Por Magali Lippert
Travessia, primeiro livro de Olívia Biasin Dias, editado pela Folheando (Belém/PA) traz uma coletânea de treze contos que se passam na Bahia de nossos dias. A autora, gaúcha de Pelotas, reside em Salvador desde a adolescência e lá construiu sua carreira de pesquisadora e professora. Graduada em Turismo, mestre a doutora em História, Olívia tangencia suas vivências através de narrativas únicas, bem construídas e que resultam em um trabalho sério e cuidadoso pensado para o leitor.
Os contos de Travessia surgiram durante o isolamento social causado pela pandemia de coronavírus. Entretanto, diferente do que poderíamos supor, não há, nos enredos, predominância do fenômeno causado pela pandemia. Os contos transitam em situações cotidianas e é possível perceber uma atmosfera jovem nas narrativas que são permeadas por sonhos, expectativas e frustrações.
Olívia engrena textos corajosos, todos em terceira pessoa, algo raro na literatura ficcional atual, especialmente quando se trata de narrativa curta. Os contos soam modestos e ela não tem medo de utilizar clichês e isso, em tempos de narrativas complexas e cansativas é um alento porque nos faz lembrar que escrevemos para um público que nem sempre está disposto a resolver enigmas e ler nas entrelinhas: a narradora ou narrador (?) criado pela autora é direto, humilde e verdadeiro.
No primeiro conto do livro somos apresentados a Manoel, sujeito de quarenta anos, trabalhador dedicado apegado a um modo de vida analógico e que se vê diante do desafio de se adaptar ao trabalho remoto durante a pandemia de coronavírus, mais do que isso, sem preparo algum para tal, Manoel é incumbido, por seu chefe, a fazer uma live. A tensão que decorre daí envolve visceralmente o leitor. Olívia faz muito bem isso: envolver o leitor de modo que ele não queira largar o livro até acabar o conto.
Assim como mencionado anteriormente, o primeiro conto do livro é o único em que a pandemia é referenciada, nos doze contos que seguem (inclusive o que dá nome ao livro, que é o último a ser apresentado pela autora) os enredos descrevem situações cotidianas possíveis de acontecer.
O que chama atenção nas narrativas de Olívia é uma espécie de elemento mágico em que tudo acaba “bem”, mesmo que o desenvolvimento da narrativa não leve a essa impressão: casamentos quase desfeitos se recompõem, bandido vira mocinho, a irmã doente é a que sobrevive, parece uma espécie de provocação literária do tipo “vamos consertar as coisas!” – e a autora vai lá e conserta, sem constrangimento, sem preocupação com a crítica literária! E por que teria? Olívia circula em um mundo que orbita o fazer literário, mas não é naturalmente dele, afinal ela tem formação em Turismo e História, isso não a limita aos desejos intelectuais dos acadêmicos da área de Letras: Olívia queria escrever um livro e assim o fez.
O resultado de sua decisão é um livro que nos permite uma leitura fluente, com bom ritmo e cujas histórias são verdadeiramente interessantes. Os personagens são bem construídos e o estado da Bahia é bem contextualizado. Também é possível perceber a predominância de personagens mulheres e suas questões pessoais, entre elas a autoafirmação, seja no trabalho doméstico, seja no profissional:
“Senhora respeitada por todos, era frequentadora assídua da igreja da cidade, amiga do padre e coordenadora da grande quermesse que antecedia as festas juninas. Afirmava que para dar conta de tantos afazeres, precisava ser uma mulher organizada e de pulso firme.” (p. 25)
“Até então, Lívia vangloriava-se por ser workaholic e tentar fazer mil coisas ao mesmo tempo. Sabia que havia recebido uma boa educação financeira, mas, no fundo, tinha medo de não conseguir se sustentar.” (p. 49)
“Rute orgulhava-se de ter começado a trabalhar cedo, aos quinze anos de idade: foi atendente de lanchonete, vendedora de loja, recepcionista de escola e professora.” (p. 62)
“Inês entrou em cena e brilhou, fez o que sabia fazer de melhor.” (p. 83)
“Nesse ínterim, Maria retornou para as aulas de dança de salão, uma antiga paixão, superou o medo de água para aprender a nadar e viajou sozinha para a França [. . .]. (p. 90)
Na contracapa do livro, é possível verificar que a intenção da autora na construção de suas narrativas, segundo ela mesma, passa pelo conceito de afeto como “redenção final” o que justifica suas escolhas por finais felizes, além de fazer o leitor lembrar que ainda há esperança para a humanidade. Penso que a beleza de Travessia está na simplicidade de sua narrativa e de sua missão: refletir sobre a bondade e a beleza das relações humanas.

