Por Cristiano Fretta
Qualquer pessoa que se proponha a pensar a Literatura para além da esfera do entretenimento ou de uma difusa edificação humanista que a leitura em tese nos possibilita invariavelmente irá se deparar com uma questão crucial: até que ponto a vida pessoal de um artista e sua criação estão entrelaçados? Dito de outra forma, há como desemaranhar os fios da complexa relação entre o sujeito que cria e o morfos final? Rios de páginas já foram escritos sobre o assunto em diversas áreas do saber e, na impossibilidade de eu ou qualquer outro ser humano ter lido tudo sobre isso, arrisco-me a dizer que essa é uma questão, no mínimo, em aberto. Nesse sentido, a leituras de diários pode nos auxiliar não digo a elucidar de uma vez por todas essa problemática e colocar os fios desenosados da relação do eu e a forma sobre a mesa, mas a adentramos no cotidiano de um sujeito criador e assim conseguirmos dar um pouco de zoom na complexa rede de influências e cotidiano que formam aquilo que genericamente podemos chamar de autor.
Foi Jeferson Tenório quem, há alguns anos, me indicou a leitura de Os diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia. Eu já conhecia o argentino por meio Respiração Artificial e Formas Breves, mas nunca havia ouvido falar sobre os seus diários. Fiquei um tanto quanto surpreso ao saber que eles recém tinham sido publicados no Brasil, sob a tutela da excelente Todavia. E mais surpreso ainda eu fiquei ao descobrir que Os diários de Emilio Renzi eram compostos por três volumes que haviam emergido de impressionantes 327 cadernos que Piglia preencheu de 1957 até pouco antes de sua morte em 2017, em decorrência de uma Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
Lancei-me à leitura do primeiro volume, um pouco desconfiado, confesso, de que o livro pudesse ser enfadonho. Eu estava enganado. O que se descortinou por trás de cada página foi a vida de um homem, seu dia a dia, suas mulheres, amizades, incoerências e, sobretudo, seu amor incondicional à literatura. Os diários de Emilio Renzi são um grande testamento à importância da leitura e da escrita no dia a dia de um homem aficionado pela literatura. Nós pegamos a mão desse argentino e somos conduzidos ao Paraíso de uma vida que não mais existe mas que deixou profundas marcas na literatura latino-americana. Poucas obras conseguem fundir o prosaico e a teoria quanto os seus diários. E, para não me alongar nessa minha recomendação, deixo aqui alguns trechos:
O que se aprende da vida, o que se pode ensinar é tão limitado que caberia numa frase de dez palavras. O resto é pura escuridão, tatear num corredor na noite.
Mas não podemos esquecer que a literatura é uma sociedade sem Estado. Ninguém, nenhuma instituição nem tampouco alguma forma de coação pode obrigar alguém a aceitar ou realizar certa poética artística. As determinações poéticas da arte pertencem a seu próprio âmbito.
Continua chovendo, e faço hora esperando o meio-dia, quando abre a casa de penhores, onde vou deixar minha máquina fotográfica em troca do dinheiro de que necessito para chegar até o fim do mês.

