Por Myrian Beck
Instigante narrativa ambientada nos anos de chumbo, no sul do Brasil. O protagonista, um jovem indígena criado em singela aldeia remanescente na região das lagoas do litoral norte gaúcho, aos poucos se revela um predador nato, cuja personalidade costura um destino violento até a fase adulta, ao ingressar no serviço militar e ser destacado para atuar nos orgãos de repressão militar, quando sua perversidade encontra, real e metaforicamente, um lugar no mundo. Em ritmo ágil e direto, trazido do jornalismo que exerceu por mais de três décadas, Villas Boas revela-nos também sensibilidade literária no relato sobre uma sociedade doente, onde mentes insanas têm garantido o seu lugar.
A narrativa perscruta a mente fria de um psicopata matador, encerrada numa realidade particularíssima, sem limites nem solução, nem mesmo nas páginas finais da obra. O não caminho de Ganga Bruta, o seu perambular sombrio, desde a capital gaúcha à região dos Aparados da Serra, imprime ao livro um não-final, no sentido do aguardado desfecho, redentor ou justiceiro.
Na medida em que o autor cumpre o processo literário criativo, enamora-se do fantástico, ao gosto da literatura latino-americana, e nos oferece uma história sem fim, que se perde e se encontra na eternidade da lenda, feito uma maldição, pois, assim como o bem, o mal jamais se extingue. O livro Ganga Bruta é direto e certeiro, da linha da cintura até o coração.

