Por Adriana Bandeira
Se podemos levar em conta as maiores aprendizagens de qualquer ser humano é necessário elegermos a entrada na linguagem como a essencial. Depois dela nada será tão encantador ou desafiador, novo ou capaz de inscrever um percurso tão diferenciado.
E a linguagem é fato humano enquanto também fato do letramento, da busca da representação pela palavra, esta condição enganosa que faz com que uma, apesar de seu significado, tenha inúmeras outras concepções para cada sujeito (e envolvemos nisso as lembranças, as sensações que vieram com ela, a cada vez, no seu surgimento).
Júlio Alves nos brinda com o livro de poemas Duas caixas de dinamite, alusão ao material (caixas de dinamite) que serviram como muro, proteção para o início de seu caminho de entrada na linguagem; alusão ao material de seu primeiro chiqueirinho, na infância, quando as bordas e limites constroem o ir além. Afinal, sem limites não é possível ousar!
Conseguimos imaginar o pequeno Júlio decifrando o que no fora/dentro supunha sons e nomeava a falta, concebida no que desejava. Aliás, é na falta que surge a palavra!
É nessa perspectiva que Júlio brinca com as palavras numa maestria que remonta sua experiência enquanto sujeito da linguagem, na separação e encontro do que diz e não quer dizer, já que seu desejo leva em conta isso que o leitor lê e constrói a partir da leitura.
Atravessar-se, dizer-se, este desencontro que coloca sempre o poeta no lugar do passageiro na cena do instante:
atravessei um deserto
em meu peito
nenhum oásis
O livro apresenta títulos, balizas, muros, separando os conjuntos de poemas em: agonia rasgou o cinza, onde brota um oceano, nenhum oásis, como quem faz bombas, os melhores pecados.
O livro tem a apresentação de Jorge Rein, poeta mestre e dramaturgo que vai escutando como fazem as crianças e os poetas, adentrando na língua de Júlio, conversando com alguns poemas nessa quase transcrição que falha porque supõe o que o autor provoca: poesia, mais ainda!
O livro foi publicado pela Casa Verde, em outubro deste ano de 2024, e é um convite para além das paredes de um cercado!

