De ‘O NOVO HORROR’, por Antônio Xerxenesky

O crítico cinematográfico Tom Mes já havia sentenciado: se você quer conhecer a cultura de um país estrangeiro, não dá para assistir aos filmes ditos “de arte”; estes seguem fórmulas prontas, em geral importadas da França. Para realmente mergulhar em uma cultura distinta, é necessário ver filmes de terror.

Com certeza, Mes pensava na ampla variedade estilística que o cinema de gênero exibiu no século XX, das cores saturadas dos giallo à psicodelia desvairada de José Mojica Marins. Mas há algo mais por trás da frase do crítico que, a meu ver, se aplica ao horror lato sensu. É graças a essas obras que podemos compreender os medos que permeiam uma cultura.

Ao propor uma antologia com o título ousado de O novo horror, Daniel Gruber e Irka Barrios oferecem justamente este estudo. Do que temem os brasileiros, em especial os jovens? No momento em que escrevo o prefácio, agosto de 2021, os temores são óbvios e próximos: um vírus que invisivelmente liquida milhões de seres humanos, um criptofascista ameaçando o país com medidas autoritárias, eventos climáticos extremos virando notícia recorrente nos jornais.

Organizada pelos escritores gaúchos Daniel Gruber e Irka Barrios, a antologia reúne 20 contos de 10 autores e 10 autoras de diversos lugares do país, que ganharam destaque nas mais diversas expressões literárias, mas compartilham o gosto pelo gênero do horror. Nomes como Daniel Galera, Bruno Ribeiro, Alê Garcia, Cláudia Lemes, Isabor Quintiere, Nikelen Witter, Oscar Nestarez, Gustavo Czekester e José Francisco Botelho fazem parte do time. O livro conta com apresentação do escritor Antônio Xerxenesky e texto de orelha do professor Alexander Meireles, do canal Fantasticursos.

O horror, novo ou velho, entretanto, nunca é tão direto, preferindo remexer o fundo do caldeirão do nosso inconsciente, despertando pavores íntimos. Assim, o cotidiano brasileiro passa por uma metamorfose pelas mãos dos hábeis contistas aqui reunidos, sendo recriado com imagens brutais e apocalípticas.

O adjetivo “novo” aplicado ao gênero (que outras vezes vira um “pós”) pode se referir a um renascimento de um horror politicamente engajado? Há críticos que apontam no sucesso de Corra!, de Jordan Peele, uma semente para uma nova safra. Não há dúvidas de que esta antologia traz exemplos disso, tratando de xenofobia, racismo, fanatismo religioso e feminicídio. Na Argentina, a literatura fantástica vive uma grande fase por causa desse tipo de horror alegórico, tendo como autoras de maior destaque Mariana Enríquez e Samanta Schweblin.

No entanto, o livro também traz outros textos que desviam de tal abordagem, centrando tramas em psicopatas ou em atitudes cruéis que podem ser praticadas por qualquer um, como se qualquer pessoa carregasse dentro de si o potencial para a violência. O mal segue sendo um mistério, ou um segredo indecifrável, como sugeria Roberto Bolaño.

Tampouco faltam contos que tratam de medos sobrenaturais. O sociólogo Max Weber popularizou o conceito de “desencantamento do mundo”, ao tratar de uma maneira pós-iluminista de ver as coisas pela ótica da técnica, acabando com a magia e o mistério dos acontecimentos que nos cercam. No entanto, todos sabemos que a ciência também tem seus limites, e quando nos deitamos para dormir, nossos sonhos adentram mundos que rejeitam a lógica cartesiana. É por esses territórios que circulam os filmes de Robert Eggers e Ari Aster, que parecem ter influenciado muitos dos narradores presentes na antologia.

O horror, novo ou velho, permanece atento aos pesadelos que nos despertam aos gritos, e a coletânea que o leitor tem em mãos oferece uma ampla cartografia dos pavores que nos assombram.

Antônio Xerxenesky é escritor e doutor em Teoria Literária pela USP.

ENSAIO

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