Por Neusa Demartini
Escolhi recomendar o livro lançado recentemente pela escritora Vera Ione Molina por vários motivos. Porém, o que mais me cativou foi que Está tudo bem! me fez mergulhar em um mundo físico que deveria ter feito parte da minha vida, pela proximidade geográfica da minha Porto Alegre. Acontece que eu passei pelo pampa gaúcho somente de carro, quando fui adolescente para o Uruguai. Duas vezes mais, a caminho de Buenos Aires, passei olhando os campos e as coxilhas lá do alto, pela janela do avião. Portanto, entrou do meu imaginário construído através de programas regionais noturnos de rádio, da televisão domingueira, além de jornais e literatura do nosso estado.
Enquanto escrevo os meus livros, não leio nada. Acumulo-os para ler durante o verão, quando estou na praia e, deitada na rede, vou lendo e saboreando a literatura de ficção alheia. Porém não resisti, porque antecipei uma olhadinha rápida e fui cativada. Eu li o livro em duas noitadas!
Vera Ione me mergulhou em um mundo que, na real, nunca pude dizer que foi meu. Fui uma criança de cidade grande, uma adolescente de cidade movimentada, uma adulta de cidade com um trânsito enlouquecedor. Meus ascendentes foram imigrantes que se instalaram em Porto Alegre e São Leopoldo, dada a sua formação profissional ligada à construção civil, indústria e comercio.
Está tudo bem! Me trouxe um imaginário criado pelas mãos e letras da amiga que viveu por lá, no campo. Ela vivenciou uma vida familiar de lida no campo, onde tem porteira, tosquia, pelego… Gosto da peculiaridade com que trata de tudo, de homens de bombachas e esporas, de sotaque e vocabulário marcante. Gostei de suas crônicas sobre cuscos amigos, cavalos companheiros, chinocas faceiras, e do chimarrão amargo que eu e minha família nunca tomávamos. Nem a vizinhança da minha rua, tão porto alegrense, onde nasci e me criei.
Mas suas histórias também se passam na minha capital, porém, sempre com um sabor diferente do que eu sinto. É um sabor da visão de quem vive intensamente a outra região, bastante diferente. Vera Ione assimilou a cultura urbana com a mesma propriedade que vivenciou sua cultura natal: conta suas histórias com uma linguagem direta, sem rodeios e floreios, mas com humor ou seriedade, colocados exatamente onde cabem.
A escritora não perdeu suas raízes. Descreve-as como que contando causos, em forma bem coloquial. Não são apenas histórias da sua região de origem, são histórias vividas algumas e imaginadas outras, que sua percepção e emoção relata com tanta força e delicadeza que nos prende e nos leva a ler mais uma, mais uma e mais tantas, até acabar de ler todas.

