De ‘WILDE EM BERNEVAL’, de Gerson Werlang

Nota de Robert Ross

Embora estas cartas tenham sido endereçadas a Lord Alfred Douglas, mais conhecido como Bosie, de fato nunca foram remetidas a ele. O próprio Wilde deixa esse fato bem claro, ao fim da primeira carta. Aparentemente, ele deixou-as em Berneval, não sei se de propósito ou não, e foram entregues a mim recentemente pelo sobrinho do proprietário do hotel em que Oscar Wilde se hospedou à época em que estava na aldeia de Berneval, no litoral da França, localizada perto de Dieppe, na Normandia.

Convivi muito proximamente com Oscar Wilde naquele período e nunca notei que ele escrevia estas cartas, que terminam por perfazer um diário de sua vida logo após a prisão. Ele também nunca comentou qualquer coisa a respeito. Depois de deixar o cárcere Oscar já não era o mesmo homem, e sua alegria natural era constantemente turvada por longos períodos de silêncio.

Sei que estas cartas são valiosas, de várias maneiras, mas não sei se Oscar Wilde pretendia que fossem publicadas, pois não deixou instruções sobre o que fazer com elas. Por isso, por enquanto, deposito-as no cofre de meu banco para que talvez, em algum tempo, vejam a luz do dia.

Londres, 23 de fevereiro de 1914.

26 de maio de 1897

Cheguei hoje a Berneval, esta encantadora aldeia onde Robert e os poucos amigos que me restaram acham que é o local ideal para minha recuperação depois de vir daquele lugar horrível. A aldeia, como eu lhe disse, é adorável, com suas casas pequenas e rústicas, um encanto que só é possível na França, pois a Inglaterra perdeu toda e qualquer possibilidade de fantasia para mim.

Estabeleci-me no Hotel de la Plage. O proprietário, Monsieur Bonnet, demostrou ser um homem muito atencioso e em consideração à minha pessoa elevou os preços dos quartos imediatamente após eu haver chegado. Dieppe revelou-se insuportável para mim e numa noite de desespero um cavalo desgovernado trouxe-me até aqui. Logo ao chegar, pensei em escrever esta espécie de carta-diário, que entregarei a você quando nos encontrarmos. Ou talvez nunca a entregue, seguindo o conselho de Robert. De qualquer forma, pensei em escrevê-la como um complemento ao meu De Profundis, uma carta irmã daquela, porém escrita em liberdade, longe dos gostos e cheiros tão comuns ao lugar onde estive nos últimos dois anos. Também não penso em escrever sobre o passado, mas em dedicar-me de corpo e alma ao presente ou, porque não, ao futuro e suas possibilidades.

O prefeito veio me receber, ou melhor, não exatamente a mim, mas a Melmoth, o andarilho, já que adotei o nome de Sebastian Melmoth nesta minha nova vida. Os moradores da aldeia são todos muito simpáticos e prestativos, e oferecem ajuda e serviços de todo tipo. Parecem farejar a presença de dinheiro, o que no meu caso se resume apenas ao cheiro mesmo, já que vivo da bondade dos amigos enquanto não escrevo minha nova peça. De qualquer forma, um novo morador numa cidade pequena é sempre um acontecimento e também um incremento na economia local.

Apesar de ser esta uma vida nova para mim, as velhas feridas ainda doem e não encontro outra maneira de curá-las a não ser lhe escrevendo. Preciso curá-las, senão minha tentativa será um fracasso. Penso em voltar a viver com Constance, rever meus filhos. Robert sorri, enigmático. Acha que é o melhor para mim, mas teme que isso seja impossível. Ele está aqui comigo, e também acha que Berneval é o local mais adequado para este momento. Sei que você teria um daqueles acessos de fúria se lesse o que eu acabei de escrever. Por isso, jamais lhe entregarei esta carta. Desde já me liberto de você e de suas opiniões e atos impensados. Eu mesmo serei o único receptor de meus escritos.

(…)

Gerson Werlang nasceu em Santa Rosa (RS) de onde saiu ainda criança, se fixando em Santa Maria. Possui diversos trabalhos musicais lançados, tanto em carreira solo como com sua banda, a Poços & Nuvens. Graduado em Música pela UFSM, fez Mestrado em Música nos EUA, onde residiu no período de estudos. Estreou na literatura com um livro de poemas, Outros Outonos, em 1997. Publicou um longo ensaio sobre a música na obra de Erico Verissimo. Atualmente é professor na Universidade Federal de Santa Maria, nas áreas de Música e Letras.

FICÇÃO

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