Por Flávio Sant’Anna Xavier
“A inocência é uma forma de insanidade“
(Graham Greene, O Americano Tranquilo)
Desde O Estrangeiro, de Albert Camus, um livro não me impactara tanto. Quando me indagam por que abandonei SP para retornar aos pagos, sempre respondo que foi por causa deste livro. Um soco na boca do estômago, daqueles que suga o oxigênio. Conhecer o absurdo da vida é nos tornar mais próximos de nós mesmos. Num trecho, Vilas escreve: “Mas a vida é absurda, por isso é tão bela.” Há uma proximidade com a obra de Camus, mas também com Herman Hesse, num tom poético que nos encanta.
Se Camus me empurrou para a escrita, Vilas me trouxe de volta a vontade de não mais jogar no lixo o que escrevo. Porque me identifico com sua lucidez ácida.
Manuel Vilas é escritor desconhecido entre nós. Encontrei-o por acaso, de passagem por Lisboa. Nascido em Barbastro, Espanha, iniciou, como todos, escrevendo poesia e quando se lançou na prosa arrebatou prêmios. Para se ter ideia do sucesso do Em tudo havia beleza, publicado na Espanha como Ordesa, foi escolhido o melhor livro do ano (2018) em quase todos os grandes jornais espanhóis: El País, La Vanguardia, El Cultural, El Heraldo, Observador, Expresso e Sábado. Foi distinguido, ainda, com o Prix Femina Étranger na França.
A força criativa do livro vem das estranhas mais profundas de Vilas. Em tom autobiográfico nos revela toda a miséria da existência humana, a partir do confronto com o passado, feliz, com seus pais e o insucesso do presente. Ele pretende desvelar o enigma de qualquer homem ou mulher com mais de cinquenta anos – o passado -, embora confesse: “é impossível resolvê-lo. Resta apenas apaixonarmo-nos pelo enigma.”
Este é o eixo narrativo da obra, mas resumir apenas nisto é simplificar um alcance que se mostra muito mais profundo.
Na primeira página o tom escolhido é o da navalha na própria carne: “Fui um pobre diabo. Não entendi a vida.” Em seguida desvela o próprio autor-personagem: “A História é também um corpo com remorsos.”
Leon Tolstói ensinou que a família sempre será um tema-base de qualquer bom romance, mas Vilas foi além: desnudando-se, revelou a luta contra o alcoolismo e o desencanto com os filhos. “Somos todos pobre gente, metidos no túnel da existência.” O tom é melancólico, mas cortante. Por isso nos toca fundo.
Vilas tem claro o papel da família: “a família é uma forma testada de felicidade.” No seu caso, encontrou beleza nos pais, espécie de bálsamo.
Nunca se mostrou tão verdadeiro o pensamento que a morte dos pais é o início da nossa morte. No caso do (autor) personagem sua ruína moral e econômica: “… nenhum pai quer ser um homem para o seu filho. Todo o meu passado se desmoronou quando a minha mãe fez o mesmo que o meu pai: morrer.” Noutro trecho: “abolir o passado é abjecto. A morte dos nossos pais é abjecta. É uma declaração de guerra que a realidade nos faz.” E por quê? “A verdade é o nosso pai e a nossa mãe. Foram eles que nos inventaram. Vimos do sémen e do óvulo. Sem o sémen e o óvulo, não há nada.”
Também discorre sobre a incomunicabilidade reinante nos dias atuais, quando exerceu a docência com alunos adolescentes. “Os meus alunos não me ouviam. Como tal, permiti que fossem eles a falar.” E nessa dialética subversiva cravou um vaticínio mortal sobre a crise da educação atual no mundo: “Aqueles miúdos eram humilhados e ofendidos pelos professores, esses medíocres com rancor pela vida. Nem todos eram assim. Havia professores que amavam a vida e tentavam transmitir esse amor aos seus alunos. É a única coisa que um professor deve fazer: ensinar os seus alunos a amar a vida e a entendê-la, a entender a vida a partir da inteligência, de uma festiva inteligência; deve ensinar-lhes o significado das palavras, mas não a história das palavras vazias, antes o que significam: para que aprendam a usar as palavras como se fossem balas, as balas de um pistoleiro lendário. Balas apaixonadas. Mas eu não via isso a ser feito. Os professores estão muito mais alienados do que os seus alunos.”
Só este parágrafo vale a leitura do livro!
Voltemos à família: os filhos, segundo ele, já são dois desconhecidos. “Cozinhei para eles. Tentei abraçá-los, mas tudo acaba num rito incômodo. Não sei onde por a cara, os braços. Tornaram-se adultos, tão simples quanto isso.” Chama-os, ficticiamente, de Vivaldi, o mais novo, muito magro, e Brahms, o mais velho, que conversa de política e admite pouco a discordância. “Ninguém está preparado para ser pai nem para ser filho.” O planeta da inexperiência, tão decantado por Milan Kundera, na Insustentável leveza do ser”.
Na obra, há um descompasso entre o passado e o presente: ser filho de pais mortos (a beleza) e pai de filhos vivos (a rudeza). Neste enigma surge o divórcio, o alcoolismo; deixou de beber em 9 de Junho de 2014. “Não posso voltar a beber”. “É o que o álcool faz quando chega ao sangue: tudo começa a brilhar.”
É uma obra de ficção e não uma autobiografia. O que faz muita diferença. Soam evidentes os tons autobiográficos, as fotografias das lembranças do passado, insertas no livro, mas é uma obra ficcional. Mesmo porque “nunca dizemos a verdade toda, porque se a disséssemos daríamos cabo do universo, que funciona através do razoável, do suportável.” Há um trecho, sútil, onde ele reconhece o tom ficcional, até do próprio amor sentido pelos pais: “O meu pai nunca me disse que gostava de mim, a minha mãe também não. E vejo nisso beleza. Sempre a vi, na medida em que tive de inventar que os meus pais gostavam de mim… Se não gostam de nós, o fracasso é nosso.”
E aí reside a beleza poética deste livro. O encaramos como um relato autobiográfico, e decerto se assentam estas matizes, mas porque se mostra tão convincente, também uma nudez completa e despudorada, uma coragem poética que só os grandes escritores são capazes.
Do mesmo modo o retrato, ao fundo, de uma Espanha que teima em se resumir a duas cidades (Madrid e Barcelona) e seus times de futebol: Real Madrid e Barcelona, como se não fora um extraordinário território de pluralidade.
Ou seja, há nele todos os elementos de uma ficção universal de alta qualidade literária. Herança afortunada de Cervantes.
Alguns trechos marcados:
“Na realidade, eu nunca soube quem era o meu pai. Foi o ser mais tímido, enigmático, silencioso e elegante que conheci na minha vida. Quem foi? Não me dizendo quem era, o meu pai estava a forjar este livro.” “Sou apenas isso: a esperança de voltar a ver-vos.”
“Ter alguém à nossa espera algures é o único sentido da vida, e o único êxito.”
“Desde que deixei de beber, toda a gente me parece boa gente.”
“essa impossibilidade de chorar que assola os homens que fizeram cinquenta anos; já não nos é permitido chorar, carecemos de potássio e magnésio, o poço lacrimal está seco. Em vez de chorarmos, afogamo-nos em angústia.”
“Vimos das árvores, dos rios, dos campos, dos barrancos. O nosso mundo sempre foi o estábulo, a pobreza, o fedor; a alienação, a doença e a catástrofe.”
“Mas é mentira tanto a existência de Deus como a existência da bondade entre os seres humanos.”
“O amor não existe na natureza”
“Fiquem sabendo: não existe a morte instantânea. Por uma razão muito simples: porque a vida é forte, é sempre forte e robusta, a vida. A vida nunca se vai embora assim tão tranquilamente. Morre-se sempre com uma dor indizível, insuperável, desumana, indecente. Porque a vida é um sucesso de resistência ancestral contra os inimigos da vida.”
“Julgo que o casamento de longa duração não é próprio da natureza humana… Os homens aceitam os casamentos de longa duração porque deixam de acreditar na juventude.”
“É possível que um homem acabe, no final, por se apaixonar pela sua própria vida.”
“Ser mendigo é ter batido com a porta no nariz da esperança. E isso tem a sua paixão.”
“Não sei se os meus dois filhos me amarão tanto como eu amei os meus pais.”
“Agora continuo a sofrer, mas não bebo.”
“Todos os alcoólicos chegam ao momento em que têm de escolher entre continuar a beber ou continuar a viver. Uma espécie de escolha ortográfica: ou ficas com os bês ou com os vês.”

