Por Andreia Schefer
Em uma tarde de outono, aos cinco anos, despenco feito uma folha seca do alto de uma árvore no pátio lá de casa. Tenho o braço, duas costelas, o ombro direito e a minha autoimagem fraturados. Ao voltar do hospital, depois de vinte e quatro horas sob o efeito de uma anestesia, usando uma espécie de casaco de gesso, paro em frente ao espelho. Quero ver o estrago que me fiz. Vejo apenas o meu rosto. Não sou a menina negra que imagino. E então desmaio.
Com essa cena em que a protagonista Mariana se vê diante de uma descoberta capaz de nortear muitos dos seus questionamentos a respeito da vida, Helena Terra nos arremessa ao interior de Os dias de sempre, lançado em 2023 pela Editora Besouros Abstêmios e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhor Romance do Ano. Helena não é escritora de primeira viagem. Lançou os romances A condição indestrutível de ter sido em 2013 e Bonequinha de lixo em 2021 e participou de várias antologias de contos. Assim como as suas personagens, Helena é questionadora. Talvez por isso suas obras refletem uma escrita potente que retrata tão bem a alma feminina.
Ser servido é legitimar o sistema de subordinação, potencializar o complexo de superioridade de gente que não se enxerga. Eu não tinha a intenção de ser superior à Nena e não posso dizer que não me sentia feliz me comportando como se fosse.
Narrado em primeira pessoa, Os dias de sempre conta a história de Mariana e seu desespero na busca por um leito para Nena, que aos treze anos de idade foi entregue à família de Mariana para servir. Nessa trajetória, a protagonista divaga sobre a condição daquele que é servido e daquele que serve, discrepância presente desde sempre em um país que ainda não se livrou do fantasma da escravidão. Nena é uma mulher pobre, negra, descendente de pessoas escravizadas. Mariana, filha de um médico renomado e de uma herdeira de proprietários de terras, percebe as dificuldades que Nena enfrenta em sua vida de miséria, ao mesmo tempo em que se conforma em não fazer nada para mudar a situação.
O meu espelho exigente me reprova. Não temos sintonia. A beleza é uma peça fundamental no destino da mulher. Na dos gêmeos não faz diferença. Suas vidas não estão atreladas a essa obrigação.
Conforme a maturidade avança, Mariana percebe que, independente da classe social, todas as mulheres que conhece são cobradas e sofrem discriminações. Enquanto aos homens, nas figuras do pai e dos irmãos compete apenas o compromisso de ganhar dinheiro, à ela e à mãe são exigidas a beleza e uma boa reputação. Característica marcante nas obras de Helena Terra, a luta pelo protagonismo feminismo está presente também nessas indagações de Mariana.
Ninguém mais se telefona. Estão todos quietos e há muitos desaparecidos e violência acontecendo.
Outras narrações de Mariana perpassam fases assombrosas do país, como o período em que os pais recebiam em casa pessoas que chamavam de primos e que, de repente, iam embora sem deixar vestígios. Mariana deixa claro que entende o que está acontecendo e mesmo com medo dos homens fardados os trata bem ao cruzar com eles pela rua. Relato comparável aos de muitos sobreviventes de um tempo que se deseja esquecer, embora seja necessário não deixar que ele se repita.
O desnudamento da morte é implacável e, às vezes, perverso. O empurra-empurra do caixão do meu pai dentro do túmulo de Júlia, sim, ele também está morto, foi um show de horror.
A morte repentina de Júlia faz com que Mariana se recuse a pronunciar a palavra mãe. Dessa forma, ela diz se sentir menos órfã. Dessa forma ela sente a proximidade de Júlia como se ela ainda estivesse viva, resistindo a visitar a sua sepultura. Mariana vê de perto as mortes dos pais, presencia as ausências deixadas pelas pessoas que, em um curto ou longo espaço de tempo passaram pela sua vida e nessa angústia, quer proteger a sua querida Nena. A mesma Nena que foi sua colega de quinta série, apesar de ser vinte e um anos mais velha. A mesma Nena que recebe de Júlia as roupas que lhe sobram no roupeiro. Mariana quer manter viva a Nena que algumas vezes foi sua mãe e em outras sua irmã. A Nena que resistiu a tantas dores e agora, diante da doença se tornou tão vulnerável . Mariana não quer perder Nena, mesmo sabendo que esse desejo não será realizado.
Em Os dias de sempre, Helena Terra entrelaça passado e presente, revelando as complexidades das personagens conforme a trama avança. Ao remexer na própria história, Mariana desenterra feridas não cicatrizadas e dores não curadas. Detalhes que podem fazer parte das vidas de qualquer leitor, mas especialmente das mulheres que sentem na pele a crueldade de uma sociedade machista, misógina e discriminatória.

