Por Lu Thomé
O que fazer depois que uma paixão arrefece? Depois que tudo acaba e resta apenas uma fotografia? Para a escritora francesa Annie Ernaux, a resposta é óbvia: escrever. É o que ela faz em Paixão simples, livro lançado originalmente em 1991 e que saiu no Brasil em 2023. A publicação é da editora Fósforo e a tradução é de Marília Garcia.
Meu primeiro contato com a obra de Ernaux foi O lugar, no qual ela parte da morte do pai para falar sobre lugares geográficos, de representação social e familiares. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, ela é reconhecida por seus livros breves de escrita impactante e quase objetiva. Também é reconhecida dentro do gênero autoficção, tendo influenciado autores como Édouard Louis.
É seguindo esta principal característica – de usar vivência e trajetória pessoal e familiar como matéria-prima literária – que ela escreve Paixão simples. A novela mergulha nas lembranças para esmiuçar a sua relação amorosa com um estrangeiro casado e analisar o limite provocado pela paixão.
Na narrativa fica clara a ausência de moral e a facilidade com que dispensava os filhos e o mundo todo para estar disponível após uma ligação do amante avisando que chegaria em breve. Ou vivendo um estado de alerta constante e sem cronologia. Para a personagem/Annie existia apenas a ausência ou a presença dele.
A escritora não deixa de adotar um tom fatalista em muitos trechos. Não porque sente culpa. Mas por reconhecer o privilégio que teve ao viver um grande amor. Depois disso, afirma, poderia morrer ao terminar de escrever o livro, ou num acidente, ou numa ocorrência qualquer.
“O tempo da escrita não tem nada a ver com o tempo da paixão”, escreve. É isto que faz de Paixão simples um grande livro: a alma apaixonada está exposta e não teme julgamento. Não teme nada. Sequer a própria memória.

