Por Lelei Teixeira
O ano de 2024 foi marcado por muitas leituras e eventos ligados aos livros, confirmando a certeza de que o envolvimento com cultura, criação e arte traz identidade e salva. Ao jogar luzes no meu cotidiano, esses momentos descortinaram novos horizontes, me estimulando a seguir em frente. Abriram portas e aguçaram os meus sentidos. Um livro que simultaneamente me ensinou, emocionou e apontou caminhos, deixando um rastro literário instigante ao entrelaçar a criação com o nosso bem estar foi “A arte de espantar dinossauros – Como a Arte Pode Inspirar a Medicina” (Pelotas – Ballejo Cultura & Comunicação, 2025), do médico André Islabão.
O lançamento aconteceu na Livraria Clareira em Porto Alegre na tarde ensolarada do dia 26 de outubro. Além dos autógrafos, tivemos uma conversa do autor com o amigo, também médico e escritor, Fernando Neubarth, que assina a orelha do livro. Foi mais uma ocasião especial de reencontros e bons papos para festejar a saudável mistura da medicina sem pressa com a produção artística, o que só pode fazer bem para qualquer pessoa. E disso não tenho dúvidas!
No início da leitura, já me identifiquei muito com o que diz André – “… a pandemia nos fez enxergar com clareza que nossa saúde depende em grande medida da saúde de todo o planeta. Nosso hábito sinistro de destruir a natureza e prejudicar a vida das outras espécies parece ter relação direta com várias epidemias”. E tem! Por isso precisamos de médicos de ouvidos atentos e olhares abrangentes, que incorporam a arte ao dia a dia de trabalho com rara sensibilidade para amenizar o cotidiano de quem está, ou pensa estar, doente, seja no consultório, em casa, em um abrigo ou na cama de um hospital.
“A arte existe para que a realidade não nos destrua”
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão.
O livro surpreendeu minhas expectativas pela pesquisa que relaciona a criação de artistas, que nos levam para lugares inusitados, com a medicina humanizada – “Como se fosse possível existir uma verdadeira medicina dissociada de humanidade”, enfatiza Fernando Neubarth na orelha da publicação. Para André Islabão, “trazer a arte para dentro do ambiente de trabalho dos profissionais de saúde pode ser um ótimo antídoto para essa desumanização crescente da medicina”. Artistas e seus pincéis mágicos, seus instrumentos musicais, suas performances no teatro, no cinema, suas vozes, sua escrita, têm o poder de contribuir com a cura. “E, se a medicina é uma arte, os médicos precisam encontrar espaço para a prática da intuição dentro de sua atividade. Não para que ela substitua a parte científica da medicina, mas para complementá-la e – por que não dizer – para humanizá-la”.
Acompanho a trajetória de André Islabão já faz um bom tempo. Formado em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas, sua cidade natal, vive em Porto Alegre, onde trabalha desde 1992. É clínico geral, especializado em Medicina Interna e, como ele mesmo diz, também é pai, músico, tradutor, compositor, artista e escritor. Este é seu quarto livro, confirmando uma caminhada atenta e solidária em nome de uma medicina sem pressa. Uma medicina que ouve e acolhe as pessoas, sem o exagero de exames desnecessários e da indústria farmacêutica mais interessada no lucro das vendas de remédios do que na saúde propriamente dita.
“Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro” (Pubblicato Editora, Porto Alegre, 2019) é seu primeiro livro e foi dedicado às pessoas que ousaram pensar diferente e tentaram mudar o mundo para melhor. Em 2022, lançou “O Risco de Cair é Voar – Mors certa, hora incerta” (Ballejo Cultura & Comunicação, Pelotas), uma reflexão profunda sobre a morte, que termina com um texto e um poema de um grande amigo meu, o jornalista José Walter de Castro Alves. Hospitalizado com câncer, Zé escreveu estimulado pelo médico – “O Amor Cura … E Amor não me Falta” e “Minha árvore guardiã”. Em 2024, André lançou “Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bem” (MG Editores), livro escrito em parceria com a médica paulista Ana Coradazzi, oncologista com especialização em Cuidados Paliativos.
Para André, a saúde da alma é tão importante quanto a saúde do corpo. O que faz bem à nossa alma só pode beneficiar nosso corpo. Foi assim que começou a escrever, compartilhar suas ideias e agregar a arte às suas ferramentas terapêuticas, no sentido de reduzir o abismo entre a medicina moderna e uma visão mais holística do ser humano.


Só a agradecer pela oportunidade de publicar este texto na Revista Sepé.