‘O SOM E A FÚRIA’, DE WILLIAM FAULKNER

Por Gustavo Lagranha

Amo O Som e a fúria, é um livro que marcou minha vida em um momento difícil e da melhor maneira. Me ensinou muito sobre literatura e as possíveis experimentações com as palavras, mas através de seu perspectivismo me ensinou principalmente a tentar enxergar as coisas sob o ponto de vista de outras pessoas, coisa que, descobri então, eu já fazia com naturalidade. São narrativas que nos colocam no lugar do irmão suicida e do irmão cínico de cidade do interior; nos colocam na posição daquele que não sabe articular seu pensamento e no lugar de quem assiste, em terceira pessoa, a mulher que serve a casa, acompanhando seus afazeres enquanto atende a família em ruínas.

Quem nos apresenta os Compson são múltiplos narradores, com muitas nuances correspondentes na linguagem. Temos Benjy, “o idiota” (“[Life] is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”, Macbeth, Shakespeare) com seu presente eterno pautado em cheiros e ações contínuas sem aparente conexão entre si. Temos Quentin, inteligentíssimo e atrapalhado em seus pensamentos ao limite do desespero; enquanto Benjy não pensa, Quentin pensa demais. Jason nos serve o suco da mentalidade reacionária da cidade de interior, seus julgamentos sumários sobre mulheres e dinheiro, seu cinismo, sua pretensa superioridade que é virada às avessas pela narrativa em contraste com as outras; e por último temos Faulkner himself, que paira como uma câmera – cheia de recursos literários – sobre a cabeça de Dilsey, a empregada doméstica. É fácil de ver que o retrato realizado por Faulkner de uma rica família sulista em decadência é um esforço tremendo da arte narrativa (ainda mais naquele tempo – 1929 – quando as formas na ficção norte-americana eram bastante limitadas).

Amo O Som e a Fúria, mas tenho um carinho especial pela primeira edição que tive dele, uma edição de capa dura da Cosac Naify com tradução de Paulo Henriques Britto, que comprei na Palavraria em Porto Alegre, uns 20 anos atrás. Foi esse o livro que conheci naquele momento decisivo de minha vida. Ainda não sabia inglês o suficiente para ler no original. Desde a primeira linha algo me pegou: “Do outro lado da cerca, pelos espaços entre as flores curvas, eles estavam tacando.” Não parece uma coisa natural de se dizer, e aí Paulo Henriques Britto, e não Faulkner, nos introduz à estranheza do texto que segue. Faulkner demoraria um pouco mais, mas o tradutor, pela precisão de sua opção (“dando tacadas” ou “tacando”?), nos apresenta o seu livro. Um romance tão pessoal não poderia ser transferido ao português sem que seu tradutor se apropriasse do texto de maneira afetiva.

Ano passado fui a um festival literário na cidade de Pomerode/SC e tive o prazer de assistir a um debate entre Svenia Jung e Paulo Henriques Britto, mediado por Gulherme Gontijo Flores. Na minha mochila, estava O Som e A Fúria. Na hora dos autógrafos, me dirigi a Paulo e passei para ele o velho exemplar da Cosac Naify. Primeiro ele ficou realmente surpreso por eu ter escolhido aquela tradução para o autógrafo; depois, enquanto tirávamos fotos para o pessoal do festival, trocamos algumas palavras sobre o livro. Perguntei a ele como tinha sido trazer o Benjy para o português. O tradutor disse, com afeto e talvez saudade, que teve que se adaptar a um eterno presente e ter um cuidado muito grande para não deixar as frases elaboradas demais; ou pelo menos é isso que eu lembro do que ele disse.

Tenho a assinatura de Paulo Henriques Britto em meu exemplar de O Som e a Fúria. Lendo o original, mais tarde, percebi que por ter me identificado tanto com a história no momento que a li, o livro de Faulkner e tudo que representa para mim estava bastante vinculado às palavras em português escolhidas na tradução. E nisso relembro a importância de boas edições, que cuidam desde o projeto gráfico – papel, diagramação – até o produto final, que é o texto traduzido. Nada salva uma má tradução. A Cosac Naify, no caso de O Som e a Fúria, premiou a melhor tradução com uma edição impecável, e isso é tudo que podemos esperar de um livro estrangeiro em português.

Leia mais do autor em Sepé.

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