-enelita-freitas/): Por Almir Zarfeg Cirandas e rodopios: revisitando a cultura popular na terceira idade (Casa Flutuante, 2024), obra mais recente da mestríssima Enelita Freitas, finalmente, caiu em minhas mãos. Seguem minhas impressões. A obra é dividida em três partes. Na primeira parte, através do capítulo “Os guardiões da memória”, a autora aborda a questão mnemônica ressaltando o papel fundamental das pessoas idosas como guardiães do passado. Aqui, os verbos lembrar, tecer (e vice-versa) desempenham uma função importante: unir e relacionar os fios dos eventos humanos, numa operação que guarda semelhança com o trabalho do artesão. Fazer para permanecer. Para embasar sua […]
- ['COLEÇÃO DE MENINOS MORTOS', DE PEDRO MINET](https://revistasepe.art.br/colecao-de-meninos-mortos-de-pedro-minet/): Por Léo Tavares Enquanto lia a Coleção de Meninos Mortos, livro sem imagens, estreia do Pedro Minet na poesia, me pegava pensando nos desenhos de Jean Cocteau, os de O Livro Branco, principalmente, destacando-se entre uma pletora de referências, explícitas ou simplesmente evocadas ao longo da leitura. Há um mundo muito vasto de iconografia gay mantido em relativo segredo. Na verdade, todo um alfabeto, línguas inteiras e seus dialetos, gramáticas e vocabulários que se atualizam desde os mais imemoriais dos tempos. No entanto, a imersão nesse mundo, não só o iconográfico — a cultura gay, como um todo — nos […]
- ['COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE', DE LAURA ESQUIVEL](https://revistasepe.art.br/como-agua-para-chocolate-de-laura-esquivel/): Por Maria Alice Braga Uno hace con sus manos lo que vio hacer a las manos anteriores. Por generaciones, las manos de las mujeres del campo han frotado la tierra y han lavado en la artesa. Las de la ciudad han picado la cebolla y han acarreado la bolsa de la feria. Ambas han dejado sus huellas en la maza del pan, en la madera de la escoba. Otras en los palillos y en las agujas. Y hubo algunas que tomaron un lápiz, escribieron cartas, apuntaron diarios, en libros…, de esas manos vienen las mías. Como água para chocolate é o […]
- ['CONDOMÍNIO AQUÁRIO', DE AUGUSTO QUENARD](https://revistasepe.art.br/condominio-aquario-de-augusto-quenard/): Por Paulo Damin Estou escrevendo sobre o livro do Augusto porque ele é meu amigo. Não sei se vale. Mas se eu já não fosse amigo do Augusto, depois de ler o Condomínio Aquário eu ia querer ser. Que livro brincadeira. Sério. Parece um jogo daqueles que a gente escolhe o caminho dos personagens. Com a vantagem de que o autor já fez isso por nós. Então é só sentar e curtir a viagem. O narrador, por exemplo. Quem é o narrador, ou narradora, do Condomínio Aquário? Eu tenho minhas hipóteses, não vou falar. Tenho impressão que qualquer coisa que eu […]
- ['COVA PROFUNDA É A BOCA DAS MULHERES ESTRANHAS', DE MAR BECKER](https://revistasepe.art.br/cova-profunda-e-a-boca-das-mulheres-estranhas-de-mar-becker/): Por Lucíola Macedo Ao primeiro toque, este libreto evoca aqueles opúsculos que recebemos na porta da igreja, antes da missa. Ao abrir, um jorro de beleza. A escola de costura, obra de Constance Mayer, salta-nos aos olhos, trabalhada e estampada na parte interna da capa. A missa faz-se memória de corpo, neste livro que se inicia como a uma oração. Quando as filhas iam à missa com a mãe, na hora da eucaristia, ficavam “sentadas no banco, vendo as mulheres voltarem em balé com lábios cerrados, ouvindo baixinho a canção”: “cova profunda é a boca das mulheres estranhas”. O título […]
- ['CRISTO PAROU EM ÉBOLI', DE CARLO LEVI](https://revistasepe.art.br/cristo-parou-em-eboli-de-carlo-levi/): Por Giuliana M. Seerig Se é verdade que a literatura italiana é objeto de um interesse crescente no Brasil nas últimas décadas, impulsionada por fenômenos massivos e por boas ondas de tradução, também se pode afirmar que grande parte do que se publicou no século XX ainda está por ser descoberto pelo público brasileiro. O caminho a percorrer para esses encontros literários não é simples: ainda há muito por se traduzir e não é exatamente fácil encontrar edições, mesmo para quem se propõe o desafio de ler no texto original. A obra prima de Carlo Levi (1902-1975), livro-chave para compreender […]
- ['DEUS NA ESCURIDÃO', DE VALTER HUGO MÃE](https://revistasepe.art.br/deus-na-escuridao-de-valter-hugo-mae/): Por Maria da Graça Rodrigues Todo autor diante da folha em branco se depara com a questão primeira e fundamental: encontrar a voz narrativa que usará para contar sua história. Pois neste seu romance Deus na Escuridão, Valter Hugo Mãe ousa alto em dar a voz a Felicíssimo, um personagem com dificuldade cognitiva. E acerta. Felicíssimo é um ser humano formado de pura inocência, poesia e delicadeza. Ali na ilha da Madeira, na pequena comunidade do Buraco da Caldeira vive ele dentro de sua particular visão de mundo, não vê maldade em nada e em ninguém, todos em seu entorno são […]
- ['DEZ ILHAS QUE EU LEVARIA A UM LIVRO DESERTO', POR JORGE REIN](https://revistasepe.art.br/dez-ilhas-que-eu-levaria-a-um-livro-deserto-por-jorge-rein/): Por Jorge Rein (respondendo a um antigo desafio de Adriana Bandeira) Querida Adriana, amiga que curto e poeta que admiro. Ou seria o contrário? Quanta gentileza a tua de incluir o meu quarentão “&” entre as tuas preferências! De uma coisa me orgulho: com certeza sou o único entre os dez autores da tua lista que já leu os outros nove. E esses nove estariam todos na minha própria lista, se repetir me fosse permitido. Então, vamos ao desafio… Não me sinto à vontade ao embarcar nessa enrascada, porque é um tipo de escolha que me angustia mais do que […]
- ['DUAS CAIXAS DE DINAMITE', DE JÚLIO ALVES](https://revistasepe.art.br/duas-caixas-de-dinamite-de-julio-alves/): Por Adriana Bandeira Se podemos levar em conta as maiores aprendizagens de qualquer ser humano é necessário elegermos a entrada na linguagem como a essencial. Depois dela nada será tão encantador ou desafiador, novo ou capaz de inscrever um percurso tão diferenciado. E a linguagem é fato humano enquanto também fato do letramento, da busca da representação pela palavra, esta condição enganosa que faz com que uma, apesar de seu significado, tenha inúmeras outras concepções para cada sujeito (e envolvemos nisso as lembranças, as sensações que vieram com ela, a cada vez, no seu surgimento). Júlio Alves nos brinda com […]
- ['ELEGIAS DE DUÍNO', DE RAINER MARIA RILKE](https://revistasepe.art.br/elegias-de-duino-de-rainer-maria-rilke/): Por Pâmela Filipini “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?”, assim inicia-se a Primeira Elegia, um questionamento profundamente assombroso investido por um espírito igualmente solitário. Rilke evoca um espaço cujas fronteiras se rebelam contra si mesmas: há a desilusão, o engano e o desamparo ─ onde os raros momentos de luminescência ampliam ainda mais esse território tão fértil em melancolia e desejo. “Todo Anjo é terrível.” O que significa, em meu próprio coração, que toda Beleza é terrível, pois há nela inata ─ uma espécie de constrangimento ─ que num primeiro momento, ao tocar na intimidade humana, […]
- ['EM TUDO HAVIA BELEZA', DE MANUEL VILAS](https://revistasepe.art.br/em-tudo-havia-beleza-de-manuel-vilas/): Por Flávio Sant’Anna Xavier “A inocência é uma forma de insanidade“(Graham Greene, O Americano Tranquilo) Desde O Estrangeiro, de Albert Camus, um livro não me impactara tanto. Quando me indagam por que abandonei SP para retornar aos pagos, sempre respondo que foi por causa deste livro. Um soco na boca do estômago, daqueles que suga o oxigênio. Conhecer o absurdo da vida é nos tornar mais próximos de nós mesmos. Num trecho, Vilas escreve: “Mas a vida é absurda, por isso é tão bela.” Há uma proximidade com a obra de Camus, mas também com Herman Hesse, num tom poético […]
- ['ESTÁ TUDO BEM', DE VERA IONE MOLINA](https://revistasepe.art.br/esta-tudo-bem-de-vera-ione-molina/): Por Neusa Demartini Escolhi recomendar o livro lançado recentemente pela escritora Vera Ione Molina por vários motivos. Porém, o que mais me cativou foi que Está tudo bem! me fez mergulhar em um mundo físico que deveria ter feito parte da minha vida, pela proximidade geográfica da minha Porto Alegre. Acontece que eu passei pelo pampa gaúcho somente de carro, quando fui adolescente para o Uruguai. Duas vezes mais, a caminho de Buenos Aires, passei olhando os campos e as coxilhas lá do alto, pela janela do avião. Portanto, entrou do meu imaginário construído através de programas regionais noturnos de […]
- ['ESTES QUE TÊM FUTURO BASTANTE', DE JULIANA MEIRA](https://revistasepe.art.br/estes-que-tem-futuro-bastante-de-juliana-meira/): Por João Antônio Soares Neto Pela segunda vez trago, por convite do editor, recomendação para a edição especial da revista Sepé. Voltarei a recomendar livros de poesia, como fiz na edição retrasada ao indicar os dois tomos da poesia traduzida de Emily Dickinson por Adalberto Müller. Nesta edição de agora, fico mais perto, aqui mesmo no Rio Grande do Sul, onde muitos poetas procuram publicar e tornar conhecida sua obra. Detenho-me no nome da poeta Juliana Meira, especialmente em seu mais recente livro, Estes que têm futuro bastante, publicação da editora Bestiário no ano de 2023. De pronto, parece tratar-se […]
- ['FORTE COMO A MORTE', DE OTTO LEOPOLDO WINCK](https://revistasepe.art.br/forte-como-a-morte-de-otto-leopoldo-winck/): Por Mario Sergio Baggio “Forte como a morte”, de Otto Leopoldo Winck, é um dos romances mais impressionantes que li em anos. Pela trama e sua condução, pela sofisticada linguagem (que finge ser simples), pela engenhosa estrutura, que vai e volta no tempo sem prejuízo algum para a compreensão, pelos personagens carregados de verdade, pelos diálogos prenhes de verossimilhança, pelas reflexões que provoca, pela pertinência do tema, pela riqueza do vocabulário, pela erudição do autor, pelo desfecho que não poderia ser mais impactante. Já na abertura o romance mostra a que veio, em referência explícita a A metamorfose, de Franz […]
- ['GANGA BRUTA', DE MARCELO VILLAS-BOAS](https://revistasepe.art.br/ganga-bruta-de-marcelo-villas-boas/): Por Myrian Beck Instigante narrativa ambientada nos anos de chumbo, no sul do Brasil. O protagonista, um jovem indígena criado em singela aldeia remanescente na região das lagoas do litoral norte gaúcho, aos poucos se revela um predador nato, cuja personalidade costura um destino violento até a fase adulta, ao ingressar no serviço militar e ser destacado para atuar nos orgãos de repressão militar, quando sua perversidade encontra, real e metaforicamente, um lugar no mundo. Em ritmo ágil e direto, trazido do jornalismo que exerceu por mais de três décadas, Villas Boas revela-nos também sensibilidade literária no relato sobre uma […]
- ['KAFKA: OS ANOS DE DISCERNIMENTO', DE REINER STACH](https://revistasepe.art.br/kafka-os-anos-de-discernimento-de-reiner-stach/): Por Cristina Macedo Kafka: os anos de discernimento é o terceiro volume da trilogia do alemão Reiner Stach sobre Franz Kafka, considerada, a trilogia, dos mais altos feitos biográficos da atualidade. O livro enfoca os últimos anos de Kafka, de 1916 a 1924, ano de sua morte por tuberculose, além do colapso do Império Austro-Húngaro e suas implicações na vida pessoal e literária do escritor. E muito mais. O primeiro volume, Os primeiros anos, abarca o período que vai de 1883, nascimento de Kafka a 1910; o segundo, Os anos decisivos, o período de 1910 a 1915, quando se torna escritor […]
- ['KALLOCAÍNA', DE KARIN BOYE](https://revistasepe.art.br/kallocaina-de-karin-boye/): Por João B. Cabral Se o adágio que diz que as grandes crises geram as grandes obras é verdadeiro, a situação do mundo no período entre guerras deveria ter gerado as maiores obras do século XX. Para os leitores que gostam de deslocar sua atenção para as distopias, foi logo ali que a sueca Karin Boye elaborou o seu Kallocaína, uma distopia que não deixa nada a dever ao 1984 de George Orwell ou ao Nós de Evgene Zamiatin ou ao Admirável mundo novo de Huxley. Em 1940, Boye já era na Suécia uma poeta consagrada, mas foi com Kallocaína […]
- ['LA MINUANA', DE LUCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/la-minuana-de-lucio-carvalho-2/): Por Nelson Rego Em seu livro, Lucio Carvalho nos apresenta dois em um: o ensaio que precede o ficcional e teoriza sobre a relação entre o fazer literário e a busca por algum resgate histórico da linguagem e da cultura indígena, silenciadas pela invasão colonizadora; a ficção, na sequência do proposto pelo ensaio. A narrativa conta sobre remanescentes de um clã das etnias originárias, sobreviventes no território que num passado então recente fora chamado de Cisplatina por portugueses e brasileiros – território sob a permanente disputa e os recorrentes confrontos entre as forças conquistadoras, espanhóis contra portugueses, argentinos contra brasileiros. […]
- ['MARTIN FIERRO', DE JOSÉ HERNÁNDEZ](https://revistasepe.art.br/martin-fierro-de-jose-hernandez/): Por Salvador Baladán Pretendemos aqui realizar um comentário crítico sobre o Martin Fierro, convidando aos leitores a conhecer esta obra e àqueles que já a tenham lido, a que possam relê-la novamente, uma vez que este é o maior clássico da literatura gauchesca, uma referência, sem dúvidas, para os gaúchos brasileiros, assim como, argentinos e uruguaios, todos filhos de diferentes nações que partilham uma mesma identidade que transcende as fronteiras políticas, linguísticas e geográficas e se unem com elementos culturais como o mate, o trabalho campeiro, as vestimentas, as danças e músicas, o cavalo e até uma linguagem comum e, […]
- ['MATARAM O PRESIDENTE: UMA FANTASIA POLÍTICA E OUTROS TEXTOS', DE BERNARDO KUCINSKI](https://revistasepe.art.br/mataram-o-presidente-uma-fantasia-politica-e-outros-textos-de-bernardo-kucinski/): Por Luciana Coronel Mataram o presidente: uma fantasia política e outros textos (Editora Polifonia, 2024) é uma publicação notável por muitos motivos. Antes de mais nada, trata-se do romance de estreia de Bernardo Kucinski, ignorado por muitos anos pelos estudos literários, que atribuíam a K. (K.: relato de uma busca, em algumas edições), publicado em 2011, o primeiro momento ficcional da carreira deste jornalista, professor universitário, que desempenhou o papel de assessor do presidente Lula no mandato inicial, entre outros trabalhos. Consagrado pelo valor literário e relevância política, sucesso de público e de crítica, K. afirmou no ofício de escritor um […]
- ['MEMÓRIAS DO CORONEL FALCÃO', DE AURELIANO DE FIGUEIREDO PINTO](https://revistasepe.art.br/memorias-do-coronel-falcao-de-aureliano-de-figueiredo-pinto/): Por Athos Ronaldo Miralha da Cunha O romance de Aureliano de Figueiredo Pinto deveria ter melhor destaque em nossas incursões literárias e clubes de leitura. Memórias do Coronel Falcão foi escrito entre agosto de 1936 e março de 1937 e publicado, postumamente, em 1973 pela editora Movimento. Aureliano faleceu de câncer em 1959 e a publicação teve boa aceitação pela crítica pelo seu valor histórico, pois tratava da crise das oligarquias rurais pela ótica de um grande proprietário. Um romance de fronteira escrito por um médico e estancieiro. Se publicado no seu tempo, certamente, teria alcance mais universal entre os leitores. […]
- ['MENORES QUE O CÉU' DE GEAN PAULO NAUE](https://revistasepe.art.br/menores-que-o-ceu-de-gean-paulo-naue/): Por Gustavo Melo Czekster Se viver é perigoso, como escreveu Guimarães Rosa, crescer é mais perigoso ainda. É durante a infância que os valores são formados, que as crises existenciais se transformam em traumas, que dilemas imensos surgem e podem definir destinos, e tudo isso acontece quando ainda estamos em formação. O mundo não tem piedade nenhuma com as crianças, que desde cedo são condenadas a carregar consigo os problemas de uma humanidade adoecida, as inseguranças dos seus pais, um mercado de consumo inteiro voltado para seduzi-las – usá-las – e, não bastando tudo isso, travam consciência com a ideia […]
- ['MISSAL PARA O DIABO: CONTOS E POEMAS ASSOMBROSOS', DE CRUZ E SOUSA](https://revistasepe.art.br/missal-para-o-diabo-contos-e-poemas-assombrosos-de-cruz-e-sousa/): Por Carlos Roberto Martins dos Santos No ano de 2023, o poeta João da Cruz e Souza, nascido em 1861 em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e falecido aos 36 anos em Curral Novo, Minas Gerais, ganhou um livro póstumo que é verdadeira peça de joalheria. É o livro Missal para o diabo: contos e poemas assombrosos, publicado pela editora O Grifo, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. É o livro que eu desejaria recomendar a todos os amantes da poesia deste que foi justamente chamado o Dante Negro, o precursor da poesia simbolista no Brasil, cuja […]
- ['NINGUÉM ESQUECE UM ROSTO DESSES', DE RODRIGO FIGUEIRA](https://revistasepe.art.br/ninguem-esquece-um-rosto-desses-de-rodrigo-figueira/): Por Luciano Prado O pampa é um território a desbravar, gaúcho nenhum esquece um ensinamento desses. A metáfora, porém, assume força maior do que a exploração literal quando expoentes artísticos (no caso, aqui, literário) colocam o lugar-comum de cabeça para baixo e resolvem apontar esquinas e sombras longes dos pastos e rebanhos. Porque existe um espaço neutral, uma interseção do campo com a cidade, em que o povo, tal qual o centauro, assume um híbrido do campeiro destemido de fala regional com o citadino comezinho, um gaúcho pouco retratado porque talvez lhe falte charme. O que não falta, saliento, é […]
- ['NO MAR, VEREMOS', DE NEI DUCLÓS](https://revistasepe.art.br/no-mar-veremos-de-nei-duclos/): Por Sidnei Schneider A partir de versos da atualidade, vamos tratar de algo que certas artes são capazes de causar no âmbito do sensível. Mesmo Jorge Luis Borges, cuja visão de mundo sobrepunha a idealidade à primazia do real (em outras palavras, conforme o rasgo de Millôr Fernandes, aquela que troca o fato pela versão), era capaz de pressentir a importância do que chamava de “sentimento épico”. Evidente que este percorre a literatura universal, das histórias de Gilgamesh à Ilíada, do Antigo Testamento às sagas nórdicas, de Os lusíadas às tragédias de Shakespeare, mas também é verdade que hoje poucos escritores alcançam criar […]
- ['NOITE E DIA DESCONHECIDOS', DE BAE SU-AH](https://revistasepe.art.br/noite-e-dia-desconhecidos-de-bae-su-ah/): Por Lucas Borges Escrevo sobre um romance que segue sendo um mistério a ser resolvido. A ex-atriz Ayami vaga pelas ruas de Seul após perder seu emprego no teatro de cegos. E nesse andar pelas ruas de uma cidade grande que o onírico e o real se misturam, com cenas que parecem se repetir páginas após páginas, enquanto ela procura sua antiga professora de idiomas, a levando até mesmo a enigmática e ensolarada Valparaíso. Durante essa jornada, ela interage com um poeta estrangeiro e um colega de trabalho, enquanto a realidade ao seu redor começa a se dissolver, mergulhando em […]
- ['O CRIME DO BOM NAZISTA', DE SAMIR MACHADO DE MACHADO](https://revistasepe.art.br/o-crime-do-bom-nazista-de-samir-machado-de-machado-2/): Por Antônio Hohlfeldt Ele já recebeu o Prêmio Açorianos, em 2017, pelo romance Homens elegantes (Rocco), mas o mesmo prêmio havia sido alcançado pelo escritor, enquanto artista gráfico, nos anos de 2009, 2013 e 2014, por outros títulos, de que depois falaremos. Agora, em 2024, Samir Machado de Machado acaba de receber o Prêmio Jabuti, por “O crime do bom nazista” (Todavia), na categoria de “romance de entretenimento”. Certamente o fato de não ter sido premiado enquanto um grande romance não deve preocupar o escritor. Se este mais recente tem apenas 122 páginas, a série formada por Homens elegantes e Homens cordiais (Rocco, […]
- ['O EMBRANQUECIMENTO', DE EVANDRO CRUZ SILVA](https://revistasepe.art.br/o-embranquecimento-de-evandro-cruz-silva/): Por Gabriel Gonzaga Minha primeira reação ao virar a última página d’O Embranquecimento (2024) foi de surpresa. Uma das piores facetas da escrita acadêmica é sua habilidade em escapar para outros textos. Uma amiga chamou minha atenção para essa recorrência, e desde lá não consigo deixar de reparar quando uma frase qualquer transborda uma teoria rascunhada em solipsismos. Acontece com muita frequência nas redes sociais, mas também em conversas banais, problemas da rotina do trabalho, e mesmo em salas de aula e seminários acadêmicos. É uma avalanche de discursos rebuscados que frequentemente são apenas um “eu acho que” envernizado. E, seguindo […]
- ['O MAR ENQUANTO', DE DIEGO LOCK FARINA](https://revistasepe.art.br/o-mar-enquanto-de-diego-lock-farina/): Por Augusto Quenard A primeira pergunta que me despertou O mar enquanto (2024, Contratempo) foi por que um autor porto-alegrense fala do mar? Sem dúvida não uma pergunta que pretendia referir uma incoerência ou um desatino, mas antes uma reflexão inicial para a recepção da obra. No entanto, não foi necessário avançar muito na leitura para elaborar um sentido. Diz um trecho do primeiro poema: O mar pertenceinvariavelmenteao microscópico grupodas coisas imensasque continuam Esse fragmento, sobre o pano de fundo dos poemas que o seguem, me autorizou a pensar que o Diego Lock Farina, talvez, seguisse uma tradição do mar não […]
- ['O PALCO TÃO TEMIDO', DE RENATA WOLFF](https://revistasepe.art.br/o-palco-tao-temido-de-renata-wolff/): Por Maristela Scheuer Deves O palco tão temido (Dublinense, 2023) é o primeiro romance de Renata Wolff, mas ela não é uma estreante na literatura – quem leu os contos de Fim de Festa ou os poemas de Manhattan lado B, que vieram antes, sabe bem da qualidade de seus escritos. Nesta obra, entretanto, a autora vai além, construindo uma narrativa em que se alternam dois tempos e diferentes personagens, numa teia intrincada cujas relações só se esclarecem ao final. Inspirado no conto O inferno tão temido, do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti – que, aliás, aparece no prólogo e no epílogo […]
- ['O SOM E A FÚRIA', DE WILLIAM FAULKNER](https://revistasepe.art.br/o-som-e-a-furia-de-william-faulkner/): Por Gustavo Lagranha Amo O Som e a fúria, é um livro que marcou minha vida em um momento difícil e da melhor maneira. Me ensinou muito sobre literatura e as possíveis experimentações com as palavras, mas através de seu perspectivismo me ensinou principalmente a tentar enxergar as coisas sob o ponto de vista de outras pessoas, coisa que, descobri então, eu já fazia com naturalidade. São narrativas que nos colocam no lugar do irmão suicida e do irmão cínico de cidade do interior; nos colocam na posição daquele que não sabe articular seu pensamento e no lugar de quem […]
- ['OS ANOS', DE ANNIE ERNAUX](https://revistasepe.art.br/os-anos-de-annie-ernaux/): Por Graziela Jacques Prestes “É autobiográfico”, disse ele, “acho que vais gostar”. “Autoficção”, corrigi-o mentalmente. “Autobiografia impessoal”, dizia na orelha do livro. Prêmio Nobel em 2022 pelo conjunto da obra. “Como é fácil desconhecer uma escritora renomada em um mundo globalizado?”, cobrei-me. Não é a polonesa Olga Tokarczuk em sua escrita crua e ardilosa, maravilhosa, mas igualmente nos captura e nos põe em suspensão. “Onde estamos? Que narrativa é essa?”, indagamo-nos em vão. É preciso ler Os Anos com a mesma humildade assinada por Annie Ernaux. Não tente diferente. Você será colocado no seu lugar, e retirado, em um gesto deveras […]
- ['OS DIÁRIOS DE EMILIO RENZI', DE RICARDO PIGLIA](https://revistasepe.art.br/os-diarios-de-emilio-renzi-de-ricardo-piglia/): Por Cristiano Fretta Qualquer pessoa que se proponha a pensar a Literatura para além da esfera do entretenimento ou de uma difusa edificação humanista que a leitura em tese nos possibilita invariavelmente irá se deparar com uma questão crucial: até que ponto a vida pessoal de um artista e sua criação estão entrelaçados? Dito de outra forma, há como desemaranhar os fios da complexa relação entre o sujeito que cria e o morfos final? Rios de páginas já foram escritos sobre o assunto em diversas áreas do saber e, na impossibilidade de eu ou qualquer outro ser humano ter lido tudo […]
- ['OS DIAS DE SEMPRE', DE HELENA TERRA](https://revistasepe.art.br/os-dias-de-sempre-de-helena-terra-2/): Por Andreia Schefer Em uma tarde de outono, aos cinco anos, despenco feito uma folha seca do alto de uma árvore no pátio lá de casa. Tenho o braço, duas costelas, o ombro direito e a minha autoimagem fraturados. Ao voltar do hospital, depois de vinte e quatro horas sob o efeito de uma anestesia, usando uma espécie de casaco de gesso, paro em frente ao espelho. Quero ver o estrago que me fiz. Vejo apenas o meu rosto. Não sou a menina negra que imagino. E então desmaio. Com essa cena em que a protagonista Mariana se vê diante […]
- ['OS VARÕES ASSINALADOS', DE TABAJARA RUAS](https://revistasepe.art.br/os-varoes-assinalados-de-tabajara-ruas/): Por Cleber Pacheco Uma das grandes qualidades do romance Os Varões Assinalados do escritor gaúcho Tabajara Ruas é de evitar o ufanismo e, ao mesmo tempo, não cair no outro extremo, isto é, num revisionismo cético e pessimista. A narrativa se equilibra perfeitamente bem ao criar personagens que se debatem entre os conflitos humanos e a capacidade de agir com heroísmo. Figuras históricas desfilam pelo livro ganhando complexidade, ficando bem distantes da caricatura e do exagero. Eles pensam, agem e reagem como pessoas comuns, mas capazes de ir além de si mesmos e suas ações ganham peso, significado e consequências […]
- ['OS VISITANTES', DE BERNARDO KUCINSKI](https://revistasepe.art.br/os-visitantes-de-bernardo-kucinski/): Por Lucas Barroso Neste ano, me deparei com três livros que mudaram o jeito que eu compreendia a Literatura até então. São textos que ultrapassaram o que entendia como inventividade. Em suma, os autores que citarei criaram algo que não conseguia sequer imaginar como possível – ou factível, nesse universo tão vasto. Esse, creio, é um dos tantos motivos da Literatura existir em nossas vidas. Apresentar-nos o novo. Ampliar horizontes. Os títulos são Todo Aquele Jazz, de Geoff Dyer, Sonhos Elétricos, de Philip Dick, e Os Visitantes, de Bernardo Kucinski. O primeiro é como um bom jazz: com […]
- ['PAIXÃO SIMPLES', DE ANNIE ERNAUX](https://revistasepe.art.br/paixao-simples-de-annie-ernaux/): Por Lu Thomé O que fazer depois que uma paixão arrefece? Depois que tudo acaba e resta apenas uma fotografia? Para a escritora francesa Annie Ernaux, a resposta é óbvia: escrever. É o que ela faz em Paixão simples, livro lançado originalmente em 1991 e que saiu no Brasil em 2023. A publicação é da editora Fósforo e a tradução é de Marília Garcia. Meu primeiro contato com a obra de Ernaux foi O lugar, no qual ela parte da morte do pai para falar sobre lugares geográficos, de representação social e familiares. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em […]
- ['PASTA SENZA VINO', DE EDUARDO KRAUSE](https://revistasepe.art.br/pasta-senza-vino-de-eduardo-krause/): Por Monique Rodrigues Roland Barthes – um dos grandes pensadores franceses do século XX – diz que “a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor”. Ele continua seu raciocínio explicando que as palavras SABER e SABOR derivam do mesmo verbo latino “sapere”. Ainda que, hoje em dia, esses dois substantivos tenham tomado caminhos distintos na língua portuguesa, é sempre um deleite quando eles se conectam. Isso acontece no livro “Pasta senza vino”, romance de estreia do escritor gaúcho Eduardo Krause, publicado em 2014, pela Editora Dublinense. A obra conta a história de Antonello Bianchi, um italiano […]
- ['PEDRO PÁRAMO', DE JUAN RULFO](https://revistasepe.art.br/pedro-paramo-de-juan-rulfo/): Por Anna Mariano Alguns livros, como algumas pessoas, não te abraçam na primeira visita. São os mais perigosos. Fechados sobre si mesmos, deixam na superfície o que Adélia Prado chama de palavra anzol; basta morder uma delas para sermos arrastados de forma irrevogável às suas entranhas. Pedro Páramo, única novela do escritor mexicano Juan Rulfo, publicada logo após O Chão em Chamas, seu também único e magistral livro de contos, é assim. Só de uma coisa temos certeza desde o início: o autor sentiu na pele aquilo que nos conta. Tendo visto o pai, o tio e o avô […]
- ['PISANDO NA GRAMA', DE PEDRO MARCOS PEREIRA LIMA](https://revistasepe.art.br/pisando-na-grama-de-pedro-marcos-pereira-lima/): Por Sammis Reachers O poeta paulistano Pedro Marcos Pereira Lima é graduado em Letras e autor dos livros Casas com Asas, No Tempo da Poesia e Palavras Crianças no Jardim de Aula. Em sua nova obra, Pisando na Grama, o autor reúne novos e antigos poemas de sua lavra pulsante. Marcos é carne e alma preta na cidade, irmanando-se nas dores, palavra comprometida com a dor e a vida. Fiel a seu ofício, o autor arranca versos da insipidez da pedra, do cinzento da cidade e suas nuances, do corriqueiro que navega o dia a dia. Melhor, versos empresta, atento ao que vai sob a […]
- ['POR CAUSA DO VENTO NO BOSQUE', DE MYRIAN BECK](https://revistasepe.art.br/por-causa-do-vento-no-bosque-de-myrian-beck/): Por Deny Bonorino Infância. Medo. Desejo. Afeto. Deste modo, Myrian Beck divide o seu livro Por causa do vento no bosque. A segmentação parece indicar uma preocupação com o fenômeno tempo, essa fantasia que Santo Agostinho dizia saber o que era, mas se lhe perguntassem já não saberia. O tempo implica em memória, matéria dos sonhos. E o sonho é criador. Mas estruturar a memória, fazer com que ela plasme o fato estético é outra coisa. E essa “outra coisa” é o que nos traz a leitura de Por Causa no Vento no bosque. Percorrendo suas páginas, nos deparamos com […]
- ['PORTO ALEGRE BLUES', DE PEDRO GONZAGA](https://revistasepe.art.br/porto-alegre-blues-de-pedro-gonzaga/): Por Dani Espíndola Em 18/05/2023, Pedro Gonzaga, gaúcho radicado em Buenos Aires, professor de escrita criativa, músico, escritor e poeta, lançou o livro-poema, ou poema de uma só estrofe, “Porto Alegre Blues”. Nessa ocasião, eu estava de malas prontas para também me mudar para a capital argentina e, mais do que a ilusão do sonho de viver novos aires e caminhar de forma rotineira sobre as mesmas calçadas dos artistas que me são mais caros, o que de fato eu buscava era deixar no passado a melancolia – talvez amargura seja um disfemismo – que Porto Alegre, com suas gentes, suas […]
- ['QUATRO MARCHAS', DE RUDINEI KOPP](https://revistasepe.art.br/quatro-marchas-de-rudinei-kopp/): Por Cassionei Niches Petry O santa-cruzense Rudinei Kopp lançou este ano o seu quarto livro, por acaso (ou não) intitulado Quatro marchas (Editora Gazeta, 208 páginas), mais um bom artefato literário do autor que dialoga com algum tipo de arte. No seu primeiro romance, Rio dos dias, o protagonista é um pintor; na novela Oto e Isac, um marceneiro que faz arte em madeira; Contraforte, por sua vez, se passa num museu de artes. Desta vez, o cinema é a tônica, mais precisamente o documentário, lembrando que o autor também organiza um festival de cinema em Santa Cruz do Sul. […]
- ['SACO VAZIO', DE FRANCINE DELAVALD BOTTONI](https://revistasepe.art.br/saco-vazio-de-francine-delavald-bottoni/): Por Lara Pozzobon Quando me deparei com o livro Saco Vazio em uma pequena feira do livro de autores locais da minha cidade, não prestei muita atenção ao título nem li orelhas, contracapa ou prefácio. Fui direto para o início do texto. Era assim: “Este livro vem com a força do que antes não podia existir.Agora, irrompe. Fundo e fundo, fundando braços, corpo,placenta. Me fundo com o que me afundou. Findou.” E na página seguinte: “Pra Francine que fui um dia.” Fiquei impactada. Espiei de novo a capa, para me certificar de que a autora se chamava mesmo Francine. Sim, era […]
- ['SASHENKA', DE SIMON SEBAG MONTEFIORE](https://revistasepe.art.br/sashenka-de-simon-sebag-montefiore/): Por Jair Portela Sashenka, de Simon Montefiore, é um romance de fôlego, inspirado na história soviética. Montefiore tem, como eu, paixão pela história russa, e talvez, também como eu, medo dela. Conta a vida de uma jovem idealista, de origem judia que aos 16 anos, nos dias turbulentos do início do século dezenove, rompe com sua família, rica e de grande influência no czarado, comensais assíduos da Casa Romanov, e se lança na grande utopia revolucionária bolchevique. A revolução social mais importante da História da humanidade. Quando menina, Sashenka viveu a fartura e o glamour imperial dos Romanov, depois conspirou […]
- ['SE EU NÃO POSSO SER QUEM SOU', DE LEILA DE SOUZA TEIXEIRA](https://revistasepe.art.br/se-eu-nao-posso-ser-quem-sou-de-leila-de-souza-teixeira-2/): Por Pablo Morenno Estávamos na Biblioteca do SESC-Passo Fundo, a escritora Leila de Souza Teixeira estava ministrando uma oficina sobre escrita literária. Como havia chegado atrasado, fiquei depois para tirar umas dúvidas. Eu ainda trabalhava no Tribunal Regional do Trabalho, apesar de ter publicado um livro de crônicas e algumas narrativas infantis. Justifiquei para Leila o atraso: ficara até mais tarde na Vara do Trabalho. – Leila, estou cansado da monotonia da burocracia! – Exceto quanto à rima interna, às vezes também me sinto assim, respondeu. Até então, Leila havia publicado um ótimo livro de contos, “Em que coincidentemente se […]
- ['SEMPRE SUSAN', DE SIGRID NUÑEZ](https://revistasepe.art.br/sempre-susan-de-sigrid-nunez/): Por Juliana Berlim A memória é com regularidade metaforizada como um tecido onde se registram as mais intensas impressões do percurso da vida humana. Há quem creia, porém – o que se retém é uma performance contínua da mente combinada com o espírito, que remodelam a matéria memorial conforme a progressão da existência. Seja como for, certos acontecimentos mostram-se tão mais decisivos que se configuram como pontos de mutação de uma trajetória pessoal. Assim se apresenta o encontro da jovem Sigrid Nuñez com sua então sogra e ídolo pessoal, a escritora norte-americana Susan Sontag. A conexão fortuita de Nuñez e […]
- ['TEORIA DA RESSECÇÃO', DE TATIANA PEQUENO](https://revistasepe.art.br/teoria-da-resseccao-de-tatiana-pequeno/): Por Dinarte Albuquerque Filho A poesia de Tatiana Pequeno é enorme: tem o corte preciso e abre a possibilidade de significados que vão além dos lugares comuns, embora deles não se furte. Em Teoria da ressecção (Patuá, 2023), versos intensos, desdobrados até que aparentem não dizer mais nada, só que, ao chegar ao fim deles, sempre há algo mais que fica martelando por trás do olhar que se lança para o entorno. Uma voz feminina ciente de seu papel na transformação dos lugares sociais, sem panfletagem, com a consciência de que o mundo é masculino mas, nem por isso se deve […]
- ['TRAVESSIA, A HISTÓRIA DE AMOR DE GIUSEPPE E ANITA GARIBALDI', DE LETICIA WIERZCHOWSKI](https://revistasepe.art.br/travessia-a-historia-de-amor-de-giuseppe-e-anita-garibaldi-de-leticia-wierzchowski/): Por Catia Schmaedecke “(…) O poncho branco, franjado, sacudia ao redor do seu corpo no alto do imenso promontório onde ficava o farol do Cabo Espartel. Seu perfil grego dava-lhe ares de estátua; ele lá em cima, a imagem da solidão enclausurada no vento.”(Giuseppe/pag.11) “Eu era apenas mais uma de tantas, e as nossas pegadas se perdiam nos pátios, quintais, quartos de serviço, nas salas finas e nos corredores das casas humildes.” “Vocês sabem de mim o que lhes foi contado, nem uma única palavra minha. Giuseppe me deu alguma voz. Giuseppe, meu José.” (Anita/pág.42) No último livro da trilogia […]
- ['TRAVESSIA', DE OLÍVIA BIASIN DIAS](https://revistasepe.art.br/travessia-de-olivia-biasin-dias/): Por Magali Lippert Travessia, primeiro livro de Olívia Biasin Dias, editado pela Folheando (Belém/PA) traz uma coletânea de treze contos que se passam na Bahia de nossos dias. A autora, gaúcha de Pelotas, reside em Salvador desde a adolescência e lá construiu sua carreira de pesquisadora e professora. Graduada em Turismo, mestre a doutora em História, Olívia tangencia suas vivências através de narrativas únicas, bem construídas e que resultam em um trabalho sério e cuidadoso pensado para o leitor. Os contos de Travessia surgiram durante o isolamento social causado pela pandemia de coronavírus. Entretanto, diferente do que poderíamos supor, não há, […]
- ['TRÊS POETAS DO PORTUNHOL', POR THOMAZ ALBORNOZ NEVES](https://revistasepe.art.br/tres-poetas-do-portunhol-por-thomaz-albornoz-neves/): Por Thomaz Albornoz Neves Resisto ao status dado nas últimas décadas ao portunhol. Embora compreenda perfeitamente o sentimento amoroso que o envolve, não o considero um dialeto em formação, uma língua híbrida ou uma interlíngua usada por uma comunidade específica. O portunhol é um linguajar. Se estudarmos o processo linguístico dos isolados burgos na Alta Idade Média que formaram o romagnolo e o compararmos, por exemplo, ao napolitano, veremos que apesar de derivarem do latim e do osco-umbro ambos têm identidades diferentes. Idiomas nascem, amadurecem, viajam e se transformam, mas em alguns milênios, não em menos de três séculos. Para […]
- ['UM COPO DE CÓLERA', DE RADUAN NASSAR](https://revistasepe.art.br/um-copo-de-colera-de-raduan-nassar/): Por Nei Duclós A oposição fundamental que existe neste pequeno texto de Raduan Nassar não é entre um homem (desiludido e de meia idade) e uma mulher (jornalista e liberada). É, antes, um duelo entre a linguagem e o discurso, entre o corpo e a cólera. São dois elementos que, aparentemente feitos da mesma matéria-prima, possuem rituais diferentes e evoluem em espaços desiguais. O corpo (a linguagem) é a redenção permanente, o desdobramento do prazer através da proximidade, do detalhe oculto numa vitrine de formas. A cólera (o discurso) cabe num copo: sua arma é a transparência e o seu […]
- ['VENTO DE FOGO', DE LUÍS DILL](https://revistasepe.art.br/vento-de-fogo-de-luis-dill/): Por Luiz-Olyntho Telles da Silva O tempo presente e o tempo passadoEstão ambos talvez presentes no tempo futuroE o tempo futuro contido no tempo passado.Se todo o tempo é eternamente presenteTodo tempo é irredimível.(T.S.ELIOT, Burnt Norton.) O romance de Luís Dill, Vento de Fogo, é um capítulo da luta pelo poder na história da humanidade. Como um cientista, neutro, ele relata acontecimentos ocorridos no comecinho do século XX, na fictícia vila de Forquilha Seca, segundo distrito de Encruzilhada do Sul, quase no centro do Estado do Rio Grande do Sul. * Herdeiros dos Farrapos e, mais de perto, também da […]
- ['VITOR RAMIL, O ASTRONAUTA LÍRICO', DE MARCOS LACERDA](https://revistasepe.art.br/vitor-ramil-o-astronauta-lirico-de-marcos-lacerda/): Por Juarez Fonseca Para quem gosta de biografias feitas de forma pouco convencional, Vitor Ramil, o astronauta lírico é um prato cheio. Em 330 páginas, o minucioso ensaísta e sociólogo Marcos Lacerda praticamente concentra as vidas pessoal e pública do cantautor de Pelotas. Se estende em detalhes e interpretações como se psicanalizasse o personagem e sua obra. “É possível um artista de tamanha envergadura ser encerrado numa perspectiva ou numa persona artística”, pergunta, já quase ao final do livro. Segue: “Parece que quanto mais o artista busca uma unidade, mais encontra multiplicidade”. Entre tantos e tantos momentos, o biógrafo se encantou com […]
- ['VIÚVAS DE SAL', DE CINTHIA KRIEMLER](https://revistasepe.art.br/viuvas-de-sal-de-cinthia-kriemler/): Por Sandra Santos A poesia perfuma as palavras, mas não se engane o leitor desprevenido: as palavras são lâminas arremessadas pela autora, uma exímia atiradora de facas! A crueza relatada paralisa nossos movimentos. Permanecemos, durante toda a narrativa, sem entender se estamos do lado de dentro ou do lado de fora da página, dentro ou fora das personagens. Personagens evisceradas tão eficientemente pela autora! O contato com a dor se dá quase por sincronicidade – dor tão brutal que não parece ser possível, mas sabemos que está aqui, no Brasil, e ali, na África e no mundo. Não conseguimos ser […]
- ['VOO NOTURNO', DE ANTOINE DE SAINT EXUPÉRY](https://revistasepe.art.br/voo-noturno-de-antoine-de-saint-exupery/): Por Augusto Darde A gente se espanta com a velocidade do avanço das tecnologias. Foi há dez anos, por exemplo, que adquiri meu primeiro smartphone, que criei um perfil no Instagram, e isso com algum atraso. De lá para cá, certos filtros em fotos viraram pré-história, surgiram stories, reels, uma pandemia com suas lives, e o streaming vem enterrando a TV, o cinema, a rádio e o jornal, essas plataformas que já nos assombram ao lado de livros impressos e LPs. Dez anos. Mas e cem anos? Por onde se medem cem anos? É esse tipo de questionamento que me levou […]
- [Vol. 5, Nº. 12/2024](https://revistasepe.art.br/vol-5-no-12-2024/)
- [VOL. 4, N. 11/2023](https://revistasepe.art.br/vol-4-no11-4-2023/): ‘A AUSÊNCIA QUE SEREMOS’, DE HÉCTOR ABAD Leticia Moller ‘A CACHORRA’, DE PILAR QUINTANA Rochele Bagatini ‘A COMUNIDADE QUE VEM’, DE GIORGIO AGAMBEN Marli Silveira ‘A DAMA DO SALADEIRO’, DE CYRO MARTINS Fernando Neubarth ‘A EXPOSIÇÃO DOS SÓIS’, DE JULIA LEMOS Sammis Reachers ‘A LÍNGUA SUBMERSA’, DE MANOEL HERZOG Leonardo Antunes ‘A MEMÓRIA É UMA FOLHA SECA’, DE JOSELMA NOAL Andréia Schefer ‘A MENINA INVISÍVEL E OUTRAS HISTÓRIAS DE VISAGEM’, DE MARY SHELLEY Lucio Carvalho ‘A MERCADORIA MAIS PRECIOSA’, DE JEAN-CLAUDE GRUMBERG Lucia Nogueira Leiria ‘A MULHER FAMINTA’, DE TIAGO GERMANO Emir Rossoni ‘A POESIA DA HORA BRABA’, DE MALU […]
- ['OS TERNOS DE CHARLIE PARKER E OUTROS POEMAS', DE MARCO DE MENEZES](https://revistasepe.art.br/os-ternos-de-charlie-parker-e-outros-poemas-de-marco-de-menezes/): Por Dinarte Albuquerque Filho Eis que Marco de Menezes nos presenteia com mais um bom livro de poesias. Os ternos de Charlie Parker e outros poemas (7 Letras, 2023) é o tipo de livro que entusiasma novos leitores e agrada os que procuram acompanhar a cena literária. Ao contrário do título, os “outros poemas” é que dão início à jornada, começando por “doppler”: “ó mãenem sei por que digo issomas meu coração não tocaro coração de uma estrela…”. Daí por diante, segue-se uma série de poemas para reler ao longo dos dias, cheios de lembranças (os poemas), cheios de referências da […]
- ['A SABEDORIA GREGA', DE GIORGIO COLLI](https://revistasepe.art.br/a-sabedoria-grega-de-giorgio-colli/): Por Ezra Pereira «Schopenhauer não entendeu que sem os Gregos, em filosofia, nem sequer se começa». Schopenhauer morreu em 1860. Cento e sessenta anos depois da sua morte, cento e vinte anos depois da morte de Nietzsche, que o considerou, até o fim, seu mestre, teremos nós, modernos, na segunda década do segundo milênio depois de Cristo, entendido? As palavras citadas, severas, impiedosas, foram escritas por Giorgio Colli na sua obra Dopo Nietzsche, a mais bela confrontação que existe com o pensamento do célebre autor d’O nascimento da tragédia, uma tentativa, esta última, de compreensão dos Gregos e do seu […]
- ['É A ALES', DE JON FOSSE](https://revistasepe.art.br/e-a-ales-de-jon-fosse/): Por Maria da Graça Rodrigues Atendo este gentil convite do Lúcio Carvalho para participar da edição de fim de ano da sua excelente Sepé falando sobre “É a Ales”, romance de Jon Fosse, escritor norueguês que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. E por que escolhi escrever sobre um romance deste autor lá da Noruega distante? Por causa do prêmio? Não, se fosse assim eu teria dado preferência a outros também agraciados com o Nobel em resenhas anteriores. Só posso afirmar é que até agora ainda não superei o impacto da leitura do “É a Ales” e talvez por […]
- ['LA MINUANA', DE LUCIO CARVALHO](https://revistasepe.art.br/la-minuana-de-lucio-carvalho/): Por Simone Sauressig Um dos maiores desafios para quem escreve é a tradução da voz oral para a Literatura. Não se trata de transcrição: cada fala é uma melodia particular, feita não só do som da palavra, mas de gestos e silêncios repletos de significados e impossíveis de serem trazidos em sua totalidade para a palavra escrita. Acentuações, entonações, ruídos que não são palavras, mas tem sentido, sobretudo entre grupos familiares ou clãs, são coisas irreproduzíveis. Todo escritor sabe disso. Mas não custa tentar, não é? O resultado destas tentativas, muitas vezes, é o erro. É comum ver a fala […]
- ['NO FUNDO DO POÇO', DE BUCHI EMECHETA](https://revistasepe.art.br/no-fundo-do-poco-de-buchi-emecheta/): Por Graziela Jacques Prestes Começa pelo fundo, não cai no poço. Não sei se já aconteceu com você, mas me peguei pensando nessa expressão em português, “no fundo do poço”, e suas possíveis combinações verbais com “chegar” e “cair”. “No fundo do poço”, da imigrante nigeriana Buchi Emecheta, é a fotografia geopolítica de quem já está ou talvez nasceu no fundo do poço e tenta sair com toda a dificuldade que se possa imaginar. De onde vêm a força, a concentração e a serenidade da protagonista? A realidade das famílias assistidas pelo governo britânico e/ou pela prefeitura londrina da década […]
- ['NADA SERÁ COMO ANTES', DE ANDRÉIA SCHEFER](https://revistasepe.art.br/nada-sera-como-antes-de-andreia-scheffer/): Por Joselma Noal Andréia Schefer, em seu segundo romance, constrói uma narrativa instigante com uma linguagem direta e fluente. Li o livro numa sentada e sem qualquer intervalo. Importante valorizar o projeto gráfico, além de uma capa original e significativa, a fonte e o papel tornam a leitura muito agradável, um diferencial do livro físico, mas voltemos à literatura da Andréia. Em Nada será como antes o leitor mergulha na sociedade brasileira da década de oitenta aos anos dois mil, sem se afogar, vê (ou revê) as profundezas do mar e encontra muita sujeira escondida, no fundo do nosso Brasil. Um […]
- ['MALVINA', DE LAURA PEIXOTO](https://revistasepe.art.br/malvina-de-laura-peixoto/): Por Meire Brod Escrever uma biografia demanda um grande esforço. Serão necessárias pesquisas, entrevistas, depoimentos, busca e checagem de documentos que corroborem com as informações e uma série de outros detalhes que irão ajudar a reconstituir com a máxima veracidade dos fatos a vida e a obra do biografado. Entretanto, como falar de um personagem real, com relevância dentro do cenário e da sociedade em que viveu, mas que, de uma certa forma, teve sua existência apagada? Esse foi o ponto de partida para a jornalista e escritora Laura Peixoto, ao escrever Malvina (Ed. Libélula, 2023), a partir de uma […]
- ['A AUSÊNCIA QUE SEREMOS', DE HÉCTOR ABAD](https://revistasepe.art.br/a-ausencia-que-seremos-de-hector-abad/): Por Letícia Möller Um dos melhores livros que li nos últimos anos. A ausência que seremos, romance do escritor colombiano Héctor Abad, é escrito com maestria, numa prosa densa e rica que alterna episódios de dor e alegria, poesia e violência. Publicado em 2011 e tendo levado muitos anos a ser escrito, é um livro de memórias tocante que narra a infância do autor e sobretudo a vida e a morte trágica de seu pai, o médico sanitarista, professor e jornalista Héctor Abad Gómez (1921-1987). Gómez foi uma figura marcante e afetiva, um homem de ideais e de ação, defensor […]
- ['REPENSO O MUNDO', DE WISLAWA SZYMBORSKA](https://revistasepe.art.br/repenso-o-mundo-de-wislawa-szymborska/): Por Suzana Pagot Há cem anos, nascia Wislawa Szymborska, no vilarejo de Bnin, na Polônia. Aos oito, mudou-se com a família para a Cracóvia, onde morou sua vida inteira e veio a falecer em 2012. Uma poeta que articula a linguagem de modo a emular uma simplicidade que somente um trabalho muito complexo é capaz de criar e convida para que entremos em sua poesia com olhos curiosos, avistando o mundo como se fosse pela primeira vez e perguntando para tudo, por quê? “Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo ‘não sei’, as maçãs do pomar poderiam ter […]
- ['TANATOGRAFIA DA MÃE', DE ISADORA KRIEGER](https://revistasepe.art.br/tanatografia-da-mae-de-isadora-krieger/): Por Mar Becker Não vou lembrar quem me disse. Nem onde nem por quê. Em mim ficou só ficou a imagem, a advertência como palavra, “Não se deve jamais baixar a febre de uma criança, porque é esse o modo como se opera no seu sangue ínfimo a queima do sangue imenso da mãe”. Eu? Sequer sabia que um corpo pode carregar outro corpo dessa maneira, como o mar carrega outros rios, como os rios carregam lagos e lagunas. Sequer sabia que também os lagos carregam eles mesmos aquela dúzia de bocas que um dia foram abertas em halos d’água, […]
- ['CORRA E NÃO OLHE PARA TRÁS: COMO SE DEFENDER DE UMA PESSOA COM TRANSTORNO DA PERSONALIDADE NARCISISTA', DE BETINA BOEIRA E LUCIANA TISSER](https://revistasepe.art.br/corra-e-nao-olhe-para-tras-como-se-defender-de-uma-pessoa-com-transtorno-da-personalidade-narcisista-de-betina-boeira-e-luciana-tisser/): Por Lelei Teixeira A literatura me cercou neste ano de 2023 que chega ao fim. Acolheu, inquietou, ampliou meus horizontes, descortinou realidades diversas, próximas até, que desconhecemos ou não olhamos com olhos de ver. Diante de tudo que li afirmo, mais uma vez, que a arte salva e que a leitura alarga os caminhos. Descobri novos autores e autoras que apontam realidades excludentes, calcadas no machismo e no preconceito estrutural que contamina a nossa convivência e o nosso bem estar, o que foi libertador. Entre as leituras que fiz, uma começa pelo instigante título – Corra e não olhe para […]
- ['NEO-HUMANO: A SÉTIMA REVOLUÇÃO COGNITIVA DO SAPIENS', DE LÚCIA SANTAELLA](https://revistasepe.art.br/neo-humano-a-setima-revolucao-cognitiva-do-sapiens-de-lucia-santaella/): Por Aguinaldo Medici Severino Um conhecido aforismo de Wittgenstein propõe que “O que não se pode falar, deve-se calar”. Lembrei várias vezes deste aforismo nas semanas em que estive envolvido em tentar escrever uma resenha digna de “Neo-Humano: a sétima revolução cognitiva do Sapiens”, de Lucia Santaella. Li este livro no ano passado e o assombro com que experimentei com ele acompanhou-me por meses. Todavia, o poderoso conjunto de reflexões da autora sobre o que ela define como a longuíssima travessia do Homo sapiens no espaço e no tempo não me parece poder ser exatamente resumido em uma única resenha, prestando-se […]
- ['O CRIME DO BOM NAZISTA', DE SAMIR MACHADO DE MACHADO](https://revistasepe.art.br/o-crime-do-bom-nazista-de-samir-machado-de-machado/): Por Luciano Prado De todas as lições possíveis que passam dos pais para os filhos há sempre algo que se destaca. No meu singelo caso a noção de que a leitura de um livro poderia não só enriquecer-me intelectualmente, mas também expandir a minha capacidade de entender e conviver em sociedade, foi aquele tipo de herança guardada com imenso carinho. Da fagulha inicial, claro, um processo autogerido levou-me para traços de personalidade, digamos, alternativos. Passei a devorar um livro após o outro, hábito que sustento orgulhosamente até hoje. Tudo influência advinda de uma mãe súdita de Agatha Christie e Georges […]
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- [Missões: entre memória e esquecimento](https://revistasepe.art.br/): Lucio Carvalho07/2026 Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia […]
- [400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis e a literatura do RS](https://revistasepe.art.br/400-anos-das-missoes-jesuiticas-guaranis-e-a-literatura-do-rs/): Os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis representam uma oportunidade singular para a reflexão acerca das relações entre a literatura, os povos indígenas e a experiência missioneira, bem como sobre seus desdobramentos históricos e culturais. Neste encontro, escritores e pesquisadores apresentarão suas pesquisas e obras, promovendo um diálogo com o público acerca do processo histórico e de suas conexões com a produção literária do Rio Grande do Sul. A mesa-redonda será mediada pela escritora Cátia Simon e contará com a presença de pesquisadores e autores que têm se dedicado à produção de conhecimento e literatura a respeito da experiência histórica das Missões e […]
- [CATEGORIAS](https://revistasepe.art.br/categorias/)
- [Apresentação](https://revistasepe.art.br/apresentacao-2/): Em guarani e em outros dialetos indígenas, sepé é nome empregado comumente a homens. O termo denomina também uma gramínea bastante comum no Rio Grande do Sul: o capim Santa-Fé, e parece ter esse sentido original. Outro significado possível para o termo é o de “chefe” e essa designação pode ter relação com o nome de batismo de Sepé, José Tiaraju, alferes real e corregedor do Povo de São Miguel e Província Jesuítica do Paraguai. Tendo vivido no séc. XVIII, nas reduções jesuíticas, e conhecido entre os indígenas apenas por “Sepé”, José Tiaraju foi morto em fevereiro de 1756, em […]
- [CONTEÚDO](https://revistasepe.art.br/conteudo/)
- [Encerramento](https://revistasepe.art.br/encerramento/): Publicada pela primeira vez em fevereiro de 2020, a revista Sepé encerrou suas atividades em dezembro de 2024, após a publicação de 13 edições nas quais foram publicadas milhares de páginas trazendo literatura na forma de poesia, ficção, ensaio, crônica, crítica e entrevistas. Em agosto de 2021 (n. 6) e agosto de 2024 (n. 12), foram publicadas edições especiais trazendo toda a publicação inédita veiculada na revista, isto é, conteúdo que teve sua primeira publicação na Sepé. Alguns destes conteúdos em prosa podem ser obtidos por meio do livro Contos da Sepé, disponível neste link ou nas livrarias. O acesso a estas […]
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- [COLABORADORES](https://revistasepe.art.br/colaboradores/): Colaboraram com originais, entrevistas e/ou informações para Sepé, em ordem alfabética: Ademir FurtadoAdrian’dos ElimaAdriana BandeiraAdroaldo BauerAguinaldo M. SeverinoAlexandre BrittoAlmir ZarfegÁlvaro SantiAmilcar BettegaAna Emilia KleinAna Lúcia TettamanzyAnaí BuenoAndré MartinsAndréa WinklerAndreia ScheferAngela Dal PosAngela QuartasAnna MarianoAntonio HohlfeldtAntonio PratesAntônio SchimeneckAri RiboldiArmando Moura FilhoArmando SeveroArthur de FariaArthur ReginattoAthos Ronaldo Miralha da CunhaAttila BálazsAugusto DardeAugusto QuenardBebeto AlvesBlenda SantosBoca MigottoCarlos André MoreiraCarlos BadiaCarlos CasteloCarlos Guilherme VogelCarlos HahnCarolina PantaCassionei Niches PetryCatia SchmaedeckeCatia SimonCecilia KemelCelso GutfreindCelso RodriguesChristian DavidChristina Cidade DiasClara OliveiraClarissa FerreiraClaudia SchroederCláudio B. CarlosClaudio LevitanCleber PachecoCristiano FrettaCristina MacedoDani LangerDaniel FeixDaniel GruberDaniel Ricardo BarbosaDaniel RodasDaniela EspíndolaDaniela KernDanilo GiroldoDavi KoteckDébora MutterDelalves CostaDiego GrandoDiego PetrarcaDilan CamargoDimas de OliveiraDinarte Albuquerque FilhoDirce […]
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