Lucio Carvalho
07/2026
Foi a leitura de um breve trecho do recente Uma história da literatura brasileira contemporânea (Todavia, 2026), de Regina Dalcastagnè, que há pouco me fez retomar a antiga impressão de que a história literária do Rio Grande do Sul pode não refletir tantos traços, como queremos crer, da experiência das Missões Jesuíticas Guaranis e da presença indígena. Ao examinar a ficção histórica produzida no estado, cuja diversidade e amplitude atribui ao “espaço de maior fricção entre colonizadores portugueses e espanhóis”, em seu livro a professora organiza esse conjunto de obras em três grandes eixos: a presença dos colonos europeus e a nostalgia da ocupação territorial, os conflitos urbanos e migratórios e, por fim, os embates armados, guerras e revoluções. Embora mencione a extensão da obra de Érico Veríssimo, sua síntese da ficção histórica gaúcha praticamente não contempla os quase dois séculos da experiência missioneira nem a presença indígena, que passam despercebidos no breve panorama dedicado aos livros e autores destacados.
Da leitura do parágrafo resulta uma sensação (não inédita) de estranhamento. Na historiografia literária rio-grandense, as Missões e o elemento indígena raramente comparecem em sua formação, cuja origem costuma ser situada nos limites da Revolução Farroupilha. A sensação agora se amplifica porque ocorre justamente no ano em que se comemoram os 400 anos das reduções jesuíticas, quando o tema tem sido objeto de intenso investimento publicitário no Rio Grande do Sul, servindo de atrativo para a realização de eventos de toda ordem, em uma iniciativa de fomento promovida pelo governo do Estado. Cumpre dizer que, apesar dessa visibilidade simbólica, pouco dessa mobilização foi incialmente projetada para repercutir nas condições de vida das comunidades indígenas, fato que motivou inclusive a intervenção do Ministério Público Federal no sentido de restabelecer a participação das comunidades e alterar a destinação dos recursos. A sensação de descompasso, portanto, não se limita à literatura e tampouco é uma novidade: a assimilação da experiência missioneira e da presença indígena no Rio Grande do Sul de um modo geral é permeada por um histórico de conflitos, disputas e impasses.
Do ponto de vista da memória cultural, a sensação é de um estranhamento ainda maior: ao menos por um momento, parece ainda prevalecer a ideia de que a história das Missões não nos pertence integralmente e diz mais respeito aos domínios espanhóis que luso-brasileiros. Reitero o “ainda” porque, em torno desse antecedente, erigiu-se e predominou por longo tempo a estranha ideia de uma província nascida politicamente apenas nos limiares do séc. XIX, precisamente em 1801, data em que a região foi definitivamente incorporada aos domínios luso-brasileiros após um processo de violência e expropriação dos povos originários.
A ideia fundamentou grande parte da historiografia rio-grandense produzida ao longo do séc. XX, estimulando um intenso debate público que, em muitos momentos, colocou em oposição intelectuais divergentes e governantes. No que diz respeito à literatura, isso me ocorreu especialmente pela ausência, no trecho mencionado, de qualquer referência às obras literárias dedicadas às Missões e à presença indígena — e ainda mais porque essa ausência não corresponde inteiramente à realidade. Há, pelo menos, dois romances que, além de expressivo sucesso editorial, desempenharam papel relevante nas discussões culturais rio-grandenses: trata-se de Tiaraju (Livraria do Globo, 1948), de Manoelito de Ornellas e Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das Missões (Sulina, 1978), escrito por Alcy Cheuiche.
Ainda que não figure como um dos troncos da ficção histórica propostos pela professora Delcastagné, a história missioneira tem sido pródiga na proliferação literária. É uma produção, aliás, notavelmente diversa e compreende desde romances e novelas históricos até a poesia e o cancioneiro popular. No centro dessa intensa representação, localiza-se o guarani Sepé Tiaraju, santo popular desde o registro de João Simões Lopes Neto e figura ao mesmo tempo humana e mítica que encarnou a indianização da cultura popular como um ícone atrativo e identitário. Para muitos pesquisadores, como Eliana Inge Pristch e Ceres Karam Brum, foi justamente a literatura que conformou o mito, transformou a violência da morte de Sepé em martírio e o consolidou na memória e ancestralidade cultural dos gaúchos.
Se, contemporaneamente, o debate em torno das vertentes lusitanista e hispanista da história política e cultural do Rio Grande do Sul pode ser dado como superado, o mesmo não se pode dizer do legado missioneiro, que permanece como um campo simbólico aberto para os debates culturais, exploração turística e disputas políticas. Na literatura, vale dizer que isso se deve menos às referências ao passado do que à produção contemporânea de autoria indígena. Obras de autores como Luciana Vãngri Kaingang e Gerônimo Morinico Franco, por exemplo, vêm expressando, com crescente autonomia, os valores culturais e as questões próprias das comunidades, estabelecendo novas formas de continuidade com o passado colonial. Além da literatura, a reflexão sobre essas relações também está presente em diversas produções acadêmicas e realizações culturais, acompanhando o processo contemporâneo de afirmação da autoria indígena e sua atuação intelectual.
No que se refere ao passado, é preciso lembrar que as relações dos escritores com a representação dos indígenas estiveram, por muito tempo, influenciadas por um processo de racialização e subalternização que acabou por situar a identidade e os antecedentes indígenas, simultaneamente, no centro e à margem dos processos culturais. Há uma espécie de estigmatização que convive com o culto heroico. Em um processo identitário marcado pela indefinição da nacionalidade, pelo desejo de distinção em relação ao mundo hispânico, pela natureza da miscigenação e pela caracterização e permanência da memória cultural, impasses recentes acabam por mimetizar os antigos: velhos preconceitos são reciclados e traduzidos em formas de apagamento tanto no campo cultural quanto no político.
No terreno do imaginário, do qual a literatura ainda pode exercer um poder gerador de sentidos, a situação é tênue como são as atuais condições de vida dos descendentes dos povos indígenas. Mobilizar a atenção das pessoas cada vez mais conectadas ao mundo global para as particularidades locais exige aumentar um pouco o distanciamento para com o presente, e melhor ver o passado. Certo é que a literatura pode servir a esse propósito e a constatação da anulação da ausência dos indígenas no campo literário pode servir de termômetro cultural. Apesar disso, como escreveu certa vez o recém-falecido historiador italiano Carlo Ginzburg, não devemos exigir verossimilhança da literatura, mas aceitar a sutileza do seu suporte. O mais simples será sempre banalizarmos o conhecimento do passado e suspendermos o diálogo que podemos estabelecer com ele, mas à literatura é suficiente o reconhecimento do seu potencial de estranhamento. Quando nos diz respeito, estranhar a ausência desse reconhecimento torna-se também uma questão de sobrevivência.

