‘CASA 11, TELEFONE 09’, DE NYDIA BONETTI

Por Luize Gomes

Enxergo a poesia da escritora paulista Nydia Bonetti como uma potência luminosa, mesmo quando na escuridão (e mais ainda na escuridão). Desde que pus os olhos em alguns de seus poemas, há alguns anos, vi uma luz muito forte. É a condição de sensação do espanto, rebuliço, vertigem, que faz com a gente não se engane em pensar que estar diante dos escritos de uma grande poeta, e que a poesia gosta dela. Mas o sentir que falo não para só na agitação. A sensação pousa. E pousa profundamente, emaranhando-se em ecos internos do leitor.

Casa 11, Telefone 09, livro de poemas mais recente da autora, publicado pela editora Urutau, é um livro lindo, e de uma exalante afetividade que dá vontade de abraçá-lo, devido a sua bela capa, que até parece fotografia cinematográfica. Quando o li pela primeira vez, tive mais clareza que irmanar-se com a poesia da Nydia não é dialogar com o ser adulto que somos (somente), mas muito mais com a criança que fomos. Essa ideia se consolida intrinsecamente no livro.  

A voz das meninas e meninos que nasceram patinhos feios, parece ecoar em boa parte dos poemas: no desconforto, na inadequação, no não pertencimento, no vazio. “era pra ter nascido árvore __ ou pássaro/mas nasceu gente/em vez de pés, raízes/em vez de braços, asas”.  Reverbera também nas janelas da infância, que apesar de serem conduzidas por noite quente, faz lembrar da fuga das meninas (os) da sua realidade incompreendida, passando horas a fio olhando para o céu contemplando seu absurdo, observando as figuras gigantes que as nuvens formavam, mas que em poucos minutos se desfaziam. Ou ainda no espetáculo de presenciar uma bênção: “voam roupas brancas nos varais”, sentir o cheiro do anil, operando milagres em descarregar a energia do duro cotidiano da “Vó Maria”.

Abrigo no desabrigo, atordoamento que pousa, olhos perdidos e de lonjuras que encontram seu centro, ainda que cheio de vazio, assim é a poesia da Nydia Bonetti, e ela fica, permanece, não se esvai. E é por isso que digo: leiam Casa 11, Telefone 09, escrito por uma das maiores poetas vivas deste país, não tenho dúvida disso. Não há por que ter.

Leia mais da autora em Sepé.

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