PORTO ALEGRE, TCHAU, por Paulo Damin

Como numa música do Kleiton e Kledir, um turista pegava o ônibus na sexta de tarde e ia pra Porto Alegre. Se instalava no hotel Uruguai (duas estrelas apagadas), onde havia uma sacadinha no quarto e um interruptor que acionava a Rádio Farroupilha. Aí um turista fumava um cigarro, olhando a rua melequenta e os prédios descascados, só pra se sentir num conto do Sergio Faraco.

Depois de percorrer os sebos da Ladeira e da Riachuelo, um turista pegava o rumo do Bonfim pra poder se sentir numa novela do Moacyr Scliar. Quando chegava a noite, um turista vestia a jaqueta de brim comprada num brechó da Oswaldo Aranha e atravessava a Redenção até a UFRGS, onde algum espetáculo grátis lhe permitia sentir-se numa peça do Qorpo Santo.

Dali era um pulo até o Beco, onde um turista se apaixonava trinta vezes pelas gurias de meia-calça e Allstar. Já sem grana e sem beijos, ele compartilhava a pinga dos mendigos e ganhava o direito de se sentir numa música dos Cascavelletes.

De volta no hotel, mais uma vez fumando na sacadinha, um turista tentava rir de si mesmo como se estivesse num verso do Mario Quintana, imaginando o dia em que namoraria uma mulher que escrevesse que nem a Martha Medeiros. Aos poucos, ele se deixava adormecer com o canto dos sabiás madrugadores e mergulhava num sonho à la Dyonélio Machado.

A voz do Zambiasi na manhã seguinte era o banho frio pós ressaca. Hora de pegar o ônibus de volta e rever os campos que o faziam se sentir num romance do Erico Verissimo. Mas sempre que ele sentava para escrever suas aventuras na capital, o melhor que um turista conseguia fazer era imitar palidamente o Luis Fernando.


No século passado, pra quem era do interior, Porto Alegre significava uma coisa definitiva. Quando minha nonna Alice ficou doente e foi pro Hospital de Clínicas, a gente entendeu que já era hora de arrumar dinheiro pro caixão. A capital, mais do que passagem, era o fim da estrada. O Sergio Faraco tem um conto sobre isso, só que na história dele a Alice é uma criancinha.

Quem ia do interior pra Porto Alegre até os anos 2000 e pouco precisava corrigir o sotaque. Aquele de completo da fronteira, aquele r fraco da colônia; qualquer deslize significava um beijo a menos, uma gargalhada a mais. Assim que adquiriam uma relativa proficiência no porto-alegrês, os interioranos entravam na categoria de porto-alegratos: gurizada que tinha encontrado na capital a possibilidade de serem aquilo que eles e elas achavam que queriam ser. E havia também a categoria das porto-alegretes, pessoas que, ao desembarcarem na rodoviária, ajuntavam invariavelmente um ã no fim de qualquer palavra: alo-ã, vamo-ã tomar uma ceva-ã?

Os caxienses que iam estudar em POA se dividiam entre os que iam fazer engenharia e os que iam fazer teatro. Os engenheiros voltavam pra casa todo fim de semana; os atores e atrizes nunca mais subiam a serra. Eu fui estudar letras pra poder falar de todo mundo e voltava pra casa escondido.

Hoje é fácil falar mal de Porto Alegre, mas até 2000 e pouco tinha a rádio Ipanema e festas na rua. Quando eu saí de lá, há alguns anos, parecia que o mundo estava acabando, cada indivíduo era uma facção em guerra contra os outros. Porto Alegre tinha deixado de ser uma referência definitiva pra gurizada do interior e passou a ser apenas uma passagem para um lugar melhor; e isso não significava mais o Céu, como o era pra Alice minha nonna e pra irmãzinha do conto do Faraco. O lugar melhor a que os porto-alegrenses e porto-alegretes aspiravam parecia ser São Paulo, como viciados indo em busca de doses mais fortes daquilo que lhes faz tão bem e tão mal.

E nunca mais ouvi alguém cantar, muito menos com convicção, aquela música em que Kleiton e Kledir alabavam a capital com suas gírias nos anos 1980. Talvez só tenha sobrado o “Deu pra ti” mesmo. Porto Alegre, tchau.

Paulo Damin. Nasci em 1986, em Caxias do Sul, onde voltei a viver depois de alguns anos morando em Porto Alegre. Trabalho com tradução e vendo grappa. Escrevi crônicas pro site humorístico Revista Menas. Publiquei, em 2015, um romance chamado “Estudo de causo” (Editora Penalux). Tenho também uma novela, ainda inédita, chamada “Adriano Chupim”.

CRÔNICA

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