Foto: ALexandre Alaniz

A ÚLTIMA COVA – ROCHELE BAGATINI

O dia nascia sonolento na ilha da Torotama, ouvia-se o ranger dos barcos, o eco das aves, e a água roçava a saia na areia grossa. Na ilha cercada da Lagoa dos Patos, os barcos amanheciam guardados pela elegância das garças, seus delicados pescoços acompanhavam discretos os movimentos dos homens que se aproximavam. Os chinelos afundavam na areia molhada e eram puxados pelos fortes músculos das panturrilhas de Cleto, Aílton e Bento. Tinham a missão de atravessar a Lagoa em direção a cidade de Rio Grande para se reunirem com o prefeito e tratarem da cova única. O rebuliço por lá começou quando a prefeitura, por razões ambientais, proibiu enterros no solo e, para contornar a situação, construiu nove gavetas no cemitério que hospedava toda a ascendência e descendência da vila. Depois de dois anos, elas estavam habitadas por oito falecidos. Mas o que dava urgência ao caso é que três célebres nativos estavam entre a vida e a morte, e concorriam pela última vaga.

Depois de se benzer com a água, Cleto saltou para dentro do barco, que ostentava na proa o nome da esposa Xirle. O coveiro Aílton foi o segundo; com a água nos joelhos, alavancou as mãos na borda do barco, ergueu-se até se sentar e, num giro pelo eixo do corpo, colocou as pernas para dentro, atirou os chinelos que estavam esmagados pelo elástico do calção e chamou Bento. Estava com a água pelos ombros, agarrou as mãos firme à borda, escorou o peito e, num impulso, só com a força dos braços, elevou todo corpo para direita, rodopiando pelo ar, contornando o barco e caindo com os pés cravados na madeira instável, um movimento olímpico.

A missão era política. Exigiriam do prefeito a construção de mais covas. Demoraram menos de uma hora nas águas da lagoa para atracar perto da prefeitura. O prefeito, em fim de mandato, tratou de recebê-los com simpatia de candidato, disse que sabia sobre a questão, e estava fazendo o possível para remanejar recursos. Sugeriu alguns nomes de cemitérios que poderiam ser utilizados, mas desconsiderou o valor impossível de um cortejo fora da ilha, bem como as questões emocionais. A comunidade cultivava os mesmos hábitos fúnebres há décadas. Para o povo de lá o enterro digno justificava a vida difícil.

“Todos os nossos mortos estão espichados por lá”, disse o coveiro, mas o prefeito dava por encerrada a reunião.

Sem perspectivas, embarcaram em regresso à Ilha. Cleto conduziu fumando um cigarro, curvado sobre a perna dobrada, enquanto a outra, ossuda, se equilibrava no soalho. Pensava na sogra Colástica, na roupa que ela passara, caprichada no cabide, sonhando o próprio cortejo. O coveiro acariciava o escapulário atado ao pescoço e receava que fosse obra do capeta não conseguir cumprir a promessa de enterrar o padre em Torotama, temia uma maldição. O jovem Bento curtia a viagem, sentia na pele a brisa e apontava vez ou outra um cardume. Pensava nos olhos verdes de Cristina, filha de Cleto, que o ignorava. Lembrou o avô, seu Dirceu, e a vaidade com que lhe mostrara a camiseta do Sport Club Rio Grande, time de futebol que torcia desde que era moleque. Desejava ser enterrado vestido nela, brasão no peito, conforme a tradição.

Cleto, jogou a bituca na lagoa, encheu o pomo e decidiu que fariam uma reunião naquele dia com a comunidade. Resolveriam eles mesmos a situação. As palavras do pescador injetaram ânimo ao barco, e pareceu que a embarcação deslizava com mais rapidez. Logo que pisaram na Ilha, puxaram o Xirle para areia, e combinaram como se dividiriam para avisar sobre a reunião que aconteceria naquele final de tarde, na igreja.

A igreja era uma caixa de cimento coberta por placas de zinco que dava a impressão de retalhos. No interior, havia cadeiras de plástico dispostas em filas, um altar de pinus e uma cruz pendurada com um Cristo em cerâmica. O lugar era definido por uma placa posicionada a cima da porta de entrada: Igreja Nossa Senhora de Aparecida.

Xirle, a presidente da Associação de Moradores da ilha, se adiantou sobre a ida do marido à prefeitura e os efeitos nulos. Impacientes, deliberaram que a cova pertenceria ao primeiro que morresse. Xirle segurava nas mãos uma caixa de papelão com o intuito de arrecadar dinheiro e construírem eles mesmos novas gavetas. Entregou a caixa à Cristina que, sob a mira apaixonada de Bento, passou de má vontade entre as cadeiras.

Na tarde seguinte, viajaram com destino à UTI da Santa Casa de Rio Grande. Cada um dirigiu-se ao leito do seu doente. Bem encostado na parede estava a cama de Dirceu. Tinha certa zanga no olhar fosco. Bento não tinha pai, morto em uma tempestade na lagoa que custou a vida de outros moradores. A mãe nunca se recuperou, tinha pelo marido um amor inaudito. Perdeu o gosto pela vida; foi deixando todos de lado, começou pelo sogro, depois esqueceu o filho, ficou muda, diziam que enlouquecera. Na borda da cama, Bento dava-se conta do pouco que lhe restava da família, e não pôde conter as lágrimas que enxugava com a manga comprida da camiseta do Sport Club esticada pela mão apertada. Contou, mesmo achando que o avô não ouviria, sobre a decisão na igreja e a cova única. Dona Colástica e o padre nem abriram os olhos na visita da ocasião. O coveiro rezou o terço e o volteou nas mãos duras do padre. Xirle penteou os cabelos da mãe, que dormia como morta. Saíram juntos, passaram pela capela do hospital e acenderam uma vela para cada doente. Quando estavam quase deixando o local apareceram duas enfermeiras chamando por Bento.

“Você é o responsável pelo senhor Dirceu?”, disse uma delas.

“Sim, sou o neto dele.”

“Ele retirou o tubo de oxigênio, quase foi a óbito!”

“E como ele está?”, entendendo logo que o trapaceiro tentava ficar com a vaga.

“Conseguimos entubá-lo novamente, está fora de risco. Durante a visita ele manifestou algum tipo de reação? Não foi você que retirou o tubo, né?”

“Não, eu não faria isso nem se ele me pedisse, não posso fazer isso!”, disse com raiva do avô. O velho além de querer deixá-lo naquele mundo já quase sem família, ainda o incriminaria. Que família!

“Se vier amanhã, tente não aborrecê-lo.”

Saíram as duas olhando de soslaio, cheias de desconfiança do rapaz.

Bento pulou no barco desconcertado, não falou nenhuma palavra a viagem toda, conduzia o barco calado. Percebeu o olhar enviesado de Cleto e Xirle. Seu Aílton alisava o escapulário do pescoço. Bento olhava aquelas águas com vontade de se juntar aos peixes, que não precisavam de cova.

“Vamos fazer nova reunião e decidir quem dos três merece a vaga, caso um deles morra antes terá que ser enterrado fora da Torotama. Decidiremos no voto”, disse ela.

Bento e seu Aílton não tinham nada a dizer, já estava decidido, dessa vez o local da reunião seria o cemitério.

As gentes foram chegando, o sol estava se pondo num verde-amarelado que contrastava com as grades azul turquesa. Todo aquele colorido dava ao lugar uma impressão cômica, agravando a melancolia. Dessa vez sem alardes, em respeito aos finados, foram se chegando, miúdos, sentaram-se os mais velhos em bancos de concreto, os jovens no chão. Usavam lanternas para iluminar. Xirle comandava a sessão. Explicou sem detalhes, visto que sua palavra sempre parecia mais sábia que a dos demais, que deveriam evitar uma morte forçada em função da vaga única e, por isso, deveriam eles mesmos julgar quem a merecia. Fora um que outro protesto, Xirle passou a palavra a seu Aílton para a defesa do padre.

“Nosso querido padre tá com a gente há tanto tempo, ajudou a encomendar o corpo de tantos aí, pode ser que eles se revoltem se ele for enterrado longe. Eu vou ser o primeiro a pegarem, tô sempre aqui. Não acho isso certo, era que mais tinha bondade, se dedicou a nós todos sem pedir nada. E os batizados? Todos vocês! Capaz de Deus nos descomungar, o limbo, corre risco de inferno.”

“Mas pensem…, disse Xirle, “minha mãe foi parteira dos mais de oitenta que vieram de repente, e deu vida a onze, o padre não pariu nenhum. Até Deus ficaria duvidoso entre os dois. Diga você Bento, o que tem para defender seu admirável avô Dirceu?”

“Bem…”, disse Bento sem convicção. “Foi um grande pescador, ensinou a muitos aqui a arte da rede, da minhoca, da remada, uns dribles de futebol…”

No meio deste gaguejar ouviram um barulho de bicho grande na mata atrás do cemitério. Todos olhavam para lá, apontaram as luzes.

“Xiiiiii….”, Cleto fez sinal de silêncio quando começou um agito.

As luzes da lanterna cruzaram os altos arbustos como se os cortassem, e se pôde ver, ainda de relance, um vulto grande e negro. É comum acreditar que a morte ronda cemitérios. Seu Aílton dizia que a vira, tinha imensas mãos cravejadas de verrugas. Havia mais relatos, sempre as voltas com as tumbas. Naquela noite sem lua, todos admitiram o vulto, e talvez pela indecisão sobre o voto, começaram os sussurros que ganharam força de verdade: é Ela, só pode ser, Ela é quem quer decidir, se ouvia de cá e de lá.

Cleto pensou em defender Xirle, estufou o peito, pegou uma pedra e apressou-se em chegar perto da mata. O coveiro armou-se de uma pá. Bento sempre carregava um facão, presente do avô ao pai, sua única herança, e tirou do sabre exibindo-se para Cristina. Incentivados por todos, saíram em direção ao vulto. Cleto foi na frente, Bento e o coveiro fazendo a escolta.

“Ali se reúnem as almas”, diziam apontando para o local. Cleto abriu caminho no mato, de repente foi surpreendido à sua frente por um corpo grande, coberto de preto. Assustou-se, soltou um grito histérico e atirou com força a pedra. Aílton saltou na frente de Cleto e, segurando o cabo da enxada com as mãos, bateu duas vezes no que devia ser uma cabeça pelo som da pancada. O negócio desabou. Então, sem que tentassem reconhecer o que atacaram, Bento pulou com olhos iracundos como nunca se tinha visto. Ajoelhou-se em frente à massa negra desfalecida e enfiou uma vez o facão, depois duas, três, quatro e mais duas. Sete facadas. Era sangue que jorrava por todo lado, era sangue que cobria Bento, era tanto que nem era mais ele mesmo. Caiu ao lado, largando o facão, chorou choro soluçado de criança. Dava para ouvir lá do cemitério, onde começava o tumulto. Cleto e Aílton arrastaram o corpo para fora da mata em direção ao povo, um rastro grosso de sangue. Largaram o corpo morto no cimento, o povo aproximou-se para espiar. Xirle se ajoelhou e tirou o capuz, não reconheciam aquele rosto com a barba e todo o resto encharcado de sangue. Arranjaram um balde com água e largaram sobre o rosto. Um velho de cabelo e barba brancas e algumas poucas verrugas nos nós dos dedo. Ninguém reconheceu. Imediatamente começaram a rezar como um canto. Xirle pediu silêncio, ergueu as mãos sobre o corpo morto.

 “Matamos a Morte!”

Alguns acreditaram terem mesmo a matado. Outros que era apenas um ermitão, um fugitivo, um messias, um demônio. Tudo se pensou, nada se disse. Pensaram que seriam os três acusados por aquela morte. Unanimemente decidiram dar ao falecido enterro digno, mais por medo que por compaixão. Usariam para isso a última cova.

O corpo foi velado em cima de um banco de concreto. Na manhã seguinte improvisaram um caixão e seguiram o cortejo como de um ente querido. Depois de fechada a sepultura, a inscrição desenhada com arame no cimento mole tinha data e nome: Mãos-de-verruga. Dividia a gaveta com Mínimo, Inocência e Pau-brasil, nomes únicos, porque lá na Torotama todos se conheciam por um nome só.

Fato raro aconteceu na UTI da Santa Casa: os pacientes da ilha se recuperaram na mesma noite, sem risco de morte.

Bento, no entanto, passou dois dias desaparecido. O primeiro a vê-lo foi Aílton. Chegou ao cemitério carregando um trole com tijolos e cimento. Nada dizia, descarregava e saia de novo, voltava mais tarde. Por noites construiu sozinho três novas covas. Ao final, carregou, como ele, o carrinho vazio. Sabe-se que passou a cuidar da mãe e do avô com dedicação exclusiva. Ganhou o respeito da Cristina, mas nada fez, permanecendo tão mudo quanto a mãe. Desde aquele dia ninguém mais morreu em Torotama. O prefeito de Rio Grande mudou, mas os moradores não pleitearam novas gavetas. Virou promessa, todo ano na data do ocorrido eles prestam homenagens ao Mãos-de-verruga. Cantam, dançam, bebem e rezam, e os pescadores contam histórias sobre como os torotamenses mataram a morte.

Rochele Bagatini é escritora, professora e fotógrafa. Graduada em Comunicação pela UFRGS. Mestre em Letras pela PUCRS. Email: rochelebe@gmail.com

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