Capa do livro Teixeirinha - coração do Brasil

TEIXEIRINHA – CORAÇÃO DO BRASIL – DANIEL FEIX

Em março de 1970, “cara a cara” era uma expressão da moda. O título do sucesso homônimo de Chico Buarque, lançado naquele início de ano, cabia para descrever todos os tipos de acareação — dos duelos dos faroestes spaghetti em voga no cinema da época aos encontros entre João Coragem e o Coronel Pedro Barros, antagonistas da novela Irmãos Coragem, o hit televisivo do momento. Cara a cara também era como se chamava um quadro do musical A grande chance, da TV Tupi, no qual o apresentador Flávio Cavalcanti submetia um convidado a uma série de perguntas, incluindo as mais indiscretas, diante de um júri composto de celebridades que, ao final, sentenciava o entrevistado com base nas suas respostas. Com estilo contundente, não raro agressivo, Cavalcanti era ele próprio uma celebridade, tendo feito muita fama (e alguns inimigos), nos anos anteriores, com outro programa de auditório — Um instante, maestro!. Poucos artistas foram tão bombardeados com seus insultos, que incluíam a quebra de discos, em acessos de fúria em pleno palco, quanto Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha. Raros convidados foram tão esperados no A grande chance. Por isso, a noite abafada de quinta-feira, dia 19, a última daquele verão, foi antecedida de grande expectativa. Havia chegado a hora de os desafetos ficarem cara a cara.

A imprensa de Porto Alegre, onde Teixeirinha morava, acompanhou-o no aeroporto rumo aos estúdios da Tupi, no Rio de Janeiro. “Há 10 anos desejo falar com esse homem, sem conseguir”, disse o cantor e compositor, vibrando com a oportunidade de finalmente encará-lo, conforme registro da Folha da Tarde (de 19 de março). O mesmo jornal aproveitou o paradoxo contido no título da última de Chico Buarque para esclarecer a origem das provocações de Cavalcanti: Chico era um ícone do “bom gosto”, e o apresentador liderava uma campanha difamatória contra o “mau gosto” que, segundo ele, Coração de luto, maior sucesso de Teixeirinha, representava.

A polêmica em torno de Coração de luto estava posta desde 1960, quando a música foi lançada — portanto, havia exatamente uma década (por isso os 10 anos citados pelo músico no embarque na capital gaúcha). Os versos simples dessa toada milongueada, cantados em primeira pessoa com a voz profunda, sofrida de Teixeira, narram a morte de Ledurina, sua jovem mãe, que, epilética, desmaiou sobre uma fogueira no ranchinho em que vivia, causo que o compositor transformou em letra anunciando tratar-se do “maior golpe do mundo”. À mesma medida que o povo se emocionava com o relato, fazendo de seu autor um fenômeno nacional de popularidade, o apresentador o ridicularizava em rede nacional de televisão, difundindo a piada segundo a qual Coração de luto narraria um “churrasquinho de mãe” (expressão que pesquisadores apontam ter sido dita pela primeira vez pelo jornalista Sérgio Porto, pseudônimo Stanislaw Ponte Preta). Ressalte-se que, naquela virada dos anos 1970, os aparelhos de TV eram artigos de popularidade ainda um tanto restrita, fazendo-se mais presentes nas casas das classes média e alta que buscavam a sensação de pertencimento à elite, cultuando o que seria o “bom gosto” e se divertindo com o show de Flávio Cavalcanti, do que nas residências mais humildes de quem consumia a triste história de Ledurina.

A grande chance era transmitido semanalmente para todo o Brasil. Quer dizer, até onde o sinal alcançava. Em Porto Alegre, só era possível acompanhar as reprises, pela TV Piratini. Naquela ocasião, no entanto, a história seria outra: uma operação especial da Embratel permitiu a transmissão simultânea do programa para o Rio Grande do Sul, no melhor preto e branco possível.

A gravação se deu na tarde da véspera, dia 18 (procedimento exigido pela censura do regime militar, conforme informou o Correio da Manhã do domingo seguinte, dia 22). No camarim, Teixeirinha demonstrava despreocupação. Não bebia, fumava um que outro cigarro, conversando alegremente com quem estivesse por perto. Desdenhava da estrutura grandiosa da televisão, com a qual jamais se acostumou. Preferia o rádio, seus programas sem diretores a quem obedecer e os ensaios repetidos só para decorar a dinâmica das câmeras e os passos a dar no estúdio. Um microfone à frente e um roteiro simples, que lhe desse liberdade, era o ideal. Quanto menos intermediários houvesse entre ele e seus fãs, melhor. Uma década de sucesso estrondoso havia lhe ensinado inúmeras lições no que diz respeito à comunicação com o público. Até empresários ele não contratava mais. Tomava as decisões ao lado de seus poucos parceiros, amigos e familiares. Sabia exatamente o que fazer.

No palco, cada questão de Cavalcanti continha uma provocação. O músico até esboçava reações, mas manteve a calma durante todo o tempo. Mesmo em sua performance de Língua de trapo, toada composta especialmente para o algoz, a quem chamava — na letra — de “boca de cuíca”, que “quanto mais me critica/ mais pra trás ainda fica”, ou, em outro trecho, de invejoso: “tens mágoa do meu cartaz/ o que eu faço tu não faz”. Quem se descontrolou foi o próprio Cavalcanti, chegando a abandonar o estúdio depois que os jurados Marisa Urban e Márcia de Windsor elogiaram seu “inimigo” — ele só voltou “após muita choradeira”, de acordo com o relato comentado que a Folha da Tarde publicou no sábado, dia 21. Citando Deus e demonstrando humildade, Teixeirinha deixava claro para a enorme audiência que aquele menino traumatizado pela trágica morte da mãe, que sofreu e muito aprendeu com o drama narrado em Coração de luto, em essência, continuava ali. E, com a fama, havia agregado generosidade (o músico chegou a convidar todos os presentes para um grande churrasco no Sul, descreveu o semanário Revista da TV). Era o que, presumia, precisava ficar claro para os telespectadores. Ele sabia exatamente o que fazer.

(Trecho de “Um causo de morte”, capítulo 1 de Teixeirinha – coração do Brasil.)

Daniel Feix é crítico e editor do jornal Zero Hora desde 2007. Mestre em Comunicação pela PUCRS, foi editor da Revista Aplauso e também trabalhou na RBS TV, além de ser colaborador em publicações diversas, revistas e também alguns livros. É membro da ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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