A LOJA DE MÁSCARAS, por Arthur Reginatto

Era início de junho. Até agora, fora um ano muito estranho; um ano de medo e especulações sobre o futuro da humanidade. Uma doença nova e perigosa assolava o planeta inteiro, e todos tentavam se adaptar às novas normas de segurança criadas para evitar o contágio. O inverno havia chegado no hemisfério sul, e, com ele, a pandemia, que todos achavam que atingira seu pior momento  há um mês atrás, alcançava um novo pico, muito mais alarmante do que o anterior.

As ruas da cidade estavam praticamente vazias, e o vento gelado soprava pelas calçadas, desencorajando ainda mais aqueles que se negavam a praticar o isolamento. O dia era nublado e anunciava uma chuva pesada que poderia cair a qualquer momento. Apesar de ainda ser 16 horas, as luzes da rua já haviam ligado, projetando as sombras dos postes sobre o asfalto.

Hoje pela manhã, notei que meu último pacote de máscaras estava terminando. No início da pandemia houve desabastecimento apenas temporário de farmácias, mas, à medida que a crise se prolongou e indústrias começaram a ser fechadas, as importações diminuíram, e até mesmo as máscaras de produção caseira ficaram mais escassas, caras e difíceis de encontrar. Encontrar mais máscaras era minha prioridade no momento.

Um amigo comentou comigo que havia uma pequena loja perto do meu prédio que costumava vender vestidos, agora transformada em uma loja de máscaras pela dona – uma tentativa de manter seu negócio aberto. Porém, ele me avisou que a senhora que produzia as máscaras apenas as vendia para clientes que a agradassem. Me parecia uma forma muito estranha de fazer negócios, mas, na falta de outras opções, planejava tentar cair nas graças da tal vendedora de máscaras.

Saí do prédio, vestindo uma das minhas últimas máscaras. Caminhei a passos rápidos, um pouco ansioso, e dobrei a esquina, avistando, no final da quadra seguinte, a pequena loja de máscaras espremida entre um antigo restaurante de hambúrgueres – que faliu no meio da pandemia – e uma loja de peças automotivas. Era uma lojinha minúscula, com uma pequena vitrine completamente atulhada de tecidos, vestidos, camisetas, mas nenhuma máscara. Pelo visto, a dona também não gostava que todos os transeuntes soubessem que ela vendia máscaras – será que havíamos chegado nesse ponto, vivendo com comércios secretos de itens essenciais?

Me aproximando da loja, notei os manequins velhos, de coloração amarela desgastada, com vestidos rendados de tecidos coloridos também já desbotados. Era uma lojinha com jeito de suja, que me lembrou alguma coisa saída de algum filme de terror B.

Dentre as cabeças dos manequins, sentada em frente a uma máquina de costura manual, notei uma senhora de cabelos brancos e pele muito enrugada, curvada de uma forma visualmente desconfortável, concentrada em um rolo de tecido que corria por seus dedos.

Atravessei a rua, saltando por cima de algumas poças de água que ainda não haviam secado após a chuva do dia anterior. Ao subir na calçada do outro lado, pisei em uma pedra solta e a água que espirrou por debaixo dela quase acertou em cheio a panturrilha da minha calça. Durante a faculdade, eu tinha uma amiga que costumava chamar essas pedras soltas de “pega bobo”. Exclamei um “ufa” de alívio, antes de tomar um susto enorme ao notar que a senhora da mesa de costura agora estava com o rosto colado na vitrine, me observando com um sorriso no rosto. Demorei alguns segundos para conseguir me recompor e sorrir de volta para ela, lembrando do que meu amigo havia me alertado.

A pequena senhora tinha um rosto de velhinha de desenho animado; redondo, enrugado, com cabelos brancos curtos e encaracolados, um pequeno par de óculos quase caindo da ponta do nariz. Seu sorriso, porém, era desconfortante, já que não parecia haver nenhum dente dentro de sua boca. Enquanto ela continuava na vitrine, me mostrando suas gengivas, me aproximei, tentando parecer amistoso, da pequena escada que subia até a portinha da loja.

Os degraus da escada eram de madeira velha, e eu sentia meus pés afundando um pouco a cada passo que dava. Ao final dos degraus, havia uma porta estreita de vidro, quase opaco de tão sujo. Girei a maçaneta e, após ter que fazer alguma força para abrir a porta, escutei o som de um sino que alerta quando um cliente entra na loja. De onde eu me encontrava, não conseguia enxergar a senhora na vitrine. A entrada da loja dava em um balcão com uma caixa registradora antiga, toda empoeirada. Ao lado do caixa, bagunçadas, havia alguns vidros de balas coloridas, e notei algumas teias de aranha entre um frasco e outro. Imaginei se alguém se encorajaria a experimentar uma das balinhas.

Virei para a esquerda, dando alguns passos à frente na espera da senhora aparecer para me dar boas vindas. Cheguei ao meio da loja, de onde conseguia enxergar a vitrine. Não havia sinal da velhinha. Dei um passo para o lado, virei bem a cabeça, pensando que ela poderia estar enfiada no meio dos manequins, mas não. Senti um arrepio ao imaginar que ela poderia estar agora logo atrás de mim, me encarando com seu sorriso sem dentes.

Me virei lentamente, tentando não demonstrar nenhum alarme. Lá estava ela, sentada em sua mesa de costura, analisando em um rolo de tecido em suas mãos enrugadas. Parecia nem ter notado que eu havia entrado na loja. Eu devo ter deixado minha imaginação tomar conta, era claro que ela nunca poderia ter ido da vitrine até sua mesa tão rápido.

Ãhn, boa tarde. Desculpa, a loja ainda está aberta?

Nenhuma resposta da velhinha. Ela pegou o rolo de tecido, desenrolou um pedaço dele e começou a alinha-lo em sua máquina de costura, completamente alheia de que havia mais alguém na loja com ela.

Oi, boa tarde! Desculpa, mas a loja está aberta? Um amigo me indicou a loja da senhora, me disse que a senhora estava fazendo algumas máscaras caseiras. – Tentei falar um pouco mais alto, mas ainda sem gritar. Não queria parecer um maluco assustando uma senhora de idade, mas aquele lugar estava me dando arrepios e queria sair logo dali.

Sim, sim. Eu te escutei da primeira vez jovem. Mas quando a gente começa a trabalhar com o tecido, é o tecido que nos diz quando parar. Sente-se naquela cadeira ali no canto, eu já vou lhe atender. – A senhora exclamou com uma voz séria, ainda sem tirar os olhos do tecido em sua frente.

Ah. Tá bem, desculpa. Achei que talvez a senhora não tivesse me escutado. – Me senti levemente envergonhado por ter erguido o tom da voz. Mas o jeito como ela conversou comigo, com os olhos totalmente vazios, apenas me deixou mais desconfortável do que já estava. Pensei se não seria melhor tentar achar outro lugar para comprar algumas máscaras. Porém, já que havia chegado tão longe, não queria desistir agora.

Olhei ao redor, procurando a cadeira que ela havia me indicado. Logo ao lado de um mostrador com alguns vestidos que – ao meu ver – pareciam estar na loja desde o século passado, encontrei um banquinho de madeira com uma caixa de papelão em cima. Como não vi sinal de nenhuma outra cadeira, e com medo de conversar de novo com a senhora estranha, imaginei que não teria problema tirar a caixa de cima do banquinho e me sentar ali.

Caminhei até o banquinho e peguei a caixa com as duas mãos. Me surpreendi de cara com o peso, estava esperando que fosse uma caixa cheia de roupas e tecidos, mas ela era mais pesada do que isso. Quando a levantei, notei que o peso dentro dela se distribuía de uma forma estranha; parecia que havia algo rolando quando a movimentava. Senti novamente uma sensação ruim. Coloquei a caixa  no chão ao lado do banco e me sentei.

O banco ficava logo ao lado de um mostrador, e, por ser mais baixo do que esse, eu não conseguia enxergar a velhinha em sua mesa de costura. Olhando em minha frente, via o balcão da loja e a porta de entrada. Vi alguns quadros pendurados na parede, velhos e amarelados, e não consegui distinguir muito bem as pinturas por detrás dos vidros das molduras. O teto da loja era de algum material barato, com a tinta já descascando, e as lâmpadas eram seguradas no lugar apenas pelos fios elétricos expostos. Me parecia um risco de incêndio. Fiquei com um pouco de pena da pequena senhora. Claramente ela não tinha energia para manter a loja limpa ou dinheiro para pagar um funcionário para fazê-lo.

Abaixando minha cabeça, notei que, entre as frestas das tábuas do piso, conseguia enxergar um cômodo abaixo da loja. A luz estava apagada, então não era possível distinguir o que havia ali embaixo. Provavelmente devia ser o depósito. Enquanto eu espiava pela fresta, curioso, a luz se acendeu. Ouvi a voz grave de alguém falando sozinho, em tom irritado, mas não pude entender exatamente o que a pessoa estava dizendo. Vi sua sombra atravessar o cômodo, e então ouvi o som típico de um cadeado sendo destrancado e correntes tilintando. Logo após, outra voz, dessa vez aguda, de uma mulher, em tom de desespero, e então o som de uma porta pesada sendo fechada e novamente o som do cadeado e das correntes. A sombra atravessou novamente o cômodo e a luz foi apagada.

Fiquei um pouco confuso com o que vi ou pensei que vi. Eu devia estar me deixando levar pelo medo e pela estranheza do local e comecei a imaginar coisas. É claro que não havia ninguém trancado com um cômodo logo abaixo de uma loja de costura de uma senhorinha idosa.

Meus pensamentos foram interrompidos por um cheiro forte de algo podre. Ao entrar na loja, meu nariz ficou um pouco anestesiado pelo forte odor de coisas velhas guardadas que impregnava todo o local. Após me habituar um pouco, distingui um cheiro muito pior vindo de algum lugar. Por algum motivo, pensei de cara na caixa ao meu lado, e me aproximei dela para investigar se era dali que vinha essa podridão horrível. Mal consegui aproximar o rosto da caixa e tive fortes náuseas, quase vomitando ali mesmo no piso da loja. Da distância que meu rosto chegou do topo da caixa, notei o que parecia ser um pouco de cabelo saindo pelas frestas entre os pedaços de durex.

Levantei em um pulo e dei alguns passos rápidos em direção à saída da loja, decidido a procurar outro lugar, de preferência não tão assustador, para comprar minhas máscaras. Porém, antes que eu pudesse cobrir metade do caminho até a porta, a velhinha logo se atravessou na minha frente.

Ué, já está de saída? Mas eu não lhe disse que eu logo iria lhe atender? Esses jovens de hoje hein, não tem mais nenhuma paciência. – E abriu um largo sorriso, mostrando dentes brancos e perfeitos. Senti um arrepio correndo pela minha espinha. Eu tinha certeza que quando ela me sorrira da vitrine não havia dente nenhum naquela boca.

Hmm, desculpa. É que eu lembrei que tenho um compromisso daqui a pouco, então estou com um pouco de pressa.

Compromisso, é? No meio dessa quarentena? Me diga a verdade jovem, você achou que tem algo estranho com minha loja, não é? Eu sei, faz tempo que não consigo limpar o local como deveria, mas entenda, eu já não tenho mais a energia ou os músculos de um jovem como você para deixar esse local como ele já foi. Ah, que saudade dos meus anos de juventude, quando conseguia tecer quantos vestidos me fossem encomendados sem derramar uma gota de suor. – Senti novamente pena da senhora. Era claro que ela não tinha como manter esse local inteiro limpo e ainda fazer todo o serviço de costura sozinha.

Desculpe. Na verdade, um amigo me indicou a loja da senhora. A senhora vende máscaras caseiras?

Máscaras, ah, sim, claro. As máscaras são o que deixam meu negócio vivo hoje em dia. Ninguém quer comprar vestidos de uma velha antiquada como eu, não é? Mas eu encontrei nas máscaras uma nova chance de mostrar a alma da minha costura. Venha, venha, vou lhe mostrar o que quero dizer.

Alma da costura, pensei. Em máscaras. Essa loja devia ser a única alegria de sua vida, para falar de simples máscaras dessa forma.

Segui a senhora pelo corredor comprido da loja, me desviando dos mostradores de vestidos, ainda não enxergando nenhuma máscara. Passamos por vários e vários mostradores, cada um cheios de tecidos velhos, empoeirados e desbotados, cobrindo as paredes do chão ao teto. A loja não parecia tão grande vista pelo lado de fora, mas caminhamos por um corredor que não parecia ter fim até uma porta coberta por uma cortina vermelha.

Aqui, eu separei essa salinha aqui atrás para as minhas máscaras. Eu não conseguiria tirar todos aqueles vestidos do lugar, então tive que deixá-las aqui mesmo. Agora, quero que você dê uma olhada se essas não são as melhores máscaras que você já viu.

Entrei na sala escura, tentando manter um sorriso no rosto. Não queria decepcionar a velhinha, então me preparei para reagir de uma forma surpresa e elogiar ao máximo sua costura – coisa em que eu era horrível; desde criança, eu odiava até mesmo ganhar presentes, pois tinha que demonstrar para a outra pessoa o quanto eu gostara, e mesmo quando eu realmente gostava do presente, achava difícil ter uma reação que mostrasse isso.

A sala tinha prateleiras que cobriam todas as paredes, circulando todo o cômodo. De forma muito mais organizada do que a parte da frente da loja, haviam cabeças de manequins iluminadas por luzes nas prateleiras, alinhados perfeitamente com o mesmo espaço entre um e outro. Esperava máscaras simples de tecido colorido, talvez com algum bordado ou estampa; porém, o que vi era surpreendente, e também um pouco esquisito. As máscaras tinham rostos humanos desenhados, imitando com perfeição lábios, dentes e narizes. Algumas estavam sorrindo, outras pareciam tristes. Em algumas, notei até mesmo o que deveria ser alguma imitação de pelo facial formando uma comprida barba. Senti novamente um arrepio. Eu jamais iria conseguir usar uma daquelas máscaras estranhas.

E então? Eu não lhe disse? Eu tinha percebido a sua cara antes quando eu falei que tinha algo de especial nas minhas máscaras, você estava duvidando de mim. Todos duvidam, mas elas têm uma alma especial, não tem? Vai, dê uma olhada mais de perto, passe a mão em uma delas.

Ãhn, acho que não, obrigado. Eu queria apenas algumas máscaras simples, no máximo com algum bordado, mas essas são um pouco chamativas demais para meu estilo, desculpa. Acho que já vou indo.

Antes mesmo que eu pudesse me virar, a velha ocupou a saída da sala, em um movimento rápido demais para uma pessoa dessa idade.

Desculpe, mas eu preciso insistir. Vá em frente, quero que você experimente uma delas.

Hesitei. Estava me sentindo desrespeitoso em negar os pedidos dessa senhora, que falava de suas máscaras com tanta paixão, mas desde que entrei na loja eu tinha a sensação de que havia algo de muito errado acontecendo ali. Resolvi que era melhor provar alguma das máscaras, comprar uma delas e nunca mais chegar perto desse lugar.

No centro da prateleira da parede do fundo havia uma máscara de um rosto masculino. Me aproximei devagar, com a senhora dando passos curtos logo atrás de mim, e cheguei até o manequim. De perto, podia notar detalhes impressionantes. O nariz foi moldado com algum material para parecer de verdade, e tinha até alguns pelinhos colados nas narinas. Os lábios eram finos, com alguns pontos de pele rachada. O realismo era incrível. Realmente, isso deveria ter dado um trabalho imenso, e não era à toa que a senhora estava tão orgulhosa de seu trabalho. Claro, também era estranho, para dizer o mínimo.

– Ah, sim. Esse foi um dos meus trabalhos mais recentes e, diga-se de passagem, um dos melhores. Demorei muito para aperfeiçoar certas técnicas, e acho que nessa peça consegui demonstrar tudo que aprendi ao longo do tempo. Anda, tire-a do mostrador, quero dar uma olhada em como ela fica no seu rosto!

Hesitante, estiquei minha mão e encostei no rosto do manequim, tentando evitar encostar na máscara. Segurei-a pelas alças e a retirei do boneco. Ao segurá-la, senti uma estranha textura de couro, muito parecida com pele de verdade. Analisei mais de perto o objeto; imaginei que ela fora produzida com algum tipo de couro animal; porém, os pelos faciais não eram de algum material falso barato, e eram assustadoramente realistas. O nariz era um pouco amassado, mas ainda perfeitamente um nariz humano.

Nada na minha vida me preparara, entretanto, para o momento em que virei a máscara para colocá-la em meu rosto. A velhinha me encarava com expectativa nos olhos enquanto eu lentamente aproximei o objeto de meu rosto. Na meia luz daquele cômodo, não consegui notar de que material o interior da máscara era feito; então, foi só ao encostar aquela coisa na pele do meu rosto, quando senti o material úmido, pegajoso, grudar em minha boca, que tudo se encaixou. Senti um líquido escuro escorrendo pelos meus lábios, com gosto de sangue. Atirei a máscara longe, com toda a força, atingindo e derrubando outros dois manequins. Onde ela caiu, em um lugar mais iluminado da sala, sangue escuro começou a se espalhar pelo chão.

O que foi que você fez? Você perdeu a cabeça? – Me perguntou a velha. Você por um acaso sabe o quanto foi difícil trabalhar em esse espécime em questão? O quanto eu esperei que alguém com o rosto tão perfeito entrasse em minha loja? Foram horas de trabalho.

A senhora não pode estar falando sério. Isso é um sonho. A senhora quer mesmo me dizer que essas máscaras são feitas de rostos humanos de verdade?

Mas é claro meu querido. Como mais elas seriam tão perfeitas? Claro, no início eu não conseguia remover a pele de forma tão limpa; alguns pedaços sempre ficavam de fora. Depois, minha maior dificuldade foi tentar manter a emoção das feições. Foi um árduo processo, e esse espécime que você acabou de destruir foi minha primeira máscara realmente perfeita.

Enquanto ela falava, comecei lentamente a me afastar em direção à frente da loja, me sentindo sufocado. Eu não conseguia aceitar a total loucura do que estava presenciando, mas de forma alguma isso era um sonho. Eu senti o sangue gelado escorrendo em meu rosto. Tive vontade de vomitar. Queria virar as costas para a velha e sair correndo, mas minhas pernas não queriam me obedecer

Meu querido. Não precisa se assustar. Sabe, eu não estou tão irritada assim. Sim, essa máscara que você destruiu me deu muito trabalho. Mas desde que vi você caminhando na rua em direção à minha loja eu notei que você tem um rosto melhor ainda do que do último rapaz. Ah, que máscara você daria. Então, é claro que não vou poder deixar você ir. Produto quebrado, na minha loja, é o cliente quem paga.

Minhas pernas finalmente resolveram começar a se mexer. Quase tropecei em meus calcanhares, mas dei meia volta, dando com o ombro no batente da porta, e comecei uma corrida atrapalhada pela loja. Passei por dois mostradores até uma figura aparecer perto da entrada da loja, carregando a caixa que eu tinha tirado de cima do banquinho. Era um homem enorme, de quase dois metros de altura, com um avental de couro todo manchado.

Não deixe esse escapar meu netinho! Vovó precisa do rosto dele e vou fazer um belo assado com os restos pra você! – Gritou a velha, antes de começar a rir descontroladamente.

O homem atirou a caixa aos seus pés. A tampa se abriu, e uma cabeça rolou pelo chão, espalhando uma poça de sangue pelo piso de madeira. Parei de correr no meio do corredor. A cabeça rolou até quase encostar em meus sapatos, e vomitei tudo que havia no meu estômago, misturando o cheiro de sangue com vômito e me deixando ainda mais nauseado. Quando consegui me recompor e olhar para frente, o homem estava caminhando tranquilamente em direção à porta. Girou a plaquinha que dizia “aberto” para “fechado” e trancou a porta.

– Depois de limpar a bagunça que você fez, vai ter que colocar um belo sorriso nesse rosto. Ah, vou conseguir trabalhar muito bem esse seu rosto, vou sim.

De alguma forma venci a estagnação que tomou conta de meus músculos. Entre dois mostradores, notei uma porta na lateral da loja e corri em direção à ela, tomando cuidado para não tropeçar na cabeça que estava no chão. Eu não tinha nenhuma esperança de que ela estaria destrancada, mas para minha sorte a porta se abriu ao girar a maçaneta. Não consegui enxergar muita coisa, já que não havia nenhuma luz acesa, mas corri desesperado para dentro do cômodo atrás da porta mesmo assim.

Consegui dar dois passos e cobrir dois metros dentro daquela sala; porém, no terceiro passo não havia nada embaixo do meu pé para segurar meu peso. Meu calcanhar encontrou o degrau da escada que eu não consegui ver, torcendo meu tornozelo sob meu corpo. Senti uma dor aguda intensa que subiu de meu tornozelo até meu joelho. Antes que pudesse gritar, bati com meu ombro em um corrimão e ouvi o estalo de madeira antiga quebrando com a pancada. Sem nenhum controle, despenquei sobre os degraus da escada. Tentei defender meu rosto com as mãos mas, sem ter nenhum ponto de referência, meus punhos atingiram os degraus duros e não amorteceram muito bem o impacto; bati com o queixo na ponta de um degrau, fechando minha mandíbula com toda a força. Senti um ou alguns dentes se quebrarem com a força do golpe. Rolei pelos degraus, com os braços ao redor da cabeça para oferecer alguma forma de proteção, até que atingi o piso da sala escura.

Eu não enxergava nada naquela sala, e ainda assim tudo ao redor de mim parecia estar girando. Sentia que a qualquer momento poderia desmaiar, mas, ainda com adrenalina correndo pelo meu sangue, consegui me colocar em pé sobre o pé não machucado. Sabia que provavelmente quebrara alguns ossos e alguns dentes com a queda, mas ainda não desistiria de tentar escapar daquela loucura. Tateei loucamente a parede em minha frente, na esperança que houvesse ali um interruptor. Quase desisti, concluindo que o interruptor deveria estar no topo da escada, quando meus dedos finalmente o encontraram.

Em um primeiro momento, fui cegado pela luz intensa, e tive que proteger meu rosto com minhas mãos raladas. Quando me acostumei, me vi dentro de um cômodo retangular coberto do chão ao piso de ladrilho branco impecável, com 3 lâmpadas fluorescentes no teto, iluminando cada canto do lugar. A única coisa que havia ali era uma porta de metal enferrujado, com uma pequena janela gradeada. Nessa janela, dois olhos fundos me encaravam. Havia alguém ali dentro, olhando para mim. Notei que a pessoa estava gaguejando, tentando me dizer alguma coisa

Quem é você? – Consegui falar, sentindo uma dor excruciante em minha maxila ao articular as palavras. Sangue escorreu dos meus lábios ao abrir a boca. – Eles pegaram você também? O que eles fizeram?

Me… tira, me tira daqui. Me tira daqui antes que ela venha! Anda, me tira daqui! – A mulher gritou, se aproximando da janela da porta, permitindo que eu enxergasse todo seu rosto. Foi então que eu vi; abaixo de seus olhos, não havia mais nariz, apenas dois pequenos buracos escuros. Toda a pele, desde as maçãs do rosto até seu pescoço, havia sido retirada, deixando seu rosto em carne viva. Os lábios haviam sido cortados, e era possível ver seus dentes cerrados. Em alguns locais onde os cortes foram muito profundos, osso branco aparecia entre os músculos da face.

Consegui apenas dar um grito alto antes de sentir uma pancada forte na minha nuca.

Arthur Reginatto é nascido no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Passo Fundo. Sempre foi um aficionado por literatura – principalmente de horror e mistério. Atualmente, trabalha como médico em Porto Alegre, RS, reservando suas horas vagas para livros e escrita e, claro, seu pequeno Spitz Alemão.

FICÇÃO

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