‘A VEGETARIANA’, DE HAN KANG

Por Flávio Oliveira

Durante mais ou menos quinze anos da minha vida fiquei sem comer carne. Foi uma decisão voluntária baseada em razões individuais e também coletivas que não vêm ao caso destrinchar aqui. Mas posso dizer com tranquilidade, que tal experiência contribuiu bastante, e de várias maneiras, para a minha formação pessoal. Talvez tenha sido por isso que o romance A Vegetariana, da escritora sul coreana Han Kang (1970), despertou a minha curiosidade quando, em 2018, foi relançado no Brasil pela Todavia. Antes, ele havia sido publicado pela Devir em 2013, porém sem grande repercussão. Confesso que o fato de a autora ter recebido o Nobel de Literatura no presente ano de 2024 foi o empurrão que faltava para que eu colocasse A Vegetariana na frente de outras tantas leituras desejadas. E posso dizer que não me arrependi nem um pouco.

A justificativa da Academia Sueca pela escolha de Han Kang se deu por sua intensa prosa poética, que “confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana””. Além disso, a crítica tem considerado sua obra como sendo marcada pelo aprofundamento psicológico dos personagens e pela exploração de temas complexos como a identidade, a violência e a relação entre indivíduo e sociedade. Ainda não tive a chance de ler outras obras da autora, mas posso dizer que em A Vegetariana, um romance curto de 176 páginas, Han Kang combina com maestria todos esses elementos por meio de uma prosa ágil e envolvente, trazendo ainda algumas pitadas de realismo mágico.   

O livro, dividido em três partes tendo cada uma delas um diferente narrador,  conta a história de  Yeong-hye, uma mulher absolutamente comum que, de uma hora para outra, decide parar de comer, cozinhar e servir carne, em função de alguns sonhos intrigantes que começa a ter, nos quais há sempre muito sangue.  Essa simples escolha acaba transformando sua vida, aparentemente sem atrativos, num pesadelo transgressivo, desencadeando uma profunda crise em suas relações familiares e sociais.

Na trama, a opção  pelo vegetarianismo assume a forma de um símbolo de resistência à opressão patriarcal e às expectativas sociais em uma sociedade altamente conservadora. Desse modo, a obra nos provoca algumas reflexões sobre o corpo (sobretudo o corpo feminino) como espaço de controle, mas também de emancipação, mostrando como escolhas individuais podem promover uma ruptura radical com as formas estruturais de dominação. O livro explora também temas como sexualidade, erotismo, isolamento, desejo e os impactos do controle patriarcal sobre o corpo da mulher, apresentando ainda um retrato cru e doloroso das pressões que sufocam sua individualidade.

Han Kang apresenta nesse livro uma prosa ao mesmo tempo poética e densa, sendo que a opção por contar a história a partir de três diferentes vozes narrativas enriquece a complexidade emocional do texto. Assim, cada narrador (o marido, o cunhado e a irmã) oferece um olhar único sobre a transformação de Yeong-hye, fazendo com que o leitor transite entre julgamento e empatia, sempre com alguma perplexidade. Desse modo, o vegetarianismo surge como metáfora para subversão, possibilitando uma reflexão sobre os limites entre sanidade e o conformismo.

A Vegetariana foi assim um dos melhores livros que li nesse ano. Sei que não falei muito sobre a história propriamente dita. Isso, prefiro deixar que vocês descubram sozinhos. Apenas quero dizer enfim, que recomendo fortemente a leitura desse enigmático romance. Quanto a mim, certamente irei atrás de outros livros da autora.

Flávio Oliveira é escritor formado em História, mestre e doutor em Educação pela UFMG. É autor dos livros Pequenas Histórias de Luz e Som e Sentidos e Memória: Os signos de Proust na vida de músicos cegos. Como professor, atua em programas de inclusão e de incentivo à leitura, na Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte.

Leia mais do autor em Sepé.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *