‘SACO VAZIO’, DE FRANCINE DELAVALD BOTTONI

Por Lara Pozzobon

Quando me deparei com o livro Saco Vazio em uma pequena feira do livro de autores locais da minha cidade, não prestei muita atenção ao título nem li orelhas, contracapa ou prefácio. Fui direto para o início do texto. Era assim:

“Este livro vem com a força do que antes não podia existir.
Agora, irrompe. Fundo e fundo, fundando braços, corpo,
placenta. Me fundo com o que me afundou. Findou.”

E na página seguinte:

“Pra Francine que fui um dia.”

Fiquei impactada. Espiei de novo a capa, para me certificar de que a autora se chamava mesmo Francine. Sim, era a autora, e ela mesma estava ali na minha frente. Comprei o livro imediatamente, com uma súbita timidez que aquela situação delicada me causava.

Comecei a leitura no mesmo dia, e aos poucos fui tentando me acostumar com o ritmo e a forma da narrativa. Fiquei perdida no início. Quem é o narrador? O primeiro capítulo, de uma página e pouco, é substancioso e intrigante; fico perdida mas já estou fascinada. A metalinguagem no segundo capítulo (chamado “Aquilo/Há quilo”) convoca explicitamente a cumplicidade do leitor, e me animo ainda mais.

Sigo e aos poucos vou entendendo o quanto a forma estranha da narrativa é comovente por se revelar absolutamente necessária à autora para tratar do conteúdo desconhecido encontrado no fundo de si mesma. Para contar sua história desde a infância, a autora precisa lançar mão de outros olhos, precisa mudar de perspectiva para tentar dizer o que viveu. Então, para se ver de fora, ela cria narradores desconcertantes, coisas e pessoas que testemunharam a Fran menina, aquela pessoa incompreensível desde os 9 anos, que todos se esforçavam para compreender, incluindo ela mesma.

O título do livro se refere ao velho dito popular “Saco vazio não para em pé”. A narrativa poética e inventiva trata dos sentimentos dramáticos envolvidos na manifestação real de um distúrbio alimentar. É difícil de ler. Mas é envolvente e esclarecedor.

O fascínio vem da autenticidade que se percebe em cada capítulo, em cada tentativa de se explicar, de se entender. Dá medo e dá coragem, gera empatia e desconcerta. E produz um sentimento de gratidão pelo esforço da autora de montar um painel multifacetado formado pelos olhares desses narradores diversos – pessoas, coisas, abstrações – que testemunharam sua trajetória da infância à vida adulta. A mistura de sentimentos ao longo da leitura vem também com a percepção de que as pessoas citadas são reais e podem estar lendo o livro da Fran neste exato momento e se vendo retratados ali como narradores que descrevem a autora. Compartilhar o fundo do fundo para tentar entendê-lo com a cumplicidade de leitores esparsos e desconhecidos é de uma ousadia incomparável.

A seriedade do tema não ofusca a inventividade do texto literário, assim como esta não diminui a importância e a autenticidade da confissão contida na história. Mesmo o livro tendo uma carga poética notável, que em muitas passagens deixa o leitor desnorteado por estar citado como partícipe de cenas da vida da autora, acredito que caiba aqui um alerta de gatilho para quem eventualmente tenha uma sensibilidade maior para o tema da anorexia. Não quero desencorajar ninguém a ler este livro, o alerta serve apenas para que leitores que possam se sentir perturbados pelo tema preparem-se para administrar suas reações ao travar contato com o belo Saco Vazio da Francine Dellavald Bottoni.

Leia mais da autora em Sepé.

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