BONECAS DE ARGILA – TEXTO TEATRAL – (fragmento), por Jorge Rein

QUADRO 10

Na escuridão total, só as vozes das atrizes.

EVA

Agora fecha os olhos. Faz de conta que este beliche é um confessionário vertical. Me fala algum segredo, de preferência sujo, algo que ninguém saiba sobre ti, algo que te envergonhe, alguma humilhação… Eu vou fazer o mesmo. Será uma espécie de pacto de sangue verbal e, no final das contas, vamos nos absolver e comungar em paz.

ADA

Difícil escolher. Vou pela mais antiga das lembranças. Minha tia Remédios, a irmã mais nova da minha mãe, passava as férias de verão com a gente na serra, na chácara que o avô nos deixou. Eu era uma menina que preferia as calças aos vestidos e adorava brigar com os moleques do povoado na várzea, no tempo das peladas, exigindo igualdade na hora da escalação. Igualdade uma ova, supremacia mesmo! Chegava a meter medo naquela molecada. Meu troféu era o direito a vestir a camisa 10. E a verdade é que fazia jus. 

EVA

O segredo que eu vou te revelar é bem recente. Sou a única negra na escola de teatro, Não posso definir como assédio racial o que acontece lá, mas existe um racismo disfarçado que faz parte do leito ou do alicerce da estrutura social, mesmo naquelas camadas que a gente acredita que sejam as mais esclarecidas e as menos preconceituosas da população. (fazendo vozes) “Você não é mesmo negra, é, no máximo, parda e olha lá!”. “Mas quem é que não tem pelo menos um pé na senzala?” “Eu acredito mesmo que uma atriz negra pode representar qualquer papel!” 

ADA

Quando não tinha jogo, acompanhava minha tia Remédios até a cachoeira. Ela tirava a roupa e depois se deixava envolver pela cortina d’água. E eu lá, na beiradinha, acocorada como as mulheres mijam na margem das estradas, embasbacada com a visão de toda aquela formosura, procurando conservar na memória os contornos do corpo, a presumida seda da epiderme e o úmido mistério de cada um dos recôncavos, para depois sonhar com abrigar-me naquele colo nu.

EVA

Porém, nenhum dos alunos do curso de direção me chamava para nada. Não me escolhiam para o papel de escrava ou de criada porque temiam ser tachados de racistas. Como se não fosse essa atitude em si uma espécie de racismo preventivo. Mas também não me consideravam para qualquer outro papel. Eu vivia de monólogos que escolhia no acervo e alguém me dirigia de favor. Prometi a mim mesma que levaria para a cama, dessa caterva toda, como exemplo ou escarmento, apenas duas pessoas: a menina bonita, que não deixava escapar uma chance que fosse de protagonismo e o cobiçado professor de interpretação. Dois espécimes brancos, articulados, liberais. Seria a minha dose de vingança.  E consegui.

ADA

Tia Remédios acho que suspeitava do fascínio que exercia sobre mim. E parecia aceitar. Gostava de me beijar no cantinho da boca, cuidando de encostar as comissuras ou até mesmo deixando escorregar, roubando-me as palavras que os lábios não conseguiam pronunciar. Ou então alvoroçava meus cabelos como avivando a chama que aquecia o adolescido tesão do meu pensar. Às vezes eu ficava a imaginar que a penetrava, mesmo não possuindo as armas apropriadas. Aí que comecei a desconfiar da minha anatomia. Falando grosso, sentia a falta de um pau.

EVA

Mas só trepar com eles não era o suficiente. Eu precisava ser dominatrix. Domina-atriz, no caso, porque aquela não era a minha vocação, não era a minha praia, era só um papel a representar. Da experiência restou-me a convicção de que não há quem não tenha, no seu íntimo, um obscuro cantinho de entrega e submissão. Também ganhei uma gravidez indesejada, que daqui a pouco não vou ter mais como disfarçar.

ADA

Tu é doida! Assim que eles percebam, vão te desclassificar.

EVA

A não ser que…

ADA

Só não conta comigo nisso que estás pensando!

EVA

Já vamos ver. Mas eu cortei tua história, continua.

ADA

Foi num sábado à tarde, início de fevereiro, um calor de rachar. Eu fui até o campinho, como sempre, mas o sarampo corria solto naqueles dias e provocara várias baixas no time. O jogo foi suspenso por falta de goleiro. Quem não é do ramo não assume a posição. Montei na bicicleta e me toquei lá pra beira do rio. Tia Remédios já estava lá à vontade, deixando que a água da cachoeira criasse intimidade com cada esconderijo do seu corpo. Pela primeira vez, me convidou. O calor que a visão gerava em mim se somava ao calor da estação. Não resisti. O que eu nem suspeitava é que um bando de colegas da equipe resolvera me seguir. E ficaram na moita nos espiando, talvez se masturbando, penso eu… No outro dia já era o assunto preferido da vila. Em casa foi um deus nos acuda. Deus não nos acudiu. Tia Remédios sumiu e a minha mãe me fez vestir saia rodada, largar o futebol e ir brincar de boneca com as primas, o que não era tão ruim. Era um monte de barbies para só eu de ken. Foi aí que me encontrei. Ou me perdi.

Ainda no escuro, a chama de um isqueiro. Eva acende
um cigarro na cama superior do beliche
e depois passa o fogo para Ada, na cama de baixo. As duas fumam e desenham arabescos no ar.

ADA

Posso subir aí?

EVA

Vem.   

As duas brasas, bem próximas, revelam, na penumbra,
os rostos das atrizes, como a duplicação, em branco e negro,
de um mesmo camafeu. Os anéis de fumaça chegam a entrelaçar.

EVA

Vou renunciar, Ada. Confesso de uma vez a gravidez e eles vão me desclassificar. O prêmio será teu, eu já te disse algum tempo atrás. Vou cair fora!  

ADA

Agora é que não vai! Pra cima de “moi”? No walkover quem perde, por não se apresentar, muitas vezes acaba sendo o vencedor moral. Minha vitória ninguém vai contestar. Vai lá, deita na mesa! 


QUADRO 11

Entra Ada empurrando Eva com violência.
Ada veste uniforme de campanha, Eva uma bata solta. 

ADA

Vai lá, deita na mesa! Já mandei. Cá entre nós a dominadora sou eu. Deita e abre essas pernas!

Eva protesta timidamente, mas obedece.

ADA

Fica quietinha aí. Tem uma parte que eu esqueci de contar. Tia Remédios era casada com tio Augusto, um torturador reformado, bem mais velho que ela. Eu os chamava de tia Remédios e tio Irremediável. O que ela era de doce e cativante, ele era de tirano e fanfarrão. Nunca entendi aquela união. Síndrome de Estocolmo ou casamento arranjado pelo meu avô, que também não era flor. Lá sei eu!

EVA

Posso sentar, pelo menos? As farpas da madeira me machucam as costas!

ADA

(alterado) Ainda não! Aguenta, é pela Pátria, ou quem sabe tu faz parte dessa corja maldita que quer foder com o país? É claro que o tio ficou sabendo da fofoca. Chegaram logo os dois da capital bufando, ele e o velho jipe, lembrança da caserna. Mandou a minha mãe tomar uns ares e meio que arrombou a porta do meu quarto. Eu estava na cama do jeito que vim ao mundo, que o calor ainda apertava. Até hoje acredito que a intenção era apenas me aplicar um corretivo. Mas seu lado de estuprador enrustido não se conteve. Não me encheu de porrada, só de porra e mais nada.

Ada incorpora de vez o tio Augusto, seu vozeirão, sua torpeza, seus gestos. Rasga a calcinha de Eva, abre a própria braguilha e se debruça sobre o corpo dela, que parece aceitar o jogo e estar disposta a se adequar a ele. O confronto combina amor e violência.

EVA

Vamos logo, me estupra!

ADA

(batendo) Sediciosa!

EVA

Bate mais, bate mais, porra! Bate no ventre, merda!

ADA

Subversiva!

EVA

Rasga de tirar sangue! Me chama de outras coisas!

ADA

Sua… sua intelectual de meia tigela. Puta da academia!

EVA

Diz palavrão, me xinga!

ADA

Comunista!

EVA

Machuca, machuca até estourar a boca do balão! Me arromba!

ADA

Terrorista, amoral, masoquista!

EVA

Não, masoquista não! Enfia logo a picana! É agora! Me mata! Não aguento! Vou gozar!

ADA

Estou gozando!

A calmaria que sucede à tormenta.
Uma ressurreição dos corpos em carícias e agrados.

EVA

(beijando a boca de Ada) Está feito. Obrigado.

ADA

Quantas semanas?

EVA

Na verdade, nem sei mesmo se estava. Tinha o atraso, sim, e os enjoos, e as tonturas. De qualquer jeito, era disso que eu precisava. Agora está doendo, vou pra cama. Já vai passar.

Eva cambaleia em direção ao beliche. Um foco de luz
acompanha a mancha de sangue nas costas da sua bata.
A luz e Eva se apagam.

Jorge Rein é contista e poeta, além de dramaturgo. Já transitou por diversas vertentes do texto dramático (teatro adulto, infantil, audiodrama e teatro de animação), tendo conquistado reconhecimento em cada uma dessas categorias.

Fragmento do livro “Bonecas de Argila & Cambalache 2.0”, a ser publicado pela Editora Bestiário.

FICÇÃO

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