Por Salvador Baladán
Pretendemos aqui realizar um comentário crítico sobre o Martin Fierro, convidando aos leitores a conhecer esta obra e àqueles que já a tenham lido, a que possam relê-la novamente, uma vez que este é o maior clássico da literatura gauchesca, uma referência, sem dúvidas, para os gaúchos brasileiros, assim como, argentinos e uruguaios, todos filhos de diferentes nações que partilham uma mesma identidade que transcende as fronteiras políticas, linguísticas e geográficas e se unem com elementos culturais como o mate, o trabalho campeiro, as vestimentas, as danças e músicas, o cavalo e até uma linguagem comum e, como não, uma literatura que se nutre tanto em língua espanhola como portuguesa.
De acordo com Borges (2008) podemos sintetizar a história da literatura gauchesca como um fenômeno que nasce com os “payadores” e escritores desse estilo “folclórico”. Dentro desta perspectiva, o escritor argentino destaca que no século XIX o gaúcho nada tinha de estranho frente à sociedade, posto que tudo na Argentina era, majoritariamente, campo, a cidade de Buenos Aires era pequena e o gaúcho habitava em seus subúrbios ou na campanha e em pouco tempo os homens da cidade como também os do campo se integraram para lutar nas Guerra da Independência, Guerra com o Brasil e Guerras Civis, respectivamente. A literatura gaúcha, pode se dizer que nasce das “payadas” do campo (uma tradição oral) espontânea. Posteriormente, com a convivência e identificação entre os homens da cidade e os do campo surge uma escritura (produção artística) da poesia gauchesca e esta passa a ter um caráter mais oficial e se caracteriza por possuir uma linguagem rústica e coloquial.
Os principais precursores dessa literatura, segundo Borges, foram Bartolomé Hidalgo, Ascasubi e Estanislao del Campo, estes escritores formam parte de uma tradição que, em grande medida caricaturava o tipo social do gaúcho, desde sua produção ao tentar forjar uma linguagem que não era a natural, até a caracterização desse homem que, por momentos é figurado com tom jocoso como em Fausto, por exemplo. É importante ressaltar que Borges (2008) ao realizar um levantamento sobre a literatura gauchesca está falando de uma tradição que não se limita somente a Argentina, posto que, como ele mesmo cita, os uruguaios também entram nessa vertente, assim como também o Estado do Brasil, o Rio Grande do sul (que não é citado por Borges, talvez pela fronteira linguística), mas é uma literatura que também estava em convergência, um claro exemplo é João Simões Lopes Neto (1865–1916), escritor que também traz a tona em sua produção o conflito entre as produções orais e a escritura de tal literatura, além de explorar a vida do homem do campo, suas dificuldades, suas tradições, sua forma de ver a vida, sua filosofia, etc. É importante, nesse viés, destacar que a tradição gauchesca é um fenômeno que nasce e se expande nessa região sul (que envolve três países) e prolifera além das fronteiras geográficas e linguísticas.
Mas, para analisar a obra, comencemos por José Hernández, o autor do poema El gaucho Martín Fierro (1872) e La vuelta del Martín Fierro (1879) nasce na Argentina (1834–1886), no partido de San Martín (Província de Buenos Aires) e em 1843, após o falecimento da mãe, Isabel Pueyrredón, trasladou-se junto ao seu pai Rafael Hernández, que era capataz, ao Sul da Província, e se instalaram numa zona rural. Não conseguiu frequentar por muito tempo a escola, motivo pelo qual se tornou um autodidata. A partir de 1856 passou a formar parte do Partido Federal Reformista e participou na redação da Reforma Pacífica. No ano seguinte (1957) se dirigiu ao Paraná, onde fundou o diário El argentino. Logo em 1868 voltou para a Argentina e inaugurou o diário Río de la Plata e através deste realizou contundentes críticas às políticas de Sarmiento, motivo pelo qual, em 1879 seu periódico foi censurado. Nesse mesmo ano Hernández se uniu ao levantamento de López Jordan em Entre Ríos e após serem derrotados decidiu exilar-se no Brasil. Em 1872, ao voltar para a Argentina, publicou sua obra fundamental, o Martín Fierro e sete anos depois editou a segunda parte. Nos seguintes anos exerceu os cargos de deputado e senador da província de Buenos Aires e em 1881 escreveu Instrucción del Estanciero. Este conjunto de dados biográficos sobre José Hernández ajuda a entender em que cenário político foi concebido o Martín Fierro, (maior poema de literatura gauchesca da argentina). Dito poema, segundo Feinmann (2016), se apresenta como uma profunda reflexão sobre a condição humana a propósito da condição do gaúcho na campanha de Buenos Aires. O poema está direcionado desde a capital à Santa Fé, ou seja, ao interior do país. É importante destacar que esta obra é, antes de tudo, um poema da queixa, cabe ressaltar a primeira estrofe: Aquí me pongo a cantar/ Al compás de la vigüela,/ Que el hombre que lo desvela/ Una pena estrordinaria,/ Como la ave solitaria,/Con el cantar se consuela. De modo que esta obra descreve o gaúcho derrotado de 1872, o gaúcho que não tem outra coisa que queixar-se porque mandam-no à fronteira a lutar contra os índios, porque lhe tiraram o trabalho frutífero de campo para o qual está preparado e, também, porque lhe tiraram a família. Segundo afirma Hernández numa carta ao editor sobre sua obra:
Quizás la empresa habría sido para mí más fácil y de mejor éxito, si sólo me hubiera propuesto hacer reír a costa de su ignorancia, como se halla autorizado por el uso en este género de composiciones; pero mi objeto ha sido dibujar a grandes rasgos, aunque fielmente, sus costumbres, sus trabajos, sus hábitos de vida, su índole, sus vicios y sus virtudes: ese conjunto que constituye el cuadro de su fisonomía moral, y los accidentes de su existencia llena de peligros, de inquietudes, de inseguridad, de aventuras y de agitaciones constantes. (HERNÁNDEZ; p. 4).
Esta afirmação demonstra que seu propósito é narrar a vida quotidiana do gaúcho, o que significa contar sua existência miserável. Por outra parte, revela que Buenos Aires subestima este homem do campo, a classe letrada e endinheirada não enxerga no “criollo” nenhum potencial, nenhuma virtude e Hernández busca, precisamente, demonstrar que o gaúcho é portador de uma experiência enorme para o trabalho braçal e “bruto” que o campo requer. O poema demonstra que Buenos Aires maltrata este tipo social e ao maltratá-lo comete um erro grave, posto que elimina um elemento fundamental para o desenvolvimento da agricultura na Argentina. Ou seja, nas entrelinhas do Martín Fierro, Hernández procura persuadir a alta classe social de Buenos Aires de que deve parar de matar gaúchos, de que não deve marginalizá-los, mas sim integrá-los a vida produtiva do país, porque o gaúcho é uma mão de obra qualificada e barata.
A primeira parte do poema conta sobre o gaúcho que vivia e trabalhava em sua terra, com sua família e, um bom dia, é recrutado pelo exército e enviado a lutar contra os índios; a partir desse momento, narra a vida do gaúcho na fronteira (como soldado) e transparece que o gaúcho realiza tarefas inúteis, isso fica evidente na seguinte passagem: “(…) ¡Y qué indios, ni qué servicio;/ Si allí no había ni cuartel!/ Nos mandaba el coronel/ a trabajar en sus chacras (…)”. (HERNÁNDEZ; p. 22). Estes versos denunciam o abuso de poder dos generais e a corrupção existente nas fronteiras, observe-se: “(…) He visto negócios feos/ a pesar de mi ignorância (…)”. Por outra parte, além do poema ser uma obra que volta um olhar para o gaúcho como um sujeito totalmente marginalizado e explorado, também lança um parecer acerca dos índios e dos imigrantes; Hernández mediante o Martín Fierro manifesta a ideia de que o índio não serve para o país e deve, portanto, ser exterminado; o índio, segundo o poema, não serve porque rouba, mata, entra nas populações e as queima, etc. (neste sentido a obra se fundamenta nos discursos que justificaram o genocídio das comunidades indígenas da Argentina, que representou a segunda etapa da conquista de América, liderada pelo general Roca na década de 1880); com respeito aos imigrantes a obra também transluz uma visão pejorativa posto que fica em evidencia que estes não sabem nada sobre o trabalho no campo. Segundo o próprio Martín Fierro, para trabalhar no campo existe o gaúcho, não os imigrantes que não sabem sequer montar um cavalo: “(…)Yo no sé porqué el gobierno/ Nos manda aquí a la frontera/ Gringada que ni siquiera/ sabe atracar a un pingo (…) No hacen más que dar trabajo/ pues no saben ni ensillar;/ No sirven ni pa carniar (…)” (HERNÁNDEZ; p. 40-41). É importante considerar que montar a cavalo na Argentina do século XIX era um dos valores do homem argentino, de modo que homens que não sabem a arte de cavalgar, de realizar as tarefas do campo, são totalmente inúteis e obsoletos. Nesse aspecto Hernández emite uma clara mensagem: o gaúcho é o homem que deve ser preservado e integrado à sociedade. O poema além das críticas assinaladas faz referência a pobreza em que o gaúcho vive e sua situação “(…) El anda siempre juyendo./ Siempre pobre y perseguido;/ No tiene cueva ni nido,/ Como si juera maldito;/ Porque el ser gaucho… ¡barajo!,/ El ser gaucho es un delito. (…)” (HERNÁNDEZ; p. 58). Aqui fica palpável a marginalidade deste tipo social e sua condição inexorável; está implícita a miséria que experimenta o gaúcho que, primeiramente, é tirado de seu lugar que é o campo para ser levado à fronteira a lutar e que, depois do fracasso, fica na extrema pobreza e no desamparo. É notável, portanto, não apenas a situação do gaúcho, mas a condição do pobre, daquelas pessoas que vivem na marginalidade e na miséria. Segundo Feimann (2016) o Martin Fierro é um poema imortal, justamente, porque não apenas é uma literatura que destaca uma situação política e histórica, mas sim é uma obra que nasce de uma situação particular e consegue expressar a condição humana, neste caso, o poema expressa a dor, a pobreza e a marginalidade do homem pobre. Nesse sentido, seguindo Hernández, o fato de ser pobre é um delito, o pobre está condenado por sua condição, tanto que Martín Fierro acaba sendo um desertor, depois um assassino e, precisamente, por estar condicionado em sua marginalidade declara a guerra à civilização que o destrói, nos seguintes versos é apreciável: “(…) ¡Yo juré en esa ocasión/ ser más malo que una fiera! (…)” O protagonista desde sua condição de bárbaro vai se defendendo da civilização e do progresso, e para tanto, foge para a fronteira, numa espécie de exílio, da já aludida violenta e letrada civilização. Até aqui tem se realizado uma breve exposição da primeira parte do Martín Fierro.
A segunda parte, em grande medida, é um conselho de obediência ao gaúcho, ou seja, nas entrelinhas se pode interpretar que, o protagonista, manifesta que a classe social gauchesca, antes marginalizada, já foi integrada à sociedade e sua tarefa, a partir deste ponto em diante, é trabalhar. É possível resumir esta parte como uma busca de integração, de pacificação em que o Martín Fierro, ao voltar da fronteira, afirma: “(…) Debe trabajar el hombre/ Para ganarse su pan;/ Pues la miseria, en su afán/ De perseguir de mil modos,/ Llama en la puerta de todos/ Y entra en la del haragán. (…)”(HERNÁNDEZ; p. 118). Desta forma é que Hernández aconselha o gaúcho à boa maneira em que deve pagar os direitos que tem conquistado em sua trajetória como marginalizado da sociedade. O final do Martín Fierro apresenta uma visão conformista em que o gaúcho deve trabalhar e (em grande medida) ser explorado para poder ser aceito e viver feliz. O poema encerra com os versos: “Sepan que olvidar lo malo/ También es tener memoria”, este final que se apresenta como conformista, simultaneamente, conclui com a esperança de que a Argentina seja uma terra capaz de acolher a todos.
Esta breve análise do poema servirá somente para considerar a postura de Hernández como escritor e reacionário às políticas que vigoravam na época em que Buenos Aires se construía numa constante dicotomia entre civilização e barbárie, concedendo um valor de inferioridade ao campo, ao interior e suas populações. O poema reflete o contexto histórico posto que denuncia uma situação da qual esse homem do campo era vítima. Por outra parte, é importante considerar que Hernández destaca o gaúcho não num âmbito jocoso como em várias ocasiões este tipo foi representado; contrariamente despoja o gaúcho de estereótipos e mostra sua condição como trabalhador, como um homem que sofre, que abre seu caminho, não amparado numa civilização, mas sim independentemente, marginalizado, a partir de suas estreitas possibilidades. Demonstra também a filosofia de um sujeito ignorante (da sapiência euro-centrista), mas culto em seus afazeres e produtor de uma sabedoria relacionada à vida, ao campo, à natureza; tanto que Martín Fierro realiza em mais de uma ocasião afirmações graves contra o sistema governamental, assim como também, trata de temas abstratos, relacionados à existência, a filosofia, etc. sua sabedoria se constitui a partir de sua experiência e de sua profunda relação com a natureza.
Para concluir esta abordagem, devemos ressaltar que o Martín Fierro fala de sua condição, de sua dor e se constitui não como uma personagem abstrata ou localista com sua forma já acabada, mas, paradoxalmente, o protagonista ganha vida; de modo que vai sofrendo suas peripécias e se conduz por caminhos tortuosos, aos quais está condenado por sua condição, mas mesmo assim, demonstra sua profundidade como homem sofredor e impotente, que abre seu caminho com sua faca, posto que é o único “bem” ou pertença que tem para se defender do mundo avassalador.
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Referências Bibliográficas:
BORGES, Jorge Luis; GUERRERO, Margarita. El “Martín Fierro”. Alianza Editorial. Palacio Real. Madrid. 2ª Reimp. 2008.
HERNÁNDEZ, José. El gaucho Martín Fierro. Resúmenes, análisis biografía; profesor universitario Antonio Ardea Garilan. Colección de oro del estudiante; Dirección editorial: Profesor Ernesto Livacic G. Sociedad Comercial y Editorial Santiago Limitada. Patrocinado por Shell. Impreso en Editorial Lord Cochrane S. A. –Chile (s/a).
________. La vuelta de Martín Fierro. Resúmenes, análisis biografía. Antonio Ardea Garilan. Colección de oro del estudiante; Dirección editorial: Profesor Ernesto Livacic G. Sociedad Comercial y Editorial Santiago Limitada. Patrocinado por Shell. Impreso en Editorial Lord Cochrane S. A. –Chile (s/a).
MAESTRO; Jesús G. Ficción y Literatura.Blog destinado a la exposición y difusión de la obra científica académica y editorial de Jesús G. Maestro. Disponível em: http://jesus-g-maestro.blogspot.com.br/2015/01/idea-y-concepto-de-ficcion.html. Ultimo acesso em: 26 de fev. de 2018.

