Por Dinarte Albuquerque Filho
A poesia de Tatiana Pequeno é enorme: tem o corte preciso e abre a possibilidade de significados que vão além dos lugares comuns, embora deles não se furte.
Em Teoria da ressecção (Patuá, 2023), versos intensos, desdobrados até que aparentem não dizer mais nada, só que, ao chegar ao fim deles, sempre há algo mais que fica martelando por trás do olhar que se lança para o entorno.
Uma voz feminina ciente de seu papel na transformação dos lugares sociais, sem panfletagem, com a consciência de que o mundo é masculino mas, nem por isso se deve abdicar de ser mulher, com suas escolhas, vitórias, seus enganos e suas dores, familiares ou nem tanto. Como escreve no terceiro bloco de “a educação para coisas cruéis”:
III.
o pequeno monstro afagava
depois de uma voz alta acossar
alguém disse sem compromisso
desculpe se resvalei no tom
sabem qual é o nome dela fera
sabem que ela trocou o canto pelo ronco
sabem que na história das famílias
a filha é a pior das travessias.
Como observa Piero Eyben, no “Posfácio”, há duas situações estruturais no livro: “a cirurgia, sua convalescência e o pai”.
No contexto criado pela autora, percebe-se a árdua tarefa de ser alguém – mais do que a filha primogênita – sob a sombra da imagem paterna, que ora se aproxima ora se distancia, e constrói, palavra por palavra, sua teoria, e recupera a figura dele, a poesia mediando o luto, no embate de uma mulher que nasceu de um homem, mas em permanente conflito, evidenciado em “sessão de aftersun”.
[…]
houve uma época em que
eu e meus irmãos brigávamos
pela posse dos objetos que
ele acabou não deixando
(quando foi que parei de
defender tua corola
pai?)
[…]
Retomando Eyben, “Todo um livro portanto em que se coloca em cena a diferencialidade da dor e a indizibilidade da diferença”. Ou, como entendi, este lugar no mundo tendo seu “significante mestre” (talvez no plural) faz com que Tatiana se confronte e, ao mesmo tempo, se revele intimidada: “É uma mulher que está sendo ameaçada pela história, a do seu país e a sua, a história do seu corpo e de sua família”, como observou a escritora Taís Bravo, uma das criadoras da iniciativa Mulheres que Escrevem.
Não por acaso, um dos poemas recebeu o nome de “significante mestre”, no qual ela (se) reconhece:
algum tempo antes de morrer
meu avô disse saber estar
profundamente doente
diabético
ele suspeitava já da sua urina
adocicada espumante
ao chegar para visitá-lo em
um de seus últimos dias
na enfermaria dos homens
ao salgado filho no méier
ele disse sem doçura
que era duro estar preso
ali no seu corpo idoso
quebrado
naquele dia sob o sol
peremptório dos subúrbios
subi as escadas da estação de trem
e pedi ao sagrado coração de maria
que ele morresse logo
vinte e três anos depois
subi as mesmas escadas
da estação de trem
e na véspera de uma
grande cirurgia
pude me reencontrar
separadamente
com aquela conhecida
orfandade
agradeci ao sagrado coração de maria
a cultura da minha coragem
e pedi ao meu avô que me mantivesse
viva
Se deixe levar, leitor, pois Tatiana o conduzirá; afinal, talvez “a poesia seja amar”, e, mais do que tudo, “é que teoricamente/ alguém muito/ ferido/ protege a sua cicatriz/ com as próprias mãos”.

