‘OS ANOS’, DE ANNIE ERNAUX

Por Graziela Jacques Prestes

“É autobiográfico”, disse ele, “acho que vais gostar”. “Autoficção”, corrigi-o mentalmente. “Autobiografia impessoal”, dizia na orelha do livro. Prêmio Nobel em 2022 pelo conjunto da obra. “Como é fácil desconhecer uma escritora renomada em um mundo globalizado?”, cobrei-me. Não é a polonesa Olga Tokarczuk em sua escrita crua e ardilosa, maravilhosa, mas igualmente nos captura e nos põe em suspensão. “Onde estamos? Que narrativa é essa?”, indagamo-nos em vão. É preciso ler Os Anos com a mesma humildade assinada por Annie Ernaux. Não tente diferente. Você será colocado no seu lugar, e retirado, em um gesto deveras francês de ser. A diferença de classe sentida como quem tem de pedir permissão para estar ali, no universo da escrita. E por que não seria diferente se não nos chamamos Raimundo? Começa-se com os grandes sob nossas sobrancelhas.   

Nesse lugar de quem não sabemos ser, surge uma personagem menina do pós-guerra, pobre, estudante, moça, mãe, esposa, professora, divorciada, amante, escritora. Não queira saber sobre os detalhes. Jamais existirão. Estão na sua mente experiente, nas inferências sociológicas que você será obrigado, ou convidado, a fazer. Não busque por nomes a não ser os da vida real. Estamos todos dentro da história, pela geração de nossas mães ou avós, pelo nosso próprio testemunho dos séculos XX e/ou XXI. Se está por fora, se inteire. Reintegre-se ao tratado coletivo, urbano, classe média, não consumista enquanto há tempo porque esta obra magistralmente, de quebra, no melhor estilo França vs. Inglaterra, detona com o individualismo vanguardista de Daniel Defoe. A gênese do romance, do narrador moderno se foi, é pai-herói em uma Inteligência Artificial. Séculos de escrita narrativa egóica foram enterrados em Os Anos, por Annie Ernaux. Você é o que não nomeia.

Leia mais da autora em Sepé.

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