Por Léo Tavares
Enquanto lia a Coleção de Meninos Mortos, livro sem imagens, estreia do Pedro Minet na poesia, me pegava pensando nos desenhos de Jean Cocteau, os de O Livro Branco, principalmente, destacando-se entre uma pletora de referências, explícitas ou simplesmente evocadas ao longo da leitura. Há um mundo muito vasto de iconografia gay mantido em relativo segredo. Na verdade, todo um alfabeto, línguas inteiras e seus dialetos, gramáticas e vocabulários que se atualizam desde os mais imemoriais dos tempos.
No entanto, a imersão nesse mundo, não só o iconográfico — a cultura gay, como um todo — nos coloca em certa dieta do excesso, em que, de tempos em tempos, passamos a perceber uma espécie de saturação desses mesmos códigos. A atualização constante dos signos do homoerótico, do homoafetivo e do ser social homossexual acompanha as andanças do tempo, e o que há de novo nesse espírito é um compósito de experiências impossíveis para o pretérito, mas totalmente afetadas por ele.
Tenho me interessado em localizar o fator atemporal na experiência gay conforme representada culturalmente, onde se pode desvendar algo como um ethos e um pathos singular, latentes em representações desde a antiguidade, mas também entre as referências aos encontros de Grindr, as alusões à moda, as percepções modernas da solidão e do deslocamento, as construções de si conforme se manifestam em meio às padronizações do meio gay.
Na poesia gay, termo que defendo porque se inscreve como uma diagonal impondo uma marca, uma distinção queer de olhar e de vivência, a persona homo se revela uma matéria de constante interesse, pela riqueza inesgotável como janela ao interior de individualidades fragmentadas, arredias ao normativo e não-raro seduzidas pelas vivências extremas. Assim, em minhas leituras, vou compondo uma coleção afetiva de iconicidade e de poesia homo.
Walter Benjamin disse que a coleção é uma das “manifestações profanas da proximidade”. Em seu estudo sobre coleções, enciclopédias e inventários, As Ironias da Ordem, Maria Esther Maciel escreve que a coleção é “um trabalho melancólico de inventariar perdas e ruínas.” Para Pedro Minet, me parece que a sua coleção de meninos mortos é uma reunião, fantasmagórica e por vezes desesperada, daquilo que se esvai em termos de experiência, mas que deixa suas marcas de um modo contundente e decisivo. Esses meninos podem, a meu ver, ser variações de um mesmo modelo: Antinoos, Narcisos, Querelles e Tadzios, Rimbauds e Dorians, mas eles também oferecem múltiplos olhares e corpos anônimos, e de suas vozes exala um estranho grito, situado numa zona indiscernível entre prazer e dor.
Essa leitura nos coloca dentro de um mundo, com suas leis e vibrações particulares, com sua rotina bem delineada entre a florescência e a morte, com sua atmosfera sufocante, que me remete a um perfume denso e envenenado. Há, por todos os poemas, evocações precisas e outras mais sutis, entre referências à contemporaneidade nas figuras pop e nas músicas, na visualidade femboy e no cinema, nas travessias urbanas noturnas e nos lençois sujos de sêmen e sangue. Mas também no que diz respeito a esses fantasmas homoeróticos que atravessam eras, como os já citados memoráveis, assombrando Tadzios de shopping center e à espreita em encontros de aplicativos de sexo.
É, sobretudo, um livro que toca em espaços de sombra, à beira do gozo e da entrega submissa, liberando lastros melancólicos e fixando em tudo a morbidez irremovível do desejo eternamente insaciado. É como se essa poesia dobrasse a luz, invocando, das vozes de seus muitos vampirizados, imagens entronizadas em uma poética da beleza convulsiva. Há uma obra de Sascha Schneider, por fim, que me perturbou a leitura do livro, no melhor sentido, fazendo-se vibrar cada vez mais forte o quão mais eu me aproximava da última página, de modo que se tornou parte da minha coleção de meninos mortos: ela se chama The Feeling of Dependency (Gefühl der Abhängigkeit), um desenho em pastel, carvão e óleo, de 1894, intrigante não só pelo sentimento representado, mas porque esse foi um artista dedicado a vasculhar a ambiguidade do homoerótico, categoria que tantas vezes beira o horror, o deslumbrante horror, como em Minet.

