3 poemas de Moema Vilela

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Gozar, apesar,
ao invés e ao revés
de tudo.

A partir do que for.
Como um ás. Saber o gozo
disponível, como o ar
para a respiração.

Desfrutar de todo jeito.
Sem embargo e a despeito.

Malgrado e não obstante.
Independentemente.

A conjunção de fatores
sabemos bem – e também por isso

gozar. Na cara deles.
Na cara disso.
Como se fez desde sempre.

Abertamente
ou sem divulgação.

Não há condições outras.

Na adversidade,
a alternativa é premente,
e a conclusão.

Para além da concessão.
Por inteiro e por completo.
Gozar agora.

embora eu não saiba nada

desse rio que sobe
para lavar a terra a pedra molhar
a selva a boca seca que enche
as cachoeiras em que
amanhã brincamos. de cima
do morro todos nós olhando
com o coração na mão essa cena
pensando a natureza é bela que exuberante
a natureza e é por isso que olhamos
com a boca aberta mas também porque não
fomos nós que a começamos
portanto não somos nós que
podemos pará-la, a coisa não é
nossa para a gente dizer chega
podemos apenas planejar melhor
o lugar de construir nossas casas
nas alturas mais seguras pensar
escoamentos engenharias
sair correndo na hora h
é o que imaginamos olhando
em silêncio a coisa acontecer
de cima do morro uma de nós
está tocando flauta outro está
apavorado outra está fazendo
cálculos, tenta relembrar da escola
a fórmula de bhaskara
enquanto a quarta inventa
na cabeça a música que vai fazer
a água subir e descer mais
devagar se for preciso enfim
é assim que vou dizendo
para mim sobre esse rio que transborda
os meus conhecimentos
mas ainda assim sei
que não é uma pessoa que dá conta
de saber o que fazer por todas
e com um rio, talvez fosse preciso
mudar tudo
embora eu não saiba nada, sei isso
talvez fosse preciso algo muito
além dos jeitos de navegar os leitos as margens
nascentes desembocaduras
águas muito fundas
e não adiantava
não adianta
inventar sozinho nada
na natureza
ou com as pessoas
de cima do morro torcíamos
no atropelo entre sorte e infortúnio
que houvesse chance que talvez
houvesse gente
experimentada na única tecnologia
em que a gente confiava
tomara

No ar

Pega-se pelo ar
Cai
Sobre a gente
como feitiço
Evitar
contato
Revogar o passo
à frente. Atentar a tudo
Comandos do presente
que se estendem

Serão meses
sem
saber o cheiro
dos cabelos
de ninguém
Sem tocar as mãos
de quem nos dá luz

Ouço sua voz
envelhecer
Falamos dos dias
mas não do depois

É preciso aprender
a esperar
Aguentar
Dizer meses
Para não dizer
Mais
Dizer hoje. Acreditar

Dar um tempo
Para o corpo integrar o novo
conhecimento:
Hoje tive um pesadelo
Chamei o meu bem
Pelo telefone

São apenas no sono os sonhos
que coleciono
Não ousamos
planejar o que vem

Enumeramos o imediato
Seja ligeiro, não permaneça
Tente ir a pé
Tire os sapatos, tire os anéis
Não encoste
em nada
Não enlouqueça

Perguntar aos mais
velhos o que querem
fazer: quantas
conversas dessas
é possível ter?

Vejo sua barba
crescer, minhas unhas do pé
A sobrancelha embranquecer
Pelas telas
parecemos um resgatado que voltou do mar
e é bom
Prefiro assim
Prefiro ver
Ter na cara essa verdade
Já basta ter tido
de tecer mortalhas no ar
Revogar o futuro não é nada
perto do que é preciso fazer
com o passado

(em julho de 2020)

Moema Vilela é autora de A dupla vida de Dadá (Penalux, 2019), Guernica (Edições Udumbara, 2017), Quis dizer (Edições Udumbara, 2017) e Ter saudade era bom (Dublinense, 2014). Publicou contos e poesias em revistas literárias e em antologias. Doutora em Letras (PUCRS), é professora nos cursos de Escrita Criativa e Letras na PUCRS.

POESIA

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