Por Lucíola Macedo
Ao primeiro toque, este libreto evoca aqueles opúsculos que recebemos na porta da igreja, antes da missa. Ao abrir, um jorro de beleza. A escola de costura, obra de Constance Mayer, salta-nos aos olhos, trabalhada e estampada na parte interna da capa.
A missa faz-se memória de corpo, neste livro que se inicia como a uma oração. Quando as filhas iam à missa com a mãe, na hora da eucaristia, ficavam “sentadas no banco, vendo as mulheres voltarem em balé com lábios cerrados, ouvindo baixinho a canção”:
“cova profunda é a boca das mulheres estranhas”.
O título parodia o versículo bíblico 14-16 de Provérbios 22, e retirado de seu lugar de origem, engendra efeitos de deslocamento e estranheza. Uma seção após a outra, a poeta lança mão da paródia, borrando as fronteiras entre sagrado e profano, sublime e grotesco, infinito e ínfimo, realidade e mistério, entre a palavra e a coisa, a escritura e o inenarrável. Em “Miserere”, parodia o Salmo 51 do Antigo Testamento atribuído ao Rei Davi, canto de misericórdia mais intenso e entoado na liturgia católica. Profanando, retira do domínio religioso, restituindo ao livre uso e comércio dos homens, mais precisamente, das mulheres, no plural, em sua vida doméstica, corriqueira e comum, o que havia sido reservado à esfera do sagrado, invertendo a ordem das coisas desde o primeiro verso: “deus pai, perdoo-te. sei que o perdão é uma graça concedida pelas que são tortas de corpo, assimétricas – só as mulheres estranhas podem ofertá-lo”.
Em outra versão do versículo: a boca da mulher alheia (em alusão ao adultério, à mulher de outrem), “é uma cova profunda. Aquele contra quem o Senhor está irado, nela cairá”. Se no texto bíblico há um chamado à retidão, a poesia de Mar volta-se à “vilania de mulheres”, ao “terror quase sem espessura” daquelas que “andarilham pela casa com delicados pés de ladra”; e à ironia: “há momentos assim tão puros na vida da mulher infiel/ há horas de tamanha graça, que – parece/ são só ela/ e deus”. O versículo de provérbios faz menção à infidelidade masculina, invertida, neste verso. Há, também, um doce convite ao sacrilégio, “as deformidades todas, esqueço-as/ com infinita bondade e infinito amor. e te conduzo a águas tranquilas/ e oferto repouso sobre os pastos verdejantes do meu púbis, no meu sexo/ de moça/ e pântano”; e ao terror, com as tonalidades do grotesco: enquanto passa a camisa, “lia compreende a suavidade do pano… através do branco prevê um curso em vermelho” ao “alongar o prazer” ou “desferir um golpe a seco para que pareça acidental”.
As mulheres estranhas são e não são as mulheres de “Provérbios”. Elas já habitavam a casa em Sal. Habitavam também os penhascos e cardumes, em A mulher submersa. A mulher e a menina, com os seus “pares de olhos de náufragos”, retornam em “cova profunda”, no “ímpeto de fundo deste esqueleto que feito para dançar e no entanto não dança (mas varre o piso, passa roupa, caminha na casa por um corredor sem fim, num desfile de pequenos horrores enternecidos)”. A temática corpo-escrita cada vez mais presente e incontornável, emerge das reminiscências da infância, dos corpos fragmentados das manequins sem rosto, antes da palavra escrita. A primeira imagem indelével: “uma mulher imóvel, presa na eternidade, costurando”.
No primeiro verso da seção “um curso em vermelho”, a poeta escreve – “entre as mulheres, são as donas de casa as mais estranhas”. Fios de um mesmo carretel, que em A mulher submersa, se desfia, em “breve ontologia doméstica”: “por ficarem muito tempo expostas ao ambiente do lar, as donas de casa acabam sendo tomadas pelo lar”. É como uma doença”. Ou como os fios dos cabelos de Safo “voltando das águas”, a mesma que em Cova profunda, retorna, “redimida e reabsorvida à paisagem”. Bobina que se desenrodilha em Sal, onde vive “amélia, a insondável, amélia, a mulher-em-falso, efígie inânime, intacta, museológica”. Em Cova profunda os mimetismos mulher-inseto evocam a mosca de Marguerite Duras e a barata de Clarice Lispector. A camuflagem e as metamorfoses entre corpos femininos e objetos do lar galgam, neste livro, sublime perfeição: “as donas de casa que adoecem do mal dos ralos… sob o domínio de um empuxo, de uma força de sucção para dentro de si” emudecidas, desaparecem, como figuras da dissolução, do soterramento, ou do naufrágio.

