Por Pablo Morenno
Estávamos na Biblioteca do SESC-Passo Fundo, a escritora Leila de Souza Teixeira estava ministrando uma oficina sobre escrita literária. Como havia chegado atrasado, fiquei depois para tirar umas dúvidas. Eu ainda trabalhava no Tribunal Regional do Trabalho, apesar de ter publicado um livro de crônicas e algumas narrativas infantis. Justifiquei para Leila o atraso: ficara até mais tarde na Vara do Trabalho.
– Leila, estou cansado da monotonia da burocracia!
– Exceto quanto à rima interna, às vezes também me sinto assim, respondeu.
Até então, Leila havia publicado um ótimo livro de contos, “Em que coincidentemente se reincide” (Finalista Prêmio APCA, 2012, CONTOS). Foi um lugar-comum, mas eu disse para ela que minha vida dava um romance. Ela escreveria então, seu primeiro romance “Se eu não posso ser quem sou”. O romance teria, ao menos, três conflitos: a insatisfação com um trabalho burocrático e sem sentido, um relacionamento cheio de mesmices, e uma jornada em busca de um significado, assim como nos mitos gregos. Poderia ser um Sísifo que, por um desejo dos deuses, se tornasse um Ulisses.
Leila me contou que também tinha um emprego público. E que esse negócio de “minha vida dá um romance”, ela já tinha ouvido muitas vezes nas oficinas literárias. Ela, na verdade, achava apenas que a vida dela daria um ótimo romance. Autoficção. Leila não sabia, mas eu já havia escrito, usando o tradutor do Google uma carta para a Annie Ernoux, e ela me respondeu exatamente a mesma coisa: “Seule ma vie peut faire un grand roman’.
Leila (eu a chamo assim porque ela é aqui de Passo Fundo, sou muito amigo de sua mãe e minha sogra já teve seu pai como cardiologista) pode negar tudo isso. Ela sabe que escreveu minha biografia não autorizada. Não farei como Roberto Carlos, tipo entrar com um ação judicial para retirar os livros de circulação. Primeiro, porque um livro escrito com fluidez frasal, naturalidade nos diálogos, e com conflitos profundos vindo à tona com sutileza, merece é ficar circulando.
Por isso, nem me importei ser uma mulher chamada Geórgia, e que meus colegas do Tribunal tenham outros nomes. Mas ali estão o que pinta nas horas vagas, o que cozinha, o que é músico, o que vai morrer estável… Estou lá, no meio deles, igual a eles. Penso como sair do labirinto, Ícaro, sem a tragédia desalada de cair no mar. Sou eu, Geórgia, deixando todos os muros para trás, e de carona e motorhome vou trabalhar em uma ONG que recolhe plásticos no oceano, inspirado(a) em Olívia, uma canadense.
Geórgia (eu) não deixa(o) apenas o labirinto de prédios para trás, a corrida pela estabilidade, a mesmice. As cidades são cheias de luzes anti-estrelas, outdoors tapando arvores, prédios de vidros que matam pássaros, escolas idiotas, jornadas 6×1, calendários onde anotamos os dias de folga… Prédios públicos ou fábricas, frigoríficos ou shoppings são altares de sacrifício de vidas para um sistema de produção e consumo. Geórgia me relembra: na entrada de cada cidade há um pórtico, visível apenas para os sensatos, onde está escrito em neon: ‘Arbeit macht frei’.
Em 2022, eu li e reli o romance de Leila de Souza Teixeira. Anotei nas margens, sublinhei. Me dei conta de que a biografia não autorizada estava completa, embora eu me chamasse Geórgia. Na vida real eu devia ser ela, mas faltava muitas páginas. Eu ainda estava lá no serviço público, e se a Leila havia escrito, era porque eu devia vir a ser Geórgia plenamente. Assim como o pai do filme Peixe grande e suas histórias maravilhosas, do Tim Burton, eu não havia contado pra Leila como sairia do labirinto, mas ela havia escrito e, portanto, sendo realmente minha biografia, fui me preparando, sendo Geórgia. No final de março de 2023, pedi exoneração do serviço público, para ser apenas escritor e editor, apesar de ter de pedir carona nas estradas às vezes, e atravessar vários Atacamas. No deserto, vemos estrelas que não há nas cidades. Como o título do livro que Fernando Pessoa copiou de mim, era hora de Geórgia navegar, porque isso sim é preciso, e não viver impreciso. Não me serve qualquer caminho, Alice, porque eu tenho um sentido pra seguir.
Um romance é arte quando completamente inútil, como disse Wilde no prefácio de O retrato de Dorian Gray, como Nuncio Ordine nos ensaios A utilidade do Inútil. Se eu não posso ser quem sou apenas revirou a minha vida, me jogou em uma experiência real e decisiva. Uma vez, na Jornada de Literatura (que não existe mais aqui em Passo Fundo), perguntaram a Affonso Romano de Sant’ana se ele achava que sua escrita tinha alguma função. Às vezes encontrava uma pessoa no aeroporto, respondeu, que lhe dizia “Olha, li um poema seu e resolvi terminar meu casamento”. Em outro aeroporto uma mulher lhe abordava para dizer “Olha, li um poema seu e decidi me casar”. E ambos citavam o mesmo poema.
A Leila vai cortar esse parágrafo (porque é muito to tell, quando um escritor deve priorizar o to show, o que ela fez muito bem na minha biografia), mas gostaria de alertar que, exceto quanto à vida de Geórgia e, por lógica, quanto aos fatos da minha vida, o resto dessa resenha pode ser ficção. Só vivemos realmente, se formos capazes de uma grande renúncia, não é, Onfray? Eu sou Geórgia, jamais um Ivan Ilitch.
Os literatos têm pudor em dizer que um romance pode motivar grandes jornadas existenciais, apesar de citarem Dom Quixote como uma obra prima. No caso, na minha biografia não autorizada, isso pode acontecer. Se eu posso ser quem sou, qualquer leitor do livro pode. Avisado está.

