‘COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE’, DE LAURA ESQUIVEL

Por Maria Alice Braga

Uno hace con sus manos lo que vio hacer a las manos anteriores. Por generaciones, las manos de las mujeres del campo han frotado la tierra y han lavado en la artesa. Las de la ciudad han picado la cebolla y han acarreado la bolsa de la feria. Ambas han dejado sus huellas en la maza del pan, en la madera de la escoba. Otras en los palillos y en las agujas. Y hubo algunas que tomaron un lápiz, escribieron cartas, apuntaron diarios, en libros…, de esas manos vienen las mías.

Como água para chocolate é o primeiro romance da escritora mexicana, Laura Esquivel, publicado, originalmente, em 1989. A edição utilizada para esta resenha é de 1995 pela editora Altaya. O romance é composto por doze capítulos que correspondem a doze meses do ano relacionados a doze receitas anotadas em um caderno, em mãos de Esperança, sobrinha-neta de Tita.

Tita, a protagonista, chega ao mundo, prematuramente, sobre a mesa da cozinha aspirando o perfume dos temperos como tomilho, louro, coentro, alho,  cebola e do leite fervido. Quando a bebê tinha dois dias de vida, seu pai morreu e a mamãe Elena perdeu o leite. Desse dia em diante, Tita mudou-se para a cozinha, sendo cuidada por Nacha, a cozinheira,  e, entre mingaus e chás, a menina cresceu com saúde e feliz.

A cozinha, para Tita, é um lugar sagrado, onde as mulheres transformam-se em alquimistas que trabalham com a água, o fogo, a terra e o ar – os quatro elementos  que dão sentido ao universo.  Tita confunde o gozo de viver com o de comer, pois conheceu a vida através da cozinha e aprendeu a transformar o mundo pelo poder purificador do fogo. O alimento que prepara ganha poderes especiais. Foi na cozinha, hipnotizada pelo fogo e pelas gotas de água ao caírem no comal que Tita aprendeu histórias, sobretudo, as histórias de mulheres.

A questão feminina, tema central na literatura dos anos 80 e 90 do século passado, é recorrente e uma das principais características desses textos é a relação investigativa entre mulheres (mães e filhas, avós e netas, por exemplo) cujo vínculo entre elas é fundamental para a construção identitária de cada uma. Em Como água para chocolate,  o primeiro parágrafo antecipa essa relação quando a narradora refere:

Mamãe dizia que era porque eu era tão sensível à cebola quanto Tita, minha tia-avó.

Dizem que Tita era tão sensível que desde que estava no ventre de minha bisavó chorava e chorava quando esta picava cebola. (p. 03)

Sob essa perspectiva, observamos que há traços comuns e recorrentes nessas narrativas, os quais se identificam com o trabalho, originalmente, feminino que é o tecer e o cozer. Assim, as personagens e/ou narradoras contam as histórias de mulheres que se imiscuem entre  linhas e cores ou entre os aromas das comidas e dos temperos, pois “os odores têm a característica de reproduzir tempos passados junto com sons e odores nunca igualados no presente. Tita gostava de fazer uma grande inalação e viajar junto com a fumaça e o cheiro tão peculiar que percebia nos meandros de sua memória.” (p. 07)

Na casa de Mamãe Elena, a preparação do chouriço, prato típico mexicano, obedecia a um ritual. Um dia antes descascavam os alhos, limpavam os chiles e moíam as especiarias, e todas as mulheres da família tinham de participar do evento:

Mamãe Elena, suas filhas Gertrudis, Rosaura e Tita, Nacha, a cozinheira, e Chencha, a criada. Sentavam-se pelas tardes na mesa de jantar e entre conversas e brincadeiras o tempo passava voando até começar a escurecer. ( p. 07)

Tita foi criada por Nacha e Chencha, estabelecendo-se, assim, uma relação genealógica entre elas. O vínculo materno  com as criadas possibilitou que a menina integrasse uma rede ancestral favorável ao seu desenvolvimento como mulher. Todavia os laços de sangue com a amarga e dominadora Mamãe Elena eram um peso para a caçula da família, pois era ela, por ser a mais jovem das filhas, que deveria cuidar da mãe até o dia da morte da matriarca, porém Tita se apaixona por Pedro e não pode viver o amor por causa da tradição familiar.

Pedro se casa com Rosaura, irmã de Tita, para ficar perto da amada. Não foi uma boa ideia, pois o casamento de Pedro com Rosaura e a vigilância ostensiva de Mamãe Elena tiraram a paz de espírito de Tita que se refugia nos afazeres da cozinha, lugar onde encontra prazer.

É interessante observar que cada receita que abre o capítulo está intimamente relacionada com os fatos da história narrada, combinando, assim, temperos e sabores para exacerbar emoções que vão ao encontro das paixões e dramas vividos pelas personagens. Conforme os fatos se desenrolam, há sempre um prato que traduz os sentimentos de Tita, como o amor, a revolta, o sofrimento.

O capítulo 03, por exemplo, cujo título é “Codornas em pétalas de rosas” traduz e emoção da protagonista que recebe um ramo de rosas de seu amado; era a primeira emoção desde o dia do casamento de sua irmã, quando escutou a declaração de amor de Pedro. As flores são utilizadas em uma receita pré-hispânica que Nacha assoprara no ouvido de Tita. Ao serem servidas as codornas com pétalas de rosas, houve uma explosão de sabores e aromas que se espalhou por vários lugares, durante muitos anos e Tita passou a preparar essa mesma iguaria a cada ano como oferenda à liberdade representada pela fuga de sua irmã Gertrudis.

“Guisado de peru com amêndoas e gergelim”, título do capítulo 04, é a receita que Tita prepara para o batizado de seu sobrinho. Entusiasmada, a jovem começa os preparativos  com antecedência. O som das panelas, o cheiro das amêndoas e do gergelim dourando no comal e a voz melodiosa  de Tita cantando anunciam a proximidade de um verdadeiro prazer culinário. Os aromas emanados da cozinha perturbam Pedro, e Tita sente no próprio corpo o motivo pelo qual o fogo altera os elementos.

O último capítulo, “Chiles em nogada” encantou todos os comensais que experimentaram uma imensa sensação de prazer. Com variados pretextos e olhares libidinosos, os convidados foram se retirando da festa, restando apenas Tita e Pedro que de mãos dadas dirigiram-se ao quarto escuro. Antes de entrarem, Pedro  tomou Tita em seus braços, abriu lentamente a porta, a peça estava completamente modificada, apenas a cama de latão no centro do quarto, com lençóis de seda e colcha brancos, flores cobrim o piso e 250 círios iluminava o “quarto escuro”. Em um canto do quarto, Nacha acendia última vela e, silenciosamente, evaporou-se.

Ao longo da narrativa, muitas  são as passagens que se referem ao fogo, símbolo que conduz a história de Tita, permitindo-nos recuperar o significado purificador e regenerador do fogo no Ocidente. O aspecto destruidor do fogo implica um lado negativo; e o seu domínio consiste em uma função diabólica.  “A propósito da forja, deve-se observar que seu fogo é a um só tempo celeste e subterrâneo, instrumento de demiurgo e de demônio.” 

Mircea Eliade assinala o caráter ambivalente do fogo, sua origem pode ser divina ou demoníaca, pois, segundo crenças arcaicas, ele é gerado  no órgão genital das feiticeiras. Para Durand e Bachelard, há duas constelações psíquicas na simbologia do fogo, ou seja, pode ser obtido por meio da percussão ou da fricção. Pela percussão, o fogo parece o relâmpago e a flecha e possui valor de purificação e de iluminação. Em Como água para chocolate, as palavras de John ilustram essa ideia:

…se por uma emoção muito forte chegarem a acender todos os fósforos que levamos em nosso interior de uma só vez, se produz um resplendor tão forte que ilumina mais além do que podemos ver normalmente e, então, diante de nossos olhos, aparece um túnel esplendoroso e que mostra o caminho que esquecemos no momento de nascer e que nos chama para reencontrar nossa perdida origem divina. A alma deseja reintegrar-se ao lugar de onde provém, deixando o corpo inerte… (p. 96)

O fogo que  ilumina e purifica é o que se  opõe ao fogo sexual, obtido por meio da fricção. Tita conseguia sentir o coração de Pedro sobre a pele de seu peito, mas esse intenso pulsar se deteve abruptamente e com Pedro iam embora todos os fósforos. Tita começou a comer todos os fósforos contidos na caixa e, ao mastigar cada palito, buscava na memória as melhores lembranças com seu amado e, ao evocar cada imagem, um palito se acendia. Aos poucos, diante de seus olhos, surgiu o túnel, onde estava a luminosa figura de Pedro.

O encontro dos dois amantes fez com que chispas brilhantes fossem lançadas, e um grande incêndio tomou conta do rancho e do terreno. As chamas duraram uma semana e eram vistas  a vários quilômetros de distância.


Notas

1 O arquipélago Juan Fernández é um pequeno grupo de ilhas a mais de 600 km de distância da costa chilena. Com geografia peculiar, as ilhas do arquipélago vão do nível do mar até cumes de 1.500 m e possuem alguns ecossistemas endêmicos. Mais de 60% das espécies nativas não podem ser encontradas em qualquer outra parte do planeta. Dada a sua importância biológica esse arquipélago foi declarado Parque Nacional em 1935 e Reserva Mundial da Biosfera em 1977.

Dentre as ilhas do arquipélago, a maior delas é a ilha de Robinson Crusoé, com 93 km². Foi nela que o marinheiro escocês Alexander Selkirk, permaneceu por mais de quatro anos. Os relatos do navegante teriam dado vida a Robinson Crusoé, famoso personagem do livro de Daniel Defoe, que, por sua vez, deu nome à ilha.

A ilha de Robinson Crusoé é a única do arquipélago que tem uma população permanente, de cerca de 500 a 600 habitantes, localizada na vila de San Juan Bautista e seus arredores. A economia local está baseada na pesca da lagosta.

Leia mais da autora em Sepé.

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