‘CIRANDAS E RODOPIOS’, DE ENELITA FREITAS

Por Almir Zarfeg

Cirandas e rodopios: revisitando a cultura popular na terceira idade (Casa Flutuante, 2024), obra mais recente da mestríssima Enelita Freitas, finalmente, caiu em minhas mãos. Seguem minhas impressões.

A obra é dividida em três partes. Na primeira parte, através do capítulo “Os guardiões da memória”, a autora aborda a questão mnemônica ressaltando o papel fundamental das pessoas idosas como guardiães do passado. Aqui, os verbos lembrar, tecer (e vice-versa) desempenham uma função importante: unir e relacionar os fios dos eventos humanos, numa operação que guarda semelhança com o trabalho do artesão. Fazer para permanecer.

Para embasar sua argumentação, ela recorre a autores como Ecléa Bosi, Fanny Abramovich e Jacques Le Goff. Ainda lança mão de textos literários – de autores como Casimiro de Abreu, Carlos Drummond de Andrade e Gonçalves Dias –, para defender que, ainda que idealizada e/ou romantizada, a literatura contribui para a fixação da cultura, da história e da mentalidade de um povo numa determinada época. A narrativa ajudaria a fixar os valores e hábitos das pessoas, agindo para memorizar as coisas e acontecimentos. O poema “Meus oito anos”, joia do romantismo, ilustra bem o encontro entre literatura e memória ou o reencontro entre infância e velhice. “Ai que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais…”

Na segunda parte, Enelita discorre sobre o conceito de cultura popular, que, como é sabido, se apresenta escorregadio, porque multifacetado e influenciado pelos gostos e interpretações. Por isso mesmo, ela expõe os vários sentidos de cultura – como a formal adquirida via escola e a informal obtida na “escola da vida” –, para concluir que a cultura popular, enquanto tal, diz respeito às representações que as pessoas e os grupos sociais dedicam às experiências, vivências e hábitos que realizam entre si enquanto seres históricos e culturais.

A memória, mais uma vez, assume uma relevância enorme, pois assegura a manutenção da cultura popular na forma de costumes, saberes, rituais, imagens e trocas sociais. Passada de geração para geração, dos mais velhos aos mais jovens, por meio da oralidade. Le Goff vai mais longe e identifica um valor e uma crucialidade da memória presentes na relação entre memória e identidades individuais e coletivas e, sobretudo, no exercício do poder e da autonomia. Tanto nas sociedades primitivas (desprovidas de escrita) quanto nas sociedades complexas (fundamentadas na escrita). Por isso, a relação entre memória, história e poder ganha destaque nos estudos do medievalista francês. Mesmo porque, “tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas”.

A autora chama a atenção para a diferença existente entre cultura popular e cultura de massa: aquela se dá de maneira espontânea e horizontal, enquanto esta é imposta de cima para baixo, verticalmente, pelos interesses do mercado. Ainda elucida as expressões “produtores de cultura” e “reprodutores culturais”. Aqueles, “a partir de suas histórias de vida, exercem práticas culturais que podem ser consideradas elementos de integração e, também, afirmação da identidade cultural do grupo, vinculados com a vida desses grupos sociais”. Enquanto estes, “apenas cuidam de ‘copiar’ certas manifestações culturais, para apresentar a um público que os aplaude com entusiasmo, embora sem o devido conhecimento do significado dessas atividades”. Em resumo, tanto os produtores quanto os reprodutores têm importância crucial na produção e valorização da cultura popular.

Na terceira parte – mais extensa e inspiradora da obra –, a autora apresenta o Programa Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI/CEVIT), desenvolvido no Campus X da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e coordenado no início pelas professoras Maria Adelaide e Marinêz. Atualmente, a coordenação está a cargo do professor doutor Gean Paulo Santana.

Nesse contexto, como atividade de extensão universitária, é que surgiu a oficina “Rodopiando na Cultura Popular” (mesmo título do capítulo) em 2008 e, já em 2009, teve início a primeira turma com 25 participantes com mais de 60 anos de idade.

A partir de 2011, como professora aposentada da UNEB e com a consolidação da oficina, Enelita Freitas se manteve à frente das atividades, agora em caráter definitivo e voluntário.

A pergunta que não quer calar: quais e como se realizam as atividades da oficina? Eis a resposta: abrindo as comportas da memória durante as aulas. Simples assim. Através das cantigas de roda, brincadeiras, musicomédias, adivinhações, cantigas de pilão, trava-línguas, parlendas, simpatias e superstições, remédios caseiros, ditos populares, reisado das ciganas, etc.

A obra se encaminha para o fim convidando os leitores a refletirem sobre a Terceira Idade, com seus desafios e prazeres, alegrias e tristezas. Mas com a certeza de que viver vale muito a pena, sobretudo viver com leveza, mantendo a memória ativa e a imaginação acesa, independente da idade cronológica. Por fim, os leitores são brindados com um registro fotográfico em cores das alunas em suas apresentações culturais de encher os olhos do respeitável público.

A obra “Cirandas e rodopios” – notável resgate da cultura popular e plausível registro das atividades desenvolvidas na oficina “Rodopiando na cultura popular” – recebeu uma Moção de Aplauso da Academia Teixeirense de Letras (ATL), na sessão final de 2024, realizada no mesmo auditório da UNEB, palco em que as meninas da melhor idade costumam se apresentar e brilhar em ocasiões especiais. Uma justa homenagem também à autora e mestra Enelita Freitas, que, mesmo aposentada, continua lutando pela cultura – na acepção mais plural – em Teixeira de Freitas e região.

Leia mais do autor em Sepé.

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